Capítulo XIV O que fazem mulheres · Capítulo 17 de 21
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Capítulo XIV

Antônio de Almeida esperava em ânsias a aparição de D. Angelica. Não lhe pedira, como vimos, essa derradeira e aflictissima prova de um amor de vinte e dois anos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços dela, egualar o escândalo ao flagelo de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a única visão aprazível e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte.

As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passara, excepto o ferimento mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fora segredada ao enfermo pelo proprietário da casa, seu antigo criado. A policia devassára do crime, e nada averiguára das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as atribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicídio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre para ocultar a fraqueza, e obviar a presumpções nocivas à honra de alguém, e à própria memoria.

nestas conjecturas, anunciou-se o barão de Celorico de Basto. Almeida recebeu a parte desta visita com excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.

— Não é — disse ele — que entre, e venha só, porque é necessário assim.

Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e estacou silencioso, com os olhos rasos de lágrimas. Esteve assim instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.

— Que é isso, senhor? — disse Almeida.

«É um desgraçado que vem pedir perdão, Sr.. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha mulher me era infiel, e me desonrava. Tive uma carta em que me avisavam disso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu quintal saíra um homem fora de horas. Tentou-me o demônio a tirar vingança de quem me desonrava. Vi-o a v. sr. ª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está inocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar à justiça, aqui estou, Sr.. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a confissão.

— Levante-se, Sr.. barão — atalhou Almeida — Não diga a ninguém que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei com ele, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que o meu assassino fora o senhor. Se quer mitigar o seu remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ela um dia precisar dos seus favores, faça-lh'os como os faria à viúva do homem que matou. Agora, vá em paz.

O barão retirou, enxugando as lágrimas. Entrou furtivamente em casa, e escreveu uma carta. Saiu com o preto, e montou a cavalo à porta de um alquilador.

A carta, que escrevera, era sobrescriptada à baronesa; da qual carta se dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortográfica:

«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no Porto!!!! Vou por esses mundos de Cristo penar o meu crime, até que o remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica nesta casa, que é tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao Antônio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé dele. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que ela me perdoe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ela, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquele honrado homem, que Deus permita não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para sempre, adeus! Não me tenhas ódio; tem antes compaixão de teu marido, que te escreveu esta com a cara coberta de lágrimas e o coração acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!! »

Afora a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez sinais simbólicos da dor indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara nessa carta é a simplicidade, a mudez, a frase chan de uma verdadeira angustia. Em lance idêntico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria coisa mais patética e pungitiva.

Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que automaticamente se deixava vestir para ser transportada numa cadeirinha, nem ela sabia para onde.

Melchior Pimenta trouxera de fora a noticia do perigoso ferimento de Antônio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos.

Uma ideia, entre muitas ideias (se o leitor concede que Melchior tivesse muitas ideias) o incomodava. Seria Antônio de Almeida amante de sua filha, e o barão, por consequência, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o preocupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança naquele dia porque a receava perigosa para sua mãe.

«Vem cá, Ludovina — disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada de cuidados — falemos de espaço, e desembrulha-me este novelo. O barão disse-me, há pouco, que dera esta noite um tiro num homem que era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antônio de Almeida está ferido. Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. Lembra-me o que teu marido me disse... Quero explicações deste mistério.

— São muito dolorosas para mim as explicações, meu pai.

«Como dolorosas?!

— E muito, meu pai; vergonhosas até para que uma filha se atreva a dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pai, ou tudo saber de outra pessoa que não seja eu...

«Porque não hás de ser tu?

— Porque sou criminosa.

«Criminosa! mas o barão disse que estavas inocente.

— Foi a minha querida mãe que me salvou à custa da sua dignidade.

«Não entendo...

— Entende, meu pai. A amante de Antônio de Almeida era eu.

«Tu! pois tu!...

— Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrifício.

«E Antônio de Almeida, meu amigo de vinte anos, que te viu nascer, teve a ingratidão e a infâmia de te fazer a corte, sendo tu casada?! Foi bem dado o tiro! Bem hajas tu, barão, que me desafrontaste, e procedeste como homem de bem!

— Isso é improprio da sua nobre alma, meu pai. A culpa é minha só. Amei desde criança Antônio de Almeida, era amiga dele até o julgar superior a todos os homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só ele podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na posição em que estou, considero-me responsável das minhas ações más perante Deus e meu marido. O pai perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antônio de Almeida era ela. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não pôde sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra à minha salvação, sucumbiu à vergonha de si, e à dor, talvez, de me ver indigna dela. Basta de explicações, meu pai. Estas palavras tem-me custado anos de vida. Se a minha desonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antônio de Almeida. Mereço isto à sua compaixão?

«Não falarei mais nesse homem por minha honra própria.

— Assim o deve à sua dignidade.

Ludovina foi chamada com urgência ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos de quem delira.

«Onde quer ir, minha mãe?

— Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...

«Não há de sair daqui; suplico-lhe que não saia, minha mãe.

— Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...

Ludovina fez sair a criada, que testemunhava este dialogo.

«Não quer ser mãe nem esposa?

— Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não há para mim deveres nem respeitos agora. Se ele está vivo, quero dar-lhe os meus últimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadáver.

«Fale baixo, por misericórdia, minha mãe!

— Podem todos ouvir-me, não me escondo de alguém, agradeço as afrontas, os desprezos, as injúrias, agradeço tudo que for martirisarem-me, com tanto que me matem depressa.

«Mas, minha mãe, atenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me escuta... Sente-se, e ouça-me...

— Diz, anjo, diz...

«Antônio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma carta em que se despede de mim, e me recomenda que lhe peça o perdão para ele. nesta casa ignora-se tudo. Meu pai está convencido que sou eu a amante de Antônio de Almeida...

— Jesus! exclamou D. Angelica. — Como tu me castigas, Ludovina!

«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me ser boa para o meu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas deste meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é Deus que me dá em consolações do céu as amarguras, que o mundo me possa dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora de uma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa; não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.

Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angustias soffocantes naquele pranto. O da filha fortalecia-se de animo para arcar com a ignomínia do seu descredito.

D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou criadas para lhe assistirem, e executarem as prescripções dos médicos. Melchior Pimenta esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epítetos do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía na somnolencia.

Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A trezentos passos daí, morava Antônio de Almeida. Velando o rosto com um véu negro impenetrável à vista, a baronesa de Celorico, sozinha, subiu as escadas do amante de sua mãe.

Descia um medico ao qual ela perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe que havia esperanças de salva'-lo. A noticia feliz alvoroçou-a. Receberam-na as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quase desfez o aparelho do curativo, e chamou-a com ânsia.

Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira às amigas. Almeida apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lágrimas, e murmurou balbuciante:

«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu coração.

A baronesa ficou muda e convulsa. Filha do meu coração foram palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo anseio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:

— A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lha entreguei, lia-a eu, e ocultei-lh'a para a não matar.

— O barão denunciou tudo?

— Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ela o estima tanto como eu. É necessário que o nosso amigo concorra quanto puder para lhe dar alívio. Tem esperanças, não tem?

— Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...

— Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não fale em mim, não diga que eu vim cá.

Antônio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse soluçando:

«Será o beijo de um moribundo?

«Não diga tal, sr. Almeida.

«Se for... » e desentalando a voz dos gemidos que lha embargavam, prosseguiu «se for... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu último beijo... teu pai.

A baronesa tremeu uma sezão de instantes. Quis sair, mas o abalo quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfalecimento, e a perda quase dos sentidos.

Almeida tocou a campainha, e disse à irmã que primeiro chegou:

— O ar deste quarto fez mal a esta senhora: levem-na para a sala, e vá uma das manas acompanha'la.

Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na Lapa.

Cinco páginas que é melhor não se lerem

Este capítulo mira a alvo transcendental.

Nem mais nem menos, quer provar que o Código do Imperador Justiniano — corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo ele a causa indigesta de muitas gastralgias intelectuais — quer provar, digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado:

Pater is est quem nuptiæ demonstrant.

Em português comezinho:

O pai é aquele que se diz pai no assento do baptismo.

A versão é de cristão católico, entenda-se.

Aquela regra de jurisprudência pagã não fala em assento baptismal. Se o legislador fosse batizado, como estes de agora, a lei não saía assim.

Contra a qual lei temos a articular:

1. º Que o pai é uma entidade muito mais nobre, eficiente, categórica, e circumspecta. E demonstra-se:

Quem leu a fisiologia da geração sabe que há cinco fenômenos característicos dessa funcção de misteriosa origem. O primeiro desses fenômenos, cuja confusa teoria os imperitos podem ler nas fontes respectivas, é influido pela ação de um ser directo e imediato, que os latinos denominam pater, os ingleses father, os alemães watter, os franceses peré, os espanhóis padre, e nós, com mais suavidade que todos os outros idiomas, pai.

Pai quer dizer «productor, gerador» Parens qui aliquem genuit — isto a meu ver, é claro como tudo o que se diz em latim.

Conclusão: Pai é aquele que é pai.

2. º Há pais postiços, pais contra-natura, pais testas de... ferro, pais in mente legis, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem são compadres, por obra e graça de um sacramento.

Os homens, reconhecendo a inconveniencia de aceitar a natureza feia como ela às vezes se apresenta deliberaram, de comum concerto, pôr-lhe mascara.

E como a natureza paterna era uma das que mais a miúdo saía à gente com as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os aleijões dessa natureza, inventando o pai civil, o pai do assento baptismal, o pai da árvore de geração escrita em pergaminho, o pai que transmite os bens e os apelidos, o pai, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pai.

Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa que o incitou deturpa a humanidade, e oprime agramente os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessária, logo que as fealdades deram nos olhos. Hoje aceita-se o remédio do mesmo modo que o travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos afazem-se à peçonha, e estomago há aí de pai postiço, que disputa a Mithridates a invulnerabilidade.

Eu não aplaudo a Sandice como Desiderius Erasmus; mas observo que o famoso teólogo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da civilização, denominamos «Cultura. »

Erasmus não deu pela teoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz de alguns pais impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:

«Grande Júpiter! O que aí não iria de divórcios, e pior do que divórcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela complacência, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da inocentinha noiva! Que rompimentos conjugais, se o descuido ou a inépcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os trejeitos e os feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o grande caso é que marido e mulher vivem às mil maravilhas, que reina a santa paz em casa, e os vínculos da aliança estão rijos. Isto é que é o essencial. Se ao pascácio dão nomes feios, que se lhe dá ele disso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as lágrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado pelas fúrias do ciume? »

É boa a pergunta do teólogo! O melhor é ser assim bom, ser assim ilustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exílio, outro porque a dele teve a impudicicia de sair um dia, sem coifa, à rua.

Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se luravam sobre colchões de folhagem.

Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam In terris...

já quando o gênio tutelar do himeneu andava corrido das pseudo-paternidades que se enxertavam, à sombra dele, nos ilustres troncos de Roma:

Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum. Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri.

«Ó Póstumo! — exclama o poeta — pois tu eras, até aqui, escorreito e atilado, e vais casar

Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!

Por esses tempos, a balbuciante civilização dos espíritos engendrou a lei contra a qual se escreve este capítulo. As nupcias indicavam o pai: pater is est quem nuptiæ demonstrant. Agora, em pleno século de luz, somos mais romanos que os próprios romanos, tresandamos ao paganismo fétido, e dificultamos o divorcio para selar o escândalo com o cunho sacramental da lei nova.

Como quer que seja, pai é aquele que é pai, apesar do Direito Romano, e das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.

Não se aduzem os 3. º, 4. º e 5. º artigos da refutação, porque ninguém suporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o autor, com quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas por três ou quatro mestres de latinidade.

COROLÁRIO

Melchior Pimenta era um dos pais presumidos na intenção do Digesto, na lei citada, do L. 5. º de in jus voc, e C. da Rocha no cap. Paternidade e filiação legitima.

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