Capítulo XXIII Amor de Salvação · Capítulo 25 de 25
Obra Menu

Capítulo XXIII

Ao escritório comercial, onde o meu amigo trabalhava, chegou, ao fim da tarde, do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da embaixada indagando a residência do português Afonso de Teive.

Saiu com o esclarecimento em demanda de outro português, que se apresentára ao ministro, com importantes recomendações de Lisboa. A nota da residência era rua Vivienne, 104, 5. º andar, lado esquerdo; quem a recebeu da mão do encarregado foi uma senhora, que a passou logo a um sujeito de cabelos brancos, trajado de sacerdote.

O leitor não se deixa surpreender mais tarde: já sabe que a senhora é Mafalda, e o sacerdote é o capelão padre Joaquim de S. Miguel.

Padre Joaquim entrou num fiacre com o guia posto à sua ordem pelo ministro português. Apearam ao portão do prédio; perguntaram ao porteiro se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Saiu do interior da loja, residência do porteiro, o criado de Afonso, o qual, reconhecendo padre Joaquim, lançou-se a ele de modo que o ia afogando ao primeiro abraço.

— Ainda vives, Tranqueira? — exclamou o clérigo — E sempre com o pequenito de Ruivães!?...

— Até à morte, Sr.. padre mestre!... Pois por aqui? V. s. ª por estas terras?... Que é feito do Sr.. Fernão? e da fidalguinha?

— Leva-me lá acima, homem, que pelos modos temos que marinhar — atalhou o padre.

— Ponha-se aqui às minhas costas, que eu levo-o lá, Sr.. padre Joaquim! — disse o Tranqueira, ageitando-se para ser cavalgado.

— Estás doudo de alegria, velho! Deixa-me ir por meu pé. Vocês cá no país da civilização já andam uns às cavaleiras dos outros?... Olha lá... não avises teu amo. Quero ver se me ele conhece ainda.

Afonso estava escrevendo a seu tio Fernão de Teive, quando o padre entrou.

— Veja se se lembra, Sr.. Afonso! — disse o capelão.

— Lembro! — clamou Afonso erguendo-se a abraçar o clérigo — Vem de Fonte-Boa? Que faz em Paris, padre Joaquim?

— Podemos ficar a sós? — perguntou o clérigo. O Tranqueira saiu, e o guia, esclarecido em francês por Afonso, retirou-se.

— Eu estava a escrever a meu tio Fernão... — disse Afonso...

— No outro mundo somente se recebem orações, e não cartas — atalhou o padre.

— Morreu meu tio!? — exclamou o moço.

— Lá se foi para Deus aquele justo. Pouco antes de expirar, deixou-lhe um abraço ao Sr.. Afonso. A Sr.. ª D. Mafalda foi a depositaria do abraço...

Afonso escondera o rosto nas mãos a soluçar.

— Ele merecia-lhe essa saudade — continuou o padre — que era muito amigo de v. exc. ª

— Minha desgraçada prima! — exclamou Afonso — que vida vai ser a dela em aquela solidão, sem pai, sem uma alma que a estremeça!...

— Sua prima não está em casa... Está em Paris.

— Como? em Paris!... onde está Mafalda?!

— Na hospedaria, esperando que vamos. Não se demore.

Afonso desceu a trancos as precipitosas escadas, sem dar tino de que o padre as descia apalpando com a bengala, muito de espaço, exclamando:

— Sempre será bom que pare lá no fundo para me apanhar, se eu for de rolo, ó Sr.. Afonso!

A ansiedade do moço confundia as perguntas aceleradas de modo que o padre, no transito do fiacre ao hotel de Mafalda, nem tempo teve de deliciar mais que três pitadas com o sorvo chromatico do seu costume.

Direitamente deve ser Afonso quem nos descreva o encontro:

«Entrei numa sala, a tempo que minha prima saía de uma câmara contígua. Caminhamos um para o outro, lavados ambos em lágrimas. Ela fitou-me com um gesto de assombro, e disse: — Tens cabelos brancos, Afonso!... E és da minha idade!... Como a tua vida terá sido amarga!...

« — E tu, Mafalda, tens a formosura que te deixei; preservou-t'a a inocência da tua santa vida!

« — Vida de muitas dores, Afonso... — atalhou ela — Acabou-se-me tudo... Faltou-me o amparo de meu pai... — e encostou-se ao meu ombro, soluçando.

«Padre Joaquim acercou-se de nós, limpando os olhos, e disse: — É chorar de mais... eu cuidei que este encontro seria para alívio e não para maiores penas. Basta, por agora, menina... Faltou-lhe o amparo de seu pai; mas o de Deus é que a ninguém faltou... A Sr.. ª D. Mafalda está aqui para se entender com seu primo, sobre um passo muito do agrado do Altíssimo; mas eu peço perdão a Deus em a contradizer, e continuarei sempre a opor-me, porque... »

«Mafalda fez-lhe um sinal de silencio com implorante suavidade, e voltando-se a mim com sereno aspecto, disse em termos balbuciantes que desmentiam a forçada compostura do rosto: — Meu primo, a vida para mim não promete contentamentos nenhuns. Faltou-me meu pai, e resolvi logo entrar num convento; mas a inatividade dos conventos pode ser que piorasse a minha tristeza. Ouvi dizer que está derramada pelo mundo uma grande família de mulheres devotadas ao remédio dos infelizes, por amor de Deus. São as irmãs da caridade. Resolvi entrar neste instituto; meus pais abençoarão este modesto desejo de ser útil a alguém, empregando os anos de vida, que eu não sei nem posso consumir no desabrigo da casa onde nasci. Agora, meu Afonso, venho pedir-te que dirijas em Paris os meus passos para o conseguimento da minha entrada no instituto, e ao mesmo tempo rogar-te encarecidamente, e em nome de tua santa mãe, que aceites as três quintas que vendeste, e de que teu bom tio era possuidor quando morreu. Na intenção de t'as restituir foi que ele as comprou. Eu cumpro a sua vontade, esperando que tu obedeças à vontade de meu pai. Aceita o que teu era, meu querido Afonso, meu bom irmão; aceita, que é meu pai e tua mãe que to pedem, e eu também com as mãos erguidas.

«Mafalda cessou de falar, cortada a voz de soluços. Eu ajoelhei diante dela, beijando-lhe as mãos, sem poder articular palavra. E ela, abraçando-me pelo pescoço, exclamou com a meiguice infantil dos nossos afetuosos abraços dos dez anos: — Tu fazes a vontade à tua Mafalda, não fazes, Afonso? Posso agradecer a Deus a esmola de consolação, que me dás?

« — Pode! exclamou padre Joaquim — pode, que o Sr.. Afonso não há de desobedecer à vontade de seu tio! Vamos! a fidalga ainda lhe não deu o abraço que o Sr.. Fernão de Teive deixou ao filho de sua santa irmã.

«Abraçou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a sua face nos meus lábios.

« — Agora, falo eu — disse o clérigo — O instituto das irmãs da caridade é um santo instituto, nenhuma dúvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido contar dos heroísmos de caridade, que as servas de S. Vicente de Paulo praticam. Assim é; mas a conquista do céu consegue-se com a virtude, e a virtude é uma em toda a parte, e em todas as situações. As irmãs da caridade são bemquistas do Senhor; mas muitas almas elege o Senhor, sem as submeter à prova dos sacrifícios e abnegação do santo instituto do servo de Deus. A Sr.. ª D. Eulália, que Deus tem, era uma virtuosa, e piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e mãe não lhe tolheu que alcançasse o paraíso com muitas obras boas que fez, sem as andar derramando pelo mundo. A mãe da Sr.. ª D. Mafalda foi outra senhora casada e muito amante de seu esposo; pois, se a virtude é a profecia infalível da bem-aventurança, as duas virtuosas senhoras lá estão com Deus. E agora lhes direi eu o que as santas pedem ao Senhor, vendo assim os seus dois filhos a ouvirem o pobre padre pregar sem encomenda do sermão. Eu lhes digo que elas estão pedindo a Deus que os case, que os encha de bençãos, e de filhos. Vamos! eu também levanto as minhas mãos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus! permiti que a minha voz se ajunte à das santas que vos pedem a felicidade destes dois filhos! Permiti que eu os veja ditosos, e que estas lágrimas de velho mas enxuguem eles com a sua alegria!

«Quando o sacerdote, majestoso pela postura, se voltou para nós, latejava o meu coração na face de Mafalda; e eu inclinado sobre o rosto pálido da virgem, murmurava estas palavras: «Sim, sim, meu Deus, ouvi as preces de nossas mães! »

«Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de nós, e disse com jovial aspeito: — Eu não quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos lá o outono do Minho à nossa espera. Diga a fidalga o que determina.

«Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa, que um esculptor fantasiasse na contemplação e audição de anjos e harmonias do céu. O padre acudiu logo, exclamando alegremente: «O noivo é quem decide! Sr.. Afonso, quando partimos desta barafunda de Paris, que me põe os miolos a arder?...

« — Amanhã! — respondi eu. — Amanhã — exclamou Mafalda — Pois sim; meu Afonso, amanhã... Temos lá as nossas árvores... a nossa infância...

«A nossa felicidade sem fim... — atalhei eu.

CONCLUSÃO

Entreluzia a manhã pelos resquícios e fendas das janelas do nosso quarto na estalagem da Sr.. ª Joaninha de Guimarães.

Afonso de Teive disse:

«É dia: vou concluir...

— Não é necessário — atalhei — o restante sei eu.

«Mas não me prives por isso de ser eu o narrador da minha bem-aventurança. Aquela mulher que eu te apresentei, negligentemente vestida, e amarrotada dos abraços dos seus oito filhos, é minha prima Mafalda, a esposa de minha alma, a salvadora do meu coração, os olhos que me veem pelos de minha mãe, a consciência da minha consciência, a redentora das minhas alegrias infantis, a mãe dos meus oito anjos, que minha santa mãe me enviou do céu.

«Há dez anos que eu vejo amanhecer os meus dias como as aves, cantando o Senhor, e adorando-o como os cenobitas.

«Minha mulher, ao abrir-me os tesouros de sua alma, revelou-me também os tesouros da fé, as delicias da religião, e a taça inexhaurivel dos sabores da caridade.

«Mafalda desaparece-me às vezes com os filhos mais velhos: eu vou procural-a fora de casa com os mais novos nos braços, e descubro a piedosa valedora no cardenho de algum jornaleiro, à cabeceira das palhas nuas do enfermo, ao qual ela foi levar a cobertura, e o alimento. Outras vezes, são os meus filhos, que levam o seu fatinho velho às crianças, que estalejam de frio, sobre o lagedo de uma cozinha sem lume.

«Se alguma hora falei como marido austero a minha mulher, a doce criatura respondeu-me com um sorriso; os meus queixumes são sempre causados pela pertinácia dela em entender no governo da casa com um zelo convisinho da mortificação. Mafalda é rica; mas tem uma máxima indestructível: «poupar para os pobres. »

«Há dez anos que vivo em Ruivães. neste longo espaço, apenas tenho acompanhado minha mulher a observar a cultura das suas quintas, que ela teima em chamar minhas. Mafalda tem vagas ideias do que é um baile, e eu pude esquecer as ideias que tinha. Dizem que a convivência de anos entre esposos, que muito se amam, traz consigo de seu natural uns silêncios significativos do esfriamento das almas. Eu não sei o que seja esse arrefecer. O céu e a terra estão continuamente abertos ante meus olhos: de cada vez que os contemplo, a cada alvorecer, e fim da tarde, os maravilhosos poemas dão-me sempre a ler uma página nova, e Mafalda traduz mais pronta que eu os geroglificos da Divindade. Falamos de Deus e dos filhos; contemplamos o boi que nos encara soberbo, a avesinha gemente que pipila; a fonte que suspira, e a catadupa do ribeiro que ruge. A natureza é a terceira voz dos nossos colóquios, umas vezes amor, outras vezes ciência, e sempre admiração e perfumes ao Eterno, que nos encheu de delicias, e inflorou o caminho da velhice.

«Ecos do mundo nenhum chega ao nosso ermo. A mim, os homens que me viram, consideram-me morto uns, outros por ventura me lastimam embrutecido entre os meus fraguedos. Tive cartas a que não respondi; fui procurado por ociosos, a quem recebi na minha sala de visitas, com uma cerimônia que os afugentou. Affligiam-me as testemunhas do meu vilipendio, e temia que elas proferissem um nome, que soaria como blasfêmia no santuário da minha família.

«Aspei todos os vestígios que pudessem recordar Teodora. Entre os papeis do meu tio Fernão, numa gaveta secreta, encontrei o copiador das cartas dela. Minha mulher surpreendeu-me neste descobrimento, viu e compreendeu, sorriu-se, e disse: «Meu pai nunca me deixou ver isto, bem que eu soubesse da existência deste livro. Triste sorte a desta senhora! Mal diria a mãe que tão virtuosamente a educou! » Únicas palavras que Mafalda proferiu com referencia a Palmira!

«Aqui tens a minha vida, a vida dos dois homens, que na curta passagem de quarenta anos, tocaram as duas extremas do infortúnio pela desonra, e da felicidade pela virtude. Uma mulher me perdeu; outra mulher me salvou. A salvadora está ali naquele ermo, glorificando a herança, que minha mãe lhe legou: o anjo desceu a tomar o lugar da santa: a um tempo se abriu o céu à padecente que subiu, e à redentora que baixou no raio da gloria dela. A mulher de perdição não sei que destino teve... »

— Pois ignoras o destino de Palmira? — interrompi eu, desconsolado como todo o romancista, que desadora invenções.

— Como queres tu que eu saiba o destino de Palmira?! — Replicou Afonso de Teive. — Quem há de vir contar-me a Ruivães os desastres que lá vão no seio apodrentado da sociedade!... Mas, se te rala a curiosidade de saber em que lamaçais a deves encontrar, lança a tua espionagem, diz, alto e bom som, que a fama te confiou a tuba pregoeira dos escândalos, e não faltará quem te ilumine e esclareça. Do viver da mulher virtuosa é que baldamente procurarás noticias: dá-se a virtude numa obscuridade, que chega a incomodar a atenção dos que observam como coisa curiosa de ver-se.

— Pois não me despeço — redargui — de me ir por aí fora no encalço de Palmira, e mal dela, se a não topo, que morrerá sem ler a sua biografia, desastre comum, mas imerecido, das mulheres da sua especie. Quantos romances, e dramas, e cantatas aí pejam as livrarias sobre Ninon, e Marion, e Manon Lescaut? As Aspásias e Frineas tiveram por si os historiadores e os poetas gregos. Os Catulos e Ovídios eternisaram Lésbias e Corinas. Menos afrontadores da moral, os romancistas e poetas coevos nossos deificam as Gautiers, e fazem que as famílias honestas chorem por elas nas páginas dos livros e nas tabuas dos palcos. Palmira há de ter um livro, ou eu não escrevo mais nenhum depois do teu... Dá-me agora noticias do Tranqueira. Que é feito do Tranqueira?

— Está lá em casa a esta hora com um pequeno a cavalo em cada ombro, e outro enganchado na barriga. Tranqueira não é meu criado. Lá em casa os meus filhos conhecem-no pelo amigo velho. Tem o seu quarto no interior dos melhores aposentos. Chama-se ele a si feitor; mas o que ele feitorisa é o seu reumatismo, e vive a picar rolo de tabaco para cachimbar ao sol. Comprou um pinhal, e negoceia em lenha e madeiras. Quando recebe algumas libras, vai até Braga visitar uns parentes pobres, dá-lhe metade, e vem para casa carregado de frigideiras, que me estragam o estomago dos rapazes. Se algum dos meus caseiros o faz zangar nas contas, em que ele quer ser sempre ouvido, ou no grangeio das terras, de que ele não percebe nada, mas quer ser consultado sempre, costuma ele estirar os braços trêmulos, e dizer: «O que tu precisas é um banho de cisterna. » Imagina o Tranqueira que a sua especial vocação é dar banhos de cisterna.

— E o padre Joaquim de S. Miguel morreu?

— Tenho a satisfação de te dizer que o meu padre Joaquim está vivo e vividouro. Não o vistes lá em casa porque foi para o Alto-Minho consoar com a família, tributo que ele pagou sempre; mas nunca vai que não se despeça a chorar, e nunca vem que nós o não recebamos com grande alvoroço de alegria. É o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os óculos de modo que as lições caem em pedra árida, e o padre já diz que considera perdidos dez anos de vida naquele ensino. Que mais queres saber?

— Se poderei dormir duas horas em tua casa, respondi eu.

— Vamos partir.

— E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingarão eles em mim a falta do padre? Previne-me.

Partimos.

A distancia de um oitavo de légua do paraíso restaurado do meu amigo, enxergamos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dois ao colo, e outros dois pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam numa grilharia barbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros:

— Cá vou preparando a cabeça de progenitor e ouvidos paternais, disse eu — Seriam excelentes anjos aqueles pequerruchos, se tivessem laringes mais acomodadas ao aparelho auditivo do gênero humano!

— São os meus filhos — exclamou Afonso — É minha mulher! Ali tenho tudo, o capital, o juro, e a usura da felicidade que desbaratei. Ali me esperou minha mãe dois anos, e eu não voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o céu fora o mais alto ponto onde ela voára para ver de lá a minha perdição. Ali voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flores que eram dela; das primeiras adornei os cabelos de minha mulher; das que me deu a primavera seguinte engrinaldei o berço do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorecencia, vem minha mãe coroar o novo anjo, que minha mulher lhe oferece como a intercessora com o Altíssimo. Oh meu amigo! de envolta com a felicidade, a religião! Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos póvoa o espaço onde a alma insaciável do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração aflitiva!..............................................................................................................................

Aproximamo-nos do formoso grupo. Apeei; fui cortejar a mulher do amor de salvação, e disse-lhe comovido, e creio mesmo que lagrimoso:

— Ao cabo de dez anos de felicidade não interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de v. exc. ª com o funesto contagio da sua má estrela! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivência do seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Afonso de Teive cerrou olhos nesta infinda noite de Dezembro!...

— Também eu não! — atalhou Afonso sorrindo — também eu não!

— Não importa, minha senhora — tornei eu — Seu marido velava; mas que saborosa vigília! Contou-me suas desgraças para que eu pudesse cabalmente ajuizar da felicidade perene, que v. exc. ª, depositária dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lágrimas, e lhe está dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, neste mundo, era uma usurpação feita ao céu!... Agora sei que há sobre a terra um homem feliz, feliz há dez anos, feliz para uma longa existência. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!

Mafalda abaixou levemente a cabeça com gracioso acanhamento, e disse:

— Não sou eu sozinha a felicitar meu primo: são as orações de nossas mães, e o amor angélico dos nossos filhinhos.

FIM

1/1
Menu

Fazer anotação