Título IV - Século XIX, capítulo IV: 1840-1849
*TITULO IV. *
*SECULO XIX. *
CAPITULO IV.
1840.
Desde 23 de Julho cessa a Regencia no Brazil, e impéra o Senhor D. Pedro II. — O primeiro grande acto do seu reinado foi a amnistia geral concedida a todos os implicados nas revoluções em todo o Imperio (Decr. 22 de Agosto). — O Deputado Alvares Machado vai em comissão ao Rio Grande do Sul, a ver se por meio da amnistia consegue reduzir à obediencia os revollosos; porém estes não a acceitão. Em consequencia o Presidente Alvares Machado rompe com os rebeldes; e de novo começão as hostilidades (10 de Dezembro). — Aparece a L. 12 de Agosto; contendo a interpretação de alguns artigos do Acto Adicional (mas não o interpretou unicamente, alterou muito o Acto, tirando às Assembléas Provinciaes algumas das exorbitantes prerogativas que lhes havião sido concedidas).
1841.
Os exforços do Coronel Lima e a aparição da amnistia geral conseguem a completa e inteira pacificação do Maranhão. — Tambem no Pará a amnistia produzio beneficos resultados, fazendo cessar de todo as desordens, e chamando ao gremio da sociedade aqueles que ainda receiavão fazel-o. — No Sul porêm continuão as hostilidades, sem resultado algum notavel. — A 18 de Julho tem lugar na côrte o acto solemne da Sagração e Coroação de S. M. I. Foi sagrado na Capella Imperial pelo Arcebispo da Bahia (apezar da grave disputa que houve entre este e o Bispo Diocesano Capellão-Mór). — Aparecem duas leis que derão lugar ou antes servirão de pretextos a movimentos revolucionários. São elas: — 1. ^o a L. 23 de Novembro, criando hum Conselho de Estado, pois o que existia pela Constituição fora abolido pelo Acto Adicional. — 2. ^o a L. 3 de Dezembro, contendo as reformas judiciarias.
1842.
A Assembléa Provincial de S. Paulo envia ao Rio de Janeiro huma comissão de 3 membros (Nicoláu Pereira de Campos Vergueiro, Bernardo José Pinto Gavião Peixoto, e Francisco Antonio de Souza Queiroz que chegarão no dia 3 de Fevereiro) afim de levar a S. M. I. huma representação, porêm não é recebida e volta para S. Paulo. — Devendo reunir-se a Assembléa Geral, he a Camara temporaria dissolvida por Decr. do 1. ^o de Maio, e convocada outra para 1. ^o de Novembro. — Predispostos já os espíritos em varias Provincias, e exacerbados ainda mais pela existencia das leis do ano antecedente, pela recusa da recepção da comissão, e pela dissolução da Camara, rompe (13 de Maio) em Sorocaba, na Provincia de S. Paulo, a revolução a cuja testa se poz Rafael Tobias de Aguiar, acclamado Presidente pelos desordeiros. Era então Presidente da Provincia o Barão de Monte Alegre; o qual já havia tomado medidas para obstar à entrada dos insurgentes na capital, e pedido soccorros à côrte. Parte immediatamente (19 de Maio) para S. Paulo o Barão de Caxias, nomeado Commandante em Chefe das forças imperiaes nesta Provincia. — Quasi ao mesmo tempo (10 de Junho) rompe a revolução em Barbacena, na provincia de Minas Geraes, tendo à sua frente José Feliciano Pinto Coelho acclamado Presidente pelos insurgentes: era Presidente da Provincia Bernardo Jacintho da Veiga. Estes incendião a ponte do Parahibuna que communica a Provincia de Minas com o Rio de Janeiro, pensando assim obstar à passagem de tropas e soccorros. — Pelo mesmo tempo o Decr. de 18 de Junho suspende por um mês na côrte e Provincia do Rio de Janeiro as garantias constitucionaes. — A 20 de Junho estava completamente suffocada em S. Paulo a rebellião tendo-se dispersado os insurgentes à aproximação das forças legalistas, sobre tudo depois do ataque da Venda Grande. — A 3 de Julho são deportados alguns individuos existentes no Rio de Janeiro, e dos quaes se receiava alguma tentativa de revolução na côrte (entre outros Antonio Paulino Limpo de Abreu, Dr. Joaquim Candido Soares de Meirelles, Francisco de Salles Torres-Homem, etc.) — O Decreto de 27 de Julho transfere para 1. ^o de Janeiro de 1843 a convocação da nova Assembléa Geral. — Tendo chegado a Minas o Barão de Caxias (que havia sahido da côrte no dia 25 de Julho), encontra-se com os insurgentes no arraial de Santa Luzia; porém eles resistem com denodo: já o Barão havia queimado toda a polvora, e corria grave perigo a causa da legalidade, quando aparece por felicidade extrema hum reforço às ordens de José Joaquim de Lima e Silva: assim forão completamente desbaratados os insurgentes com grande mortandade, e he restituida a paz à Provincia. — De volta à côrte he o Barão de Caxias nomeado Presidente e Commandante das Armas no Rio Grande do Sul, para onde parte com novas tropas no dia 29 de Outubro afim de terminar tão desastrosa guerra civil.
1843.
Em o 1. ^o de Maio celebra-se no Rio de Janeiro o casamento do Principe de Joinville com a Princeza D. Francisca: pouco depois retirão-se para a Europa. — Continua a guerra civil no Sul. O Chefe de Esquadra Greenfell he substituido por Antonio Pedro de Carvalho no commando das forças navaes nestas paragens. Os rebeldes são completamente batidos pela tropa legalista no lugar denominado Ponche-Verde (26 de Maio). — A 30 de Maio casa-se S. M. I. , por procuração em Napoles com a Senhora D. Tereza Christina Maria, irmã do Rei das Duas-Sicilias. Chega a Imperatriz ao Rio de Janeiro (3 de Setembro). — Neste ano houve grave debate no Senado por ocasião da questão do julgamento dos Senadores implicados nas revoluções de 42. Huns opinavão que não podião ser processados e julgados por não haver lei que determinasse a fórma do processo, apezar de se achar determinado em lei qual a autoridade, qual o crime e a pena; que o contrario seria a violação mais revoltante do Art. 179, § 11 da Constituição: outros porém combatião esta opinião, dizendo que se aplicasse a fórma geral do processo nos crimes de responsabilidade conforme o Art. 170 do Cod. do Proc. Crim. O resultado foi prevalecer a primeira opinião, julgar-se improcedente o processo, e tratar-se de fazer a lei que preenchesse esta lacuna da legislação penal. Em consequencia a Resol. de 14 de Junho deste ano aplica aos crimes individuaes dos membros do Corpo Legislativo o Art. 170 do Cod. do Proc. Crim.
1844.
Em 24 de Janeiro há hum levantamento no Pilão-Arcado (Provincia da Bahia), movido por Militão e Guerreiros: comettem toda a sorte de desacatos, mortes, roubos, etc. O Presidente manda força e o Chefe de Policia a restabelecer a ordem. — Na côrte os Ministros retirão-se do Ministerio; e com a organisação do novo Gabinete desce do poder o partido monarchista ou Saquarema, e sobe o liberal ou Santa Luzia (2 de Fevereiro). — O Decr. de 14 de Março concede amnistia aos revoltosos de Minas e S. Paulo. — Ao mesmo tempo autorisa-se o Presidente de S. Pedro do Sul a conceder amnistia aos rebeldes que se viessem entregar; mas esta autorisação foi só por espaço de 3 mezes. — Em 28 de Abril casa-se no Rio de Janeiro o Cunhado de S. M. o Imperador o Conde de Aquila, com a Princeza D. Januaria, os quaes pouco depois retirão-se para Europa. — O Decr. de 24 de Maio dissolve a Camara dos Deputados, e convoca a Assembléa para o 1. ^o de Janeiro do ano seguinte. — Em Outubro rebenta nas Alagôas huma revolução: os sediciosos entrão por duas vezes na capital, obrigando o Presidente a fugir para bordo de vasos de guerra. Chegão tropas da Bahia e Pernambuco, enquanto sahe do Rio de Janeiro o Brigadeiro Seára com alguma tropa a restabelecer a tranquillidade. Com effeito encontrão-se os insurgentes e legalistas na villa da Atalaia (4 de Novembro), onde depois de luta encarniçada e grande derramamento de sangue são vencidos e repellidos os desordeiros. Mas nem por isso foi totalmente restabelecida a tranquillidade; o que só se conseguio com a mudança do Presidente. E na realidade tendo tomado posse da Presidencia (9 de Dezembro) o Senador Caetano Maria Lopes Gama, os sediciosos entregão as armas: e a paz é completamente restabelecida com a amnistia que lhes foi concedida. — No Sul do Imperio continuavão felizes as nossas armas: de modo que os rebeldes envião à côrte (onde chega no dia 10 de Dezembro) em comissão Antonio Vicente de Fontoura afim de tratar com o Governo ácerca do restabelecimento da paz em aquella Provincia sob certas condições; Fontoura volta ao Rio Grande; e o Barão de Caxias recebe plenos poderes para tratar com os rebeldes.
1845.
Nasce no Rio de Janeiro o Principe Imperial, primogenito do Senhor D. Pedro 2. ^o (23 de Fevereiro). — Termina neste ano a longa luta civil em S. Pedro do Sul, que durara quasi 10 anos e trouxera graves desastres e calamidades a essa malfadada Provincia e ao Brazil inteiro. David Canavarro, chefe dos rebeldes, convoca todos os chefes e officiaes para o lugar denominado Ponche-Verde, e ahi lhes propõe voltarem à paz sob a promessa Imperial de não serem inquietados: todos aceitão. E no dia 28 de Fevereiro entregão as armas, voltando para o seio de suas familias, e obrigando-se a não alterarem mais em tempo algum a paz e tranquillidade publica. Esta noticia é por todo o Brazil recebida com jubilo extraordinario. — Muitos são os Officiaes que se distinguirão nesta guerra, e merecem grandes elogios: além dos que já temos citado, muito se distinguio o bravo Francisco Pedro de Abrêu, o Brigadeiro Bento Manoel Ribeiro, já por ultimo reduzido de novo à legalidade, e que muito coadjuvou o Barão de Caxias na total e definitiva pacificação desta Provincia. — Em 13 de Março deste ano terminou o prazo de duração do tratado de 1827 com a Inglaterra, apezar de ter sido prolongado por mais 3 anos além do tempo convencionado, depois de huma grave questão entre o Gabinete do Rio de Janeiro e o de Londres sobre a intelligencia de hum artigo do mesmo tratado em que se fixava para sua duração o prazo de 15 anos. Cessão por conseguinte as Commissões Mixtas no Rio de Janeiro e Serra-Leôa (13 de Setembro). Cessa o direito de visita e busca nos vasos mercantes Brazileiros suspeitos de se empregarem no trafico de escravos. Cessa o privilegio de fôro de que gosavão até aqui os subditos Inglezes. Cessão tambem os privilegios commerciaes e favores concedidos pelo dito tratado. — Tem lugar na côrte o baptismo do Principe Imperial (25 de Março) que recebe o nome de D. Affonso. — Horrivel secca lavra pelo Norte do Imperio sobretudo na desgraçada Provincia do Ceará. — Tendo S. M. I. annunciado na falla de encerramento da Assembléa Geral que pertendia visitar as provincias do Imperio, parte com effeito da côrte (6 de Outubro) em direcção ao Sul. Visita as Provincias de Santa Catharina e Rio Grande, percorrendo quasi todas as povoações e fazendo immensos donativos pios. Era acompanhado de Sua Augusta Esposa. — Neste mesmo ano um facto da maior importancia tem lugar em Inglaterra. Lord Aberdeen obtem do Parlamento o celebre bill (8 de Agosto), que sujeita os navios e subditos Brazileiros suspeitos de se empregarem no trafico de escravos a serem julgados pelos seus Tribunaes, e punidos pelas leis Inglezas como piratas. — Como era de esperar, o Governo Brazileiro protestou (Manif. de 22 de Outubro) contra semelhante offensa de todos os direitos e honra nacional. — Por outro lado o Memorandum do Visconde de Abrantes (de 9 de Novembro de 1844) aos Gabinetes de Londres e Paris sobre a intervenção Europea nos negocios do Rio da Prata excita reclamações da parte de Buenos-Aires, que complicão ainda mais as nossas relações com esta Republica, relações já alteradas por varios motivos.
1846.
SS. MM. II. depois de visitarem as Provincias de Santa Catharina e S. Pedro do Sul dirigem-se para S. Paulo. Chegão a Santos no dia 18 de Fevereiro. E, depois de percorrerem varios pontos da Provincia, fazem-se de véla para a côrte no dia 15 de Abril. — S. M. a Imperatriz dá na côrte à luz huma Princeza (29 de Julho). — Aparece a Lei das Eleições (19 de Agosto deste ano), regulando o modo de se proceder às eleições dos Deputados Geraes e Provinciaes, dos Senadores, Juizes de Paz e Vereadores. — Tem lugar no Rio de Janeiro hum facto que comprometteo de certo modo as boas intelligencias entre o Brazil e os Estados-Unidos, não pelo facto em si, mas pela maneira porque se portou o Ministro daquela Republica. No dia 31 de Outubro procedendo-se no Largo do Paço à prisão de alguns marinheiros Americanos por se estarem espancando armados até de facas, alguns Officiaes da Marinha dos Estados-Unidos querem obstar à prisão, e hum delles até chega a ter a audacia de desattender à Guarda do Paço Imperial, avançando para ela com huma espada na mão. Este Official foi em consequencia legitimamente preso pela autoridade competente. O Ministro Wise reclama a soltura do Official, e porta-se de huma maneira inaudita, incivil, brutal. O nosso governo por condescendencia e deferencia para com o dos Estados-Unidos deixa sair o Official, continuando porém o processo até final. Já isto foi fraqueza do nosso Ministro Barão de Cairú. Porém a nossa posição e a honra nacional forão mais compromettidas pela maneira pouco decorosa e digna com que se portou nos Estados-Unidos o nosso representante Gaspar José Lisboa, que em vez de reclamar huma satisfação do governo de Washington deo-a como si foramos nós os injuriadores. É verdade que, nem o Governo do Brazil aprovou o procedimento do nosso Ministro, nem o dos Estados-Unidos o do seu; pois que no ano seguinte os fizerão substituir. — Tem lugar na côrte o Baptismo da Princeza que recebe o nome de D. Izabel (15 de Novembro).
1847.
A 20 de Março sahe o Imperador a visitar a Provincia do Rio de Janeiro; e depois de chegar até Campos, volta à côrte em breves dias. — Fallece no Rio de Janeiro o Principe Imperial D. Afonso (11 de Junho): igual sorte tem tido todos os primogenitos da Casa de Bragança. — S. M. a Imperatriz dá à luz huma Princeza (13 de Julho). — Tendo sido escolhidos Senadores por Pernambuco Antonio Pinto Chichorro da Gama e Ernesto Ferreira França, o Senado na sessão de 16 de Julho annulla as eleições, e manda proceder a novas. Os espíritos nesta Provincia se exacerbão, e os periodicos tornão-se insultantes, revolucionarios, e incendiarios, não poupando mesmo a pessoa sagrada e inviolavel do Monarcha Brazileiro. — Durante o mês de Julho teve lugar nas Camaras huma gravissima questão, qual a interpretação do Art. 61 da Constituição; pois que o Senado fundou-se nesse artigo para não annuir ao convite que fizera a Camara dos Deputados para se reunirem em Assembléa Geral. O resultado foi não ter lugar a fusão das Camaras, ficando por conseguinte entendido — que é livre acceitar ou não o convite para se reunirem em Assembléa Geral. — O Decr. de 20 de Julho cria hum Presidente do Conselho de Ministros de Estado. — Em 5 de Agosto chega ao Rio de Janeiro Lord Howden como Enviado Extraordinario e Ministro Plenipotenciario da Grã-Bretanha junto ao nosso Governo. Desde que cessou o tratado com a Inglaterra, foi este o 3. ^o Ministro que veio entabolar novas negociações, tendo sido mal succedidos Ellis, e Hamilton-Hamilton; porém a nenhum agouramos melhor sorte, enquanto subsistir o bill de 1845; ao menos são estes os nossos votos. — A 8 de Agosto chega o Senhor Todd, como Ministro dos Estados-Unidos, e substitue a Wise, que tão mal e incivilmente se portára na questão de que acima fallámos. — A 7 de Setembro tem lugar no Rio de Janeiro o Baptismo de S. A. , que recebe o nome de D. Leopoldina. — Durante este mesmo mês de Setembro graves contestações tiverão lugar no Senado sobre as cousas de Pernambuco, e espirito revolucionario que se ia ali desenvolvendo com cores bem negras, sobretudo por causa das eleições para Senador e por se conservar na Presidencia o Senhor Chichorro. — No dia 7 deste mesmo mês, anniversario de nossa independencia, vierão às mãos na Capital do Maranhão os dous partidos ali existentes; depois de alguns ferimentos, espancamentos e mortes, é restabelecida a ordem à aproximação da tropa. — Durante o mês de Novembro tem lugar desordens e mesmo derramamento de sangue em algumas Provincias do Norte por causa das eleições primarias para a nova legislatura, sobretudo nas Provincias do Ceará e Maranhão. Em Pernambuco tambem houve suas desordens, que virião a ter funestas consequencias a não serem immediatamente reprimidas. — A 7 de Dezembro procede-se em todo o Imperio à eleição dos Deputados à Assembléa Geral, na forma da nova Lei. — Nada mais de importante se passou durante o ano, a não ser a continuação da discussão na Assembléa Geral do projecto de hum Codigo Comercial para o Brazil, Codigo reclamado de há muito imperiosamente pelas necessidades do nosso commercio.
1848.
— A 1. ^o de Fevereiro sahe o Imperador a visitar varios pontos da Provincia do Rio de Janeiro; e, depois de percorrer as villas da Parahiba, Valença, Vassouras, e Iguassú, volta à côrte onde chegou no dia 28 do mesmo mês. Em todas as suas viagens tem o Monarcha Brazileiro recebido as provas mais indubitaveis da adhesão do povo aos principios que nos regem, e da estima que consagra ao Chefe Supremo do Estado: de seu lado tambem o Monarcha tem sabido captivar ainda mais o povo pelas suas bellas e delicadas maneiras, pelas graças distribuidas aos cidadãos, e mais ainda pelos beneficios de todo genero, donativos e fundação de estabelecimentos pios e outros que serão sempre o padrão mais indestructivel dos nobres e bellos sentimentos que ornão seu coração. — No Maranhão, tendo de proceder-se à eleição de um Senador foi tal o encarniçamento dos partidos que no dia 23 de Abril vierão às mãos, sendo necessario intervir a policia para pôr termo, não sem derramamento de sangue, a semelhante desordem. Cenas iguaes tem flagellado sempre o Imperio nas criticas épocas de eleições! — São de novo annulladas as eleições de 2 Senadores por Pernambuco, havendo sido novamente escolhidos Chichorro e França: chegando à Provincia tal noticia, há na capital huma pequena desordem, que foi logo suffocada. Ahi mesmo nos dias 26 e 27 de Junho houve desordens, que terião funestas consequencias a não serem immediatamente reprimidas, porque tendião a assassinar e expellir da Provincia todos os Portugueses, allegando futeis motivos, e querendo dest'arte renovar a odiosidade do tempo colonial, odiosidade que devia ter desapparecido com a nossa regeneração politica. — A 19 de Julho S. M. a Imperatriz dá à luz hum Principe. — Procedendo-se no Rio de Janeiro à eleição de Vereadores e Juizes de Paz, tem lugar nos dias 7, 8 e 9 de Setembro pequenas desordens e espancamentos entre Brazileiros e Portugueses; as quaes cessarão immediatamente, restabelecendo-se perfeitamente a tranquillidade. — A 29 de Setembro organisa-se o novo Ministerio, deixando deste modo o poder o partido liberal ou Santa Luzia, que nelle se achava desde 1844, e subindo o partido monarchista ou saquarema. (A terminar este ano, e entrar o de 1849, acha-se o Ministerio organisado do modo seguinte: Presidente do Conselho e Ministro dos Estrangeiros, Visconde de Olinda; Ministro do Imperio, Visconde de Monte Alegre; Ministro da Justiça, Euzebio de Queiroz Coutinho Mattozo da Camara; Ministro da Marinha e interinamente da Guerra, Manoel Felizardo de Souza e Mello; Ministro da Fazenda, Joaquim José Rodrigues Torres). — No dia 4 de Outubro teve lugar na côrte o baptismo do Principe herdeiro presumptivo, que recebeu o nome de D. Pedro. — Neste ano as discussões da Assembléa estiverão muitissimo calorosas, freneticas e tumultuarias, sobretudo pelos negocios de Pernambuco, seu estado critico e acontecimentos de Junho, pelos acontecimentos de Setembro na côrte, e ultimamente por se recusarem os novos Ministros a declarar perante a Representação Nacional a politica que pertendia seguir o actual Gabinete, como exigião alguns Deputados. De sorte que, não sendo possivel continuar em semelhante estado de effervescencia os trabalhos legislativos, são as Camaras adiadas em 5 de Outubro para 23 de Abril de 1849. — Em Pernambuco, exacerbados os espíritos pelos escriptos incendiarios de varios periodicos de hum dos partidos (o praieiro ou liberal) em que se acha dividida a Provincia, pelos acontecimentos de Junho e motivos pouco justos que lhes derão lugar, e por ultimo vendo o partido que certas autoridades estavão demittidas, reunem-se varios grupos em diversos pontos da Provincia com o fim de se oppôrem, mesmo com as armas, à execução das ordens superiores. Rompe por conseguinte (7 de Novembro) a revolução já de muito preparada e que só esperava um pretexto para aparecer e tentar a realisação das ideias ultra-liberaes, que por vezes tem sido causa de revoluções no Imperio. É Presidente da Provincia Herculano Ferreira Penna. O Coronel João Vicente de Amorim Bezerra bate os insurgentes em Maricota (10 de Novembro), e Mussupinho (14 de Novembro) onde muito se distinguio o capitão Brazil. Do Ceará e Alagôas sahem tropas para combater a revolução em Pernambuco. Tambem da Bahia sahem algumas ao mando do Brigadeiro José Joaquim Coelho. Os insurgentes continuão a ser batidos em outros pontos. Organisa-se o corpo de Voluntarios, cujo commando é confiado ao conselheiro Sebastião do Rego Barros. O Brigadeiro Coelho toma o commando em chefe das forças em Pernambuco (23 de Novembro). — Oito Deputados à Assembléa Geral publicão hum Manifesto (25 de Novembro) em que procurão justificar a revolução (_Joaquim Nunes Machado, Antonio Afonso Ferreira, Dr. Jeronimo Villela de Castro Tavares, Dr. Filippe Lopes Netto, José Francisco de Arruda Camara, Antonio da Costa Rego Monteiro, Dr. Joaquim Francisco de Faria, e Felix Peixoto de Brito e Mello). Os revoltosos são batidos em Nazareth (28 de Novembro) pelo Tenente-Coronel José Maria Ildefonso Jacome da Veiga Pessoa; em Maricota (30 de Novembro) pelo Coronel Bezerra; sempre que batidos acoutão-se nas mattas do Catucá, onde se acha o celebre João Ignacio Ribeiro Roma, commandante em chefe dos revoltosos, e donde sahem em pequenas guerrilhas a incommodar as povoações e forças legalistas. São batidos em Una (8 de Dezembro) pelo Major Siqueira Leão, bem como nas mattas do Catucá (10 de Dezembro) pelo General em Chefe Coelho. Porém no dia 13 de Dezembro ocupão a cidade de Goianna, tendo havido grande derramamento de sangue; mas no seguinte a abandonão, e ocupão no dia 16 a povoação de Pedras de Fogo. Já no dia 12 havião partido tropas e armamento da côrte para Pernambuco. São batidos os insurgentes em Cruangy (20 de Dezembro) pelo General Coelho. A 25 de Dezembro toma posse da Presidencia o Dezembargador Manoel Vieira Tosta, que substitue Ferreira Penna. Os revoltosos são batidos em Almécega, e Gaipió_ (26, 30 e 31). Os mesmos Deputados, que assignarão o Manifesto de 25 de Novembro, assignão huma proclamação, onde declarão alto e bom som adherir ao movimento revolucionario, e collocar-se à frente delle. Em consequencia sahem da capital (31 de Dezembro) Nunes Machado, Afonso Ferreira, Peixoto de Brito, e Villela Tavares a dirigirem a revolução no Sul da Provincia e convidarem Alagôas a sublevar-se.
1849.
Continúa a rebellião em Pernambuco. — Os rebeldes da parte do N. da Provincia são batidos em Mãe Catharina (5 de Janeiro); e procurando o S. para se reunirem aos seus consocios na comarca do Rio Formoso são batidos successivamente em Carauna e Camaragibe (13 de Janeiro), apezar de se acharem em alguma força; entranhando-se sempre pelas mattas afim de melhor continuarem a marcha que levavão para o S. , e incommodarem com suas guerrilhas as forças legalistas. — No entanto o Deputado Nunes Machado e outros, que a 31 de Dezembro p. p. havião sahido do Recife para dirigirem a revolução no Sul da Provincia, e desembarcado na praia da Gamella, tendo conseguido reunir alguma gente, dirigem-se para a comarca do Rio Formoso, e tomão Barreiros nos confins com Alagôas (10 de Janeiro). Em breve porém abandonão este ponto por saberem que as forças de Alagôas e de Pernambuco combinadas os ião attacar; e retirão-se para Tentugal. — Os revoltosos do N. conseguem reunir-se aos do S. e dirigem-se todos para Agua Preta, onde concentrão suas forças: existindo tambem outros pequenos bandos dispersos pela comarca do Bonito, depois que forão batidos (22 de Janeiro) perto da villa deste nome pelas tropas em operações neste ponto. — O General em Chefe Coelho, e já antes delle o Coronel João do Rego Barros sahem para Agua Preta a bater as forças reunidas dos revoltosos. — Estes porém abandonão Agua Preta (26 de Janeiro), e avanção sobre a capital a marchas tão violentas, que a 1. ^o de Fevereiro se achavão mui perto della. Capitaniados por Peixoto de Brito e outros caudilhos, e de intelligencia com os seus co-religionarios da capital, aproveitão-se da ausencia do General Coelho e das forças a seu mando, e atacão em numero maior de 2: 000 o Recife (2 de Fevereiro). Renhida e mortifera foi a luta; mas afinal forão victoriosamente repellidos pelos exforços das tropas e Guarda Nacional que se achavão na cidade, ajudadas por alguns vasos, sobretudo pelo vapôr de guerra nacional D. Affonso, e ultimamente pelas forças do General Coelho que a marchas forçadas chegou a tempo de auxiliar a defeza da cidade. O resultado deste combate foi mortandade immensa de parte a parte, em cujo numero muitos officiaes e outras pessoas de alguma representação na sociedade, entre as quaes um dos Deputados rebeldes Nunes Machado; muito maior numero de prisioneiros e feridos; dispersarem-se fugitivos os revoltosos, terminando assim a louca pertenção de à força conseguirem seus intentos. — Os rebeldes fogem divididos em 2 grupos; hum commandado por Peixoto de Brito, Borges da Fonseca e outros dirige-se para o N. ; o outro sob a direcção de Pedro Ivo, entranhando-se pelas mattas toma a direcção do S. — Em sua marcha o grupo do N. devasta e assola a cidade de Goianna; porém perseguido sempre pelo Tenente-Coronel Falcão, e batido em Páo-Amarello (13 de Fevereiro): em consequencia fogem para a Parahiba, onde se acoutão na cidade de Arêas; mas são daqui expellidos (21 de Fevereiro) pelo mesmo Falcão, vendo-se assim na dura necessidade de se refugiarem nas mattas. Porêm não achando apoio na Provincia, fogem de novo para Pernambuco (27 de Fevereiro); onde abandonados a maior parte pelos seus próprios chefes entregão-se ao Governo, confiados na Clemencia Imperial e na amnistia promettida pelo Presidente em 3 de Março, e para a qual se achava autorisado pelo Decr. de 11 de Janeiro. Ainda pequeno numero se conservou hostil sob o mando de Borges da Fonseca, achando abrigo unicamente nas mattas; porêm estes mesmos, depois de pequenos ataques, são afinal batidos e destroçados no lugar das Tres-Ladeiras, termo de Iguarassú (30 de Março), sendo prisioneiros seu chefe Borges da Fonseca e outros; perseguidos e vencidos dest'arte, entregão-se confiados na amnistia. Assim se dissipa o grupo do N. — Quanto ao grupo do S. , conseguio ele fixar-se em Agua-Preta; porêm a abandonão à aproximação das forças legaes; e a 13 de Março he ocupada pelo Tenente-Coronel Antonio Maria de Souza e forças das Alagôas. Os rebeldes deste lado da Provincia tambem se entregão pouco a pouco implorando a Clemencia Imperial, mesmo alguns de seus chefes (como seja Caetano Alves, que em 5 de Abril se entregou com 324 homens). — Assim, perseguidos sem cessar, batidos sempre e obrigados a acharem por unico abrigo as mattas, presos alguns chefes, outros fugidos, e apresentando-se a maior parte dos seus sequazes implorando a Clemencia Imperial; terminada se deve considerar uma luta, que por mais de 5 mezes só servio de assolar, arruinar e desmoralisar huma das mais bellas Provincias do Brazil; de derramar inutilmente o precioso sangue Brazileiro; diminuir as forças do Imperio; sobrecarregar os seus cofres de despeza immensa; e arruinar e desgraçar muitas e muitas familias. Sem motivo mais que saciar mesquinhas e vis paixões, vingar interesses pessoaes contrariados e não satisfeitos, conseguir a todo custo a convocação de huma Constituinte, proclamou-se tal revolta, com vistas futuras, si fora bem succedida: e deste modo não se duvidou affrontar tudo quanto há de mais sagrado, calcarão-se todas as Leis, todos os deveres e considerações, e ateou-se no país a guerra civil com todas as suas horriveis consequencias. — O Presidente Tosta é substituido por Honorio Hermeto Carneiro Leão, que toma posse a 2 de Julho, continuando no commando das Armas o Marechal Coelho. — Dissolvida a Camara Temporaria por Decr. de 19 de Fevereiro e convocada outra para o dia 1. ^o de Janeiro de 1850, procede-se em todo o Imperio às eleições primarias para a actual 8. ^a Legislatura (5 de Agosto); não deixando de haver, como sempre, algumas pequenas desordens em varios pontos. E logo depois à eleição dos Deputados para a mesma (5 de Setembro). — Na côrte, o Ministerio soffre modificação. Manoel Vieira Tosta toma conta da pasta da Marinha (1. ^o de Setembro), para a qual se achava nomeado por Decr. de 23 de Julho; continuando com a da Guerra Manoel Felizardo. O Visconde de Olinda deixa a pasta dos Estrangeiros, que é confiada a Paulino José Soares de Souza; e a Presidencia de Ministros que passa ao Visconde de Monte Alegre (8 de Outubro). — No Rio Grande do Sul varios grupos se reunirão na fronteira para se desforçarem de attentados e barbaridades praticados contra os nossos pelos Orientaes (Novembro e Dezembro); tornando-se notavel o feito do Barão de Jacuhy (Francisco Pedro de Abrêu). — No entanto a guerra civil em Pernambuco, que parecia terminada, é de novo atêada (Julho) pelo Capitão Pedro Ivo, que com falsos boatos consegue chamar a si para mais de 400 desgraçados, reunindo-se-lhe tambem Caetano Alves que em menos-preço da amnistia que lhe fora concedida não duvidou alterar de novo a ordem publica e hastear a bandeira da rebeldia. Conserva-se em posição hostil nas mattas de Agua-Preta. O Presidente embalde procura chamal-o à ordem pelos meios brandos, oferecendo-lhe amnistia com certas condições; ele, instigado pelos réos politicos em Recife, resiste sempre, tudo recusa, e obriga a empregar meios energicos e a força (Outubro). Diversos grupos aparecem em outros pontos; pequenos encontros tem lugar, sem resultado algum decisivo por se recusarem os rebeldes a sair das mattas e a acceitar combate formal: hum grupo que se achava para as bandas de Serra-Negra foi dispersado pelo Capitão Brazil (11 de Dezembro); e hum outro que se havia acoutado nas mattas do Catucá, apartando-se daí e seguindo para o N. foi batido na Barra de Natuba, Provincia da Parahiba, pelo Tenente-Coronel Innocencio (30 de Dezembro). Os rebeldes, seguindo sempre o cauteloso sistema de se acoutarem nas mattas, dellas não sahem senão para commetterem depredações e assassinatos, prolongando dest'arte huma luta summamente prejudicial ao Brazil por qualquer lado que a encaremos, e mais particularmente à bella Provincia de Pernambuco.