Canto Primeiro
ARGUMENTO.
Andando à caça Plácido foJdado,
Correndo atraz de hum cervo, que regia t
Delle nas pontas vio crucificado
A Jefu Chrifto Filho de Maria :
Sendo do me/mo Deos admoefiado,
E já lavado na Jagradapta,
Com a mulher, e filhos > que o imitar ao,
para o Bgypto pobres fe embarcaraõ.
CANTO PRIMEIRO.
I.
RIMEIRA caufa ,Deos Omnipotente,
Na Eíleneia Hum, e em PeíFoas Trino,
Que fois por atributo o mais clemente,
E da juftiça manancial Divino,
Por vós chamo proftra^o, e reverente,
Vollo influxo me day como imagino,
Forqueiem elle nada efçrever poilb
Em gloria accidental de hum fervo voflo.
II.
A vida de hum famofo Heroe Romano,
Ede hum Varaó fortiffimo, e valente,
Que o veftido do feculo profano
Trajou como fayal de penitente,
Depois, que aquelie rayo foberano,
O peito lhe abrazou com chamma ardente,
E nos caías de dor, pena, e tormento,
Foy o segundo Job no fofrimento.
III.
Plácido diga, aquelie , que no eftudo
Da feidadeíca fempre cuidadofo,
Soube muy bem ufar do arnez* e efcudo,
Para alcançar martyrio gloriofo,
E deípreíou do vil terreno tudo
Para íubir ao Olyropo preffurofo,
Em vtrfo heroyco cantarey ufano
Com a lyra de Orfeo, voz do Thebano.
E também os feus filhos, ;e a conforte >
Efta valente, e aquelks esforçados,
Que merecerão ter a dita, e forte
De ferem com martyrio coroados,
Dando na vida , e gíoriofa morte
Exemplo de guerreiros, e íoldados,
Lugar quero, que tenhaõ em meu verfo,
Para que fe divulguem no Univerfo.
cANTO I.
V.
Vós, que ab eterno foftes decretada,^
Santa Maria Virgem íempre pura,
Para que foffes Genitrix fagrada
Do Redemptor da humana creatura,
Sede a minha Calliope invocada,
E eu prometto cantar com tal doçura ,
Que a minha íyra mova os meímos montes
Amanfe as feras, retrodufa as fontes,
VI.
Illuftray pois , Santiífima Maria,
O mey humilde, erude entendimento,
Que fem a voffa ajuda, e a voffa guia,
He fruftrado o defejo , he vaõ o intento:
Day-me Celefte Mufa , a harmonia
Dehum eftyllo elegante, ealto concento,
Preftay-me voffo auxilio, e favor fanto,
Porque fem elle naõ me atrevo a tanto»
VII.
V
x Em hum ligeiro bruto, que tocava
A Terra, eoar rompia em breve inftante,^
E de Flora as alfombras arrancava
Das unhas com ofom quadrupedante*
Cujo furor robufto refreava
A fuppreffao da rémora brilhante,
Plácido ayrofo com valor fubia ,
E as montanhesas féras perfeguia.
A
VIII.
VIII.
De luzido aço ayrofamente armado,
Com murice mais fino também fe orna,
Que ou he Adónis já daqueiie prado,
Ou para parecer Marte fe adorna :
Já no galante, já no denodado
Tanto temor influe, e amor foborna ^
Que os brutos da mefma hórrida efpeiiura
Lhe obedecem de medo, ou de brandura»
IX.
Nao tao bizarro Demophonte gira
De Rhodope a efpeilura, o monte, e o prado*
Nem ta galante ao bofque fe retira
Hum, que já foy dos caens deípedaçado;
Menos ayrofo ao cervo fetta atira,
Effe, que foy de Cvtherea amado ,
Quando fugindo do Troyano eftrago
Dido acompanha aos montes de Carthago.
Os caens odoros, Zéfiros volantes
Da companheira turba eftimulados,
Raivofamente pela branha errantes
Correndo andavaõ de latir caoçados t
Retumbando hiaô gritos fibilantes
Dos caçadores do fuor banhados,
Huns vagarofos já , e outros ligeiros,
Por valles huns, e outrps por outeiros.
XI.
X.
CANTO I.
Aqui npparece o Javali cerdofo,
Terror da brenha, affbmbro do Erimanto,
Alli refurge o lobo cautelofo ,
Que huivando cauía a todo o bofque efpanto
De outra parte o leaõ íahe generofo,
Parando hum pouco, e naõ medrofo tanto,
Corre também a fera com ruido,
Em que já Afteon foy convertido.
XII. v
Entre eftas Feras mais fe alfinallava
Hum fervo de grandiffima eftatura *
Que as arvores filveííres fopeava ,
E decorria ayrofo aefpeíTura :
Para Plácido manfo fe chegava ,
Naõ com furor, commoftras 4e brandura,
Elie fazendo o arco retrocido,
Quando cuidou ferir, ficou ferido.
Delle nas meyas Luas bem crefcidas
Vio ( oh protento, e maravilha rara!)
Entre chammas de luzes efpargidas,
Luzes, que a alma fazem também clara,
Ao mefmo Redemptor, que com feridas
Sacrofantas, íignais do que já obrara,
No madeiro da Cruz pregado eftava,
E fendo Deos ao homem fe moílrava»
XIV.
XIII.
Xl.
XIV.
Churn tom de voz íevéro, mnsbenino?
Que o penedo msisduro abrandaria,
Por modo humano , fendo em fi divino,
Começou a fállar , e affim dizia :
Plácido , onde te leva o defatino?
Onde te arraíta a leza fantaíia?
Porque razaõ perfegues tão tyranno __
Quem fendo Deos, por ti femoftra humanoi;
Eufou aquelie Deos Omnipotente ,
Qye o Ceo , e a Terra produzi de nada?
Imíiienío, eterno, fábio, eindependente^
Por quem toda efta Esfera he governada}
Enaõ fó eílamachina apparente,
Que vês cos olhos , foy de mim formada^
Mas àlem de crear todo o vifivel,
Fuy Creador também do invifivel.
Sou o que fou, e o que heide vir, amado
Do Padre, de quem pelo entendimento
Procedo, feito naõ, porem gerado,
Comfubtianciíil, e tenho à Dextra affento t
Na peffba diftin&o, e feparado,
Porém a eííencia fem apartamento,
Porque a natureza he íimpliciffima ,
Hurna, infinita) a meftna, eíTencialiífima/
XV.
XVI.
XVII.
CAnto .
XVII.
A' natureza humana cá na Terra
Bypoftaticanienis fuy unido,.
Eorèrn humá peííoa íó fe encerra
Nas naturezas duas,.que hey contido :
Ao foberbo; do Ceo vim fazer guerra,
Que por tal foy do Empyreo defcaidõ,
E por rifcar a msncha em que culpado
Se houve eíle, que do limo foy formada
XVIII.
De hurna May Virgem pura fuy nafcido
E entre os homens com elles fuy creado
De hum diícipplo falío fuy vendido ,
E por fim nefta Cruz crucificado :
Neila me chego a ti compadecido ,
Que no letargo vives do peccado,
Lavate pois creatura ( inda receas ?)
No fangue que emanou de minhas veas.
XIX.
Gh de Deos fumma, e incógnita riqueza
Cujos juizos nao fe comprehendem!
Oh ineffavd , e fem finv grandeza,
A qual as creatutas naõ entendem!
Oh íapiencia da Suprema Alteza,
lííveftigavel aos que vos pertendemji
Cujos caminhos fem haver fallencia,
Tranfcendem toda a humana intelligencia
XX.
XX.
Oh Capitao Romano , que bemdito
Fofte, pois Chrifto à Gloria te convida i
E merecefte lá ab asterno eícripto
Ser em o livro, que Deos fez da vida !
Tu-também, cervo, naõ fiques prefcripto
Em meus verfos, mas antes te appellida,
Naô como o bruto de Jove embufteiro,,
Como penha fim do verdadeiro.
De Atlante lá mentio a Antiguidade *
Que com valor robufto, e força brava
Do mefmo Olympó o pezo , e gravidada
Sobre leu grande corpo carregava.
Ainda que ifto naé fora faifidade,
O teu esforço , mais fe avetitafavá;
Porque elle'fuftehtou o Ceo fupernò^
E tu dos Ceos o Oeador Eterno.
A's palavras do Oração Divino
Sufpenfo ficou Plácido, e turbado;
Sem voz, fem torça, íem vigor, fem tino,
Xmmovei, cego, attdníto, e palmado $
Mas como aquelle rayo ^ryítóílirto
O coraçaô lhe tinha alumiado,
Com branda vozpe#io, quelhedilefe
Aquilio, que queria, que ífeeie*
XXI.
XXII.
XXIII.
CANTO .
XXIII»
Qual oTarfentemoço, Heroe ingente,'
Quando para Damafeo caminhava,
E para períeguir de Chrifto agente
De feu Príncipe as letras eftimava,
Olhando hum rayo deefplendor ardente,'
Queocpraçaõ eícuro lhe illuítrava,
Refponde quando a infpiraçaõ abraça,
Senhor, dizey-me, que quereis que faça*
XXIV.
Affim Plácido difle; e o amorofo
De David filho logo lhe tornava ,
Que abjuraffe o rito fab;Uloío
Do gentelifmo cego, em que eítaya;
Eque partindo logo cuidadofo
Effeituafle, corno lhe ordenava,
O que lá do Jordão nas agoas frias
O Unigénito fez de Zacharias*
XXV,
E que depois, qtie a alma íe lavaffe
Da nodoa, que caufou a ferpe impia i
Aquelle monte, e bofque fe tornalle,
Onde fegunda vez lhe fallaria.
Foy-fe a vifaõ, e para que inflammaíTe
O coraçaõ degpzoy eallegria,
Murchando a luz de Phebo no Orizonte}
Rayo o bofque ficou, luzeiro o monte.
B XXVI.
XXVI.
A montaraz Catem y qae accuíado
Já rinha brutos , e cançado perros,
Depois dos campos terem allolado ,
Vagado os montes, povoado os ferros *
Com caça piflgue de fylveftre gado,
Huns mortos, e outros captiyamio em fe
Ignaros do prodígio íe apartáraõ,
E para feus Penates caminháraõ.
Plácido íó também reílituísb
Ao domicilio os pados diligentes J #
Que achamma ardente, que oconfumm
Demoras naõ permítte impertinentes:
Já chegava ao portal, e jéfe abria ,
Quando a conforte , e filhos èe eontentes.
Pedem, aquella os cindidos Arminhos,
Eíles os cervos tenros, e os Leoenfinhos.
XXVIII.
Elie banhando orofto deagoa amara J
E lá do peito interno íufpirando,
E como que da caça lhe pezára,
Ou que lhe fuccedéra hum cafo infando,
( Sendo, que era a ftamittante luz, e cia
Que o coraçaõ lhe eftava penetrando,)
Para os filhinhos tenros, e a conforte
Diífe com voz ferenna delia forte:
XXVII.
XXIX.
y"
CANTO .
Queridos filhos meus, e efpofaamadai
Voffa attençaõ agora mais me aífifta,
Sabey , que a creatura he acertada ,
Que na milícia de hum fó Deos fe allifta:
AnoflaLey he falia, torpe, cerrada,
Que para eternas penas nos conquifta,
Abri os olhos ( naõ do corpo } da alma
Que eftaõ poftos em huma efcura calma.
Jove naó foy, nem he omnipotente^
Mas vá mentira, e fabula fonhada,
Que poderofo he fó o independente,
Que o Ceo, e a Terra produzio de nada*
Quem tem juizo claro vê prudente,
Que he ifto huma chimera imaginada,
Que Júpiter, Saturno, e os Íúbfequentes
Foraõ homens mortaes, e incontinentes
XXXI.
Mas a malícia pérfida, e inimiga
Defles noflos primeiros Alceiidentesf
Por íer no Mundo todo muito antiga
A ufènça depeccarem por fcientes,
Seus Deofes inventou , para que diga
A Fama foraõ homens fapientes,
Sendo, comoapparece na verdade,
Tudo mentira, engano , e faliidadç»
XXXII.
XXX.
XXIX.
B
XXXII.
Se pois, filhos, e conforte dina>.
Tendes juízos claros, e inteiros,
Abraçav logo a infpíraçaõ divina^
Sahy de taõ nojofos atolleiros.
Crede-me porque he certo, que fe atina;
Em fendo os argumentos verdadeiros,
Que a mentira fe apaga com a verdade,
Como desfará, fombra a claridade.
XXXIII.
Aquelle , que da Yirgem foy nafcida^
Cuja 3ey atè agora nad-quizeiíios,
Eíie no monte me há appareeido,
Pára que a nofoBIÍa defprezemos;
Ecomohe muito bom ^compadecido^
Benignamente roaaéa* que tratemos
De nos lavarmos m agoa caufatiya
Daquellâ graça regenerativa.,
XXXIV.
Aflim Plácido difle e concordando .
Cathecumenos*sra agoa, fe banháraô,
E outros nomes os filhos derprezando Theopifto * e Agapito fe chamáraõ: :
Elie, e a conforte os feus diífimulando,
Em Theopifta , e Euftachio os renovátaõ^ ,
Que fe as peffoas velhas defpediaõ^
Ijnibem do antigo,nome. deíiítiao*
XXXV.
CANTO I.
XXXV.
Depois, que fe lavou na facra fonte,
No bofque Euftachio a Deos obedecia,
Gnde admirou de luz hum Orizonte
Mais refulgente, que a do Meyodia:
Proftrado íobrea face, vio defronte
Apparecer o Filho de Maria ,,
Que affavelmente lhe fallau benino,
Tornando a teçra, p vento, e o ar divino.
Eiiíláchio^difle, pois que já tornado
Eftás a meu rebanho, eu te bemdigo,
E fe viveres fempre acautellado,
Efficazmente affiítirey comtigo; ;
Mas quem quizer viver comigo atado,
Adverte , qqe naõ pôde eftar comfigo,
Que o que a íi mefmo cá mais aborrece
A minha efíencia lá ver mais merece,
XXXVII.
E para que melhor teu fim profígas,: .
E tenhas nelle alguns merecimentos, ,
Padecerás trabalhos, e fadigas, ,
Anguftias, penas, dores, e tormentos:
Naõ defmayes, porém com valor figas
Quantos tedér o mundo fentimentos,
Porque hade em ti fazer cruel fereza >
O tentador da humana natureza, .
XXXVI.
XXXVIII.
•
XXXVIII.
Olha aquelte varaõ deHus paciente ,
Quantos trabalhos vio, quanta crueza,
Sendo taõ grande entre outros do Oriente
Na que os humanos tendes por riqueza;
Exemplo toma delie, naõ fomente
Na que depois foffreo fumma pobreza
Porem em tudo ornais, de que privado
Foy, que por mim ferá recompenfado.
XXXIX.
Ca!ou-fe, e hum globo de efjplendorardente
Cobrio o monte de luzidas flammas:
Oh luz Divina, oh rayo refulgente,
Que affim os noíTos coraçoens inflammas!
N ao taõ radiante o mefmo Sol luzente
Accende^antorçhas,, defperdiça ehammas*
Nem taõ alegre multiplica olores
A Aurora guando recufcita as flores.
Euftachio levantandò-íe da terra
Valente Capitaõ, foldado forte,
Se armou de forças, para entrar na guerra*
E defprezar ainda a mefma morte:
Todo o temor do peito já defterra,
Expõem fe a toda incontraftavel forte,
E para refiftir defta à inclemencia
He arnez o estore;), efeudo a paciência.
XL.
XLI.
ÇANTO I.
XLJ.
A feus Penates logo fe retira
Feito Atalaya de feus propios damnos,
Argos de penas poz muito alta a mira
Kefte, que o mundo nos fabrica enganos;
E para que ofucceílo menos fira ,
Prégar começa aos feus os defenganos,
Que aquellss fetías, que antes fao fabidas
Naõ ferem tanto, quando, fao fentidas.
Conforte amada, filhos meus queridos*
Prendas doces do amor , fabey, que temos
Penas, e dores , que fentir feridos,,
He bem, que fortes nefta luta entremos j
Mas fe de Deos por filhos recebidos
Eftamos, nelle fó confiaremos,
Pois de tudo hade fer mercadoria
Aquella fumma incógnita alegria*
XLIII.
O enganador da humana natureza,
Leaõ voraz , que os peccadores traga,
Em nós hade empregar íua crueza,
Para que à extrema perdição nos traga,
Ao feu veneno, e infernal fereza
A paciência ponde por triaga ,
Porque he contrario à dor, e ao tormento
Hum refignado, e firme foffrimento.
XLII.
XLIV.
XLIV.
Aflim deo fim a pratica , e paíladòs
Poucos dias íentiraõ a inclemencia
Daqueila, que os do Mundo altucmados
Chamaô fortuna, fendo providencia ;
De todos os amigos deíprezados,
Que fe coníerváõ fó péla oppulencia,
De todos os haveres falta a copia,
Padecendo huma extrema, e vil inópia.
Porque de peftilencia defuzada
Criados , e criadas lhes morrerão
E os muitos gados de huma, e outra nun&dt
Todos da mefma peite perecerão:
De outra doença crua, e depravada
Os animaesNeptunos fenecerão,
E experimentáraô tanto de pobreza $
Quanto poffuiao antes de riqueza.
XLVI.
Vendo-fe aífim afflrdlros per tenderão
Di ?ixar o Pátrio chaô por rigorofo,
E a Província , que banhas, efcolheraõ
Por bocas fete, ò Nilo furiofo:
Em fim depois, que lagrimas verterão^
Chegando ao porto fempre faudofo ,
Em hum Navio furto fe embarcáraõ,
E asanchoras tenaces fe levarao*
XLVII.
XLV.
CANTO .
XLVll.
Por meyo deftes afperos caminhos ^
Refignaçaô , pobreza, e paciência
Se fazem os Ghriftaós de Deos vifinhos*
Para poderem ver a fumma Eflencia :
Naõ repouíando fempre entre os arminhos*
Nem fubmerfos na fea incontinência
Da guia, que aos que tem razaõ os torna
Brutos, e para o vil vicio os fuborna.
XLVIII.
Naõ poftos no defcanfo arremedando
Somente a pueril occiofidadet
Naõ o refpeito , e gloria procurando^
Ao que muito Philaucia os períuade:
Naõ perfeguindo o trifte, e miferando^
Naõ afpirando à honra, e à dignidade,
Sem faber, que os que mais as appetecem J
Aquelles faõ, que menos as merecem.
EUSTÀ-