Capítulo VIII Amor de Salvação · Capítulo 10 de 25
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Capítulo VIII

As filhas do desembargador Figueirôa rodeavam o primo Afonso de agrados, de gozos familiares, e recreios, tendendo tudo a divertil-o de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão, pedia-lhe que se descuidasse em matéria de estudos, e tomasse muito a peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ela houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda para a idade de Afonso. Bailes e teatros atediavam-no só em cuidar que havia de ir afrontar-se com centenares de mulheres entre as quais nem sequer em sombra se lhe oferecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Teodora. O pudor dos dezessete anos, a índole nada comunicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprára-lhe o tio, por ordem de sua irmã, um cavalo. Afonso recebeu a dadiva com satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade, e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limítrofes de Lisboa.

O local mais atrativo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Belas. Desde o reinado de el-rei D. Manoel que as gigantes árvores daquela majestosa ancian estavam frondeando, e asilando as gerações de aves, como para alegrarem com suas musicas, e gasalharem com suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por ali as horas lhe corriam plácidas, contentes nunca, bem que a tristeza de entre arvoredos, ao murmuroso cair de água em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das breves e donosas verduras da vida.

De cada vez que Afonso ia à quinta predileta, em cada árvore nova entalhava as letras iniciais dos dois nomes, que ele imaginava, apesar da distancia e dos revezes, atados para sempre com aplauso de Deus. Este pagão de amor e por amor, à imitação de todos os amadores visionários, cuidava que a divindade se intromete nestas brincadeiras da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta, e lá se atira em corpo, deixando cá fora a alma infernada na desonra e na execração. E querem os pobresinhos, com o peito aberto ao abutre de suas quimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!...

E Afonso, escondido nas sombras escuras de Belas, chorava por Teodora, e, alteando o rosto ao céu, pedia ao Senhor que lhe visse as lágrimas, e houvesse piedade de elas.

O desembargador inquietava-se com as longas ausências do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia à aldeia a conversar com árvores e penedos, e deixava suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. nestes queixumes das gentis meninas, transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer de elas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Afonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da órfã das Ursulinas, se pudesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãosinhos do incenso de Teodora, não faria menos que odial-as. Estes escrúpulos são a religião, o ascetismo dos iluminados de amor, iluminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta anos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos também iluminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados neste lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos ver na superfície lamacenta e torva espelharem-se as estrelas do céu da nossa mocidade!

Afonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado às tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quisera para si. É o que Afonso pensava do silencio da mãe, e das reflexões do velho.

Estava, uma tarde de Agosto, Afonso em Belas. Desde o dia anterior que não voltara a Lisboa. O tio, como ele não voltasse ao segundo dia, meteu-se à sua carruagem, e foi procurá-lo, e entregar-lhe cartas recebidas do norte. Uma era de sua mãe, outra de um seu tio paterno, fidalgo de Barcelos, o mais acérrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Corrêa Figueirôa, com uma mulher da Fervença, que, dizia ele, por nome não perca.

A carta da mãe dizia simplesmente:

«Não era digna de ti, meu filho, Deus bem mo tinha dito, e o coração estalava-me em ânsia de to dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar. » E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.

A carta de Fernão de Teive era mais prolixa versando quase toda sobre o casamento de Teodora com Eleutério.

Parecem-me dignos de extracto uns relanços desta carta, que eu copiei do original. Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estilo picaresco do folhetim:

«....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as éguas de albardão e rabicho na parte equestre do préstito, que era luzido, porque os arreios brilhavam, principalmente as barbelas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirára bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara relambória, levava ares fulos; e procurava as estrelas ao pino do meio dia, pasmada de ver que elas não vinham à janela admiral-a. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus, e parabéns aos nossos antepassados!.......................................................................................................................................

«Perguntei quem eram os figurões do préstito. O meu sapateiro conhecia quatro. Varreram-se-me da memoria os nomes, e só me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum à saúde da noiva. O lapuz do noivo queria montar à Marialva; mas o ginete, quando chegou à Cárcova, festejou a suciata com quatro couces que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ela há de levar do marido..........................................................................................................

«Tinhas a corte celestial a pedir por ti, Afonso! Quando te deu na veneta ser marido de Teodora, enquanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sábia. Vai às arcadas do Terreiro do Paço, que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Teodora por Teodora, antes a do papel de mata-borrão, que est'outra é um borrão da tua mocidade, que felizmente o tempo há de gastar...................................................................................................

«Agora é tempo de te dizer que tens uma prima, e eu tenho uma filha. Se a queres esposar, vem quando estiveres farto da capital. Está senhora, e foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pai, Mafalda parece-me gentil e esvelta. Em palavras é discreta como se os cabelos, em vez de puro ouro, lhos tivesse embranquecido a experiência. Em ações creio que nenhuma ainda praticou de que me não deva honrar, e bemdizer a mãe que a educou, e o sangue ilustre que lhe forma o coração.

«Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras de uma mocidade bem encaminhada, e recebe a benção de teu tio

Fernão de Teive. »

Lidas estas cartas, Afonso levou o lenço ao suor da testa e às lágrimas, que lhe caíram a quatro. O tio, já avisado do sucesso de Braga, discursou largamente de pitada no dedo, e os óculos montados na mais grave das atitudes. Afonso diz que o não ouvira longo tempo, e o abominára depois que o ouvira.

Quisera o desembargador leval-o consigo na traquitana; mas o moço rebelou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da pertinácia do sobrinho em ficar, terceira noite, fora de casa. Afonso internou-se de corrida entre o arvoredo, num impeto de desesperação ou loucura. O magistrado deixou-o, e foi para Lisboa, de onde participou à irmã o resultado das cartas, e aproveitou o ensejo para vaticinar que Afonso ia caminho da demência a passos de gigante.

Disse-me Afonso que, em aquela noite, fora ter a Mafra; e repousára, na madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do sol, quis agitar-se em nova caminhada; mas o cavalo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassível à espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Afonso. A mais trágica desventura tem uma fisionomia cômica, se bem lha procuramos. Escusável seria o riso de quem observasse o cavaleiro, roxo de febre e cólera, esporeando os ilhais do esbuxado cavalo, decepado de jejuns, e correrias árabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer pode questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade!

Enquanto o cavalo reparava as forças na manjadoura, Afonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Teodora. Escreveu também ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.

Feito o propósito de viajar, o frenesi descaiu em sombria, mas serena tristeza.

O céu negro abria-se-lhe, a instantes, em relâmpagos de luz. Atirava ele com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineável, e retrahia-se com ela a uns rápidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas dos dezoito anos! Viajar era-lhe já uma ânsia; cria-se resgatado assim das penas, e só assim que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.

Embebecido nesta esperança, voltou para Lisboa, e recolheu-se tranquilo a casa do desembargador. Ninguém falou em Teodora. As primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem propósito disso. O velho proferia máximas umas de Sêneca, outras dele acerca das paixões; abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Afonso, em aqueles oito dias, podera recopilar máximas e provérbios com que, no decurso de longa existência, regesse as suas ações, e repartisse ciência de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inatento sobrinho do apotegmático desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as máximas de Sêneca, e quase latinas as do tio em virtude do estilo graúdo e filintiniano em que as compozera. O certo foi que Afonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.

Mais vernáculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.

num dos dias em que Afonso estava esperando recursos para se expatriar com a sua dor, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Afonso, desgostoso da surpresa, bem que as lágrimas o consolassem ao ver sua mãe, receiou que ela viesse apostada, com o império dos prantos ou da autoridade, a demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu benignamente, e disse-lhe:

— Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sair de tua pátria, não quizeste ir abraçar tua velha mãe, e abraçal-a talvez para nunca mais a tornares a ver. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Afonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca saírem da pátria para as guerras contra a Espanha os militares ainda mancebos e os generais já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e orarem em comum diante da cruz a que suas mães tinham orado com eles tenrinhos nos braços. Este era o uso da nossa família antiga, meu filho, e não sei porque não há de continuar conosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que eles oravam, também eu orei contigo em meu seio, e lá aprendeste de minha boca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos — nome doce de mãe que te estremece — seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Afonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a sua pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com anticipação o abraço, que eu lhe pediria nos últimos instantes da vida. Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar, e ficar pedindo a Jesus Nosso Pai que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam chorando. Enquanto a dinheiro, Afonso, tu dirás o que queres, que pronto está. Prasa a Deus que ele te não sirva de ruína ou desonra.

O desembargador, que estivera ouvindo esta afetuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no ombro com severidade, e clamou:

— Acorda, coração de pedra!... Córa de pejo, e doa-te o arrependimento, filho mau!

— Meu mano — disse a senhora — o nosso Afonso não é mau filho, nem tem ação de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que ele tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou nesta má vereda fui eu.

— Tu, Eulália?! Como assim? — perguntou o desembargador interdito.

— Eu, eu fui, quem primeiro lhe falou em Teodora, e lhe preparou o coração para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Teodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ela fosse excelente esposa de meu filho, e digna de o ser do filho da mais ilustre mãe. Eu enganei-me, e ele foi enganado por mim. Afonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco há, lhe chamei fraco.

Afonso lançou-se em pranto desfeito, aos braços de D. Eulália; e, após curtos instantes de ofegante silencio, exclamou:

— Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um tesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é a sua vida!

— Graças vos dou, meu Criador e Redentor! — clamou a senhora, muito comovida, com as mãos postas — Grande é o poder que daís ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericórdia não mede os merecimentos pela aflição com que as mães vos chamam!

E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infância.

O magistrado e as filhas solemnisavam o espetáculo chorando e rindo de contentamento.

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