Capítulo VII
Beleza absoluta, de telhas abaixo, há uma só, que é a da mulher formosa; e, na variada manifestação de beleza em diversidade de tipos, há uma superior formosura, que constitue o belo universal, o belo que prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona o espirito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento. Dá-se o exemplo desta coisa formulada em tese abstrusa na embriagadora influição dos olhos de Teodora no animo selvagem de Eleutério. A menina de quatorze anos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, apareceu-lhe aos dezesseis na grade do convento, e atordoou-o. O moço, querendo exprimir ao pai a sensação recebida em aquela hora, disse com expansiva naturalidade:
— Quando ela me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma estava fora do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma coisa, e a língua grudava-se-me ao céu da boca. Quem me dera ser rei, e que ela fosse uma pastora de cabras!
Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeísmos, a concisão da ideia poderia atribuir-se a Shakspeare. A mais cristalina água é a que rebenta de penhascos ermos: assim, de espíritos selváticos, resaltam por vezes umas ideias límpidas, de uma sensibilidade original, que faz pensar.
Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a Teodora. A menina, vesada à linguagem mais florida ou mais delicada de Afonso, riu interiormente dos termos rústicos do primo, e de fora compoz o gesto para fingir que o não entendera. O tutor, porém, instintivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas ingleses chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as palavras de Eleutério, aproando o discurso ao ditoso remanso do casamento, que ele, na sua locução figurativa, denominava um lindo arranjo.
A morgadinha ouviu ansiada o tio, e respondeu com um ataque de nervos, que era já o terceiro que a insultava; simpática doença em meninas pálidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o aparelho nervoso. Teodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos dormitórios. Acudiram algumas freiras, e transferiram-na à sua cela. A prelada foi à grade averiguar do acidente, e saiu convencida de que a órfã era uma douda, a quem Líbana, de impudíca memoria, ensinára a fingir ataques nervosos. Romão dos Santos saíra do convento no propósito de consultar um egresso do Carmo sobre os trejeitos e feitios que vira em sua sobrinha, para aplicar-se-lhe a reza purgativa de demônios, se o frade entendesse que ela os tinha no corpo. O zeloso e invencível demonífugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita energúmena, mandou às freiras que depozessem acerca das malfeitorias atribuidas ao espirito imundo, e retirou-se capacitado de que a morgada da Fervença estava possessa de uma legião de travessos e intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre religiosas, não as poupando mesmo, quando elas tomassem o expediente salvador do conhecido galego da fábula de Almeida Garrett. Era ilustrado o egresso.
No entretanto, soubera Teodora que Afonso de Teive fora para Lisboa. Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a destemperada arremetida que ele fizera contra a porteira, e as vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquela façanha. Porém, ninguém lhe dissera que dores o pozeram à borda da sepultura, que saudades o crucificavam em Lisboa, e que vans solicitações fazia a mãe de Afonso para assegurar à filha da sua defunta amiga a certa realisação do casamento.
Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa, sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram à sua conta salval-a. Ao despeito e ao enojo, acresceu o visital-a com mais frequência, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleutério. de antes, a cabeça exterior do moço era hórrida, toda escadeada da tesoura hábil em tosquiar rezes, tufada de grenhas, com umas repas caracoladas sobre as orelhas, e aquele todo lustroso de azeite. Depois, apareceu Eleutério com o cabelo cortado à escovinha, e os caracóis banidos. Depoz a casaca no gavetão-museu da família, e envergou uma judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até à ponta do pé, e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de madre-perola. Além disto, o pai deu-lhe o relógio avoengo, que, no continente e conteúdo de caixas sobrepostas, parecia a baixela de uma família, desde a tina do banho até à bacia do lavatório. Os berloques deste tesouro, que não regulava há quarenta anos, eram placas de diferentes pedras, e sinetes periformes de tal tamanho, que pareciam armas de defesa.
Teodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleutério, afora mãos e pés, que nenhuns outros podiam confundir-se com os dele, a despeito mesmo das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para dentro do coração da menina.
Li em algures, e estou convencido de uma verdade que soa como paradoxo: e é que o espirito de cada pessoa tem muito que ver com o modo como ela está entrajada. A intelectualidade apouca-se e confrange-se quando o sujeito se olha em si, e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O desaire do espirito como que se identifica ao desaire do corpo. As ideias saem coxas e esconças do cérebro; a expressão tardia e canhestra denuncia o retrahimento da alma: há o quer que seja fenomenal que eu tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem confessado semelhantes segredos de psicologia, em que o alfaiate exercita importante alçada.
Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleutério se saiu no palratório, no dia em que se mostrou desfigurado a Teodora. De vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os berloques, e ao levantal-os para sua prima já nos beiços lhe borbulhava alguma ideia bonita. Igual fortuna o bafejava, quando, acaso ou por acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canela, que se ficava algum tempo narcisando nos pés.
deste primeiro colóquio saiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cela da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleutério o paralta que a visitára. Teodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se, e exclamavam:
— Que perfeito rapaz ele se fez! Ninguém havia de dizer o que saía dali! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.
— Seu primo é uma figura que dá na vista! — ajuntava a mais maliciosa das freiras para não ficar em pecado com a sua consciência.
Teodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma a enevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria não pode já reter: era a imagem de Afonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleutério Romão dos Santos.
Ergueu-se alegre, abriu a janela do seu cubículo, aspirou o ar do céu que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que à menina se figuraram as delicias da liberdade.
Amava ela Eleutério Romão?! Não amava, disse-o ela, e eu juro nas palavras de Teodora. O que ela amava era a liberdade; os anhelos de sua alma anciavam sôfregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita, e não perdoa. O que ela via em Eleutério era o homem já desfigurado da repulsão primeira; o homem aceitável como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem, que lhe vai descancelar os áditos do mundo. Assim é que muitas mulheres tem amado aqueles que as salvam; deste amor, assim chamado por não haver mais elástico epíteto que dar à coisa, é que surdem os irremediaveis infortúnios, os ódios irreconciliaveis, e as afrontas que levantam as campas, encerram algozes e vítimas, e ficam ainda de pé sobre às lousas infamadas, pregoando o opróbrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infâmia de suas mães... Colho as vélas; que, neste rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisação: coisa duas vezes importuna.
Conseguira, neste tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta à morgada, carta de esperanças, alento, e consolações, com miúdas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães, e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta prometendo à menina que, antes de cumpridos dois anos, os votos de todos se haviam de realizar diante de Deus, com tanto que Teodora con-servasse firmeza, coragem, e constância.
— Dois anos! — disse entre si a morgada — Esperar dois anos neste purgatório!... Se Afonso me ama, porque não há de vir já roubar-me deste carcere? Dois anos! e viveria eu aqui tanto tempo à espera de não sei que?! Eu captiva aqui dois anos, e ele em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que ele está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Afonso, neste espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se me ele ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá ocasião de envelhecermos. O que eu tenho, meu é já; ninguém mo rouba por eu casar contra vontade do conselho de família... Dois anos!...
E, naquele dia e nos dois seguintes, Teodora, de cinco em cinco minutos, dizia: Dois anos! e ficava meditativa, até de novo exclamar: Dois anos!
Respondeu a morgada à mãe de Afonso que a sua saúde se havia perdido na opressão e dissabores daquela vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ela não amasse. Queixava-se da ausência e silencio de Afonso, e citava o namorado da sua amiga Líbana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Afonso todas as venturas deste mundo, enquanto ela se deliberava a experimentar todas as desditas.
A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se à sua capela, e longo tempo esteve em joelhos pedindo à Virgem que defendesse Teodora dos seus funestos instintos.
E, desde aquela hora, a mãe de Afonso, com quanta delicadeza de admoestação e brandura afetuosa pôde, desviou o filho de pensar em Teodora como futura companheira de sua vida. Afonso pedia instantemente explicações de tal mudança no espirito de sua mãe; e ela, podendo responder com o mais idôneo documento, que era a própria carta da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Teodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade, descrevia-lhe o quase nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memoria de sua mãe; mas não mais lhe falou de Afonso.
A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou razoável o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao artigo essencial de sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saúde corria perigo.
Eleutério, cada vez mais assíduo na grade, já tinha uma outra judia cor de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um colete de veludo escarlate, e um cavalo de marca, aparelhado a primor, e obediente ao freio para todo o gênero de upas e galões. Teodora gostou disto, por que um dos anhelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim razo, trajada em amazona, com as dobras do amplo véu ondulando no frenesi de desapoderado galope. O cavalo — faz pejo dizê-lo! foi muito no determinar-se a morgada a responder categoricamente às tímidas perguntas do primo Eleutério. Assim foi. Ageitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse que estava disposta a tomar estado, visto que a idade lho permitia. Eleutério, perplexo, de ouvi-la, sem ousar supor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito, cuidando que estava ali o coração; quando, porém, a prima lhe disse:
— Faço aquilo que meu tio Romão quiser... Caso com quem ele determinar...
Eleutério expediu um ai de desafogo, e riu-se alvarmente, esfregando as mãos.
Por amor deste sucesso vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no teatro e nos romances. Casos análogos daquele tenho-os visto remedados com trejeitos e exclamações inversas da logica da natureza. No romance todos os Arthures ou Ernestos, ao saberem que são amados, empalidecem, suam, ajoelham, declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher amada. No teatro, em lances idênticos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o próprio pai, se lhe atravancassem o caminho da felicidade. Rir às cascalhadas é que eu ainda não vi amante ditoso nenhum, no instante solene de se crer amado. Eleutério Romão dos Santos é o primeiro modelo que a natureza me oferece.
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade, que endouda e transporta, o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui calcinado de coração. Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são umas pessoas áridas, frias, e falsas, que inventam a natureza, depois que desbarataram a sensibilidade, exagerando as generosas comoções que receberam dela.
Teodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ela o queria falsificado no molde dos romances, que a menina transmontana lhe emprestára; mas, ainda assim, aceitou com paciência a linguagem desartificiosa daquela ingenua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleutério Romão dos Santos falou assim:
— Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser tão rico como Sansão. (O padre Hilario quisera lecional-o em sagrada escritura: falou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de três sílabas, deve supôr-se que também em matéria de história, preferia os individuos de duas aos de três sílabas.)
E continuou:
— Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Teodora...
em isto, como lhe não ocorresse ideia nenhuma com que fechar a oração condicional, levou a mão à testa, e roçou a epiderme com o aro de um robusto anel que trazia no dedo indicador. Ideia magnifica! Tirou o anel, e lançou-o ao regaço de Teodora. Tinha o anel um grosso topázio, engastado num circulo de perolas. Teodora examinou o objeto, e enganada pela circumferencia do aro, esteve quase a pensar que era uma pulseira.
— Faz favor de encaixar no dedo, prima — disse Eleutério.
— Não me serve — disse a menina.
— É que está magrinha das mãos... — replicou o moço — Pois guarde-o, e quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima há de engordar com os ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa, e acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.