Capítulo XI O que fazem mulheres · Capítulo 14 de 21
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Capítulo XI

Mulheres são os melhores juízes de mulheres.

Disseram filósofos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e outros, grandes ateus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocínio.

daí vem o denegarem-lhes acesso às ciências abstractas, às politicas, aos parlamentos, ao magistério, às regiões intelectivas do machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.

Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?

A injustiça é flagrante e odiosa.

Privam-nas de razão para as excluirem das funções que a requerem; sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ela.

Isto é uma tirania, uma inquisição, uma crueza turca.

A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudais da razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutelo. Estamos em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.

Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudência é toda de cabeça, e o nosso código em pleitos da alma é estupido ou hipócrita.

Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abismo, onde a lançou o amor, ao abismo do opróbrio.

É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignomínia na face onde imprimira o beijo da perdição.

O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ela se dá em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céus e céus de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o suplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas afronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrível soledade para onde a razão o desterra.

E somos nós os juízes, porque entramos numa herança usurpada pela força primeiro, e legalisada depois pelo sofisma escrito.

A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.

Quando o homem chamou a ciência a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espirito.

Ainda assim, o tirano, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorância, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o gérmen que a rehabilitasse.

Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma restea reanimadora.

Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociais. Os fautores, e ainda os mártires da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gota de sangue para o resgate moral da mulher.

O Filho de Maria disse que a mulher era igual ao homem, e levou para o céu o segredo da sua emancipação.

Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e em eles demarcamos a profunda raia que extrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para elas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insofrida, condemnamos a mulher pela culpa de se deixar perder na escuridade, à míngua de uma lampada que lhe negáramos.

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Não sei se rasgue estas cinco páginas do manuscrito. Se alguém me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil há duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saúde e graça para servir a Deus, não rasgo as páginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima frase, bugiar.

Quando comecei o capítulo, tinha de olho dizer, à quarta linha, que, acerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.

Mulheres são os melhores juízes de mulheres.

A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infância, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa — não me afiram lá a palavra pelo elucidário caseiro — virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, atravancados pela impostura.

Disse-me ela o seguinte:

«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dor.

— Ao respeito! — atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato, onde por desventura me encontro.

«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte anos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciência quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repouso da consciência.

— Vinte anos! pois era amor de vinte anos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcobuzou?

«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as festas do ano em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se formava nesse tempo. Esse filho era o Antônio de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze anos, com o amor imenso das simpatias contrariadas.

O doutor descobriu a afeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, prohibindo-o de vir ao Porto nos dois últimos anos da formatura.

As cartas de Antônio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo de dois anos de ausência, com paixão cada vez mais entranhada.

O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo de um cônego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento.

Angelica saiu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára três anos.

Quando o coração reviveu do letargo, a indiscreta menina escreveu ao pai de Antônio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pai para casar com seu filho. Que inocência!

Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração.

O doutor, se ela lhe conviesse te'-la ía. Angelica era pobre. Melchior Pimenta não respondeu à carta, nem deminuiu as instancias.

O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e acelerou o desfecho.

Angelica não soltou um gemido na presença do pai; sei que apenas lhe disse: «A história de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha. » Disse, e pôs a cabeça no altar do sacrifício. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta dela...

Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me ele que não acreditava a infâmia enquanto a pérfida não tivesse o cinismo de lha dizer. Modifiquei as palavras desta carta, contando-as à minha amiga. Ela soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com veemente resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e oferecer-lhe a minha casa. » Que fazes tu, menina? — repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço à prepotencia de meu pai o sacrifício da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou. »

Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco anos, já apalpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe.

Efetivamente, Antônio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.

Deixei de ser a confidente de Angelica, meses depois. As suas cartas não eram confidencias: eram lágrimas, queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciência que só a morte podia cicatrisar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: consolei-a na queda, como a aconselhára à beira do abismo. Disse-lhe que mandasse a consciência ao pai, e que ficasse ela com o coração. Não lhe falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortúnio de Angelica, não havia que ver com coisas sobrehumanas.

O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o prazo para se realizar. Antônio de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da desobediencia. Choveram maldições às duzias, abriram-se os cancelos do inferno aos pés do obstinado moço. Pior que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações promptas para ganha'-lo.

Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. Aceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a Angelica.

Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do crime, quando as virtudes do sacrifício reciproco chegam a esquecer-se da sua má origem.

Antônio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.

Melchior Pimenta, ao cabo de quatro anos de casado, tinha perdido a demanda, e estava pobre. Antônio de Almeida cortou às suas primeiras necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada generosidade do seu amigo.

Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e teatros, resumiu-se a vida de Angelica ao amor a sua filha, à adoração mais intima do amante, e aos respeitos afetuosos por seu marido.

Antônio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos para melhorar-lhe a vida, que ela não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por alto preço.

Nem este mesmo sacrifício desconheceu Angelica. Os jornais anunciaram a corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recomendação para o despacho.

Sabe agora a vida de Angelica?

Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta história, acrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lágrimas. Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum sucesso triste, procurando-a, ia encontra'-la ajoelhada ao pé desse berço. E, depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida, com fervor mais de filha que de criança afeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de pejo, como se o afeto e a virgindade do coração travassem peleja.

Em resumo, Sr.. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir faça uma máxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do comendador João José Dias:

HÁ MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.

D. Angelica está julgada e punida...................................................................................................................

Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:

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Então lhe trouxeram os escribas e os fariseus uma mulher que fora apanhada em adultério: e a puzeram no meio.

E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério.

E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas tais. Que dizes tu logo?

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Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.

E, como eles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O que de entre vós está sem pecado seja o primeiro a apedreja'-la.

E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.

Eles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.

Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? ninguém te condemnou?

Ninguém, Senhor; — respondeu ela. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco te condemnarei: vai e não peques mais.

O SANTO EVANGELHO DE JESUS CRISTO, SEGUNDO S. JOÃO — Capítulo VIII.

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