Capítulo XV
D. Angelica, aflita com a longa ausência de Ludovina, pedira ao marido que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os criados, que francamente lhe disseram que a senhora baronesa saíra na sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao ínfimo degrau da desenvoltura, visitando o amante à hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos terríveis juízos da sociedade. Com as mãos agarradas à cabeça, entrou o consternado pai no quarto da mulher, abafando de vergonha, como ele dizia.
D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notório a seu marido, apavorou-se, e quis fugir do quarto.
«Que queres tu fazer agora, santa mulher?! — exclamou ele, sustendo-a com meiga brandura. — Deixa'-la perder-se de todo, já que ela assim o quer... Aí tens como Ludovina te paga o sacrifício que fizeste da tua dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que o procedimento dela te há de desmentir, Angelica...
— Que dizes? — atalhou a perplexa senhora.
«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ela o que tu fizeste para capacitar o barão de que Antônio de Almeida era teu amante, e não dessa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato de que o escândalo era coisa tua, a minha honra sofria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatorio há de acabar como acabam todos os escândalos, quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá?
«Estou aqui, meu pai — disse a baronesa com angelica serenidade, e sorriso de meiguice para sua mãe.
— Minha filha, minha santa filha, minha providência! — exclamou D. Angelica abraçando-a com arrebatamento.
«Isso não é assim, Angelica! — disse carrancudo Melchior Pimenta. — Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral lhe ensinaste em solteira.
— Silencio, meu amigo. Vai... — atalhou com azedume D. Angelica — vai, e deixa-nos sós.
«Não tem jeito nenhum! — acrescentou o austero pai. — É preciso saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes que a sociedade saiba que ele te abandonou.
— Irei, meu pai.
«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vais... Onde foste tu, diz?
Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.
«Vês, Angelica? — prosseguiu com virulência Melchior — Não respondeu; já sabes de onde ela vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?
— Nem mais uma palavra a minha filha! — exclamou com impetuosa arrogância D. Angelica — Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior...
«Se não, o que? — interrompeu ele.
— Minha mãe, pelo seu amor lhe peço... — murmurou a baronesa, apertando-a ao seio, como se quisesse comprimir-lhe as palavras no coração.
Pimenta saiu, como entrara, com as mãos agarradas à cabeça. D. Angelica, beijando sôfrega a face da filha, dizia, soluçando:
«Ao que eu te expuz, minha querida vítima! ao que tu quizeste sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua inocência difamada que o meu próprio descredito. Não, filha, isto não pode continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdoa-me tu, filha!
— Mãe, por piedade... não me turve a satisfação desta pequena virtude. Olhe que não é heroísmo isto, não, é a crença, a esperança de que a felicidade há de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por onde eu a busco...
«Para todos nós, filha! que inocência, que ilusão a tua! desta queda ninguém mais se ergue, e menos eu.
— Ergue, mãe. Verá que o desenlace deste desgraçado enredo não há de ser o que a mãe espera.
«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...
— Ninguém morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida; escreveu-a ele com o próprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que ele diz...
D. Angelica abriu a carta com fervente sofreguidão, e leu o seguinte:
«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste acontecimento, que ontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença desta verdade, para ser mais suave a cura. De v. exc. ª amigo verdadeiro. — Antônio de Almeida. »
«Isto é verdade, Ludovina? — exclamou ela erguendo as mãos, e apertando a carta ao coração — Isto é verdade, minha filha?
— É, juro-lhe que é...
«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?
— Eu, mãe.
«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnância, minha filha? Que inspiração tiveste de o visitar? O coração impelia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar numa influencia divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?
— Foi por amor de minha mãe que o visitei.
«E ele? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora é impossível entre nós, filha. Que te disse? responde...
— Nada, minha mãe... — balbuciou a baronesa.
«Nada?
— Que poderia ele dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava ser nosso amigo de tantos anos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha mãe... recordo-me dos afagos que ele me fazia, dos bons conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que aliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo à minha pena. E, depois, ver quanto a mãe sofria... porque o prezava tanto como eu o estimava...
«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Há de custar-te amarguras terríveis essa delicadeza... Compreendo-te, minha amiga... Agora vais tu dizer-me porque meio hás de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, porque há em ti fortaleza de juízo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que quiseres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; aceito conselhos de ti como do meu anjo da guarda.
— Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, suplico-lhe que me advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciência me diz que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a inocência e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel conosco; seja, muito embora; nós suportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus juízos. Minha mãe há de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da maledicência, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante ao que há de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antônio de Almeida.