Canto Terceiro
ARGUMENTO.
Euflachio trifte canta a bum paffageiro
fim Patria re no que tinha vivido,
Ate chegar ao p a ff o, em que o cordeira
j-efu Chrifto lhe havia apparecido :
Experimenta na Ndo por derradeiro
Grande tormenta^ e fendo dejpedido
Do cruel Piloto, foy defembarcado f
De feus dous filhos fendo acompanhado.
CANTO TERCEIRO.
I.
Gora vos, Theótocos divinaT
Verdadeira Calliope fagrada,
Que a mais perfeita foíles , e a mais dina
Entre a prole, que de Eva foy gerada,
Day-me naõ.da Hypocrene, ou Gaballina
O mentido licor, eagoa fonhada,
Mas defla, fonte de toda a fçiencia
Ao engenho luz, à minha voz cadencia.
IL
Dos aftros a celefle.Monarchia
De efcuras fombras ji íe encapotava,
EoSol, que he Ephimera do dia
Em cryftallina tumba morto eftava:
Dos nautas defiflia a gritaria ,
Neptuno a leu Tridente fe ençoííava,
Eo vento brandamente refpirandp
Hia de linho as azas afioprando.
E III.
III.
Quando Euftachio os folluços fuffocando .
E fupprimindo dentro o pranto ardente,
Depois de eftar hum pouco em fi cuidando
Com branda voz, porém balbuciente
Refponde aífim. Poisdefte miferando
Saber a vida o teu amor confente,
Tudo direy, porque efta amarga hiftoria
Já mais pode ter riícos na memoria.
Na Cidade Mtetropole do Mundò,
Que em montes fete tem affento dino,
Célio, Efquilio, e o Tarpeyo furibundo^
Quirinal, Celiolo, e Palatino,
Que n'hum curvado feyo, e nao rotundo.
Semicírculo fazem no Aventino,
A qual os dous irmaõs edificárao,
Que com leite de Loba fe criáraõ.
Nafcy de illuftres pays, e naõ grofTeiros>
Ricos dos bens mundanos, e abadados,
Na Republica fua Gavalleiros ,
Ede nobreza antiga bem dotados:
No redto obrar nao eraõ derradeiros ,
Que ifto he, que íaz os homens eftimados ,
Eo íangue nôbre mancha o valimento,
Se he meíciado com máo procedimento.
IV.
V.
VI.
CANTO III.
VI.
Em a primeira flor da tenra idade,
Onde faõ mais contínuos os prazeres,
Aprendy com cuidado, e brevidade
Aentender, e pintar os caradleres;
Mas depois, n&õ obftante a. variedade x
Que os pays cofiumaõ par nos pareceres,
Me inclinou o meu génio, e Pátrio officio
Ao militar, e bellico exercício.
Tratey de me aliítar logo foldado,
E de aprender as artes da campanha j
Onde àlem do valor, e do cuidado
Se ha mifter a induftria, o engenho, e manha
E por mais attender ao meu eftado,
Prazer naõ tinha, nem gloria tamanha *
Gomo da paz nos breves intervallos
Alimpar armas, e adeílrar cavalios*
Depois de nefte officio ter pafladó
Os mais floridos annos da idade,
E haver de meu progenitor herdado
De riquezas nao pouca quantidade,
Em íuave Hvmeneo me vy atado
Go efta, que fente agora a crueldade
Da fortuna , e em delicias condecentes
Tive eíles filhos, que aquy vês preíentes.
VII.
VIII.
IX.
IX.
Neíle tempo da vida mais ameno
O íummo ftrnperador Vefpaíiano,
Que (feaífirn he) foy morto com veneno
Pelo invejoío irmão Domiciano,
Me inquietou do defcjnfo mais fereno,
E por moftrar íe em tudo loberano ,
Me elegeo Regedor da equeftre gente
Contra Hyeruíalem Cidade ingente.
X.
Obedeci com moftras de obrigado,
Ao fupremo mandado agradecido,
Qje he grande indifcrfçaÕ moítrar turbado
Naqui lio o rofto , que hade fer cumprido:
Nefte hxercito entrey proporcionado
Para oíFeníivo fér, naõ offendido*
Contra aquelia Cidade deígraçada,
Que foy por Jeremias taõ chorada.
XI.
Sem padecer temores, nem receyos ,
A grande , e longa marcha começamos,
E'vadeando rios entrem eyos
Deixando os fins da Europa na Afia entramos
Depois de varias voltas, e rodeos,
A grande Ptolemaida paiTamos ,
E anhelando a prefteza, e brevidade
Dêmos vifta dos muros da Cidade.
XII.
CANTO III.
XII.
A Romana trombeta áeo o primeiro
Signal, e refpondeo a gente Hcbrea ,
Oavio-íe o fom no QHvete outeiro,
E por toda a montanha =de jfodéa :
Hum povo por trjumphaute,\e por guerreiro,
Eo outro pelo damno, que recea,
Puxaõ pelas çfpadas rejuféntes ,
Que no ferir faõ rayos fernpre ardentes.
XIII.
Dos cavallos o eftrepido fdrioíb
Fundia a terra , as pedras fe arnmcavaõ, .
E os inimigos com tremor medroío
Pulverulenta fuga;maçhinavaÓ:
Huns enveftiaõ com valor briofo,
E outros batendo ^s crines refpiravaõ
Pelos narizes viração ardente,
Maftigavaõ na boca a efpuma quente*
Já as ameas, e torres fe aflaltavao,
Gom fúria grande , e Ímpeto tremendo,
As bandeiras abertas tremolavaõ ,
Soava do tambor o eftrondo horrendo :
As trincheiras, e fqflbs fe efcalavaõ,
Os contrários fugindo, e outros morrendo,
E era no horror , aíTombro, e crueldade
O valor rayo, a ira tempeítade.
XIV.
XV.
XV.
De denfas fetas o ar fe condenfava
Das meyas Luas ferreas facodidas:
E de miúdas pedras fe obumbraVa
Pela circular maó circumduzidas,
A area dentre os pés fe levantava ,
Vagando hiaõ as lanças impellidas,
E n'hum confufo Eclipfe , e tenebrofo,
Punhaõ à melma luz manto horroroio,
Das Romanas trombetas os clangores
Pelo contorno grande retumbavao,
E com o horrível íom rijos clamores
Os mefmos rios de vapor paravaõ:
Os pequenos meninos com temores
Nos regaços das mãysfe defmayavao,
E ouvindo o Eco irado, e fom terrível
Temblava o fexo fraco , e mais fenfivel.
XVII.
Da morte alguns fugindo, fea, e crua
Aos lugares mais fortes fe acolhiaõ,
E outros paffados com a efpada nua
No íangue a marte calida bebiaõ:
Muitos nas torres, cafas, praça, e rua
Morrendo com valor íe defendiao,
E até dos que nas covas fe efconderaõ
Alguns perpetuamente adormecerão»
XVI.
XVIII.
CANTO III.
XVIII.
^Quaes as ovelhas laffás, e efpargidas
No prado ameno, ao pé da clara fonte,
Se acontece, que fao accommettidas
Dos lobos, que apparecem lá defronte,
Humas mortas ficaõ, eoutras mal feridas,
Algumas fogem para a brenha , e o monte
Taes as Judaicas gentes pereciaô
Entre os Romanos, que fe enfureciaõ*
XIX.
Muitos ao captiveíro fe entregando,
Compaixaõ , e piedade nos pediaõ,
E a vida humildemente fupplicando
Com promptidaõ as armas ofFereciaõ;
Mas outros fortemente pelejando
Nos Fortins mais feguros refiftiaõ,
Onde fizeraõ damnos dolorofos
Os aproches, e aríetes forçofos*
XX.
As Mãys os filhos tenros carregando,'
E outros trazendo pela maõfugiaõ,
E os dourados cabellos deígrenhando
Chorofas as donzellas as feguiaõ:
Os velhos já naõ como gateando
Do perigo livrar-fe pertendiaõ,
E áquelles , que efcapavaõ com a vida
Lhes dava o temor azas na fugida.
F XXI.
Naõ affim tanto
Do Nilo Egípcio fazem as moradas ,
Quando lentem creícercm as enchentes
Que os innundaô oom graiKfcs enxorradas*
Correm ligeiros , jfogetm diligentes
Para as ribeiras inda nao^^haéas *
Gomo efte povo fe affiiíkva «saague
Da grande enchente , e dos raoáaes áe íanguea
Aqui caia o levantado tronca
Com-Com, triftonho, e -kgufere rugido^
Alli eílallava oduro muro,e bronco ,
Do furioío ariefce impeilido:
Por outra parte com eftrmio ronco^
Se ouvia dos penedos oratido,
E era cada rui na , e cada moto
Monte caldo horrendo terremoto»,
O? al o vento Bèresl teMpeíteofe ^
Quando as ondas marítimas fmmca ,
E c' hum • chuvefe® negro ^ e proceltofa-^
As Efpheras penetra, òs am cbca ,
Ergue aterra em hiiint^lobo--cii¥ott-aoío^
Os troncos quebra , dtífjpedaça a roca,
Tais dos íoldad^s^mõos furoresv
D^ftruindo o qus achavaa com rigores*
XXI.
XXII.
XXIII.
XXIV.
CANTO III.
Em arroyos de purpura banb^dos
Os disformes cadavcres cahiaõ,
E alguns íupinos, e outros debruçados
O mefmo fangue cálido bebiaõ:
Muitos em poias feitos, e truncados
Trémulos pelo chão Mtar fe viaõ,
Tendo neftes de horror triftes trmfamptos
A pena obje&os , eamagoa aiiimptos.
A ira, e o valor coadunados ^
Aos que reíiftem punem de tal forte;
Que no ardor de vencer precipitados
Achavaõ, procurando a vida, a morte.
Com tal crueldade foraô deftroçados,
Com tal furor, e cólera taõ forte,
Qye a vehemencia do Eco deftes males
Se ouvio nos montes, fe lentio nos Valles,
XXVI.
As vozes os temores , os tormentos,
Dos foldados, dos prezos, e feridos,
Das virgens, dos meninos, os lamentos^
Os gemidos, os prantos, e allaridos ,
Pela terra , pelo ar , e pelos ventos
Foraõ vagos, difperfos , e efpargídos,
E o Sol claro , o ar fereno, e o Ceo enxuto
Veftio íombras, fez trevas , trajou luto.
Fa XXVII.
XXIV.
XXV.
ETFSVAGHIBOS „
XXVII.
Coléricos com ira, cardar bramavaafv
Os Cápitaens Romanos viétoriofos,
E quanto Teíifl^a ^eha§avaõ , v
Tyrannicoscruéis, e furiofos
Ja de huma ve^os vivos íe entregavaífe
Nas maõs dos vencedores glorioíos,
Qjie porffrça hade fer executado
O que dp Ceo .eílá determinadou
XXVitl.
Onze vezes cem mil nefte conflito*
Da coníocio dq& vivos íeapartárao
Noventa e íere -miLao grande Tito
Por captivos humildes fe entregáraõ*;
A (fi m Xe d e ft r u hio do n n t i go rito,
A Cidade Princeza, elo ficáraò
As pedras, onde teve a fepultura-i
O FilhOvd^Maria Virgem pura.,.
XXIX* .
Aquelie Templo * que exaltou afama^.
Gaza de Deos primeira nefte Mundo,,
Maravilha /myor ,.que hoje fe acclama ,
Houve por todo,o circulo rotundo ,
Deftruhido com ferro , e pela chamma*,
Abrazado ficou, desfeito*, e,imtnundo, v
Exemp!o>dando aos homens defta forte,
C^ie os mármores xambem padecem .morte
CANTO III.
XXX.
Bm fim os vencedores debeilamos
A'terra Hyerofoliina triumphantes,
E deJuda as bandeiras defprezamos
Ho jogo Marcial íempre confiantes:
De adornos, e riqueza a devaítamos,
Deixando hum documento aos mais diílantes
Que nunca,por fofrerba, ou vitupério
Rebeldes íejaõ ao Rotnano Império.
XXXI.
Acabada eftà proípera viéloria, ,
Que a fama em feus Annaes tem efculpidojj
E pelo mundo todo he taõ notoria,
Gomo o terás.algqma ves ouvido,
A Roma me toniey com honra, e gloria >
De todos eftimado, applaudido,
E a coroa triumphal me deo benino
QfucceíTor^ herdeiro de Quirino.
Ijogo me retirey aos meus Penates> •
Onde aílifty-politico às, vifitas
Dos Grandes, dos Senhores, dos Magnates *
Ainda, que era indigno deitas ditas:
Entaô de alguns captivos com reígates,,
E com outras jiquezas acquifitas,
Go as herdadas vivia defcançado,
Sem recear jda forte o adverjfofado..
XXXII.
XXXIII.
XXXIII.
A' diveííaõ me dava da efpeíTura,
Como fempre fazia antes da guerra,
Que desfaz da trifteza a fombra efcura,
E as manias coléricas defterra,
Hora do prado frefco na verdura,
Hora no monte, boíque, brenha, òUÍ^rra
E evitava fagaz nefte exercício
A má occiofidade mav do vicio.
¥
Hum dia indo vagando pelo monte,
Hum cervo vy. Porém aqui gritando
O que fazia o quarto, e o Orizonte
Attento eftava fetrçpre contemplando^
Surgy, diíle, furgy, que lá defronte
Nos eftá hum chuveiro ameaçando,
Trepay ligeiros, que refrefca o vento ,
Colhey, colhey as vélas n^um momento*
Todos de hum grave fono refurgiaó
Com os brados do Meftre, e marinheiros ^
E já os ventos indomitos bramia©
Trazendo negros, e horridos chuveiros;
As furiofas ondas referviaõ ,
Nas efpumas formando altos Outeiros >
E Euftjchio deixou tímido , e turbado
A narraçao, que tinha começado.
XXXIV.
XXXV.
XXXVI.
CANTO III.
XXXVI.
Os náuticos Miniftpos bem q^ueriaõ
Goartar os voos do volante tronco ^
Porém quanto ligeiros pertèndisõ,
Tanto evitava o vento rijo, e ronco:
Elle íulcava os ares* que zoniaõ,
Eílrallos dando orofto duro, e bronco,,
E como ave marítima nas ondas
Molhava as azas brancas , e redondas*
Gritando o Notoy e o Borcas furibundo
Penetravaõ com tal braveza os ares,
Que pareciaõ arrazar o Mundo *
E desfazer os círculos polares:
As arêas volviaõ do preftundo
Feitos de efpuma Encelados os mares^,
Sendo a pequena Náo , que fe derrota *
Batida péla , rápida pelota..
XXXVIII.
Apagando os faróis ò Firmamento *
De agoas hum vafto Oceano chorava y,
E o mar crefcendo a eftimulos do vento
De cryílais monftro aò Geo ameaçava:
Já cada qual com tal ajuntamento
As margens mutuamente vinculava,
Que os peixes pelo Gea nadar ppdiaô ,
E os Metheoros pelo mar ja^iaõ..
XXXVII.
XXXIX.
XXXIX.
A Náo parece quando profundava^'
Que com a quilha o Tartaro feria,
E nas mais altas nuvens, que tocava
Parece , quando em cima refurgia f
O irado polo chammas fcintiliava,
Mefclando-íe co vento o mar fervia
E rfhum confufo , e enorme parocifmo
JDo Chãos copia era o Mundo, e do Abifmo.
XL.
Os enormes Cometas fanguinofos
Corifcos difparavaõ cento acento,
E os rayos, que caiaõ furiofos
Abalavaõ do Byxoo Firmamento:
Os horrendos trovoens, e clamorofos
Aílombravaô com fom rouco, e violento^
E as denfas nuvens difparavaõ logo
Senpes de chammas, viboras de fogo.
O Cryfèallino monftro, e furiofo
Taõ fero ronca , e taõ feroz efpuma,
Que as mefmas nuvens, que lavava ondofo*
Q^iz fepukar em cumulos de efcuçna:
Undivago o Baixel, e naufragofo
Taõ roto geme, -e aHuftado bruma,
Que em qualquer onda, que pafciente atura
hffátos íente de huma pedra dura.
XLI.
XLII.
CANTO III.
XLII.
Alguns dos peixes tímidos entráraõ
Do pego fundo nas cavernas ocas:
E outros nas ondas perecer cuidáraô,
Que tu Neptuno com furor provocas:
As rémoras tenaces fe afferráraõ
Com força grande nas mais duras rocas,
E os ninhos das aves fe envolverão,
Em que Alciona, e feis íe converterão*
XLIII.
O Idólatra Piloto, que fe achava
Perecendo em os últimos defmayos,
Bem cuidou, que Vulcano lhe forjava
Por mandado de Jove aquelles rayosj
E vendo tanta chuva imaginava
Serem aquelles já outros enfayos
Para que as pedras para traz deitaffem
Como Deucaliaõ os que ficaflem.
XLIV.
Mas Já de Phebo a moça refurgia,
Que as trevas vay da noute difcutindo,
E Thitam de feo thalamo furgia
Os fomnolentos parpados abrindo.
Ceflàva o Boreas, o Auftro enfraquecia,
Aquilo, eNoto forao defifiindo,
E bebendo o licor fino , e rofado
Neptuno dormio quieto , e focegado.
G XLV.
XLV.
Livres defta taõ forte tempeftade
A refazer os nautas começáraõ
As quebras, que na Náo com feridade
Os furiofos ventos machináraõ;
E anhelando do tempo a brevidade,
Ao vento as brancas vélas desfraldáraõ,
A proa endireitando fem tardança
Para onde a meta tinhaõ da efperança.
XL VI.
Daqui mais alguns dias navegando,
As vezes com bom vento , e mar bonança
E outras vezes do tempo exprimentandp
A inconftante , e fubita mudança ,
De longe a Terra foraõ aviílando
Fartos de gozo , e cheyos de efperança^
Ejá ao porto amado fe chegavaõ ,
E as unhas Echeneidas lançavaõ.
XLVII,
Os paflageiros todos diligentes
Saltarem terra promptos intentáraõ,
E logo nos bateis impacientes
A cada qual primeiro fe embarcáraõ ,
Entaõ Theopifta , íoltas as correntes
De íeus olhos, que as faces lhe banháraõ,
Vendo, que Euftacl>iojá íe apartaria,
Tnfte, faudofa, e amante aflim dizia:
XLVIII.
CANTO III.
XLVIII.
Euftachio, eu fico nefte defamparo,
Expofta a toda humana feridade?
Vaiha me, fe he pòífivel, teo amparo,
Tem defta trifte efpofa piedade :
Sem ti viver naô poílo , efpoío charo,
Morrerey fem a tua fociedade,
Se me naõ podes conduzir comtigo ,
Fica penando cá junto commigo.
XLIX.
Mas bem conheço, que nefte conflito
Naõ me podes valer conforte amado,
Muito me peza verte taõ afflito,
Peza-me muito verte taõ magoado:
Eu te prometto, que jà mais delito
Sintas em meu pudor dè outro manchado
Pois primeiro mil vezes morreria ,
( Se he poflivel) do que te oftenderia.
L.
Como nobre prometto, affirmo , e juro,
( Pois Deos naõ falta com fua defenfa)
Que nenhum deslial , falfo, e perjuro
Poíía mover me para a tua ofFenfa:
Em o prefente tempo , e no futuro ,
Em quanto a aura vital me for extenfa,
O meu pudor confervarey intato
Como a honefta efpofa de Torquáto,
G
LI.
LI.
Em tanta dor no extremo gráo intenfà
Adverte, efpofo meu, que fou Romana,
Naõ recees , Euftachio, alguma offenía ,
Tendo por mim a guarda Soberana:
Coníidera, imagina, cuida , e penía ,
Que excederei Timochia eíTa Thebana ,
Sendo nefte infomvnio, e vil miferia
Muito mais, que Sophronia, e. que Valeria*
Parte, pois he fôrçoío ao navegante
Defembarcar, naõ vás defconfolado,
Quanto por mim padeces taõ confiante*
Tudo por Deos ferá remunerado.
Em quanto eu viva for, efpofo amante,
Sempre era meu peito viverás lembrado*
E tu roga por mira ao Verdadeiro
Senhor me livre deite captiveirp.
E vós ò filhos meus do amor penhorei,
Do coraçaõ pedaços, da alma , e vida ,
Ay como me trafpaflaõ os clamores,
Q^e eftais fazendo nefta defpedida :
Eíta feparaçaõ , doces amores ,
Na al ma me tem gerado huma ferida
Tal, que receyo nefta extrema forte
Seja fatal e me refulte a morte.
LII.
LIII.
LIV.
CANTO III.
LIV.
Se à força de fufpiros eu pudera,
Filhos, remediar volla agonia,
E fe com muitas lagrimas fizera ,
Que pudefle ir em voíla companhia,
Hum novo mar dos olhos mecorreray
De meu peito mais vento exhallaria ,
Se he , que em meus olhos pode haver mais agoa,
Ou fe meu peitp pôde ter mais mágoa.
Mais quizera dizer trifte^ e faudofá,
E Euftachio refponder internecido,
Mas do Piloto a voz imperiofa
Manda , que feja no batel mettido.*
Obedeceo por força à rigorofa
Ordem do navegante fementido
E. de feus filhos fendo acompanhado
Sidtou em terra fimie, e reíignado.
Oh tu , que immerfo vives no Mundano ^
Sem receares fubita mudança
Da forte , e envelhecido nefte engano
Poens no preíente tempo a confiança,
Efte exemplo te íirva ao defengano,
Para que ponhas em igual balança
O bem', e o mal, e na defdita, ou forte
Sempre te moftres varonil, e forte.
LVII.
LV.
LVI.
LVII.
Olha efte como vive taõ confiante,
Depois de exprimentar a turbulência
Da fortuna, e de hum torpe navegante
Forte íopporta taõ dura violência:
Foy grande, rico, nobre, e foy poíTante $
SoíFre agora da forte a inclemencia,.
Exemplo dando, que no Mundo pares
AndaÕ fempre cos goftos, os pezares,
LVIII.
Oh como he nefcio o que mais que contente
Se torna com qualquer profperidade,
Pois fica quaíi infano quando fente
Depois da forte a cruel adverfidade !
Naõ poílo achar ainda hum, que fe izente
Defta viril, e humana leviandade,
Mas vejo fempre fervos, e fenhores
Camaleoens de muy diverfas cores.