Canto Segundo
ARGUMENTO.
NaÔ podendo o demonio ter paciência
De ter deixado Eu/l ac bio a idolatria ?
Ao Piloto tentou, que com violência.
Lhe uma ffe a efpofa, que trama.
Elie da fua dor pela vebememia,....
Entre mil rogos lagrimas mriia _
Porem nao fendo do PíloMmmda ^
Defprejado ficou y trifle, e Jentido.
CANTO SEGUNDO. I.
J
A> a nadadora , e concava carina *
Partia efpumas nítidas de argento >
Vangloriando eiw Aula Neptuniça
Ave de pinho ayrofo movimento;
E profanando a pompaçryftaliina ,
De linho as aza^lM aífqprivs o vento
Fazendo no vigor, com que refpira
Voar hum tronco em campos de Zaphira.
II.
O nauta rude, o paííVgeiro trifte,
Elie faudofoaquelle de contente,
Laila-a cabeça no convez perfifte,
Sobe ligeiro o afpero rudente:
Tudo fem ordem , e confufo aífifte i
Quando o Piloto na arte diligente
Convoca a todos, porque ver queria
Quantas paíioas em a Náo trazia.
III.
CANTO II.
III.
Em quanto ifto fe paíTa no Navio i
Lúcifer infernal, Plutão horrendo,
Que defque íe banhou no facro rio
Euftachio eftava de furor ardendo,
Oppondo todo o feu veneno , e brio ,
E com ahullidos fúnebres gemendo,
Quer eftorvar aos pobres Peregrinos,
Que naõ profigaõ feus fantos deftinos.
IV.
Jaz no centro da Terra huma caverna
De afpero , tofco, e lugubre edeficio,
Onde nunca do Sol entrou tucerna,
Nem de pequena luz fe vio indicio.
Allio horror, e aflombra he fempiternâ
Por hum pungente, efúnebre artificio,
Cujas feneftras, que tu Monftro inflammas
Refpiradouros faõde negras chammas.
Rodeaõ efte Alcaçar defditofo
Lagos immundos de paluílres agoas*
Onde hum tremor, e horror caliginofo
Penas deícobre, defentranha mágoas:
Fontes .eladas, fumo tenebrofo,
Congelaõ ondas, e machinaõ fragoas,
Mefclando em hum confufo de crueldades
Chammas a neve, o fogo frieldades.
V.
C VI.
VI.
Ardente ferpe de íulfureas chammas
Os centros gira deite Aivergue umbroío^
Saõ asfaifcas hórridas efcamas,
E o fumo negro dente venenofo:
As lavaredas das volantes fiammas
Azas compoem aoMonftro tenebrofo,.
Que quanto queima , defpedaça, e come^
Iffo mefmo alimenta, que coníome,
Hum negro arroyo em pallida corrente
Irado alh fe troce taõ; furiofo^
Que he no que morde horrífica ferpente,'
E no que inficiona Afpid horrorofo:
Fétido vapor, negro, e peflilenta
Exhalla de íeu feyp taô.raivofo ,
Que lá no centro fempre agonizado
De peite, e iombrasjmoílra ler formado.
As denfas névoas, as oppaeas fombra^
Tanto encapotaõ a afperefa inculta,
Que em negra tumba, fúnebres alfombras
Parece a mefm& noite fe íepulta:
Fantafmas triftes, que tu Herebo afíombm,
Terrores caufaõ onde mais avulta
O rouco fom de ahullidos eíiridentes,
O trifte eílrondojdo ranger dos dentes.
VII.
VIII.
IX.
CANTO II.
IX.
Anguftias, dores, pena, e fentimento,
Suípiros, ancias , e penalidades,
Gemidos triftes, e.cruel tormento ,
Furores, raivas, iras, e crueldades,
Em hum continuado movimento,
Por todo o tempo, e todas as idades
Tanto a matéria, que criáó, deftroçaô ,
Quanto a matéria^ quedeftroem, remoção.
X.
Revolcando-fe em chammas crepitantes
Alli eftá Judas n'huma cama ardente,
No coraçaõ tem víboras flammantes,
Na lingoa hum Afpid feyo, e peftilente
Geme, e íufpíra todos os inftantes,
Blasfema irado,, ruge impaciente,
Tendo a feu lado Herodes, e Pilatos,
Anás, .Caifás, e outros mentecatos.
XI.
Jaz em hum Iago graviolente, e immundo
O Archiíe&ario Arábigo, e Agareno,
Que perdição quiz fer de quaíihum Mundo,
Patrocinando o vicio vil terreno:
De huma parte fubmerfo no profundo, ,
De li mefmofuror, peite, e veneno,
Eftá Calvino, e de outra agonizando > >
Luthéroem fogo, e agoa ardendo, e elando
XII.
XII.
Prezo n'humCalabouce tenebrofo
Eftá Alexandre em hum nevado rio,'
Que ainda agora por muito eobiçofo
Temem queira do inferno o fenhorio:
Em hum volcaõ de chammas horrorófo
Eftaõ Beílo, Xerxes, Scevola, e Dario *
Aurelio, Ceíar, e Domiciano,
Auguíto , Nero, Tito , e Juliano.
XIII.
Em fim alli de todas as idades.
De todas as Naçoens em defatinos
Se vêm penar à força de crueldades
Homens, mulheres, velhos, e meninos:
Huns entre as neves, e as voracidades
Do fogo ardente, e alguns entre os malinos
Afpides, Butres , Viboras /Serpentes,
Que os tragaõ, e eonfomem com feus dentes»
XIV.
!Mas quanto pode a humana fantaíia
Cuidar defta mafmorra horrenda,e efcura,
E quanto pode a livre Poezia
Fingir em vã, e apochripha pintura,
He huma boa, e própria allegoría,
Com huma Metaphorica eícultura,
Que o inferno fó confífte, eo vil gozano
Na pena dos fentidos , e do damno*
XV.
CANTO II.
XV.
Eni o mais alto defte folido infando,
Em hum throno de chammas fempre ardentes
Jaz Lúcifer, a quem eftao tragando
Afpides negros, ferpes peílílentes ;
Elie com ira, e com furor bramando
Se deípedaça com agudos dentes,
Sendo para feu damno, e eterno fado
De íi próprio Fífcale Algoz irado.
Víboras por cabellos cento acento,
Por olhos tem dous Bthenas denegridos > ,
Por boca hum Gocodrilio troculento,
Por tnaõs dous Ba^ilifcos retrocidos,
Por cerebro a foberba , e o tormento
Por coraçao , por membros os latidos, ,
Por pernas du&s cobras fibilantes,
Por pés dous Mongibellos tem fiammantes»
Aquilio mefmo crê ide que duvida,
Tem faftio do mefmo, que appetece i
O que naõ quer para ifío fe convida,
E aífeflra aquillo tudo , que aborrece r
Quando quer repoufar entaõ mais lida,
Quando abrandar-fe muito fe enfurece,
Anciãs faõ goftos, penas defaffogoy
Por fogo a neve tem, por neve o fogo*
XVI.
XVII.
XVIII.
XVIII.
Tudo ifto he hum defenho bem tirado,'
De que coítuma ufar a Poezia ,
Ptira pintar hum corpo fó formado
bías 'iftimaginaçoens da fantafia;
Que Luzbel foy efpirito creado
Por Deos, lá da fuprema Hyerarchia,
Naõ tem corpo, nem carne, e fe apparece
Por aerio em tal forma íe conhece.
XIX.
Efta pois Serpe impm, e monftro horrendo*
Com rouca voz, e lugubres mugidos
Chama hum Miniftro, e manda, que correndo
Aos mais convoque, que andaõ efpargidosj
Porque na fantafia revolvendo
Segredos vários., cafos fuccedidos,
Qjer, que preíentes ie achem em coníulta ;
E faber do xonfelho o que refulta.
XX.
Logo o infernal Mercúrio fe a (Tomava
Mais ligeiro , que o meímò penfamento;
E os Miniftros das trevas convocava
Para o Luciferino parlamento:
A terra toda, o ar, e o rnar tranava,
fc os círculos polares n'hum momento;
Tocando huma bozina horrenda , e irada;
Com que lhes dava a todos a embayxada*
XXI»
CANTO
XXI.
já junto eftava o horrendo Confiftorio
Em huns aflentos de íulphureas chammas,
Duvidando qual fofle o locutorio,
Para o que Lúcifer taõ prefto os chama j
Elie cutpindo entaõ hum envoltorio
De víboras, por todos as derrama,
E a boca negra , e os olhos retrocendo,
Começou a ulular aflim dizendo:
XXII.
Juizes defta efcura Monarchia,
Que caftigais ao que noshe contrario^
Vós que no Mundo tendes valentia
Para empecer a todo o Adverfario,
Sabereis, que hum, que a muito nosíervia
De nós ferebellou feito falfario,
Âquelle he, que no monte aHumiado
De hum foy, que produzio todo o creado»
XXIII*
Já com fumma pobreza, e com fadiga #
Lhe tenho dado penas , e tormento,
Mas nâá pofío fazer, que naõ proíiga
O Teu defignio, e começado intento:
Efta he a caufa toda, que me iníliga
A chamar-vos em pleno ajuntamento ,
Para que algum , que for experiente
Nos pofla dar remedip competente.
D XXIV.
Então Bcelfeb^t^-cttan^iBa^-lançando,
Diíle chum tom de vm medonho, egroflo*
Eíle pérfido agora navegando r
Vay por livrar-fe do domínio noflo;
Eu já à muito nifto immaginando ,
Parece-me, que traça bufcar poffo>
Para que tot^mente deftruido
Seja, e aonoílo império reduzidOt
E he, que a algum daquelles, que navegao
Com elle, o Gapitaõ, ou o Pilote ,
E ainda a algum dos outros, que fe entregaô
A feminil laíeivia, e vicio roto
Defejos influamos, que fe chegaõ
A roubar-lhe a conforte, eu creyo, enoto,
Que a ira, a raiva, a dor, e o vitupério
Outra ve^ íubmeta ao noftb império»
XXVI.
E bem fabemos todos, que no Mundòr
Efte he o veneno certo , e refinado,
Que como o homem fempre affeéta oimmundo>
He neftès laços prezo, e enredado :
Efte mil almas lança no profundo,
Tem Reynos, e Cidades afibllado j
E de tudo ifto ieja immagem viva
Troya queimada pela gente Argiva.
XXVII.
XXIV.
XXV.
CANTO II..
XXVII.
Vá pois Lusbel por férmaisdiligente^
Ea aígurn influa penfa m en to feyo,
Fazendo-o carniceiro incontinente,
Que a falta de confenfo eu naõ receyOi
Como hum trovaõ Câloú-fe de irepente,
E confentindo todos, que Goíréyo
Foífe Lusbel, tremeo d folio umbròfo^
E o conclave deixarão tènebrofo.
XXVIII.
Já nefte tempò quafi numerado
Tinha o Piloto a gente, que levava,
Quando depois dè a ter em rol tomado,
Se mais alguém havia perguntava;
Euftachio obedecendo ao feu mandado
Com Theopifta fe lhe apresentava,
Ella unindo a belleza à compoftura,
Vinha realces dando a formofura.
Naõ taõ gentil fobrefaindo às flores
A que he Rainha, fedefcobre, e brilha,
Quando abrindo o bótaõ, vertendo olores
De Flora he pompa, aos prados maravilha
Naõ taõ formofa debuxando cores
A Aurora rafga arófcida mantilha,
Nem taõ galharda fâê âqueíla ieftrélía,
Que annuncios trafc do Sòl luzida,« bella.
D
XXIX.
XXX.
XXX.
Apenas o Piloto a aviftava ,
Quando chega Luzbel, e promptamente
Na vontade influía e alloprava
Laícivia má, defejo peftilente,
Já o calor as meduiias ibe toftava,v
E intentou obrar paciente? ,
O que já lá era os antigos dias; /
Marte a Vulcano fez, Davida Ur ias;
Oh amor profano, oh erro deímenti.do*
Aípid fubtil, Haçpia carcomida ,
Perdição da alma, engano conhecido r
Ladraõ do tempo , deftruiçao,da vida ,
Quem te adora , e te fegue envelhecido,
De tua hervada íetta na ferida,
G rodeiro ignora, que de tantos damnps
Só fe devem tirar osdefenganqs?
Entendendo o Patraó o feu defejo^,
Tomado do veneno Luzbelino^
Com audacia cruel, furor fobejo
Roubou a Efpofa ao pobre peregrino^
Naô de outra forte o perro com defpejo
Guarda o rebanho , fendo fidedino »
Porém fe fente eftimulos da fome,
A innocente ovelha traga, e come.
XXXI.
XXXII.
XXXIII.
t.
CANTO II.
XXXIII.
Mas permittio.a fumma providencia
De Deos, que eonfentio ncíla jornada,
E no fino chrifol da pafciencia
Hia lavrando aquelia Efpofa amada,
Ficalíe em vaõ a fea incontinência
Do torpe navegante, e que illibada
YiveíTe fem oftenfa, ou prejuizo,
Para lhe dar depois o Paraizo.
©s náuticos Miniftros , que ifto viaõ,.
Os paflageiros, que ifto admiravaó ,
Aquelles por malícia confeníiaõ ,
Eftes de medo , ,e. aflombro fe calavaõ;
Ou como aLey de Ghrifto naõ leguiaõ*
E os torpiffimos.Deofes adoravaõ ,
Para elles foy coufa menos feya
O Piloto tomar a Efpofa alheya.,
Anpobre peregrina , que roubada
Se via, e expofta a alguma feridade,
Qual affucena branca defmayada
Perdeo do rofto a cor, e claridade:
Trifte, queixofa, e em lagrimas banhada
De fua forte fentia a crueldade,
Porém de fer Aurora naõ deixava
Ainda quando pérolas chorava.,
XXXIV.
XXXV.
XXXVI.
XXXVI.
° «
Euftachio tendo à vifta a fua affronta
Valente Capitão , forte foldadõ,
De quem, mais , que de algum, éftava a conta
Punir hum defaforo taõ fobrado,
Por armas o intentou, porém que monta?
Que o Piloto tinha outros a feíi lado ,
E contra muitos em rixofas lides
Nem pode contender o mefmo Alcides.
XXXVII.
Morrer quizera eomo Varaõ forte,
Por defender o feu precifo foro ,
( Qye os do Mundo políticos por forte
A morte tem , fe hedada por decóro)
Porém temendo muito á eterna morte,
Suíleve o moto , e náõ o largo choro,
E recordando o oráculo fagrado
Paciente foíFreo, e refignado.
XXXVIII.
Com lagrimas cuidou, que abrandaria
O duriílímo peito do Piloto,
Porém quanto mais lagrimas vertiâ,
Tanto mais duro eftava , firme, e immoto:
Se pedra foflè, já fe desfaria ,
Se foffe bronze, íentiria moto,
Mas o peito do pérfido , e perjuro
Era que a pedra, e bronze inda mais duro.
XXXIX.
CANTO II.
Com razoens convincentes lheaffeava
A infame acçaõ , que comettido havia,
E com palavras brandas lhe rogava
LhedeíFe aprenda, que elle mais queria;
Masque importa, que quando lhe lallava
A hum Tigre era cantar de melodia ,
E tinha a íua taõ juíía propofta,
G furor, e ameaço por refpofta.
XL.
Os filhinhos pequenos lhe moilrava
Deixados n^um taõ trifte defamparo,
Pois tirando lhe aquella , que os criava
Ficavaõ fem ò maternal amparo:
Que era o único alivio, que reftava
Aos que feguiaõ hum defterro amaro;
Mas de balde , pois nunca o pranto, e o rogo
Apagar podem da lalcivia o fogo.
Já, já com fua voz rouca, e chorofa
O homem maisauftéro abrandaria,
E com huma corrente lagrimoía
Os Hyrcanicos Tigres moveria :
Já com huma humildade dolorofa
O mais bravo Leaõ amanfaria ;
Porém aquelle peito empedernido
Cada vez mais eftava endurecido,,
XXXIX.
XLI.
XLII.
Os ventos, que eftas laftimas fentia©
GeíTavaõ de aííoprar efmorecidos,
Os mares em que as lagrimas cahiaõ
D eixavao de ondear compadecidos,
Os peixes, que o feu largo pranto ouviaõ
Naõpodiaõ faltar enternecidos,
Eo mefmo lenho, que íulcava os mares,
Também gemia ouvindo os feus pezares*
XLIII.
Só o Bruto feroz, ou Tigre Hyrcano,
A nada deitas coufas fe movia,
Que fe perdido houveíTe o fer humano,
Talvez , que já abrandado fe teria;
Eaffim he, porque há peito taõ tyranno;
Que entre bronzes , e mármores fe cria,
Mas quem originou efte veneno
Lá procede do campo Damafceno.
XLIV.
Vendo fe Euftachio fem remedio humano
Poz a fua efperança no Divino,
Qiie nunca falta a quem o defengano
Jbez defprezar o feculo malino:
Com pena , dor, trifteza quafi infano ;
Póftos ao lado hum , e outro menino,
Encoftando-íe a hum afpero rudente
Começou a gemer ataargamente.
XLII.
XLV.
CANTO II.
XLV.
Qual pombinho trifte, e magoado,
Que aconíorte do ninho lhe rouha'raõ,
E n'hum raminho fecco, e desfolhado
Os filhos tenrofinhos lhe deixa'raõ,
Geme arrulhando o folitario eftado,
Co as azas cobre os filhos , que ficáraõ,
Tal Eufcachio gemia , e fufpiravá,
E os lagrimoíos filhos affogava.
XLVI.
Entaô chegando a elle hum paflageiro
Daquelles de mais claro entendimento,
Lhe dilfe olafíimado companheiro,
Razaõ te fobra para o teu tormento ;
Mas que naõ hes, bem fabes o primeiro ,
Que experimentou taõ grave fentimento,
Porque fe expõem à violência dura
Quem traz por companheira a formolura.
XLVII.
Mas inda aífim defejo ter fciencia
Dos motivos, e caufas, que tivefte,
Para que te expozeíTes à inclemencia
Da fortuna, que agora padeceíte:
Que cafo, quedeígraça , ou que demencia
Te moveo a fazer o que fizefte,
Como he deixares hum Terreno rico,
E paflares a hum clima taõ longico ?
E XLVIII.
XLVIII.
Dize-me agora pois, íe te parece,
A tua Patria, e officio em que has vivido
Que quem o quer faber fe compadece
De te ver taõ magoado, etaõ fentido :
Dize-me mais que caufa te moveíle
A navegar taõ pobre, e taõ defpido,
Pois naõ deixaõ defer alliviadas
As penas ^ quando fao communicadas©.