Descrição da Ilha de Itaparica Eustachidos · Capítulo 9 de 9
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Descrição da Ilha de Itaparica

Jaz a ilha chamada Itaparica,

A qual no nome tem também ser rica.

V

Está posta bem defronte da Cidade,

Só três léguas distante e os moradores

Daquela a esta vêm com brevidade,

Se não faltam do Zéfiro os favores;

E ainda quando com ferocidade

Éolo está mostrando os seus rigores,

Para a Côrte navegam, sem que cessem,

E parece que os ventos lhe obedecem.

VI

Por uma e outra parte rodeada

De Netuno se vê tão arrogante,

Que algumas vezes com porcela irada

Enfia o melancólico semblante;

E com a tem por sua, e tão amada,

Por lhe pagar fiel foros de amante,

Muitas vezes também serenamente

Tem encostado nela o seu Tridente.

VII

Se a Deusa Citeréia conhecera

Desta Ilha celebrada a formosura,

Eu fico que a Netuno prometera

O que a outros negou cruel e dura:

Então de boa mente lhe oferecera

Entre incêndios de fogo a neve pura,

E se de alguma sorte a alcançara,

Por esta a sua Chipre desprezara.

VIII

Pela costa do mar a branca areia

É para a vista objeto delicioso,

Onde passeia a Ninfa Galatéia

Com acompanhamento numeroso;

E quanto mais galante se recreia

Com aspecto gentil, donaire airoso,

Começa a semear das roupas belas

Conchinhas brancas, ruivas e amarelas.

IX

Aqui se cria o peixe copioso,

E os vastos pescadores em saveiros

Não receando o Elemento undoso,

Neste exercício estão dias inteiros;

E quando Áquilo e Bóreas proceloso

Com fúria os acomete, eles ligeiros

Colhendo as velas brancas, ou vermelhas,

Se acomodam cos remos em parelhas.

X

Neste porém marítimo regalo

Uns as redes estendem diligentes,

Outros com força, indústria e intervalo

Estão batendo as ondas transparentes:

Outros noutro baixel sem muito abalo

Levantam cobiçosos e contentes

Uma rede, que chamam Zangareia ,

Para os saltantes peixes forte teia.

XI

Qual aranha sagaz e ardilosa

Nos ares forma com sutil fio

Um labirinto tal, que a cautelosa

Mosca nele ficou sem alvedrio,

E assim com esta manha industriosa

Da mísera vem ter o senhorio,

Tais são com esta rede os pescadores

Para prender os mudos nadadores.

XII

Outros também por modo diferente,

Tendo as redes lançadas em seu seio,

Nas coroas estão postos firmemente,

Sem que tenham o pélago receio:

Cada qual puxa as cordas diligente ,

E os peixes vão fugindo para o meio,

' Té que aos impulsos do robusto braço

Vêm a colher os míseros no laço.

XIII

Nos baixos do mar outros tarrafando,

Alerta a vista e os passos vagarosos,

Vão uns pequenos peixes apanhando,

Que para o gosto são deliciosos:

Em canoas também de quando em quando

Fisgam no anzol alguns, que por gulosos

Ficam perdendo aqui as próprias vidas,

Sem o exemplo quererem ter de Midas.

XIV

Aqui se acha o marisco saboroso,

Em grande cópia e de casta vária,

Que para saciar ao apetitoso,

Não se duvida é coisa necessária:

Também se cria o lagostim gostoso,

Junto co 'a ostra, que por ordinária

Não é muito estimada, porém antes

Em tudo cede aos polvos radiantes.

XV

Os camarões não fiquem esquecidos,

Que tendo crus a cor pouco vistosa ,

Logo vestem depois que são cozidos

A cor do nácar, ou da Tíria rosa:

Os c' ranguejos nos mangues escondidos

Se mariscam sem arte industriosa,

Búzios também se vêem , de musgos sujos,

Cernambis , mexilhões e caramujos.

XVI

Também pertence aqui dizer ousado

Daquele peixe, que entre a fauce escura

O Profeta tragou Jonas sagrado,

Fazendo-lhe no ventre a sepultura;

Porém sendo do Altíssimo mandado,

O tornou a lançar são sem lesura

(Conforme nos afirma a Antigüidade)

Em as praias de Nínive Cidade.

XVII

Monstro do mar, Gigante do profundo,

Uma torre nas ondas soçobrada,

Que parece em todo o âmbito rotundo

Jamais besta tão grande foi criada:

Os mares despedaça furibundo

Co 'a barbatana às vezes levantada,

Cujos membros tetérrimos e broncos

Fazem a Tétis dar gemidos roncos.

XVIII

Baleia vulgarmente lhe chamamos ,

Que como só a esta Ilha se Sujeita,

Por isso de direito a não deixamos,

Por ser em tudo a descrição perfeita;

E que para bem claro percebamos

O como a pescaria dela é feita,

Quero dar com estudo não ocioso

Esta breve notícia ao curioso.

XIX

Tanto que chega o tempo decretado,

Que este peixe do vento Austro é movido,

Estando à vista de Terra já chegado,

Cujos sinais Netuno dá ferido,

Em um porto desta Ilha assinalado,

E de todo o preciso prevenido,

Estão umas lanchas leves e veleiras,

Que fazem c' os remos mais ligeiras .

XX

Os Nautas são Etíopes robustos,

E outros mais do sangue misturado,

Alguns Mestiços em a cor adustos,

Cada qual pelo esforço assinalado:

Outro ali vai também, que sem ter sustos

Leva o arpão da corda pendurado,

Também um, que no ofício a Glauco ofusca,

E para isto Brásilo se busca.

XXI

Assim partem intrépidos sulcando

Os palácios da linda Panopéia ,

Com cuidado solícito vigiando

Onde ressurge a sólida Baleia.

Ó gente, que furor tão execrando

A um perigo tal se sentenceia ?

Como, pequeno bicho, és atrevido

Contra o monstro do mar mais destemido?

XXII

Como não temes ser despedaçado

De um animal tão feio e tão imundo?

Por que queres ir ser precipitado

Nas íntimas entranhas do profundo?

Não temes, se é que vives em pecado,

Que o Criador do Céu e deste Mundo,

Que tem dos mares todos o governo,

Desse lago te mande ao lago Averno ?

XXIII

Lá intentaram fortes os Gigantes

Subir soberbos ao Olimpo puro,

Acometeram outros de ignorantes

O Reino de Plutão horrendo e escuro;

E se estes atrevidos e arrogantes

O castigo tiveram grave e duro,

Como não temes tu ser castigado

Pelos monstros também do mar salgado?

XXIV

Mas enquanto com isto me detenho,

O temerário risco admoestando,

Eles de cima do ligeiro lenho

Vão a Baleia horrível avistando:

Pegam nos remos com forçoso empenho,

E todos juntos com furor remando

A seguem por detrás com tal cautela,

Que imperceptíveis chegam junto dela.

XXV

O arpão farpado tem nas mãos suspenso

Um, que da proa o vai arremessando,

Todos os mais deixando o remo extenso

Se vão na lancha súbito deitando;

E depois que ferido o peixe imenso

O veloz curso vai continuando,

Surge cad 'um com fúria e força tanta,

Que como um Anteu forte se levanta.

XXVI

Corre o monstro com tal ferocidade,

Que vai partindo o úmido Elemento,

E lá do pego na concavidade

Parece mostrar Tétis sentimento:

Leva a lancha com tal velocidade,

E com tão apressado movimento,

Que cá de longe apenas aparece,

Sem que em alguma parte se escondesse.

XXVII

Qual o ligeiro pássaro amarrado

Com um fio sutil, em cuja ponta

Vai um papel pequeno pendurado,

Voa veloz sentindo aquela afronta,

E apenas o papel, que vai atado,

Se vê pela presteza, com que monta,

Tal o peixe afrontado vai correndo

Em seus membros atada a lancha tendo.

XXVIII

Depois que com o curso dilatado

Algum tanto já vai desfalecendo,

Eles então com força e com cuidado

A corda pouco a pouco vão colhendo ;

E tanto que se sente mais chegado,

Ainda com fúria os mares combatendo,

Nos membros moles lhe abre uma rotura

Um novo Aquiles c'uma lança dura.

XXIX

De golpe sai de sangue uma espadana,

Que vai tingindo o Oceano ambiente,

Com o qual se quebranta a fúria insana

Daquele horrível peixe, ou besta ingente;

E sem que pela plaga Americana

Passado tenha de Israel a gente,

A experiência e vista certifica

Que é o mar vermelho o mar de Itaparica.

XXX

Aos repetidos rasgos desta lança

A vital aura vai desamparando,

' Té que fenece o monstro sem tardança,

Que antes andava os mares açoitando:

Eles puxando a corda com pujança

O vão da lancha mais perto arrastando,

Que se lhe fiou Cloto o longo fio,

Agora o colhe Láquesis com brio.

XXXI

Eis agora também no mar saltando

O que de Glauco tem a habilidade,

Com um agudo ferro vai furando

Dos queixos a voraz monstruosidade:

Com um cordel depois, grosso e não brando,

Da boca cerra-lhe a concavidade,

Que se o mar sorve no gasnate fundo

Busca logo as entranhas do profundo.

XXXII

Tanto que a presa tem bem subjugada

Um sinal branco lançam vitoriosos,

E outra lancha para isto decretada

Vem socorrer com cabos mais forçosos:

Uma e outra se parte emparelhada,

Indo à vela, ou c'os remos furiosos,

E pelo mar serenas navegando

Para terra se vão endireitando.

XXXIII

Cada um se mostra no remar constante,

Se lhe não tem o Zéfiro assoprado,

E com fadigas e suor bastante

Vem a tomar o porto desjado .

Deste em espaço não muito distante,

Em o terreno mais acomodado

Uma Trusátil máquina esta posta

Só para esta função aqui deposta.

XXXIV

O pé surge da terra para fora

Uma versátil roda sustentando,

Em cujo âmbito longo se encoscora

Uma amarra, que a vai arrodeando :

A esta mesma roda cá de fora

Homens dez vezes cinco estão virando,

E quanto mais a corda se repuxa,

Tanto mais para a terra o peixe puxa.

XXXV

Assim com esta indústria vão fazendo

Que se chegue ao lugar determinado,

E as enchentes Netuno recolhendo,

Vão subindo por um e outro lado:

Outros em borbotão já vêm trazendo

Facas luzidas e o braçal machado,

E cada qual ligeiro se aparelha

Para o que seu ofício lhe aconselha.

XXXVI

Assim dispostos uns, que África cria,

Dos membros nus, o couro denegrido,

Os quais queimou Faeton , quando descia

Do terrífico raio submergido,

Com algazarra muita e gritaria,

Fazendo os instrumentos grão ruído,

Uns aos outros em ordem vão seguindo,

E os adiposos lombos dividindo.

XXXVII

O povo que se ajunta é infinito,

E ali têm muitos sua dignidade ,

Os outros vêm do Comarcão distrito,

E despovoam parte da Cidade:

Retumba o ar com o contínuo grito,

Soa das penhas a concavidade,

E entre eles todos tal furor se acende,

Que às vezes um ao outro não se entende.

XXXVIII

Qual em Babel o povo, que atrevido

Tentou subir ao Olimpo transparente,

Cujo idioma próprio pervertido

Foi uma confusão balbuciante,

Tal nesta torre, ou monstro desmedido,

Levanta as vozes a confusa gente,

Que seguindo cad 'um diverso dogma

Falar parece então noutro idioma.

XXXIX

Desta maneira o peixe se reparte

Por toda aquela cobiçosa gente,

Cabendo a cada qual aquela parte,

Que lhe foi consignada do regente:

As banhas todas se depõem à parte,

Que juntas formam um acervo ingente,

Das quais se faz azeite em grande cópia,

Do que esta Terra não padece inópia .

XL

Em vasos de metal largos e fundos

O estão com fortes chamas derretendo

De uns pedaços pequenos e fecundos,

Que o fluido licor vão escorrendo:

São uns feios Etíopes e imundos,

Os que estão este ofício vil fazendo,

Cujos membros de azeite andam untados,

Daquelas cirandagens salpicados.

XLI

Este peixe, este monstro agigantado

Por ser tão grande tem valia tanta,

Que o valor a que chega costumado

Até quase mil áureos se levanta.

Quem de ouvir tanto não sai admirado?

Quem de um peixe tão grande não se espanta?

Mas enquanto o Leitor fica pasmando,

Eu vou diversas cousas relatando.

XLII

Em um extremo desta mesma Terra

Está um forte soberbo fabricado,

Cuja bombarda , ou máquina de guerra,

Abala a Ilha de um e outro lado:

Tão grande fortaleza em si encerra

De artilharia e esforço tão sobrado,

Que retumbando o bronze furibundo

Faz ameaço á terra, ao mar, ao Mundo.

XLIII

Não há nesta Ilha engenho fabricado

Dos que o açúcar fazem saboroso,

Porque um, que ainda estava levantado,

Fez nele o seu oficio o tempo iroso :

Outros houve também, que o duro fado

Por terra pôs, cruel e rigoroso,

E ainda hoje um, que foi mais soberano,

Pendura as cinzas por painel Troiano.

XLIV

Claras as águas são e transparentes,

Que de si manam copiosas fontes,

Umas regam os vales adjacentes,

Outras descendo vêm dos altos montes;

E quando com seus raios refulgentes,

As doura Febo abrindo os Horizontes,

Tão cristalinas são, que aqui difusa

Parece nasce a fonte da Aretusa.

XLV

Pela relva do campo mais viçoso

O gado junto e pingue anda pastando,

O roubador de Europa furioso,

E o que deu o véu de ouro em outro bando,

O bruto de Netuno generoso

Vai as areias soltas levantando,

E nos bosques as leras Ateonéias

A República trilham das Napéias .

XLVI

Aqui o campo florido se semeia

De brancas açucenas e boninas ,

Ali no prado a rosa mais franqueia

Olorizando as horas matutinas:

E quando Clóris mais se galanteia,

Dando da face exalações divinas,

Dos ramos no regaço vai colhendo

O Clavel e o jasmim, que está pendendo.

XLVII

As frutas se produzem copiosas,

De várias castas e de várias cores,

Umas se estimam muito por cheirosas,

Outras levam vantagem nos sabores:

São tão belas, tão lindas e formosas,

Que estão causando à vista mil amores,

E se nos prados Flora mais blasona,

São os pomares glória de Pomona .

XLVIII

Entre elas todas têm lugar subido

As uvas doces, que esta Terra cria,

De tal sorte, que em número crescido

Participa de muitas a Bahia:

Este fruto se gera apetecido

Duas vezes no ano sem profia ,

E por isso e do povo celebrado,

E em toda a parte sempre nomeado.

XLIX

Os coqueiros compridos e vistosos

Estão por reta série ali plantados ,

Criam cocos galhardos e formosos,

E por maiores são mais estimados:

Produzem-se nas praias copiosos,

E por isso os daqui mais procurados,

Cedem na vastidão à bananeira,

A qual cresce e produz desta maneira.

L

De uma lança ao tamanho se levanta,

Estúpeo e roliço o tronco tendo,

As lisas folhas têm grandeza tanta,

Que até mais de onze palmos vão crescendo:

Da raiz se lhe erige nova planta,

Que está o parto futuro prometendo,

E assim que o fruto lhe sazona e cresce,

Como das plantas víbora fenece.

LI

Os limões doces muito apetecidos

Estão Virgíneas tetas imitando,

E quando se vêem crespos e crescidos,

Vão as mãos curiosas incitando:

Em árvores copadas, que estendidos

Os galhos têm, e as ramas arrastando,

Se produzem as cidras amarelas,

Sendo tão presumidas como belas.

LII

A laranjeira tem no fruto louro

A imitação dos pomos de Atalanta,

E pela cor, que em si conserva de ouro,

Por isso estimação merece tanta:

Abre a romã da casca o seu tesouro,

Que do rubi a cor flamante espanta,

E quanto mais os bagos vai fendendo ,

Tanto vai mais formosa parecendo.

LIII

Os melões excelentes e olorosos

Fazem dos próprios ramos galaria .

Também estende os seus muito viçosos

A pevidosa e doce melancia:

Os figos de cor roxa graciosos

Poucos se logram, salvo se à porfia

Se defendem de que com os biquinhos

Os vão picando os leves passarinhos.

LIV

No ananás se vê como formada

Uma coroa de espinhos graciosa,

A superfície tendo matizada

Da cor, que Citeréia deu à rosa:

E sustentando a c'roa levantada

Junto co 'a vestidura decorosa,

Está mostrando tanta gravidade,

Que as frutas lhe tributam Majestade.

LV

Também entre as mais frutas as jaqueiras

Dão pelo tronco a jaca adocicada,

Que vindo lá de partes estrangeiras

Nesta Província é fruta desejada:

Não fiquem esquecidas as mangueiras,

Que dão a manga muito celebrada,

Pomo não só ao gosto delicioso,

Mas para o cheiro almíscar oloroso.

LVI

Inumeráveis são os cajus belos,

Que estão dando prazer por rubicundos ,

Na cor também há muitos amarelos,

E uns e outros ao gosto são jucundos ;

E só bastava para apetecê-los

Serem além de doces tão fecundos,

Que em si têm a Brasílica castanha

Mais saborosa que a que cria Espanha.

LVII

Os araçás diversos e silvestres,

Uns são pequenos, outros são maiores:

Oitis, cajás, pitangas, por agrestes,

Estimadas não são dos moradores:

Aos mar ' cujás chamar quero celestes,

Porque contêm no gosto tais primores,

Que se os Antigos na Ásia os encontraram,

Que era o néctar de Jove imaginaram.

LVIII

Outras frutas dissera , mas agora

Têm lugar os legumes saborosos,

Porém por não fazer nisto demora

Deixo esta explicação aos curiosos;

Mas, contudo, dizer quero por ora

Que produz esta Terra copiosos

Mandioca, inhames, favas e carás,

Batatas, milho, arroz e mangarás.

LIX

O arvoredo desta Ilha rica e bela

Em circuito toda a vai ornando,

De tal maneira, que só basta vê-la

Quando já está alegrias convidando:

Os passarinhos que se criam nela

De raminho em raminho andam cantando,

E nos bosques e brenhas não se engana

Quem exercita o oficio de Diana.

LX

Tem duas Freguesias muito extensas,

Das quais uma Matriz mais soberana

Se dedica ao Redentor, que a expensas

De seu Sangue remiu a prole humana;

E ainda que do tempo sinta ofensas

A devoção com ela não se engana,

Porque tem uma Imagem milagrosa

Da Santa Vera-Cruz para ditosa.

LXI

A Santo Amaro a outra se dedica,

A quem venerações o povo rende,

Sendo tão grande a Ilha Itaparica,

Que a uma só Paróquia não se estende:

Mas com estas Igrejas só não fica,

Porque Capelas muitas compreende ,

E nisto mostram seus habitadores

Como dos Santos são veneradores.

LXII

Dedica-se a primeira àquele Santo

Mártir, que em vivas chamas foi aflito,

E ao Tirano causou terror e espanto,

Quando por Cristo foi assado e frito.

Também não fique fora de meu canto

Uma, que se consagra a João bendito,

E outra (correndo a Costa para baixo)

Que à Senhora se dá do Bom Despacho.

LXIII

Outra a Antônio Santo e glorioso

Tem por seu Padroeiro e Advogado,

Está fundada num sitio delicioso,

Quer por esta Capela é mais amado.

Em um terreno alegre e gracioso

Outra se fabricou de muito agrado.

Das Mercês à Senhora verdadeira

É desta Capelinha a Padroeira.

LXIV

Também outra se vê, que é dedicada

À Senhora da penha milagrosa,

A qual airosamente situada

Está numa planície especiosa.

Uma também de São José chamada

Há nesta Ilha, por certo gloriosa,

Junta com outra de João, que sendo

Duas, se vai de todo engrandecendo.

LXV

Até aqui, Musa; não me é permitido

Que passe mais avante a veloz pena,

A minha Pátria tenho definido

Com esta descrição breve e pequena;

E se o tê -la tão pouco engrandecido

Não me louva, mas antes me condena,

Não usei termos de Poeta esperto,

Fui historiador em tudo certo.

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