Canto Sexto Eustachidos · Capítulo 7 de 9
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Canto Sexto

ARGUMENTO.

Como pelo triumpho conjégnido

. Euftachio recufaffe o facrificio

dos Deofes falfús, fendo conhecido%

Que de Chriftàofórtinha o exercido,

Sendo por muitas vezes combatido

Com todo o diabólica artificio,

Bile, a mulher, e os filhos padecer ao

O martírio, e as palmas mer ecerão,

CANTO SEXTO. I.

Epois do beneficio recebido

Graças côftumaõ dar íe dos humanos ,

Os Ghriftaõs ao fupremo, e naõ fingido ,

E outros a deofes falfos , e profanos }

Porque como lhes he bem fuccedido

Nos cafos, onde fe receaõ damnos,

Querem moftrar com facrificios gratos,

Que naõ incorrem no dezar de ingratos.

II.

Goftume he efte fanto, e muy louvável

Sempre feguido, e nunca defprefadó

Entre Orthodoxos, que np ineffáveL

Deos crem, que produzio todo o creado j

Pois he taõ certo* enunca duvidavel,

Que defta vida no decurfo, e eftado

Nada fe move, nada ie machina,

Sem que concorra a promiffaõ Divina*

.

III.

III.

Efta razaõ ao Emperador Tarjâno

Fez preparar as vi&imas, e ofertas*

Para ofFerecer agradecido, e humano

As Deidades , que julgava certas.

Mas eu para onde vou errado f e inían©

Por vias taõ occultas, taõ incertas,

Sem recorrer a vos Rainha Santa,

Sem cujo auxilio a minha voz naõ cantai

E fe atè agora, Virgem bella, e pura;

A meus principias tendes infpirado •

Ponde a ultima maõ neíèa pintura,

Para que o fim também feja acertado:

A vós me chego, e peíTo com ternura

Acabe bem, íe bem hey começado,

E naõ duvido polia alcançar iffo,

Se he para voz de agrado , e de íervigo*

O Emperador já tinha preparado

Quanto para a,função fe requeria,

E em fublime apparato, e levantado

A opulência Reyal fe defpendia:

De varias partes tinha convocado

Os Próceres com moftras de alegria,

E as Meíquitas, e Templos redundavaõ

Dos Principaes, que em Roma então íe achavaõ.

VI.

IV.

V.

CANTO VI.

VI.

Tyro Bombixe purpuras lhes dava

De tranfparentes, e diverfas cores,

E a fragante Arabia tributava

Ern confeiçoens de aromas feus licores

A Panchaya também naõ fe olvidava

De ofFerecer em copia os feus olores,

Naõ faltava de Ophir o metal louro ,

E o Potofly rendia o feu thefouro.

VII.

Ally das meyas Luas firme eftava

O roubador de Europa matizado,

E no cruento altar prezo halava

Do velocino de ouro o manfo gado:

De outra parte fe via, e fe moftrava

O animal cerdofo maniatado ,

E ardia em vafos de metal luftrofo

A maffa, de que fahe fumo olorofo*

VIII.

Mas como osfacrificios fefaziaõ

Pelos fuccefios fauftos, e ditofos, '

E mais, que a todos muito competia©

Aos que na guerra foraõ vi&oriofos

Alem dos outros todos, que aífiftiaõ,

Que na peleja foraõ mais famoíos,

Euftachio foy trazido, porque a gloria

Maior tinha alcançado na vi&oria.

. . * '

M IX.

IX.

Mandou Trajano, que por retufcf graças

Aos deofes offreceffe a!óes, e incenío,

Qje o tiiihaõ protegido das defgraças ,

Que traz da guerra o fogq acezo, e intenfô>

Que alcançaria roais por eílas traças

Favor de Jano, é Miarte, e tódo o immenío*

Infinito pcoceflo de imbufteiras

Deidades, que elles julgaõ verdadeiras.

Mas o Santo Vara, que íegregadt^

Eílava da perverfa idolatria,

E fe tinha a De os único entregado ,

O que inda em Roma naõ fe conhecia^

Lhe refpondeo alegre , e focegado,

Que malefício tal nunca faria ,

Como era venerar por íoberánòS

Mentidos deofes, torpes, e profanos*

Entaõ grandè tumulfõ^ ié gritáfià .

Se nioveo entreps povos, que ally eftavao,

E o colérico farfguê lhes fèrviá

Contra Euftachio, q^® a pouco tanto amava©

Já cnda qual por íi logp queria

Enfanguentar as maçs no que julgavaõ

Por rebelde, e Âpoftata da feita ,

Que tinhaõ para fi por mais perfeita.

X.

XI.

XII.

CANTO VI.

XII.

Mas como efte negocio era importante^

E de taõ ruidola conlequencia,

De que pairar podia mais avante

De íeus mentidos deofes a jndecencia^

E alem difto íe achava ajiv diante

A refpeitiva, e Reyaí magnificência ,

Quizeraõ, que Traja no fó a juigaíle,

Eem publico theatro o caftigaífe.

O Emperador do rofto a cor mudando

Pelos olhos faifças difparaya,

E incêndios pelos lábios eícumando ,

Os mordia cos dentes, que trincava,

Virou o rofto pallido, e apertando

As maõs, que com as unhas belifcava,

Fez com o pé eftrondo taõ violento,

Que tremeo da Melquita o pavimento»

Dizer palavra alguma naõ ouzava

De iracundo, turbado, e impaciente,

E flu£tuando em iras íoçobrava

Em colérico mar de fúria ardente:

Pela razaõ pollitica julgava,

Que fora injuria, e acçaõ muito indecente

Ter profanado-Euftachio as Deidades?,Sem obfervar reípeifò':ts; Májdlâdes;'

M

XIII.

XIV.

XV.

No mefmo tempoos filhos* eacon forte

De Euftachio, que aILy~eAavaÕ.jtf prefente%

Com animo viril) e esforço forte

Defprezaraõ-osdeofesinfolenjtes ^

E todos juntos, para a dura. morte,

loraõ deitados pelos delinquentes

Miniftrosaos cruéis , e tragadores*.

AniiaaesT cjfè alimenta os cruqres*:

XVII.

Mas os vorazes» brutos, q^e olvidavacfe

A fua natural ^rooidade,

Com maníidaô alegre os feílejàvao

A feu modo com mofíras de amizade J

E os Algozes infames* que efperavaá

Ver neltea a nativa feridade,

Se afíombráraõ deqpe naõ carniceiros*

pareciaõ fer manfos cordeiros»

XI.

XVIII.

XVI.

Mas tantov qx*e o furor^ ea tia brava *

For ao do moto prjma deíiftidos,

E já a tremula voz fe deíatava*

Pas prizoens .am que, eífevaõ ps fentidos f

Mandou com furia horrenda,,que allòmbrav&

Aos Mimftros íamfeem enfurecidos,

Que logo em vitupérios o lançaíTem

Aos ferozes Leoens, que. o-devoraíTera^

CANTO VI.

XVIII.

Qual o Eropheta Santo, que lançado

F.oy por orar a Deos Omnipotente

No .-logo d.os Leoeas*a-fer tragado.*.

Por mandado dt> Rey inconfidente

Mas fahio delles livre, e bem tratado,.

Quando o efperavaõ morto vorazpjente,.

Tal Euflachio cos mais ficou izento*

Do Leonino furor,, & truculento* .

XIX.

Tbdos os qcie prefentes ifto vi ao

Attonitos, fufpenfos, e pafmados ^

Erradamente íegos conferiam

Na caufa de naõ ferem devorados:;

A magica fciencia attribuiaõ .

Alguns, e outros votavaõ* que untados

Eftavaô de hum licor de fympatia,

Que dos Leosns a ira reprimia»

XX.

O Ernperador Tfajano, que mais brando,

Vendo a prodígio, eftava dos furores,

A Euflrachio reduzir imaginando

ÍMaiscom afFagos doces, que rigores,

E juntamente vivo defejando

Hum Heros de tais prendas , e primores*

A diftancia trazido, que o ouvifle

Góm voz piedofa, emanfa aílim lhe diffe:

XXI.

XXI.

Euftachio, Euftachio amigo, quem diflera

Que te havia de ver em taleííado,

E que a defgraça tao infame, e fera

Te houvede de trazer o teu peccado?

Qyern algumdia imaginara, ou crera,

Que hum valente, e fortiffimo foi dado,

Que tantos captivou na guerra dura

Se deixaífe vencer de huma loucura,

XXII.

Que eftulticia te offende o entendimento l

Ou que inconftancia heeffa da vontade ,

Que te obriga a feguir finiftro intento

Infano, e cego em huma efcuridade?

Errado, errado vás no penfamento .

Perdida do juizo a claridade,

Pois tens por Deos fuprerao venerado

Hum homem, que niorreò crucificado*

E fe atè agora os teus A&íepaflados/

Viverão lempre na Romana ifeita ,

Porque de juizo inteiro bem dotado^

Acháraõ, que era boa, e tao perfeitav

Como a força de cruéis.* e iníquos faetót'

A tua indifcriçao.-agora aengeita?

Se hes nobre como '-deixas a teqáèita

Da tua illuftfe, e honrada par^ntelk?

XXIII.

XXIV.

CANTO VI.

XXIV.

EfTe , que tu Deos único eonfeffiis

( Pois tudo affirma aquelle, que he demente

li como tens moftradq, nunca cèflaâ.

De o confeíTar Senhor Omnipotente,

Se hepoderofo, como agora delias

Prizoens naõ pédea, quente livre , e izente,

E fe Deos he dos homens cõndemnado

Gomo íbffreo, i fer vituperado ?

Se já te tetfi moflradoaexperiencsa,

Que nos futurôs cafos contingentes

Os no fios deofes fabios com k iencia

As noticias nos moftraõ competentes,

Como fe atrève a tua vã demência

A dizer, quefàÕ falfòs, e infòlentes,

Naõ vês , que quem he Deos por natureza

Do que hade vir fó pôde ter certeza ?

. XXVII.

Que o propo Ifito mudes te aconfelhò ,

Tendo todo o Ghriftaõ por inimigo,

Porque fegundo logo o teu confelhò

Gs filhos, e a conforte hiraõ comtigo^;

E eu por paga de tudo te aparelho,

A'lem de te eftimar fiel amigo ,

Para que vivas com fuma opulênciaA minha Imperial magaificencia

XXVII.

XXV.

XXVII.

Porém fe contumaz, e rebellado

Tua fobrada infania defenderes ,

E a ley doque morreo crucificado,

A nofla defprezando, amar quizeres,*

Adverte, que tenho aparelhado

Para penares, e ao depois morreres ,

Hum exquifito, e máximo tormento,

O mais íènfivel, forte,, e mais violento»

XXVIII.

Ceifou, di&o ifto, o Emperador profano £

E Euftachio refpondeo muy focegacio ,

Falias aífim , facrilego Trajano,

Porque eftás do juízo haliucinado:

Naõ me trates por louco, e por infano ;

Sendo tu o que es cego, o que es errado,'

Porém fehe tua, ou minha efta deraencia

Hafde ter aígum dia experiencia.

XXIX.

Abre os olhos, que a tanto os tens cerrado

Sahe defle cháos , aonde eftás mettido,

Labyrintho, em que vives intrincado,

Abifmo de cegueiras taõ tecido

E fe quizeres fer allumiado

Naõ tens mais , que applicares o fentido,

Que a tua ley he tal ( como npparece )

Q|je a olhos viíh falfa fe corihe ce.

XXX.

CANTO VI.

XXX.

Se èftranhas o morrer crucificado

O Deos, de quem aley venero, e figo

IíTo caufou dos homens opeccado,

Que origem teve do vedado figo:

Quiz como compaílivoaííim tratado

Ser por livrarnos do infernal perigo,

Ecomo amante deo-nos por fineza,

Communicar íe à noíTa natureza.

XXXI.

E fe meus pays viveraõ fubmergidos

Na tua infame, e torpe idolatria ,

Bem que mepeza, pois foraõ perdidos

E eftaõ foífrendo penas, e agonia,

Nefta parte naõ podem fer feguidos,

Que a verdadeira luz a mim me guia,

Nas mais acçoens condignas de louvores

Nunca degenerey de feus primores.

XXXII.

E fe neftas prifoens me tens atado,

He porque para mais merecimento

Do meu Deos, que morreo crucificado

Heide feguir os pados , e o tormento:

Nem cuides, que naõ poflo fer livrado

E^erme delias foJto em hum momento,

Cujo exemplo cotnmigo viftes quando

Das féras o furor fe tornou brando.

N

XXXIII.

XXXIII.

Nem te leves das vozes ruidofas ,

Que dentro dos teus ídolos dimanaõ,

Dosdemonios faõ todas , e enganofas,,

Qiie para a eterna perdição te damnaõ :;

Se acontecido tenT, que mentirofas

Nao faõ em caíbs poucos , nem enganaõ

He porque por diícurfo o conhecerão,

Porque a fciencia infufa naõ perderão*.

Aprovei ta* te pois , cego Tra}am>>.,

Antes, que oefpiritofeparado /eja,

Adverte Emperador, que naõ te engano

Gomo quem todo o benv fó te defeja :

Quando naõ para teu Inferno, e damno ,

Onde o pezar, e a dor fempre fobeja,

Serás atormentado eternamente

Como perverto, infame * e delinquente*

Nem cuides tenho medo a algum tormento

Que em todos quero entrar corn alegria ,

Ainda que íeja o mais íanguinolento,

Qae inventar poíTá a humana tyrannia :

Imita muito embora o que o cruento

Hetrurio Mezeneio lá fazia,

Diomedes vence no rigor infano ,

Moílrar^te que Bufiris mais tyranno»

XXXIV.

XXXV.

XXXVI.

CANTO VI.

XXXVI.

Aífitn fallava Euftachio confentindo

Os filhos, e a conforte com firmeza,

Porém Trajano de furor bramindo

Largou todas as rédeas à braveza :

Sempre o efteve conftrangido ouvindo.

Mas agora notando a inteireza

Das razoens com que intrépido fallava,

Com as maõs os ouvidos foffocava.

XXXVII.

Qual Afpid peftilente, e venenofo,

De tanta aftucia, ede malicia tanta,

Que os ouvidos naõ abre cautelofo,

Por naõ ouvirofom do que o encanta;

Tal o infame Emperador manhofo,

A quem a voz do Ceo turba, e efpanta,

Naõ quiz ouvir, e recuzou malino

Orelhas dar ao Encantador Divino.

XXXVIII.

E impaciente vendo naõ podia

Por rigor reduzillo , ou por brandura,

E que Euftachio taõ livre refpondia,

Sem attender ao medo , ou à ternura:

E juntamente o povo lhe pedia ,

Que o deftinaíle logo à morte dura

junto cos mais, que em tudo o acompannavao,

E a Ley de Chrifto fortes confeflavaõ.

r N xxxix. \ \

XXXIX.

Aos Mmiftros mnndôu deféu contento*

Verdugos ínfernaes-, que o fangue humano

Tem par officio derramar cruento >

Com Bárbaro rigor-,' e deshumano ,

Que encerra íiem--m Santos no Tormento

Qje intentar mandou-Phaiaris íyfanno,

Do qual experíencia fez prinieiro

O ArchiteClor , que delle foy obreiro*

AI!y cantando a Deos fuaves hyninosCom vos alegrei clara , e fonoroía,

Entre louvores íantos, e divinos .

Acabáraõ a vida gjoriofa :

Seus corpos faõs, e muito crvflaltinos»

Sem que fe vide macula nojofa

De algum Chriftaos dallv forao levados:

E em lugares decentes coilocados.

XLI.

XL.

A cada qual primeiro fe apreílarací

Obedecendo ao mando mais:feríno ,

E de Vulcano as chamrnas preparáraõ*

Para aquentar o boy de metal fino:

Aos Martyres ditofos encerráraõ,

Dentro no ventre Orgânico * e Taurino $

De cujo centro opaco, curvo , e bronco

Todo o gemido fahe bramido ronco.

XLII.

CANTO VI.

XLII.

Santos bemditos, que também foubeftes

Deíprezar efta vida íó de enganos,

E com valor heroyco padeceíles

Penas tantas , tormentos too tyrannos,

Aquilio, que no Mundo cá fizeíks

Hade lembrar atà o fim dòs annos,,

Nem as volTas virtudes efquecidas

Ficarão , mas em bronzes eículpjdas*

XLIII.

Lá neíTe Ethereo aílento, a que íubiftes >

Gafa de Deos! aos juãos íó condina. ,

Onde por voílbs méritos-poffulítes .

Da Beata vifaõ clara , e Divina ,

Intercedey vos pelTo pelos triftes

Peccadores íubmerfos na carina

De tantos vicios torpes, e Mundanos ,,

Que fo navegap para eternos damnos*

XLIV.

E em beneficio de vos ter cantado

Volías virtudes com affe£to ardente.

Se naõ quanto pedia o fublimsdo

Objeéío, quanto pode a rude mente,

E que me tenhais vos rogo por lembrado

Lá diante de Deos pio, e clemente, ,

Para que alcance a defejada íórte

No artigo final de minha morte».

XLV.

XLV.

Olhay, que vivo nefte Labyrintho,

Mundano nbyímo prezo , e enredado;

Continuamente denegrido, e tinto

Çom as enormes manchas do peccado:

Nem., Santos meus gloriofos, em mim finto

Hum efpirito forte , e agigantado,

Para que fuja de qualquer perigo

Das enganofas manhas do inimigo.

LXVI.

E vós minha Advogada, e Padroeira-,

Que os fervos voflos tendes amparado,

bípero, que feiais minha Terceira

Para com voílo Filho, e Deos amado;

Porque aflim acabada efta carreira,

Quando o corpo for da alma feparado,

Polia, tendo huma em vós firme efperatiça;

Chegar ao porto com feliz bonança.

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