Narração (estrofes 36-50)
36.
. Não tens poder algum, se houver prudência;
não tens Império algum, nem Majestade;
mas a mortal cigueira e a demência
co título te honrou de Deïdade.
O sábio tem domínio na influência
celeste e na potência da vontade,
e se o fim não alcança desejado,
é por não ser o meio acomodado.
37.
. Este meio faltará ao velho invicto,
mas não cometerá nenhum defeito,
que o seu qualificado e alto esprito
lhe fará a quanto deve ter respeito.
Aqui Balisário, e Pacheco aflito,
cerra com ele o número perfeito.
Sobre os três, uma dúvida se excita:
qual foi mais, se o esforço, se a desdita?
38.
Foi o filho de Anquises, foi Acates,
à região do Caos litigioso,
com ramo d'ouro fino e de quilates,
chegando ao campo Elíseo deleitoso.
Quão mal, por falta deste, a muitos trates
(ó sorte!) neste tempo trabalhoso,
bem claro no-lo mostra a experiência
em poder mais que a justiça a aderência.
39.
. Mas deixando (dizia) ao tempo avaro
cousas que Deus eterno e ele cura,
e tornando ao Preságio novo e raro,
que na parte mental se me figura,
de Jorge d'Albuquerque, forte e claro,
a despeito direi da inveja pura,
pela o qual monta pouco a culta Musa,
que Meónio em louvar Aquiles usa.
40.
. Bem sei que, se seus feitos não sublimo,
é roubo que lhe faço mui notável;
se o faço como devo, sei que imprimo
escândalo no vulgo variável.
Mas o dente de Zoilo, nem Minimo,
estimo muito pouco, que agradável
é impossível ser nenhum que canta
proezas de valor e glória tanta.
41.
. Uma cousa me faz dificuldade
e o esprito profético me cansa,
a qual é ter no vulgo autoridade
só aquilo a que sua força alcança.
Mas, se é um caso raro, ou novidade
das que, de tempo em tempo, o tempo lança,
tal crédito lhe dão, que me lastim
ver a verdade o pouco que se estima.
42.
. E prosseguindo diz: "que Sol luzente
vem d'ouro as brancas nuvens perfilando,
que está com braço indômito e valente
a fama dos antigos eclipsando;
em quem o esforço todo juntamente
se está como em seu centro tresladando?
É Jorge d'Albuquerque mais invicto
que o que desceu ao Reino de Cocito.
43.
. Depois de ter o Bárbaro difuso
e roto, as portas fechará de Jano,
por vir ao Reino do valente Luso
e tentar a fortuna do Oceano."
Um pouco aqui Proteu, como confuso,
estava receando o grave dano,
que havia de acrescer ao claro Herói
no Reino aonde vive Cimotoe.
44.
. "Sei mui certo do fado (prosseguia)
que trará o Lusitano por designo
escurecer o esforço e valentia
do braço Assírio, Grego e do Latino.
Mas este pressuposto e fantasia
lhe tirará de inveja o seu destino,
que conjurando com os Elementos
abalará do Mar os fundamentos.
45.
. Porque Lémnio cruel, de quem descende
a Bárbara progênie e insolência,
vendo que o Albuquerque tanto ofende
gente que dele tem a descendência,
com mil meios ilícitos pretende
fazer irreparável resistência
ao claro Jorge, baroil e forte,
em quem não dominava a vária sorte.
46.
. Na parte mais secreta da memória,
terá mui escrita. impressa e estampada
aquela triste e maranhada História,
com Marte, sobre Vênus celebrada.
Verá que seu primor e clara glória
há de ficar em Lete sepultada,
se o braço Português vitória alcança
da nação que tem nele confiança.
47.
. E com rosto cruel e furibundo,
dos encovados olhos cintilando,
férvido, impaciente, pelo mundo
andará estas palavras derramando":
-Pôde Nictélio só no Mar profundo
sorver as Naus Meónias navegando,
não sendo mor Senhor, nem mais possante
nem filho mais mimoso do Tonante?
48.
. E pôde Juno andar tantos enganos,
sem razão, contra Tróia maquinando,
e fazer que o Rei justo dos Troianos
andasse tanto tempo o Mar sulcando?
E que vindo no cabo de dez anos,
de Cila e de Caríbdis escapando,
chegasse à desejada e nova terra,
e c'o Latino Rei tivesse guerra?
49.
. E pôde Palas subverter no Ponto
o filho de Oileu por causa leve?
Tentar outros casos que não conto
por me não dar lugar o tempo breve?
E que eu por mil razões, que não aponto,
a quem do fado a lei render se deve,
do que tenho tentado já desista,
e a gente Lusitana me resista?
50.
. Eu por ventura sou Deus indigete,
nascido da progênie dos humanos,
ou não entro no número dos sete,
celestes, imortais e soberanos?
A quarta Esfera a mim não se comete?
Não tenho em meu poder os Centimanos?
Jove não tem o Céu? O Mar, Tridente?
Plutão, o Reino da danada gente?