Observação Amor de Salvação · Capítulo 2 de 25
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Observação

OBSERVAÇÃO

O leitor folheia duzentas páginas deste livro, e o amor de felicidade e bom exemplo não se lhe depara, ou vagamente lhe preluz. Três partes do romance narram desventuras do amor de desgraça e mau exemplo. A crítica, superintendente em matéria de títulos de obras, querendo abater-se a esquadrinhar a legitimidade do titulo desta, pode embicar, e ponderar — que o amor puro, o amor de salvação vem tarde para desvanecer as impressões do amor impuro, do amor infesto.

Respondo humildemente:

Amor de salvação, em muitos casos obscuros, é o amor que excrucia e desonra. Então é que o senso íntimo amostra ao coração a sua ignomínia e miséria. A consciência regenera-se, e o coração, reabilitado, avigora-se para o amor impoluto e honroso. Assim é que as enseadas serenas estão para além das vagas montuosas, que lá cospem o náufrago aferrado à sua tábua. Sem o impulso da tormenta, o náufrago pereceria no mar alto. Foi a tempestade que o salvou.

Além de que a felicidade, como história, escreve-se em poucas páginas; é idílio de curto fôlego: no sentir intraduzível da consciência é que ela encerra epopeas infinitas; — enquanto que a desgraça não demarca balizas à experiência nem à imaginação.

Para o amor maldito, duzentas páginas: para o amor de salvação as poucas restantes do livro. Volume, que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas, seria uma fábula.

O AUTOR.

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