Capítulo avulso O que fazem mulheres · Capítulo 3 de 21
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Capítulo avulso

CAPÍTULO AVULSO PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUISER

Francisco Nunes...

Que nome tão peco e charro! Francisco Nunes!

Pois se o homem chamava-se assim!?

Deus sabe que tristezas eram as dele por causa deste Nunes. O rapaz tinha talento de mais para escrever folhetins líricos, e outras coisas. Pois nunca escreveu porque não queria assignar-se Nunes.

Há apelidos que parecem os epitáfios dos talentos.

Um escritor Nunes morre ao nascer.

Bem o sabia ele.

Houve em Portugal um escritor chamado Antônio José. Se a inquisição o não queima, ninguém se lembrava hoje dele.

Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. Domingos fizesse o milagre de reacender as fogueiras nos subterrâneos do teatro de D. Maria.

Outros lá sofrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...

Não escrevia nada; mas falava muito, e, quase sempre, sozinho, em casa, e na rua. Não incomodava ninguém; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-se Francisco Nunes.

Ele aí vai, faz agora três anos, por uma rua do Porto, vizinha da de Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguém o escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.

Esta rua, por um lado, tem raros edifícios; pelo outro é marginada por um comprido muro de quintais que pertencem às casas da rua paralela.

Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um trejeito iracundo, com o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte teor:

«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha deste charuto!

«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu!

«Frieiras, gota, paralisia, e morte tolham os dedos que te colheram!

«O sol, que te secou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!

«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se como as das múmias de Memfis.

«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contrato do tabaco, para vós o inferno ilimitado, a região tenebrosa dos condemnados, onde há o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!

«Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, de onde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França. [1]

«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, enegrecem as substancias orgânicas, como o acido sulfúrico.

«São amargos e cáusticos como o acido nítrico.

«Calcinam os beiços como o acido hidrochlorico.

«Queimam a laringe como o acido fosfórico.

«Laceram o esofago como o acetato de chumbo.

«Fulminam e despedaçam como o acido hidrociânico. »

Enquanto ele repuxava o vapor do incombustivel rolo de erva-santa (que blasfêmia! santa! ) façamos tremendas reflexões:

Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente reclamado. Sente-se na literatura este vazio desde que a novela é um extendal da ciência humana; e esta pode, sem immodestia, graduar-se assim.

Quando se escreviam bacamartes para as gerações sofredoras, que os lêram, o sábio repunha aí em azedo vomito as indigestas massas, que ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das bibliotecas.

O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade de aquelas gordas almas, que resumavam pingue chorume por três mil páginas em tipo-breviário.

Não vos faz melancolia ver a lombada desses enormes volumes aprumados numa estante? Não há naquele aspeito triste alguma coisa que vos faz crer que o in-folio chora pelo frade?

Agora não se escreve de aquilo, posto que o saber humano seja mais vasto, e opulentado com as vigílias de dois séculos laboriosos. Reina o romancista, que é o sucessor do frade, na ordem das inteligências productivas.

Ora, o romancista há de, por força de sua natureza scientifica, despejar no romance a ciência que lhe traz intumecido o estomago intelectual; e o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrução publica não organisar os estudos de modo que as ciências transcendentes, em consorcio com as da natureza física, desbravem o espirito-charneca de muito leitor sandio, que não pode entender a iracúndia chimica de Francisco Nunes.

O qual continuou assim:

«Há cinco séculos que a raça proscripta de Israel sofreu em Paris uma perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, porque a calúnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentára envenenar as fontes e poços de França.

«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramais o veneno à luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carroagens a droga homicida; matais a mocidade de uma nação, que asfixia às mãos dos velhos: a vós, que alimentais o vicio alheio com o crime próprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintém?

«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores livros de ciência, as obras primas da arte, os dinheiros extorquidos à pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o povo inofensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos envenenadores públicos, aos sicários de charuto, que te desentranham a alma num rolo de fumo negro.

«Que é dos vestígios da civilização cristã? Que é da égide que protege o fraco dos afrontamentos do forte? Em que lapide está escrita a lei que assegura a vida do homem?

«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Aí os propinadores de venenos eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius Silla, a tua lei de suplicio para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura desta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis diários, por cabeça.

«Aqui, há o morrer sem recurso de revista, o expirar em vômitos negros, o tossir ríspido da bronchite, as asthmas ofegantes, o ronco profundo da pieira laríngea, os delíquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorragias de sangue apostemado: — há tudo isto, debaixo deste céu impassível, na presença do código criminal, num país, onde trabalha a eletricidade por arames, onde se comem omeletes sucrées e soufflées, e de onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudar BENEFICÊNCIA «Mentira! Mentira e escárnio!

«Se quereis beneficiar este país, não mandeis lá fora, oh parvos governadores da Barataria, não mandeis lá fora estudar o processo do bem-fazer.

«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois anos, e já precoces sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cútis macilenta, onde deviam vicejar as rosas da adolescência, adhere aos ossos desmedulados e cariados; uma tosse violenta lhe reteza os músculos do pescoço, expedindo das glândulas salivares um pus granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades intelectuais estão entorpecidas nesse mancebo. Estimulando-se com cognac e absinto, esta especie de cretino, bestificado por uma enfermidade incurável, apenas consegue dizer três tolices acerca de Donizetti, sentado num mocho de botiquim, encostando o corpo enervado à banca dos licores incitantes.

«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?

«Foi o charuto!

«O contrato do tabaco empeçonhára a seiva desse moço, que os fados, menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magistério do folhetim, máximo esforço de inteligência, numa época, e num país, cujo amor às letras não vale a correspondência de uma local bem poética como a do baile do sr. fulano.

«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!

«Chamae a juízo os vampiros que sugaram o soro desse sangue aguado que o faz tolhiço para tudo.

«Fazei a autopsia de um charuto como este — proseguia Francisco Nunes, parando e contemplando as nervuras negras do rolo de folha, que semelhava uma rolha de cortiça queimada — e vereis que há aqui dentro um talo de couve lombarda, uma carocha seca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e três grãositos excrementícios de rato ou coelho.

«Horrível, e sujamente infernal!

«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo! [2]

«As nações tirannisadas, quando a opressão requinta, erguem-se como um só homem, e fogem para o Aventino.

«Os envenenadores congregaram-se em conciliábulo de abutres, e crearam o charuto de vintém, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!

«O conselho de saúde, bandeado neste tripudio de canibais, forma o cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao conselho!

«Não há tifos, nem cholera, nem febre amarela, senhores deputados! Há charutos, há o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, senhores; está nestes canudos, por onde os contractadores cospem afronta e morte na face do povo!

«Que eles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no Oriente!

«Na hora do trespasse, a alma deles, tisnada pelo remorso, será negra como este charuto, de onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vai-te, infame! »

E, assim rugindo, numa como inprecação do moribundo atormentado, arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.

[1] É para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de tamanha angustia! Aquela nesga de história destoava da virulência da apostrofe; mas foi dita com sanhudo entono.

[2] É ordinário este estilo; aqui não há unidade; o impeto afrouxa, e descáe na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a ve'-los lutar com as aguias; e, quando mal se precata, vê-os cair, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco Nunes tem lastimaveis desegualdades nesta apostrofe.

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