Capítulo II Amor de Salvação · Capítulo 4 de 25
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Capítulo II

Sinceramente não sei corrigir-me do vicio das divagações. Há quem defenda e demonstre que o romance filosófico deve ser assim alinhavado a exemplo de Balzac, Sainte-Beuve, Stael, etc. Na Alemanha então dizem-me que as novelas são tratados de metafisica. Se as minhas derramadas e extraviadas divagações fossem ao menos metafisica! Ser eu, sem dar tino de mim, um escritor subtil, imperceptivel, impertinente, medonho, e, acima de tudo, serio! Escritor serio! quando se agarra a fama pelas orelhas, e a gente a obriga a dar pregão da nossa seriedade de escritor, a gloria vai procurar os nossos livros sérios às estantes dos livreiros, e lá se fica a conversar delicias com as brochuras imoveis, enquanto a traça não dá em eles e nela.

O universo, e a humanidade principalmente ganha muito com os romances sérios: exceptuam-se da humanidade os editores. Um meu amigo publicou seis volumes de novelas de costumes moraís a ponto de toda a gente dizer que não haviam tais costumes em Portugal. Recebeu muito abraço de umas pessoas que tinham ouvido contar que o meu amigo aconselhava aos filhos a obediência aos pais, aos próximos o mutuo amor, e à humanidade o temor de Deus. As seis novelas eram glossas aos dez mandamentos. Esperava-se a regeneração das velhas virtudes portuguezas, logo que o espirito publico se balsamificasse da unção dos seis livros. Volvidos porém, uns dois anos, as estatísticas iam delatando em aumento a criminalidade publica. Espanto no meu amigo autor, e desanimação melancólica nos editores! Não obstante, a gente grave continuava a dizer que o meu amigo, continuando a escrever por aquele teor e jeito, endireitaria o mundo. Os editores, porém, observando que o mundo se entortava cada vez mais para eles, recomendaram ao escritor moralista que vendesse a eles romances, e a quem quisesse os sermões. Ora, deu-se o caso de que este meu amigo era eu em pessoa.

Apesar dos baixios em que foram a pique os meus livros sérios, teimo em ir neste rumo, discorrendo oportunamente acerca das grandes coisas e dos grandes factos como se viu do anterior capítulo.

Volvendo a concluir as reminiscências que tenho do antigo Afonso de Teive, resta-me ajuntar que o deixei em Lisboa no ano de 1851, e vim para o Minho onde me disseram quem era Palmira, falando eu em Afonso de Teive a um cavalheiro de Braga.

Em primeiro lugar, Palmira tinha outro nome na sua terra. Fora educada num convento; saíra do convento para casar com o filho do seu tutor, moço idiota e abominável; e saíra de sua casa para a de Afonso de Teive, o qual por um acaso a vira nos arvoredos do Senhor do Monte, e de se verem à mesma hora em que ambos, embelezados no rumorejar de árvores e fontes, pediam ao céu, ela o homem, e ele a mulher do seu destino, resultou amarem-se tanto que logo dali protestaram tacitamente imolar aos deuses infernais o marido idiota — destino misérrimo que não descrimina entre idiotas e atilados. Estas informações saíram-me com o tempo inexatas em muitos acidentes.

Não adiantou mais nada o cavalheiro bracharense; e isto já não era pouco para o meu espanto.

nessa mesma época, ocasionou-se-me conhecer o marido de Teodora, melhorada em Palmira. Andava ele na feira do S. Braz em Landim, a tantos de Fevereiro, comprando bois, e vendendo cevados. Não lhe vi no semblante leve sombra de dissabor, nem osso descarnado. Vi que ele comia à tripa forra um chorumento jantar de carnes frias, em que predominavam as galhinaceas. À sua direita estava uma mocetona espadaúda, escarlate, alta de peitos, e refractaria a toda a ideia de amor fino.

Disseram-me que esta moça apreciára devidamente o coração rejeitado por Teodora, e assava com perfeição as louras galinhas de que o marido abandonado hauria vigor com que resistia briosamente à sua desgraça. Vi tudo isto; e fiquei satisfeito. A gente folga de ver assim remediadas as enfermidades da natureza. Quando em casos análogos, não há vítima nem algoz, e os personagens se acomodam na livre pratica da liberdade dos cultos, bem que o vicio não deixe de ser vicio, é contudo consolador observarmos que uma certa filosofia é a melhor ortopedia para os aleijões de nascença de que a torta humanidade coxeia há dezenove séculos.

É o que eu sabia e mais nada.

Como Afonso caiu em esquecimento, nunca me deu para perguntar que feito era dele. As minhas desventuras não me davam ferias para farejar as alheias. Se alguma vez me passou pela ideia a esposa infiel do feirante de bois e cevados, imaginei-a reconciliada com o marido, e assim duramente castigada pela Providência. Enquanto ao sedutor, apostaria que ele, depois de ter desbaratado a casa, andava por Lisboa obscuramente solicitando um lugar de amanuense de secretaria ou aspirante de alfandega, se é que não tinha ido para o Brasil, com o seu diploma de bacharel em filosofia, colecionar conchas por conta de algum muzeu de história natural.

Agora vê o leitor o meu assombro justificado! É inquestionavelmente este homem gordo, de barbas intonsas, óculos, e tamancos o Afonso de Teive da Palmira de Lisboa.

Ele aqui vai subindo as escadas, que nos levam à primeira sala. Cá estão em redor dele e de mim os oito filhos, que fazem bulha como trinta e dois. Creio que estou no pátio de um mestre-escóla à saída de aula. Dois destes ferozes meninos tiram-me da mão o guarda-sol, abrem-no e fecham-no repetidas vezes, arremetendo contra os irmãos, que se defendem espancando a murros as varas da umbrela que gemem e entortam. Afonso gosta de ver aquilo, e eu finjo também que não desgosto, nem receio de ser esfarrapado por aqueles inocentes.

Passamos ao seguinte repartimento da casa: era a sala de visitas, mobilada de alfaias antigas, cadeiras encouradas com chapas reluzentes, grandes bancas de pau santo, com gavetas atauxiadas de frisos metálicos e de marfim.

— A decoração diz com as minhas barbas! — refletiu o risonho Afonso. Aqui é tudo português — acrescentou, mandando inutilmente calar a gritaria dos meninos que, a meu ver, legitimavam a raiva infanticida do Herodes — Até a linguagem é portuguesa de lei: olha que estou falando vernaculamente, meu amigo. Há quatorze anos que tu me convidavas urbanamente a não insultar os Lucenas e os Sousas com as minhas francezias. Vem ver a minha livraria; se não queres primeiramente ver minha mulher.

— Tenho muita honra e satisfação em ser apresentado a tua senhora — atalhei eu.

— Joaquim! — disse Afonso ao filho mais velho — Vai ver onde está tua mãe; se estiver na cozinha, diz-lhe que temos cá um hospede, que não exige vestido de sedã. Que apareça como estiver.

O menino saiu aos saltos de cegonha, e Afonso ajuntou:

— Minha mulher é um anjo, cujas azas brancas se não mancham na felugem da cozinha. Eu gosto que ela por lá se entretenha, se não bate-me nestes bregeiros, que, como vês, são dignissimos de grossa pancadaria; mas eu amo estes diabinhos, que zombam de mim, e aturo-os, porque a dizer-te a verdade já me dóe a cabeça quando não ouço esta algazarra. E tu gostas de rapazes?

— Gosto muito, acho muito galantes os teus meninos; mas se me dás licença, dir-te-hei que em doenças de enxaqueca, o teu remédio não seria tão eficaz nas minhas como nas tuas.

— Bem sei — atalhou Afonso — Falta-te cabeça de progenitor, falta-te ouvido de pai que converte em musica no coração estes berreiros, que nem no inferno se poderiam receber como orchestra.

Não se fez esperar a esposa de Afonso.

Era uma senhora para senão descrever em romances, e para admirar-se entre seus filhos.

É muito difícil e requer engenho grande tirar as semelhanças de uma mulher, que se apresenta simples, modesta, e, logo à primeira vista, impropria de novela.

— Aqui está, e te apresento, minha mulher — disse Afonso, e tomou-lhe dos braços a criança mais nova, que lhe saltára ao pescoço, apenas a vira entrar na sala.

A esposa de Afonso de Teive respondeu acanhadamente ao meu palavroso comprimento, e tomou nos braços outro filho, que marinhava pelas costas da cadeira, e mostrava a cabeça sobre o alto espaldar de couro.

Como se não ageitava outra especie de conversação, falei nos meninos, gabando-lhes a formosura e a esperteza. Afonso, que parecia não querer outra coisa, começou a contar-me anedotas das suas crianças entusiasticamente, algumas medianamente engraçadas, e outras que eu não pude ouvir, à conta da bulha que os pequenos faziam em volta da mãe. No entanto, fiz reparo nela.

A senhora teria trinta e oito anos, e formosura, por força natural, já decadente. Trajava roupas largas, talhadas sem esmero, de droga ordinária; a beleza das formas corporais, denunciava-se apesar do trajo descuidado. Semblante assignalado de tanta doçura e bondade não sei que o haja. Poderia chamar-se tristeza de santa àquele mavioso rosto pálido, quebrantado, e não sei que de scismador; a expressão, porém, dos olhos brandos, do sorriso quase imperceptivel, do colo um pouco inclinado em postura humilde, eram nela a alegria exuberante de santa sim, mas santa como esposa, santa como mãe, santidade de coração e alma repartidos entre Deus, esposo e filhos.

Pouquíssimas palavras lhe ouvi na meia hora que se deteve conosco. Conheci-lhe a inquietação cuidadosa no relancear de olhos ao marido.

— Bem sei, disse ele. Vai, vai, que estás a pensar nas rabanadas e nos mexidos.

E ela, sorrindo, disse:

— Ainda me não apresentaste ao teu amigo como uma sofrível interprete da arte de cozinha.

— Interprete! — exclamou ele — Tu és mais! Tu inventaste a ciência da cozinha, que é muito mais sublime que arte. A tua modéstia é que te não deixa vir à luz do mundo, deste mundo cujas aspirações confluem todas para a gastronomia, com um tratado, que, ao mesmo tempo, me desse orgulho de ser teu marido, a quem tu deves esta vida retirada, sem a qual te faltaria espaço e remanso para as tuas especulações, em resultado do que vamos hoje cear as mais ambroziacas rabanadas que ainda os deuses coaram em suas celestiais gargantas. A aldeia, meu bom amigo — continuou Afonso voltando-se para mim com solene e galhofeira seriedade — a aldeia dispensa ao espirito investigador um curso completo de ciências. A poesia do estomago, esta mais que todas poesia humanitária, não se dá nas cidades; lá come-se materialmente; aqui dá-se ao espirito a presidência em todas as matérias assimilaveis. Estou com o nosso admirável Castilho nestas memorandas palavras: «Longe de mim negar puerilmente às cidades suas vantagens sociais; digo só que para a poesia se não fizeram elas; e que, se nessa frágua algum engenho poético resiste, se aí canta, nunca há de ser tanto, nem tão bom, nem tão inocente, nem tão perfumado, como seria sem dúvida nos campos. » E a poesia que é? — acudiu Afonso cortando-me o riso com que eu celebrava o desconchavo da citação — o que é a poesia se não aquele estado diáfano e sublimado da alma, que se está engolfando e gozando num envolucro sadio, depurado de ruins vapores, e puro de toda a exhalação crassa de um estomago derrancado, azedo, e intumecido? Pois hás de tu saber que um estomago limpo é a fonte de todo saber; e que a ciência construtora dos seletos alimentos do sangue é a que mais de perto se relaciona e ata com a arte de exprimir cadentemente os afetos da alma — Logo...

A esposa tinha saído quando esta abstrusa parlenda ia em meio, com ameaças de longo fôlego.

Eu estava ouvindo, como quem sonha, Afonso de Teive. Andavam já a formigar-me suspeitas de que o homem estava o seu tanto ou quanto embrutecido na aldeia; e posto que a defesa do paradoxal consorcio entre estomago e poesia viesse absolvida por um sorriso faceto, nem assim me descapacitei de que o espirito de Afonso havia sofrido profundas comoções que de todo em todo o transfiguraram, ou lhe transfiguraram os objetos do mundo exterior. Eu não podia convencer-me de que a felicidade alterasse daquele modo o gênio e maneiras de um homem, que eu jamais ouvira preconisar as regalias do estomago. Crer que o bem-estar da alma procedia de uma brutificação dela mesma, e que o encontrar esse bem obrigava a desatar-se a gente da convivência de sujeitos policiados, de mulheres inspiradoras, e das magnificências da arte, em fim, de tudo que todos buscam sofregamente, parecia-me absurdesa, e falsificação no caráter de Afonso de Teive.

Preparei-me, pois, para devassar o secreto reviramento que transformou em poucos anos o espirito menos propenso que eu vira à paz dos campos, e ao absoluto apartamento da sociedade.

Estava a ceia na mesa. Que enorme ceia comemos, e que estrondoso ruido fizeram os meninos!

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