Capítulo XIV
No mesmo dia, um deputado chegado do Minho, entregou a Afonso uma carta de sua mãe, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruivães felicitava o filho por saber que ele procurava os passatempos da capital, admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para que eles se não derrancassem em flagelos da consciência, e infâmia. Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se não esquecesse dela, e fosse fiel à promessa de estimal-a como irmã.
O deputado bracharense era sujeito que sabia as coisas para as dizer, e saltava a quatro pés por cima disto que chamam delicadeza em assumptos de coração.
Pelo que, o expansivo deputado falou assim a Afonso:
— Ainda me lembro de v. exc. ª, quando rapazola estudava retorica em Braga. Está certo de ser agarrado pelo regedor, quando foi às Ursulinas atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua mãe, lhe vali no processo instaurado.
— Não sabia — atalhou Afonso — Aproveito a oportunidade para agradecer a v. exc. ª...
— Não tem de que. Mas, com efeito — volveu o deputado, a rir de esperto — olhe v. exc. ª o que fazem mulheres... ou mulherinhas... porque a final a morgadinha da Fervença acanalhou-se até ir casar com um bruto de Tibães... Soube isto v. exc. ª?
— Perfeitamente. Era impossível que eu o não soubesse... — respondeu atentamente Afonso.
— Eu conheço Eleutério Romão dos Santos — continuou o informador — O homem torce as grandes orelhas que tem, porque ela tem-lhe feito dar a água pela barbela. V. exc. ª há de saber isto...
— Não sei senão que Teodora é mulher de Eleutério.
— Então eu lhe conto. A rapariga tem figados, e ninguém o dirá vendo aquela lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em casa, e se viu com o sogro Romão e com a sogra Eleutéria deu ao diabo a cardada, pôs-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus quartos à moderna. O Eleutério quis reguingar-lhe; mas ela, às primeiras testilhas, falou em divorcio, ou coisa pior ainda, que era, pelos modos, fugir de casa, e procurar v. exc. ª O marido pôs as mãos na cabeça, quando ouviu falar em divorcio. A fortuna ali é quase toda de Teodora. Se ela se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que preparou semelhante desgraça de casamento, dava um estouro. Começaram a fazer-lhe todas as vontades à moça. Para que lhe há de ela dar? Imagine lá v. exc. ª para que lhe deu na veneta?
— Eu sei cá... — disse anhelante de curiosidade Afonso.
— Fez-se doutora!... Mandou comprar dois carros de livros ao Porto; fechou-se no seu escritório, que parecia uma livraria de convento, e começou a ler de noite e de dia. Lá de dia passe; mas de noite, dava isso que pensar a Eleutério casado à face da igreja, e dono da mulher pelos seus justos cabais. Passado tempo, deu-lhe outra mania: fez-se cavaleira, e rompia a galope pelo campo de Santa Ana em Braga, a levantar poeira que parecia um esquadrão de cavalaria! Não parou ainda aqui o desarranjo daquela cabeça! Tomou lacaio, deu-lhe libré avivada de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em correrias de douda. Uma hora viam-na em Landim, outr'ora em Santo Tirso, depois em Lessa de Palmeira... Que novidades lhe estou contando!... — concluiu sorrindo o narrador.
— E do procedimento dela que se dizia? — atalhou Afonso, vivamente empenhado nas revelações do chaníssimo legislador.
— Do procedimento dela a que respeito? — perguntou o deputado, com suspeitoso sorriso.
— Amantes, quero dizer se a opinião publica lhe dava amantes.
— Eu lhe digo: quando v. exc. ª estava em Lessa com sua mãe, e a morgada lá foi com o marido, alguém disse que o marido era um simplório. Ora isto parece-me que alguma coisa queria dizer...
O deputado espirrou uma risada de finura velhaca, e ajuntou:
— Depois, quando v. exc. ª esteve em Ruivães uma temporada, e Teodora saía para aqueles lados, já todo o bicho careta dizia que o adultério estava provado por todos os artigos do código, e por mais alguns que esqueceram aos corpos legisladores.
Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de agudeza muito mais faceta. Afonso sorriu-se, e deixou-o esvasiar a pojadura da verbosidade chula.
— Não se fala por lá de mais ninguém que eu saiba — tornou o deputado — Mas o marido! aquele palerma, que lhe não vai à mão, e a deixa andar em filistrias de cavalo e lacaio, faz-me pena, sinceramente lho digo, porque houve alguém que me afirmou que a mulher, quando está fechada na livraria, não o admite à sua presença, e até me disseram que ela passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo: aquele marido está numa posição crítica, matrimonialmente falando. Parece-lhe isso, Sr.. Afonso?
Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha ideia oculta, a meu ver, inconciliável com o comedimento desejável numa pessoa grave... de mais a mais deputado a cortes!
— E como está ela? — perguntou Afonso — Ainda é bonita?
— Agora é que ela está completa. Encheu muito de ombros, e tudo à proporção. Está muito alta, e esvelta, que parece inglesa. E o garbo com que ela sacode um cavalo... V. exc. ª está a mangar comigo? — perguntou de súbito o deputado, após um instante de reflexivo silencio?
— Se estou a mangar com v. exc. ª?! que pergunta!
— Sim! pois o Sr.. Afonso vem-me perguntar a mim se ela está bonita?! Quem sabe melhor que v. exc. ª como ela está?!... Ora, meu amigo, vá contar essas historias aos da Lourinhã. Cá para mim vem barrado!
— Dou-lhe palavra de honra — redarguiu Afonso — que a minha pergunta foi sincera. Eu vi Teodora; mas tão de relance, que não pude reparar-lhe nas feições.
— A sua palavra de honra tem para mim o peso de um Evangelho, — tornou gravemente o cavalheiro de Braga. — Pois, senhor, o mundo está enganado. A voz geral dá v. exc. ª como amante de Teodora. Eu não me atrevia a dizer-lho tanto às escancaras; porém, chegadas as coisas a este ponto, fique sabendo que ninguém acredita na sua inocência, excepto o Eleutério, que é muito bom homem.
É escusado dizer que o individuo riu de novo, esfregou as mãos, e exclamou abruptamente aguilhoado pelo instinto oratório:
— Ainda há quem case! Ainda há vítimas que espontaneamente se ofereçam no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguém pode sinceramente dizer que conhece seu pai. Os assentos dos baptismos estão todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos, vai ser tirado do catecismo. Vem aí um tempo em que o artigo da lei santa há de ser assim reformado: «Não desejarás a tua mulher para não incomodar os direitos do próximo! » Onde irá isto assim parar, Sr.. Afonso de Teive?
O deputado entre serio e risonho, prolongou por três quartos de hora, em estilo declamativo, um aranzel de lugares-comuns, entremeado de pilherias, com referencia à degeneração da sociedade, no capítulo casamento. Afonso achava picante de grosso sal a iracúndia cômica do legislador, e estimulava-lhe a veia. A final o deputado, contente de si, foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser ele o predestinado para levantar voz no parlamento decretando a moralisação das famílias.
Afonso ficou pensativo. As revelações lisongeavam-no. O odioso do caráter de Teodora desvaneceu-lh'o a impressão já majestosa, já condolente do viver da morgada. Uma sublime desgraçada! — dizia ele consigo — Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime das criaturas!
E, trabalhado por esta ideia que pertinazmente lhe martelou no animo, Afonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã daquele dia. Queria relê-la, metê-la a beijos na retentiva do coração!
À noite foi ao teatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de Noronha. Versou a pratica sobre o aceitar benignamente os acometimentos de Teodora. D. José mostrava-se já enfastiado da imbecilidade moral do seu amigo, e, por tanto lhe pedia, que de todo em todo esquecesse a mulher, e se portasse como rapaz de certa ordem; ou obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem fosse.
nesta mesma noite, o moço, vencido a final pela irresistivel necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada carta. Principiava nas recordações da infância de ambos: devia de ser alta e amorável poesia, como o coração a trasborda, se de um ponto negro da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no pélago da luz, que mais não há de raiar em nossos dias. Tristeza mais que todas magoativa!
Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena florescência, com os seus desejos balbuciados em frases todas alma e enleio, dulcíssima linguagem, que era ainda a das quimeras pueris, mal desvanecidas no trajeto da infância à adolescência. Poesia ainda, flor sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar em lágrimas, de onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe há de extirpar a raiz.
Seguia-se o recordar as dores atrozes do abandono dela, quando o moço em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirára aos braços da morte, aceitando o inferno, se o lembrar-se o condenado da mulher que amou na terra, não era lá o máximo tormento.
A final, após os queixumes, subia-lhe do coração aos olhos numa lagrima o perdão. Perdão e amor: que não há aí, em alma humana, perdoar ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas esquecer é desprezo, não é perdão.
Escrita e fechada a carta, sobreesteve Afonso no remetê-la. Acaso iria ela, sem desvio, às mãos de Teodora? As injustas suspeitas não poderiam ter Eleutério de sobre-aviso? E, de mais, reatadas as ligações de estima, iria Afonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e sustentaria ali o cortejo à mulher casada?
Estes quesitos falavam à razão; porém, a pobrezinha da razão, estava já escondida na consciência, e a consciência ensurdecera com a guisalhada do baile carnavalesco em que seu dono a mandara estudar os costumes do seu tempo.
Foi a carta com direção a Braga. Era dia de feira quando ela chegou ao correio: estava ali o marido de Teodora vendendo cereais. Foi à lista postal ver se seu pai tinha carta de parentes do Brasil; e, como não se entendia bem com os nomes maiores de três sílabas, pediu que lhe lessem a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a Teodora Palmira Villar de Sousa, exclamou Eleutério:
— É a minha mulher! Há de ser carta do livreiro.
Convém saber que a morgada se entendia diretamente com os seus livreiros fornecedores.
Eleutério foi tirar a carta, e deu-lhe nos olhos, afora o lustre do sobre-escrito, o lacre azul fechado com armas, e, mais que tudo, a marca de Lisboa.
Não me atrevo a compôr o soliloquio de Eleutério Romão. Sei que ele andava com a carta às voltas, entre mãos, e às vezes esfregava entre dois dedos o papel, como se pelo tacto pudesse inferir do conteúdo. Estava com ele o regedor da sua freguesia, o mesmo que lera a lista, e lhe lia na alma agora.
— Que estás a malucar, Eleutério? — disse ele — A modo que essa carta te deu no goto!...
— A falar a verdade — respondeu o marido de Teodora — esta letra não na conheço, nem estas armas reais!... Minha mulher não conhece ninguém em Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.
— É como diz: Lisboa, sem tirar nem pôr. E então?... achas que ela...
— Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?
— Eu cá, se fosse comigo, já a carta estava aberta. Mulher minha a ter cartas, sem eu saber de quem!... Deus me defenda!
Palavras mal eram ditas, que Eleutério quebrou o lacre, e passou a carta ao regedor, dizendo:
— Lê lá... ela é tamanha! parece uma sentença!... Vamos ver isso, que eu já me não sinto escorreito.
O regedor tomou o manuscrito de oito páginas entre as mãos, pôs-se em atitude abrindo as pernas em circumflexo, tossiu, tomou fôlego, deu crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: «de onde vem esta celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o céu me bafejava a infância, e as delicias todas da existência me eram prenunciadas nos sonhos?... »
O regedor revirou os olhos pasmados a Eleutério, e disse:
— Tu percebeste isto, compadre?
— Assim me Deus salve, que não percebi palavra, — respondeu Eleutério Romão esbugalhando os olhos sobre a escrita cabalística.
— Português acho que é! — tornou o regedor, consultando a opinião do compadre.
— Isso é, lá português é... Ora torna a dizer.
O leitor repetiu, e disse:
— Fala aqui em alma, e sonhos, e delicias. Sabes que mais? Isto, seja lá o que for, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdoe, há maroteira daquela casta!... Deixa-me ver mais um bocado a ver se pesco alguma coisa. E, continuando, leu:
«Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lucida da filha da minha alma! volvei, volvei, orvalhai a flor requeimada, dai uma lufada de primavera ao meu coração regelado pelos frios desta infinda noite... Oh minhas donosissimas quimeras!... »
— E agora entendeste? — voltou o regedor — eu estou como a Felícia de Abrantes, pior que de antes. Isto se não é latim, é o diabo por ele!
— Queres tu que se pergunte a alguém!? — acudiu Eleutério — A gente há de achar quem lhe explique isto cá em Braga... Fala-se aí a um padre que eu conheço, ao capelão das Ursulinas.
— Dizes bem... Tu não hás de ir para casa sem tirar isto a limpo... Queres tu ver que aí vem o homem que nos explica o negocio? — perguntou o magistrado administrativo — É meu compadre Fernão de Fonte Boa.
Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte-Boa, por ser lá o seu morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço dele, com doentio aspecto.
O regedor descobriu de longe a cabeça, e saiu ao encontro de Fernão, que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.
— Que é feito de ti, compadre, que te não vejo há cem anos? — disse o velho — Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em fabricar deputados, e comer os salpicões dos recrutas passados pela malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o posto de capitão-mór, que jeito para comer os saudosos lombos tens tu. Então que é feito, rapaz? quem é aquele outro? Se me não engano, é o Eleutério do Romão.
— Para servir a v. exc. ª — disse Eleutério com três mesuras de cabeça exageradas — Sou eu para servir a v. exc. ª
Fernão inclinou um olhar irônico sobre o ombro da filha, e disse com um mal represo frouxo de riso:
— Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.
Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito, e baixou os olhos com gesto de notável comoção.
E o regedor tirando a carta da algibeira, disse:
— Eu queria consultar o meu excelentíssimo compadre a troco de uma carta que nem eu nem meu compadre Eleutério entendemos. A gente, como o outro que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assigna o seu nome. O caso é este: aqui o compadre achou no correio esta carta p'rá mulher. Teve lá seus arrepios, e abriu-a. Começamos a ler, mas nem pra traz nem pra diante. As palavras parecem portuguezas, acho eu; mas nós não sabemos o que elas rezam. Se o senhor compadre fizesse favor de ler isto...
Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando sentiu extraordinário peso no braço esquerdo, olhou em sobresalto, e viu Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-a, e ela, expedindo uns agudos soluços, quis em vão pendurar-se do pescoço do pai. Tomou-a o velho nos braços com tremente ansiedade, e transportou-a para dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.
O regedor e Eleutério seguiram Fernão, aflitos do sucesso. Na mão do regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do acidente, olhou machinalmente para o papel, e teve um repelão intuitivo, sem ainda o comprehender.
Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de arremesso o papel ao chão, e disse:
— Deixem-me... não sei o que é... Vão-se embora...
Os homens iam sair, quando ele os chamou com frenesi, pediu a carta, e desfê-la em pedacinhos, exclamando:
— Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.
Eleutério estava assombrado, e o compadre abria e fechava a boca em sinal do seu espanto e compaixão. Em boa fé, o regedor acreditou atacado de demência o velho, ao ver a filha em trances de morte. Afastaram-se em consultas, dando cada qual sua razão do caso, bem que Eleutério ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.
Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pai, e murmurou mui carinhosa:
— Perdoe-me, por quem é! Perdoe esta fraqueza da sua infeliz filha!
— Pobre anjo — balbuciou o velho — Que hás de tu fazer-lhe? Deus mandou-te aquele desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas mãos. Precisavas disto, para em fim te convenceres.
Mafalda pediu ao pai que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou ao altar do Senhor dos aflitos, chorou, e viu as lágrimas do velho ajoelhado à beira de ela. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:
— Estou melhor, meu pai. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem mesmo aos culpados... Também orei pelo primo Afonso.
— Eu não orei — disse o pai — mas rasguei o documento de sua infâmia.