Chesuncook
CHESUNCOOK
Às cinco da tarde de 13 de setembro de 1853, deixei Boston no vapor com destino a Bangor, pela rota de mar aberto. Era uma noite quente e calma, provavelmente mais quente sobre a água do que em terra, e o mar estava tão liso quanto um pequeno lago no verão, apenas encrespado. Os passageiros ficaram cantando no convés, como numa sala de visitas, até as dez horas. Passamos por uma embarcação adernada de lado sobre uma rocha logo além das ilhas, e alguns de nós pensaram que fosse o “navio arrebatado” que corria
“tão baixo sobre o flanco Que bebia água, enquanto a quilha lavrava o ar”,
sem considerar que não havia vento e que ela estava de mastros nus. Agora deixamos as ilhas para trás e estamos ao largo de Nahant. Contemplamos aquelas feições que os descobridores viram, aparentemente inalteradas. Agora vemos os faróis de Cape Ann, e agora passamos perto de uma pequena frota de pescadores de cavalas ancorados, semelhante a uma aldeia, provavelmente ao largo de Gloucester. Eles nos saúdam com um grito de seus conveses baixos; mas entendo que seu “Boa noite” quer dizer: “Não venha bater em mim, senhor.” Das maravilhas das profundezas descemos para um sono ainda mais profundo. E então o absurdo de ser acordado no meio da noite por um homem que quer o serviço de engraxar suas botas! É mais inevitável que o enjoo do mar, e talvez tenha alguma coisa a ver com ele. É como o banho forçado que se recebe ao cruzar a linha pela primeira vez. Eu confiava que esses velhos costumes tivessem sido abolidos. Com a mesma propriedade, poderiam insistir em nos enegrecer o rosto. Ouvi falar de um homem que se queixou de que alguém lhe roubara as botas durante a noite; e, quando as encontrou, quis saber o que haviam feito com elas, pois as tinham estragado, ele jamais punha aquela coisa nelas; e o engraxate por pouco não teve de pagar indenização.
Ansioso por sair do ventre da baleia, levantei-me cedo e fui juntar-me a alguns velhos lobos-do-mar que fumavam à luz mortiça, numa parte abrigada do convés. Estávamos justamente entrando no rio. Eles sabiam tudo a respeito, é claro. Orgulhei-me de constatar que suportara tão bem a viagem e não fora sequer um pouco digerido. Nós nos recompusemos e observamos os primeiros sinais da aurora por uma vigia aberta; mas o dia parecia custar a pegar. Perguntamos as horas; nenhum de meus companheiros tinha cronômetro. Por fim, um príncipe africano passou correndo e anunciou: “Meia-noite, senhores!”, apagando a luz. Era o nascer da lua. Assim, esgueirei-me novamente para as entranhas do monstro.
A primeira terra que avistamos é a ilha de Monhegan, antes do amanhecer, e depois as ilhas de St. George, vendo duas ou três luzes. Whitehead, com suas rochas nuas e seu sino fúnebre, é interessante. Em seguida, recordo que as colinas de Camden atraíram meus olhos, e depois as colinas dos arredores de Frankfort. Chegamos a Bangor por volta do meio-dia.
Quando cheguei, o companheiro que me esperava havia subido o rio e contratado um indígena, Joe Aitteon, filho do Governador, para ir conosco ao lago Chesuncook. No ano anterior, Joe conduzira dois homens brancos numa caçada ao alce na mesma direção. Chegou de trem a Bangor naquela noite, com sua canoa e um companheiro, Sabattis Solomon, que partiria de Bangor na segunda-feira seguinte com o pai de Joe, pelo Penobscot, e se reuniria a Joe para caçar alces em Chesuncook quando terminássemos com ele. Jantaram na casa de meu amigo e dormiram no celeiro, dizendo que passariam pior do que aquilo nos bosques. Só fizeram Watch latir um pouco quando, durante a noite, vieram à porta buscar água, pois ele não gosta de indígenas.
Na manhã seguinte, Joe e sua canoa foram postos na diligência para o lago Moosehead, a sessenta e tantas milhas de distância, uma hora antes de partirmos numa carroça aberta. Levávamos biscoito duro, carne de porco, carne bovina defumada, chá, açúcar etc., aparentemente o bastante para um regimento; a visão de tudo aquilo reunido lembrou-me por que meios ignóbeis havíamos até então mantido nossa posição. Seguimos pela Avenue Road, bastante reta e muito boa, rumo noroeste, em direção ao lago Moosehead, atravessando mais de uma dúzia de cidades prósperas, quase todas com sua academia, nenhuma das quais, contudo, aparece em meu Atlas Geral, publicado, ai de mim, em 1824; tanto elas estão à frente de seu tempo, ou eu atrasado em relação ao meu! A terra devia ser consideravelmente mais leve sobre os ombros do General Atlas naquela época.
Choveu durante todo aquele dia e até o meio da manhã seguinte, ocultando quase por completo a paisagem; mas mal havíamos saído das ruas de Bangor quando comecei a me sentir exaltado ao ver os cumes dos abetos e das píceas selvagens, e os de outras coníferas primitivas, espreitando através da névoa no horizonte. Era como a visão e o cheiro de bolo para um estudante. Quem viaja e se mantém no caminho batido estuda sobretudo as cercas. Perto de Bangor, os mourões das cercas, devido ao gelo que os erguia no solo argiloso, não eram fincados na terra, mas encaixados numa viga horizontal transversal deitada sobre a superfície. Depois, predominavam as cercas de toras, por vezes uma cerca à Virgínia, ou então varas inclinadas sobre estacas cruzadas; e elas ziguezagueavam ou brincavam de pular carniça por todo o caminho até o lago, sempre um pouco à nossa frente. Depois que saímos do vale do Penobscot, a região mostrou-se inesperadamente plana, ou formada por ondulações muito regulares e iguais, por vinte ou trinta milhas, sem jamais se elevarem acima do nível geral, mas oferecendo, segundo dizem, uma vista muito boa em tempo claro, com frequentes avistamentos de Ktaadn, estradas retas e longas colinas. As casas ficavam muito afastadas umas das outras, em geral pequenas e de um só andar, mas construídas com armação de madeira. Havia pouquíssima terra cultivada, embora a floresta raras vezes margeasse a estrada. Os tocos frequentemente chegavam à altura da cabeça de um homem, revelando a profundidade da neve. As capas brancas, colocadas por causa da chuva sobre pequenas medas de feijão ou milho nos campos, eram para mim uma visão nova. Vimos grandes bandos de pombos e várias vezes chegamos a uma ou duas rods de perdizes na estrada. Meu companheiro disse que, numa viagem saindo de Bangor, ele e o filho haviam abatido sessenta perdizes de seu tílburi. A sorveira estava então muito bonita, assim como a árvore-dos-viajantes, ou hobble-bush, com suas bagas maduras, roxas misturadas às vermelhas. O cardo-do-canadá, planta introduzida, era a erva daninha predominante por todo o caminho até o lago; em muitos lugares, as margens da estrada e os campos desmatados havia pouco estavam densamente tomados por ele, como por uma lavoura, com exclusão de todo o resto. Havia também campos inteiros cheios de samambaias, agora cor de ferrugem e murchando, que em países mais antigos costumam ficar restritas a terrenos úmidos. Havia pouquíssimas flores, mesmo levando em conta o avançado da estação. Por acaso, não vi áster algum florido ao longo da estrada por cinquenta milhas, embora fossem então tão abundantes em Massachusetts, salvo, num único lugar, um ou dois exemplares de Aster acuminatus, nem solidagos até chegarmos a vinte milhas de Monson, onde vi uma de três nervuras. Havia, porém, muitos ranúnculos tardios e as duas ervas-do-fogo, erechthites e epilobium, geralmente onde ocorrera uma queimada, e por fim a sempre-viva-perolada. Notei ocasionalmente cochos muito compridos que forneciam água à estrada, e meu companheiro disse que o Estado concedia anualmente três dólares a um homem em cada distrito escolar, encarregado de providenciar e conservar à margem da estrada um cocho de água adequado para uso dos viajantes, informação tão refrescante para mim quanto a própria água. Aquela legislatura não se reunira em vão. Era um ato oriental, que me fez desejar estar ainda mais para o extremo leste, outra lei do Maine que espero possamos obter em Massachusetts. Esse Estado está banindo as tabernas de suas estradas e conduzindo até elas as fontes das montanhas.
A região tornou-se pela primeira vez decididamente montanhosa em Garland, Sangerville e adiante, a vinte e cinco ou trinta milhas de Bangor. Em Sangerville, onde paramos no meio da tarde para nos aquecer e secar, o estalajadeiro nos disse que encontrara uma região selvagem onde nós o encontramos. Numa bifurcação da estrada entre Abbot e Monson, a cerca de vinte milhas do lago Moosehead, vi uma placa de direção encimada por um par de galhadas de alce, abrindo-se por quatro ou cinco pés, com a palavra “Monson” pintada numa das lâminas e o nome de alguma outra cidade na outra. Às vezes elas são usadas como cabideiros ornamentais, junto com galhadas de veado, nos vestíbulos de entrada; mas, depois da experiência que relatarei, espero ter melhor desculpa para matar um alce do que poder pendurar o chapéu em seus chifres. Chegamos a Monson, a cinquenta milhas de Bangor e treze do lago, depois de escurecer.
Às quatro horas da manhã seguinte, no escuro e ainda sob chuva, prosseguimos viagem. Perto da academia dessa cidade ergueram uma espécie de forca para os alunos se exercitarem. Pensei que bem poderiam enforcar de uma vez todos os que precisam passar por exercícios assim num país tão novo, onde nada os impede de levar uma vida ao ar livre. Melhor deixar Blair de lado e tomar ar. A região em torno da extremidade sul do lago é bastante montanhosa, e a estrada começou a sentir seus efeitos. Há uma colina que, segundo se calcula, leva vinte e cinco minutos para subir. Em muitos lugares, a estrada se encontrava naquele estado chamado de reparada, tendo acabado de ser talhada com pá e raspadeira na forma semicilíndrica exigida, com todas as irregularidades mais macias no meio, como o lombo de um porco de cerdas eriçadas, e esperava-se que Jeú se mantivesse escarranchado sobre a espinha. Ao olhar de cada lado da esfera nua rumo ao horizonte, as valas eram terríveis de contemplar, uma vasta cavidade, como a existente entre Saturno e seu anel. Numa taberna por aqueles lados, o cavalariço saudou nosso cavalo como velho conhecido, embora não se lembrasse do cocheiro. Disse que cuidara por pouco tempo daquela pequena égua, um ou dois anos antes, no Mount Kineo House, e achava que ela não estava em tão boas condições quanto naquela época. Cada qual com seu ofício. Não conheço um único cavalo no mundo, nem mesmo aquele que me deu um coice.
Já havíamos pensado ter visto o lago Moosehead do alto de uma colina, onde uma vasta névoa enchia as terras baixas ao longe, mas estávamos enganados. Foi somente quando chegamos a uma ou duas milhas de sua extremidade sul que tivemos a primeira visão dele, uma extensão de água de aspecto devidamente selvagem, salpicada de ilhas pequenas e baixas, cobertas de píceas desgrenhadas e outras árvores silvestres, vista por cima do porto ainda incipiente de Greenville, com montanhas de ambos os lados e muito ao norte, e a chaminé de um vapor elevando-se acima de um telhado. Um par de galhadas de alce ornamentava um canto da hospedaria onde deixamos o cavalo, e a poucas rods dali estava o pequeno vapor Moosehead, do capitão King. Não havia aldeia nem estrada de verão que seguisse mais adiante naquela direção, mas uma estrada de inverno, isto é, transitável apenas quando a neve profunda cobre suas irregularidades, de Greenville pela margem leste do lago até Lily Bay, cerca de doze milhas.
Foi ali que me apresentaram Joe pela primeira vez. Na véspera, ele viajara durante todo o trajeto do lado de fora da diligência, sob chuva, cedendo seu lugar às senhoras, e estava bem encharcado. Como ainda chovia, perguntou se íamos “seguir até o fim”. Era um indígena de boa aparência, de vinte e quatro anos, aparentemente de sangue não misturado, baixo e robusto, com rosto largo e tez avermelhada, e olhos, parece-me, mais estreitos e mais erguidos nos cantos externos que os nossos, correspondendo à descrição de seu povo. Além das roupas de baixo, vestia camisa de flanela vermelha, calças de lã e chapéu Kossuth preto, traje comum dos madeireiros e, em grande medida, dos indígenas Penobscot. Quando, mais tarde, teve ocasião de tirar os sapatos e as meias, impressionou-me o tamanho diminuto de seus pés. Trabalhara bastante como madeireiro e parecia identificar-se com essa classe. Era o único do grupo que possuía uma jaqueta de borracha. A faixa ou borda superior de sua canoa estava quase inteiramente gasta pelo atrito na diligência.
Às oito horas, o vapor, com seu sino e apito assustando os alces, convocou-nos a bordo. Era uma embarcação pequena e bem equipada, comandada por um capitão cortês, com assentos salva-vidas patenteados, bote salva-vidas metálico e jantar a bordo, caso se queira. É usada sobretudo por madeireiros para transportar a si mesmos, seus barcos e mantimentos, mas também por caçadores e turistas. Havia outro vapor, chamado Amphitrite, recolhido bem perto; mas, ao que parecia, seu nome não era mais batido que seu casco. Havia também dois ou três grandes veleiros no porto. Esses primórdios do comércio num lago em região selvagem são muito interessantes, essas aves brancas maiores que vêm fazer companhia às gaivotas. Havia poucos passageiros, e nenhuma mulher entre eles: um indígena de St. Francis, com sua canoa e peles de alce; dois exploradores à procura de madeira; três homens que desembarcaram na ilha Sandbar; e um cavalheiro que mora na ilha Deer, onze milhas lago acima, e também é dono da ilha Sugar, entre a qual e a primeira o vapor faz seu percurso; creio que esses eram todos, além de nós. No salão havia algum tipo de instrumento musical, querubim ou serafim, para acalmar as ondas iradas; e ali, muito apropriadamente, estava afixado o mapa das terras públicas do Maine e de Massachusetts, do qual eu trazia um exemplar no bolso.
Como a chuva forte nos confinou por algum tempo ao salão, conversei com o proprietário de Sugar Island sobre a condição do mundo nos tempos do Antigo Testamento. Mas, por fim, deixando esse assunto tão novo quanto o encontramos, ele me contou que vivia junto daquele lago havia vinte ou trinta anos e, ainda assim, não ia à cabeceira havia vinte e um anos. Ele está voltado para o outro lado. Os exploradores tinham a bordo uma bela canoa nova de casca de bétula, maior que a nossa, na qual haviam subido o Piscataquis desde Howland, e já tinham feito várias refeições de trutas. Iam para as proximidades dos lagos Eagle e Chamberlain, ou para as cabeceiras do St. John, e se ofereceram para nos acompanhar até onde fôssemos. Naquele dia, o lago estava mais revolto do que encontrei o oceano, tanto na ida quanto na volta, e Joe observou que aquilo faria sua canoa de casca de bétula naufragar. Diante de Lily Bay, ele tem uma dúzia de milhas de largura, mas é muito entrecortado por ilhas. A paisagem não é apenas selvagem, mas variada e interessante; viam-se montanhas, mais distantes ou mais próximas, de todos os lados, exceto a noroeste, com os cumes agora perdidos nas nuvens; mas o monte Kineo é o principal traço do lago e pertence a ele de modo mais exclusivo. Depois de deixar Greenville, ao pé do lago, núcleo de uma cidade de uns oito ou dez anos, veem-se apenas três ou quatro casas por toda a extensão do lago, ou cerca de quarenta milhas, três delas sendo as hospedarias nas quais se anuncia que o vapor fará escala, e a margem é uma região selvagem ininterrupta. A vegetação predominante parecia ser de abetos, bálsamos, bétulas e bordos-duros. Era fácil distinguir, a grande distância, as árvores de madeira dura das de madeira macia, ou “vegetação negra”, como é chamada; as primeiras eram lisas, de copas arredondadas e verde-claras, com um aspecto de caramanchão e de cultivo.
O monte Kineo, onde o barco fez escala, é uma península de istmo estreito, situada aproximadamente a meio caminho do lago, no lado leste. O célebre precipício fica no lado leste, ou lado de terra, e é tão alto e perpendicular que se pode saltar do topo, muitas centenas de pés, para dentro da água, que avança por trás da ponta. Um homem a bordo nos disse que haviam baixado uma âncora a noventa braças em sua base antes de alcançar o fundo! Provavelmente não demorará a se descobrir que certa donzela indígena um dia se lançou dali por amor, pois o amor verdadeiro jamais poderia ter encontrado um caminho mais de seu agrado. Passamos bem perto da rocha nesse ponto, já que a margem é muito abrupta, e observei nela marcas de uma elevação de quatro ou cinco pés. O indígena de St. Francis esperava recolher ali o filho, mas ele não estava no desembarcadouro. Os olhos aguçados do pai, contudo, detectaram muito longe, sob a montanha, uma canoa com o menino, embora ninguém mais conseguisse vê-la. “Onde está a canoa?”, perguntou o capitão. “Não a vejo”; mesmo assim, ele manteve o barco à espera, e pouco depois ela surgiu à vista.
Chegamos à cabeceira do lago por volta do meio-dia. Nesse meio-tempo, o tempo havia se aberto, embora as montanhas ainda estivessem coroadas de nuvens. Vistos daquele ponto, o monte Kineo e duas outras montanhas aparentadas, alinhadas com ele na direção nordeste, apresentavam uma semelhança familiar muito forte, como se todas tivessem sido fundidas no mesmo molde. O vapor aproximou-se ali de um longo cais que se projetava da região selvagem ao norte, construído com alguns de seus troncos, e apitou onde não se via cabana nem mortal algum. A margem era bem baixa, com rochas planas, sobre as quais se inclinavam freixos-pretos, tuias etc., que a princípio pareciam não dar a mínima para o nosso apito. Não havia um único cocheiro para gritar “Carruagem!” ou nos atrair ardilosamente ao United States Hotel. Por fim, apareceu um senhor Hinckley, que mantém um acampamento na outra extremidade da “portagem”, com um carro puxado por um boi e um cavalo sobre uma rudimentar ferrovia de troncos através da mata. O passo seguinte era fazer nossa canoa e nossos pertences atravessarem a portagem, daquele lago, uma das cabeceiras do Kennebec, para o rio Penobscot. Essa ferrovia do lago ao rio ocupava o centro de uma clareira de duas ou três rods de largura, perfeitamente reta através da floresta. Fizemos a travessia a pé enquanto nossa bagagem era puxada atrás de nós. Meu companheiro foi à frente, pronto para as perdizes, enquanto eu o seguia, observando as plantas.
Para quem vinha do sul, aquele era um lugar de interesse botânico logo de início; pois muitas plantas bastante raras, e uma ou duas que não se encontram de modo algum na parte oriental de Massachusetts, cresciam em abundância entre os trilhos, como chá-do-labrador, Kalmia glauca, mirtilo-do-canadá (que ainda tinha frutos e florescia pela segunda vez), Clintonia e Linnæa borealis, esta última chamada moxon por um madeireiro, além de gaultheria-rasteira, trilio-pintado, uvulária-de-flores-grandes etc. Pareceu-me que o Aster Radula, o Diplopappus umbellatus, a Solidago lanceolata, a erva-trombeta-vermelha e muitas outras plantas que floresciam de modo conspícuo à margem do lago e na portagem tinham ali um aspecto peculiarmente selvagem e primitivo. Os abetos e bálsamos se apinhavam junto à via dos dois lados para nos dar as boas-vindas; as tuias, com as folhas mudando de cor, instavam-nos a nos apressar; e a visão das bétulas de canoa nos animava a fazê-lo. Às vezes, uma conífera recém-caída jazia atravessada sobre a via, com sua rica carga de pinhas, ainda parecendo mais cheia de vida do que nossas árvores nas posições mais favoráveis. Ninguém esperaria encontrar abetos assim nos bosques selvagens, mas evidentemente eles cuidam de sua toalete todas as manhãs, mesmo ali. Foi por um jardim dianteiro como esse que entramos naquela região selvagem.
Havia uma elevação muito pequena acima do lago, e o terreno parecia, e talvez fosse em parte, um pântano, seguida enfim por uma descida gradual até o Penobscot, que me surpreendi ao encontrar ali como um curso d’água volumoso, de doze a quinze rods de largura, correndo de oeste para leste, ou em ângulo reto com o lago, e a não mais de duas milhas e meia dele. A distância é quase duas vezes maior do que deveria no Mapa das Terras Públicas e no Mapa do Maine de Colton, e o Russell Stream está situado demasiadamente rio abaixo. Jackson calcula que o lago Moosehead fica novecentos e sessenta pés acima da maré alta no porto de Portland. Ele é mais alto que Chesuncook, pois os madeireiros consideram que o Penobscot, onde o alcançamos, está vinte e cinco pés abaixo de Moosehead, embora se diga que, oito milhas acima, ele atinge o ponto mais elevado, de modo que a água pode ser levada a correr em qualquer direção, e o rio desce bastante entre ali e Chesuncook. O homem da portagem calculou que aquele ponto ficava cerca de cento e quarenta milhas acima de Bangor pelo rio, ou duzentas milhas do oceano, e cinquenta e cinco milhas abaixo de Hilton’s, na estrada do Canadá, a primeira clareira rio acima, situada a quatro milhas e meia da nascente do Penobscot.
Na extremidade norte da portagem, em meio a uma clareira de sessenta acres ou mais, havia um acampamento de troncos da construção habitual, com algo mais parecido com uma casa anexa, destinado à acomodação da família do homem da portagem e dos madeireiros de passagem. A cama de ramos secos de bálsamo exalava um aroma muito doce, embora estivesse realmente muito suja. Havia também um armazém na margem do rio, contendo carne de porco, farinha, ferro, batéis e canoas de casca de bétula, tudo trancado.
Passamos então a preparar nosso jantar, que sempre acabava sendo chá, e a calafetar as canoas com breu, para o que havia um grande caldeirão de ferro permanentemente deixado na margem. Fizemos isso em companhia dos exploradores. Tanto os indígenas quanto os brancos usam para esse fim uma mistura de resina e gordura, isto é, para a calafetagem, não para o jantar. Joe retirou do fogo uma pequena acha em brasa e soprou o calor e a chama contra o breu de sua canoa de casca de bétula, derretendo-o e espalhando-o assim. Às vezes, punha a boca sobre o ponto suspeito e sugava, para ver se deixava entrar ar; e, num lugar onde paramos, apoiou a canoa bem alto sobre estacas cruzadas e despejou água dentro dela. Observei atentamente seus movimentos e escutei com cuidado suas observações, pois havíamos contratado um indígena principalmente para que eu tivesse a oportunidade de estudar seus modos. Ouvi-o praguejar uma vez, brandamente, durante essa operação, porque sua faca estava tão cega quanto uma enxada, habilidade que devia ao convívio com os brancos; e ele observou: “Devíamos tomar um pouco de chá antes de partir; estaremos com fome antes de matar aquele alce.”
No meio da tarde, embarcamos no Penobscot. Nossa canoa de casca de bétula tinha dezenove pés e meio de comprimento por dois pés e meio na parte mais larga, e catorze polegadas de profundidade interna, com as duas extremidades iguais, e era pintada de verde, o que Joe julgava afetar o breu e fazê-la vazar. Creio que era uma canoa de tamanho médio. A dos exploradores era muito maior, embora provavelmente não muito mais comprida. A nossa nos transportava, os três e nossa bagagem, num total entre quinhentas e cinquenta e seiscentas libras. Tínhamos dois remos pesados, embora esguios, de bordo-duro, um deles de bordo-olho-de-pássaro. Joe pôs casca de bétula no fundo para nos sentarmos e inclinou ripas de cedro contra as travessas para proteger nossas costas, enquanto ele próprio se sentava numa travessa à popa. A bagagem ocupava o meio, ou a parte mais larga, da canoa. Também remávamos por turnos na proa, ora sentados com as pernas estendidas, ora sentados sobre as pernas, ora erguidos sobre os joelhos; mas não achei suportável nenhuma dessas posições e me lembrei das queixas dos antigos missionários jesuítas acerca da tortura que padeciam por permanecerem longamente confinados em posições forçadas nas canoas, durante suas extensas viagens de Quebec ao território dos hurões; mais tarde, porém, sentei-me nas travessas ou fiquei de pé e não senti incômodo algum.
Foram duas milhas de águas mortas. O rio havia subido cerca de dois pés com a chuva, e os madeireiros esperavam uma cheia suficiente para fazer descer os troncos que haviam ficado para trás na primavera. Suas margens tinham sete ou oito pés de altura e eram densamente cobertas por píceas-brancas e píceas-negras, que, penso eu, devem ser as árvores mais comuns por aquelas bandas, além de bálsamos, tuias, bétulas de canoa, bétulas-amarelas e bétulas-negras, bordos-duros, bordos-da-montanha e alguns bordos-vermelhos, faias, freixos-pretos e sorveiras, álamos-de-dentes-grandes, muitos olmos de aspecto civilizado, já acastanhados, ao longo do curso d’água, e, a princípio, também alguns tsugas. Não havíamos ido longe quando me assustei ao ver o que julguei ser um acampamento indígena, coberto por uma bandeira vermelha, na margem, e exclamei “Acampamento!” para meus companheiros. Demorei a perceber que era um bordo-vermelho transformado pela geada. As margens imediatas também eram densamente cobertas por amieiros-manchados, cornisos-vermelhos, salgueiros arbustivos e plantas semelhantes. Restavam ainda algumas folhas de nenúfar-amarelo, meio afogadas, junto às bordas, e por vezes uma branca. Muitas pegadas recentes de alce eram visíveis onde a água era rasa e, na margem, as hastes dos nenúfares haviam sido recém-mordidas por eles.
Depois de remar cerca de duas milhas, separamo-nos dos exploradores e subimos o Lobster Stream, que desemboca pela direita, vindo do sudeste. Tinha seis ou oito rods de largura e parecia correr quase paralelo ao Penobscot. Joe disse que recebia esse nome por causa dos pequenos lagostins de água doce encontrados nele. É o Matahumkeag dos mapas. Meu companheiro queria procurar sinais de alce e pretendia, caso valesse a pena, acampar naquela direção, pois o indígena o aconselhara. Devido à elevação do Penobscot, a água subia por esse curso até o lago de mesmo nome, uma ou duas milhas adiante. As montanhas Spencer, a leste da extremidade norte do lago Moosehead, estavam agora claramente visíveis à nossa frente. O martim-pescador voava adiante de nós; vimos e ouvimos o pica-pau-pombo, e havia trepadeiras-azuis e chapins bem perto. Joe disse que, em sua língua, chamavam o chapim de kecunnilessu. Não garanto a grafia de algo que talvez nunca tivesse sido escrito antes, mas repeti a pronúncia depois dele até que dissesse que estava bom. Passamos bem perto de uma galinhola, que permanecia perfeitamente imóvel na margem, com as penas eriçadas, como se estivesse doente. Segundo Joe, chamavam-na nipsquecohossus. O martim-pescador era skuscumonsuck; urso era wassus; diabo-indígena, lunxus; e a sorveira, upahsis. Esta era muito abundante e bela. As pegadas de alce não eram tão recentes ao longo daquele curso, exceto num pequeno riacho, cerca de uma milha acima, onde um grande tronco havia encalhado na primavera, marcado “W-traço-cintura-pé-de-corvo”. Vimos um par de galhadas de alce na margem, e perguntei a Joe se um alce as havia perdido; mas ele disse que havia uma cabeça presa a elas, e eu sabia que eles não perdiam a cabeça mais de uma vez na vida.
Depois de subir cerca de uma milha e meia, até pouca distância do lago Lobster, voltamos ao Penobscot. Logo abaixo da foz do Lobster encontramos águas rápidas, e o rio se alargava para vinte ou trinta rods. As pegadas de alce eram bastante numerosas e recentes ali. Em muitos lugares, notamos trilhas estreitas e bem batidas pelas quais eles haviam descido até o rio, e pontos onde tinham escorregado pela margem íngreme e argilosa. Suas pegadas estavam ou bem junto à beira da corrente, sendo possível distinguir das demais as dos filhotes, ou em águas rasas; os buracos feitos por seus pés no fundo macio permaneciam visíveis por muito tempo. Eram especialmente numerosas onde havia uma pequena baía, ou pokelogan, como é chamada, orlada por uma faixa de prado, ou separada do rio por uma península baixa coberta de capim grosseiro, capim-algodão etc., por onde eles haviam vadeado de um lado para outro e comido as folhas flutuantes. Encontramos os restos de um deles num lugar assim. Em certo ponto, onde desembarcamos para apanhar um pato-de-verão que meu companheiro havia abatido, Joe retirou casca de uma bétula-de-canoa para fazer sua corneta de caça. Perguntou então se não iríamos buscar o outro pato, pois seus olhos aguçados tinham visto outro cair nos arbustos um pouco mais adiante, e meu companheiro o apanhou. Comecei então a notar as bagas vermelho-vivas do viburno, que cresce de oito a dez pés de altura, misturado aos amieiros e cornisos ao longo da margem. Havia menos árvores de madeira dura do que no início.
Depois de avançarmos uma milha e três quartos abaixo da foz do Lobster, alcançamos, por volta do pôr do sol, uma pequena ilha no início do que Joe chamava de Água Morta do Moosehorn, pois o Moosehorn, onde ele iria caçar naquela noite, desembocava cerca de três milhas abaixo, e decidimos acampar na extremidade superior da ilha. Numa ponta da extremidade inferior jazia a carcaça de um alce morto havia um mês ou mais. Resolvemos apenas preparar o acampamento e deixar ali nossa bagagem, para que tudo estivesse pronto quando voltássemos da caça ao alce. Embora eu não tivesse vindo para caçar e sentisse certo escrúpulo em acompanhar os caçadores, desejava ver um alce de perto e não me desagradava aprender como o indígena conseguia matar um. Fui como repórter ou capelão dos caçadores, e sabe-se de capelães que chegaram a carregar eles mesmos uma arma. Depois de abrirmos um pequeno espaço entre os densos abetos e píceas, cobrimos o chão úmido com uma camada imbricada de ramos de abeto e, enquanto Joe preparava sua corneta de bétula e calafetava a canoa, pois isso precisava ser feito sempre que parávamos tempo suficiente para acender uma fogueira e era o principal trabalho que ele assumia nessas ocasiões, reunimos combustível para a noite, grandes troncos molhados e apodrecidos que haviam encalhado na cabeceira da ilha, pois nossa machadinha era pequena demais para cortar com eficiência; mas não acendemos fogo, para que o alce não sentisse o cheiro. Joe fincou duas estacas bifurcadas e preparou meia dúzia de varas, prontas para receber uma de nossas mantas caso chovesse durante a noite, precaução que, contudo, foi omitida na noite seguinte. Também depenamos os patos abatidos para o café da manhã.
Enquanto nos ocupávamos assim no crepúsculo, ouvimos debilmente, vindo de muito abaixo no rio, algo que soava como duas pancadas do machado de um lenhador, ecoando surdamente através da sombria solidão. Costumamos comparar muitos sons ouvidos à distância na floresta ao golpe de um machado, porque, nessas circunstâncias, eles se parecem entre si, e esse é o som que normalmente ouvimos ali. Quando contamos isso a Joe, ele exclamou: “Por Deus, aposto que era um alce! Eles fazem um barulho assim.” Esses sons nos afetaram de modo estranho e, pela própria semelhança com um som familiar, embora provavelmente tivessem origem tão diversa, intensificaram a impressão de solidão e natureza selvagem.
À luz das estrelas, descemos pela corrente, que permanecia em água morta por três milhas, ou até o Moosehorn; Joe nos disse que precisávamos ficar em absoluto silêncio, e ele próprio não fazia ruído com o remo enquanto impelia a canoa com movimentos eficazes. Era uma noite calma e adequada àquele propósito, pois, se há vento, o alce sente seu cheiro, e Joe estava muito confiante de que conseguiria algum. A Lua da Colheita acabara de nascer, e seus raios horizontais começavam a iluminar a floresta à nossa direita, enquanto deslizávamos rio abaixo pela sombra do mesmo lado, contra a brisa leve que soprava. As altas copas afiladas das píceas e dos abetos se recortavam muito negras contra o céu e mais distintas do que de dia, ladeando de perto, dos dois lados, aquela larga avenida; e não seria fácil descrever a beleza da cena quando a lua se ergueu acima da floresta. Um morcego voou sobre nossas cabeças, e de tempos em tempos ouvimos algumas notas tênues de aves, talvez de um mariquita-de-myrtle, entre outras, ou o mergulho súbito de um rato-almiscarado, ou vimos um deles cruzando a corrente diante de nós, ou escutamos o som de um regato que ali desaguava, engrossado pela chuva recente. Cerca de uma milha abaixo da ilha, quando a solidão parecia tornar-se mais completa a cada instante, vimos de repente a luz e ouvimos o crepitar de uma fogueira na margem, e descobrimos o acampamento dos dois exploradores; eles estavam de pé diante do fogo, com suas camisas vermelhas, falando em voz alta sobre as aventuras e os lucros do dia. Naquele momento, tratavam de um negócio em que, pelo que entendi, alguém havia ganhado vinte e cinco dólares. Passamos deslizando sem falar, bem junto à margem, a menos de dois rods deles; e Joe, tomando sua corneta, imitou o chamado do alce, até que sugerimos que poderiam atirar em nós. Foi a última vez que os vimos, e nunca soubemos se nos perceberam ou desconfiaram de nossa passagem.
Desde então, desejei muitas vezes estar com eles. Procuram madeira numa determinada área, sobem colinas e, muitas vezes, árvores altas para observar ao longe; exploram as correntes por onde a madeira deverá ser conduzida, e coisas semelhantes; passam cinco ou seis semanas nos bosques, apenas os dois, a cem milhas ou mais de qualquer cidade, vagando e dormindo no chão onde quer que a noite os alcance, dependendo sobretudo das provisões que levam consigo, embora não recusem a caça que encontram; e então, no outono, regressam e apresentam relatório a seus empregadores, determinando o número de equipes que serão necessárias no inverno seguinte. Homens experientes recebem três ou quatro dólares por dia por esse trabalho. É uma vida solitária e aventureira, talvez a que mais se aproxima da vida do caçador de peles do Oeste. Trabalham sempre com uma arma, além de um machado, deixam a barba crescer e vivem sem vizinhos, não numa planície aberta, mas bem no interior de uma região selvagem.
Essa descoberta explicava os sons que havíamos ouvido e destruía, por algum tempo, a perspectiva de vermos alces. Por fim, quando já tínhamos deixado os exploradores muito para trás, Joe pousou o remo, tirou sua corneta de bétula, uma corneta reta, de cerca de quinze polegadas de comprimento e três ou quatro de largura na boca, amarrada ao redor com tiras da mesma casca, e, ficando de pé, imitou o chamado do alce, ugh-ugh-ugh, ou oo-oo-oo-oo, e depois um prolongado oo-o-o-o-o-o-o-o, e escutou atentamente durante vários minutos. Perguntamos que tipo de ruído esperava ouvir. Disse que, se um alce ouvisse aquilo, achava que logo descobriríamos; ouviríamos o animal se aproximando a meia milha de distância; ele chegaria bem perto, talvez até dentro d’água, e meu companheiro deveria esperar até ter uma visão clara e então mirar logo atrás do ombro.
Os alces se aventuram até a margem dos rios para comer e beber à noite. No início da estação, os caçadores não usam uma corneta para chamá-los, mas se aproximam furtivamente enquanto se alimentam ao longo das margens da corrente, e muitas vezes o primeiro indício que têm de um deles é o som da água pingando de seu focinho. Um indígena que ouvi imitar a voz do alce, e também a do caribu e a do veado, usando uma corneta muito mais longa que a de Joe, disse-me que a primeira às vezes podia ser ouvida a oito ou dez milhas; era uma espécie de bramido alto, mais claro e sonoro que o mugido do gado, o do caribu era uma espécie de bufar, e o do veado pequeno, semelhante ao de um cordeiro.
Por fim, subimos o Moosehorn, onde os indígenas na portagem nos haviam dito que tinham matado um alce na noite anterior. É uma corrente muito sinuosa, com apenas um ou dois rods de largura, mas relativamente profunda, que desemboca pela direita, chamada de Moosehorn com bastante propriedade, seja por suas voltas, seja por seus habitantes. Aqui e ali era ladeada por prados estreitos entre a corrente e a floresta interminável, oferecendo lugares favoráveis para os alces se alimentarem e para chamá-los para fora. Avançamos meia milha por ela como por um canal estreito e sinuoso, onde as altas e escuras píceas, os abetos e as tuias se erguiam dos dois lados ao luar, formando uma borda florestal perpendicular de grande altura, como as torres de uma Veneza na floresta. Em dois lugares havia um pequeno monte de feno na margem, pronto para o uso dos madeireiros no inverno, parecendo bastante estranho ali. Pensamos no dia em que aquilo talvez fosse um riacho serpenteando por prados aparados nos terrenos de algum cavalheiro; e, visto então ao luar, exceto pela floresta que agora o encerra, quão pouco mudado pareceria!
Repetidas vezes Joe chamou o alce, colocando a canoa junto a algum ponto favorável de prado para que eles saíssem, mas escutou em vão à espera de ouvir algum deles irromper pelos bosques, e concluiu que tinham sido caçados em excesso naquela região. Muitas vezes vimos aquilo que, em nossa imaginação, parecia um alce gigantesco, com os chifres aparecendo por entre a borda da floresta; mas naquela noite vimos apenas a floresta, não seus habitantes. Por fim, portanto, voltamos. Havia agora um pouco de neblina sobre a água, embora acima a noite fosse límpida e bela. Pouquíssimos sons rompiam a quietude da floresta. Várias vezes ouvimos o pio de um grande corujão-orelhudo, como em casa, e dissemos a Joe que ele chamaria o alce em seu lugar, pois produzia um som muito semelhante ao da corneta; mas Joe respondeu que o alce já ouvira aquele som mil vezes e sabia distinguir. Com frequência ainda maior, assustava-nos o mergulho de um rato-almiscarado. Certa vez, depois de Joe tornar a chamar e enquanto escutávamos à espera de alces, ouvimos chegar, ecoando debilmente ou rastejando de longe pelos corredores revestidos de musgo, um som surdo, seco e impetuoso, com um núcleo sólido, mas como se meio abafado sob o aperto da floresta luxuriante e fungosa, semelhante ao fechar de uma porta em algum corredor distante daquela região selvagem, úmida e eriçada. Se não estivéssemos ali, mortal algum o teria ouvido. Quando perguntamos a Joe, num sussurro, o que era, ele respondeu: “Árvore caindo.” Há algo de singularmente grandioso e impressionante no som de uma árvore que cai numa noite perfeitamente calma como aquela, como se as forças que a derrubam não precisassem ser incitadas, mas operassem com uma força sutil, deliberada e consciente, como uma jiboia, e então com mais eficácia até do que num dia de vento. Se de fato existe tal diferença, talvez seja porque as árvores, cobertas pelo orvalho da noite, são mais pesadas do que durante o dia.
Tendo alcançado o acampamento por volta das dez horas, acendemos nossa fogueira e fomos dormir. Cada um de nós tinha uma manta, na qual se deitava sobre os ramos de abeto, com as extremidades voltadas para o fogo, mas sem nada sobre a cabeça. Valia a pena deitar-se num lugar onde se podiam permitir fogueiras tão grandes; aquilo constituía todo um lado, e o lado luminoso, de nosso mundo. Primeiro havíamos rolado um tronco grande, com cerca de dezoito polegadas de diâmetro e dez pés de comprimento, para servir de tronco de fundo e durar a noite inteira, e depois empilhamos árvores sobre ele até a altura de três ou quatro pés, não importando quão verdes ou úmidas estivessem. Na verdade, queimamos naquela noite tanta madeira quanto bastaria, com economia e um fogão hermético, para uma família pobre de uma de nossas cidades durante todo o inverno. Era muito agradável, além de independente, deitar assim ao ar livre, e o fogo mantinha aquecidas o bastante nossas extremidades descobertas. Os missionários jesuítas costumavam dizer que, em suas jornadas com os indígenas no Canadá, dormiam sobre uma cama que nunca havia sido sacudida desde a criação, exceto por terremotos. É surpreendente com quanta impunidade e conforto alguém que sempre dormiu numa cama quente, num aposento fechado, e evitou cuidadosamente as correntes de ar, consegue deitar-se no chão sem abrigo, enrolar-se numa manta e dormir diante de uma fogueira, numa noite gelada de outono, logo depois de uma longa tempestade de chuva, e até passar em pouco tempo a apreciar e valorizar o ar fresco.
Fiquei algum tempo acordado, observando as fagulhas subirem entre os abetos e, às vezes, descerem em brasas quase apagadas sobre minha manta. Eram tão interessantes quanto fogos de artifício, subindo em multidões intermináveis e sucessivas, cada qual depois de uma explosão, num percurso ávido e serpentino, algumas chegando a cinco ou seis rods acima das copas das árvores antes de se extinguirem. Não suspeitamos quanto nossas chaminés ocultaram; e agora os fogões herméticos vieram ocultar todo o resto. No decorrer da noite, levantei-me uma ou duas vezes e coloquei novos troncos no fogo, fazendo meus companheiros encolherem as pernas.
Quando despertamos pela manhã (sábado, 17 de setembro), havia uma geada considerável embranquecendo as folhas. Ouvimos o chamado do chapim-de-cabeça-preta, o de algumas aves que balbuciavam debilmente e também o de patos na água ao redor da ilha. Fiz um inventário botânico de nossos domínios antes que o orvalho se dissipasse e descobri que a cicuta-do-chão, ou teixo-americano, era o subarbusto predominante. Tomamos chá, biscoito duro e patos no desjejum.
Antes que a névoa se dissipasse por completo, tornamos a remar rio abaixo e logo havíamos passado a foz do Moosehorn. Essas vinte milhas do Penobscot, entre os lagos Moosehead e Chesuncook, são relativamente tranquilas, e grande parte delas é água morta; mas de tempos em tempos o rio se torna raso e rápido, com rochas ou leitos de cascalho, por onde se pode atravessar a vau. Não há vastidão de água nem interrupção na floresta, e a campina não passa de uma orla aqui e ali. Não há colinas perto do rio nem ao alcance da vista, exceto uma ou duas montanhas distantes avistadas em alguns pontos. As margens têm de seis a dez pés de altura, mas uma ou duas vezes se elevam suavemente até um terreno mais alto. Em muitos lugares, a floresta na margem era apenas uma faixa estreita, deixando passar a luz de algum brejo de amieiros ou campina que ficava atrás. Os arbustos e árvores frutíferos mais conspícuos ao longo da margem eram o corniso-vermelho, com seus frutos esbranquiçados, o viburno-de-hobble, a sorveira-americana, o viburno-de-frutos-vermelhos, a cerejeira-brava, agora madura, o corniso-de-folhas-alternas e o viburno-nu. Seguindo o exemplo de Joe, comi os frutos deste último e também os do viburno-de-hobble, mas achei-os um tanto insípidos e cheios de sementes. Examinei a vegetação com muita atenção enquanto deslizávamos rente à margem, e frequentemente fazia Joe se desviar para que eu colhesse uma planta, a fim de perceber, por comparação, o que havia de primitivo em meu rio natal. Marroio, hortelã-cavalar e feto-sensível cresciam junto à beira, sob os salgueiros e amieiros, e a erva-lanosa nas ilhas, como ao longo do rio Assabet, em Concord. Era tarde demais para flores, salvo alguns ásteres, solidagos etc. Em vários lugares notamos a armação ligeira de um acampamento, como a que havíamos preparado para erguer, no meio da floresta à beira do rio, onde alguns madeireiros ou caçadores haviam passado uma noite, e às vezes degraus talhados na margem lamacenta ou argilosa diante dele.
Paramos para pescar trutas na foz de um pequeno curso d'água chamado Ragmuff, que vinha do oeste, cerca de duas milhas abaixo do Moosehorn. Ali estavam as ruínas de um antigo acampamento madeireiro, e um pequeno espaço que antes fora desmatado e queimado estava agora densamente coberto por cerejeiras-vermelhas e framboeseiras. Enquanto tentávamos pescar trutas, Joe, à maneira indígena, afastou-se sozinho Ragmuff acima para cuidar de seus próprios assuntos e, quando estávamos prontos para partir, encontrava-se muito além do alcance de nossa voz. Assim, para não perder tempo, fomos obrigados a acender uma fogueira e preparar ali o jantar. Algumas aves de cor vermelho-escura, com fêmeas mais acinzentadas (talvez tentilhões-púrpura), e mariquitas-de-murta em plumagem de verão saltitavam a seis ou oito pés de nós e de nossa fumaça. Talvez sentissem o cheiro da carne de porco fritando. Esta última ave, ou ambas, produzia as notas balbuciantes que eu ouvira na floresta. Elas sugeriam que as poucas aves pequenas encontradas na região selvagem mantêm relações mais familiares com o madeireiro e o caçador do que as dos pomares e áreas abertas mantêm com o fazendeiro. Desde então, encontrei ali o gaio-do-canadá e as perdizes, tanto a negra quanto a comum, igualmente mansos, como se ainda não tivessem aprendido a desconfiar inteiramente do homem. O chapim-de-cabeça-preta, que se sente em casa tanto nas florestas primitivas quanto em nossos bosques, ainda conserva nas cidades, em grau notável, sua confiança.
Joe finalmente voltou, depois de uma hora e meia, e disse que havia subido duas milhas pelo curso d'água em exploração e visto um alce, mas, como não estava com a arma, não o apanhara. Não nos queixamos, mas decidimos ficar de olho em Joe da próxima vez. Contudo, talvez tudo isso não tenha passado de um equívoco, pois depois não tivemos motivo para nos queixar dele. Enquanto continuávamos rio abaixo, surpreendi-me ao ouvi-lo assobiar “Oh! Susanna” e várias outras melodias do gênero, enquanto seu remo nos impelia adiante. Certa vez disse: “Sim, sinhozinho.” Sua palavra habitual era “Certim”. Remava, como de costume, de um só lado, dando impulso à canoa de casca ao usar a borda como fulcro. Perguntei-lhe como as cavernas eram presas às bordas laterais. Ele respondeu: “Não sei, nunca reparei.” Conversando com ele sobre viver inteiramente do que os bosques forneciam, caça, peixe, frutos silvestres etc., sugeri que seus antepassados assim faziam; mas ele respondeu que fora criado de tal modo que não conseguiria. “Sim”, disse ele, “era assim que ganhavam a vida, como sujeitos selvagens, selvagens como ursos. Por Deus! Não vou entrar nos bosques sem provisões, biscoito duro, carne de porco etc.” Ele trouxera um barril de biscoito duro e o armazenara na portagem para suas caçadas. Contudo, embora fosse filho de um Governador, não aprendera a ler.
Em certo ponto mais abaixo, no lado leste, onde a margem era mais alta e seca que de costume, elevando-se suavemente desde a beira até uma pequena altura, alguém havia derrubado as árvores numa extensão de vinte ou trinta acres e as deixara secando para depois queimá-las. Esse era o único preparo para uma casa entre a Portagem de Moosehead e Chesuncook, mas ainda não havia ali cabana nem moradores. Assim o pioneiro escolhe o local de sua casa, que talvez venha a ser o germe de uma cidade.
Meus olhos permaneciam o tempo todo nas árvores, distinguindo entre a pícea-negra, a pícea-branca e o bálsamo. Remamos por um canal estreito através de uma floresta sem fim, e a visão que ainda conservo diante dos olhos da mente é a dos pequenos, escuros e agudos cimos de altos bálsamos e abetos e das tuias semelhantes a pagodes, apinhados de ambos os lados, com várias árvores de madeira dura misturadas entre eles. Algumas das tuias tinham pelo menos sessenta pés de altura. As árvores de madeira dura, que às vezes apareciam sozinhas, pareciam menos selvagens aos meus olhos. Eu as imaginava como jardins ornamentais, com casas de fazenda ao fundo. A bétula-de-canoa e a bétula-amarela, a faia, o bordo e o olmo são saxões e normandos, mas os abetos, os bálsamos e, em geral, os pinheiros são indígenas. As gravuras suaves que adornam os anuários não dão ideia alguma de um curso d'água em região selvagem como esta. Os esboços rudes dos Reports on the Geology of Maine, de Jackson, cumprem muito melhor essa função. Em certo ponto vimos um pequeno bosque de pinheiros-brancos jovens e esguios, a única concentração de pinheiros que vi nesta viagem. Aqui e ali, contudo, aparecia um exemplar adulto, alto e delgado, mas defeituoso, o que os madeireiros chamam de árvore konchus, algo que verificam com seus machados ou pelos nós. Não descobri se essa palavra era indígena ou inglesa. Ela me fez lembrar o grego κόγχη, concha ou búzio, e diverti-me imaginando que talvez significasse o som morto que as árvores emitem quando golpeadas. Todos os demais pinheiros haviam sido levados rio abaixo.
Até onde vão os homens buscar o material de suas casas! Os habitantes das cidades mais civilizadas, em todas as épocas, mandam buscá-lo em florestas primitivas e distantes, além dos limites de sua civilização, onde habitam o alce, o urso e o selvagem, para obter tábuas de pinho destinadas ao uso cotidiano. E, por outro lado, o selvagem logo recebe das cidades pontas de flecha de ferro, machadinhas e armas, com que aguça sua condição selvagem.
Os cimos sólidos e bem definidos dos bálsamos, semelhantes a pontas de lança agudas e regulares, negros contra o céu, davam à floresta um aspecto peculiar, escuro e sombrio. Os cimos dos abetos têm contorno semelhante, porém mais irregular, e seus troncos também são apenas emplumados abaixo. Os bálsamos apresentavam-se com um pouco mais de frequência como pirâmides regulares e densas. Impressionou-me essa tendência universal das coníferas da floresta a se elevarem como agulhas. A inclinação é para cimos delgados e afilados, embora sejam mais estreitos embaixo. Não apenas o abeto e o bálsamo, mas até a tuia e o pinheiro-branco, ao contrário da vegetação secundária macia e espalhada, da qual não vi nenhuma, todos se erguem em ponta, levantando para a luz e o ar uma densa ponta de lança carregada de pinhas, seja como for, enquanto seus galhos se arrastam atrás como podem; como indígenas que erguem a bola acima da cabeça da multidão em seu jogo desesperado. Nisso se assemelham às gramíneas e, em certa medida, também às palmeiras. A cicuta costuma formar uma pirâmide semelhante a uma tenda, desde o chão até o cimo.
Depois de atravessar alguns longos rápidos e passar por uma grande ilha, alcançamos uma parte interessante do rio chamada Pine Stream Deadwater, cerca de seis milhas abaixo do Ragmuff, onde o rio se alargava até trinta rods e continha muitas ilhas, com olmos e bétulas-de-canoa, já amarelecendo, ao longo da margem, e tivemos nossa primeira visão de Ktaadn.
Ali, por volta das duas horas, entramos num pequeno braço de três ou quatro rods de largura, que desemboca pela direita vindo do sul, chamado Pine Stream, para procurar sinais de alces. Havíamos avançado apenas alguns rods quando vimos sinais muito recentes ao longo da beira d'água, pois a lama revolvida por seus pés ainda estava bem fresca, e Joe declarou que eles haviam passado por ali pouco tempo antes. Logo chegamos a uma pequena campina no lado leste, numa curva do curso d'água, coberta em sua maior parte por densos amieiros. Enquanto avançávamos ao longo da borda, talvez um pouco mais silenciosamente que de costume, por causa do frescor dos sinais, pois o plano era acampar mais acima nesse curso d'água, caso parecesse promissor, ouvi um leve crepitar de gravetos nas profundezas dos amieiros e chamei a atenção de Joe para isso; ele então começou a empurrar rapidamente a canoa para trás. Havíamos recuado assim meia dúzia de rods quando de repente avistamos dois alces parados bem na orla da parte aberta da campina por onde havíamos passado, a não mais de seis ou sete rods de distância, espiando-nos por entre os amieiros. Fizeram-me pensar em grandes coelhos assustados, com suas orelhas compridas e seus olhares meio curiosos, meio amedrontados; os verdadeiros habitantes da floresta, percebi de imediato, preenchendo um vazio que só então descobri que ainda não fora preenchido para mim, homens-alce, comedores de madeira, como dizem que a palavra significa, vestidos numa espécie de cinza de Vermont, ou tecido caseiro. Nosso Nimrod, por causa do movimento retrógrado, era agora quem estava mais longe da caça; mas, alertado de que ela se encontrava nas proximidades, levantou-se às pressas e, enquanto nos abaixávamos, disparou sobre nossas cabeças um dos canos contra o animal da frente, o único que viu, embora não soubesse que espécie de criatura era. Este então atravessou disparado a campina e subiu uma margem alta a nordeste, tão depressa que deixou em minha mente apenas uma impressão indistinta de seus contornos. No mesmo instante, o outro, um jovem, mas tão alto quanto um cavalo, saltou para dentro do curso d'água, à plena vista, e ali ficou encolhido por um momento, ou, antes, a desproporcional pequenez de sua parte traseira lhe dava essa aparência, soltando dois ou três guinchos de trombeta. Tenho uma lembrança indistinta de ver o mais velho deter-se por um instante no alto da margem, dentro da floresta, olhar na direção do filhote trêmulo e então tornar a fugir. O segundo cano foi apontado para o filhote e, quando esperávamos vê-lo tombar na água, depois de uma breve hesitação ele também saiu da água e subiu disparado a colina, embora numa direção um tanto diferente. Tudo isso aconteceu em poucos segundos, e nosso caçador, que nunca vira um alce antes, não sabia se eram ou não cervos, pois estavam parcialmente dentro da água, nem se havia atirado duas vezes contra o mesmo animal. Pelo modo como partiram e pelo fato de ele não estar acostumado a se levantar e atirar de uma canoa, julguei que não tornaríamos a vê-los. O indígena disse que eram uma fêmea e seu filhote, este com um ano, ou talvez dois, pois acompanham a mãe por tanto tempo; de minha parte, porém, eu não havia notado grande diferença no tamanho deles. Havia apenas dois ou três rods desde a campina até o sopé da margem, que, como todo o mundo naquela região, era densamente coberta de árvores; mas surpreendeu-me notar que, assim que os alces passaram por trás do véu da floresta, já não se ouvia nenhum som de passos sobre o musgo macio e úmido que atapeta aquela mata, e muito antes de desembarcarmos reinava silêncio absoluto. Joe disse: “Se ferir alce, eu pegar ele, certeza.”
Desembarcamos todos imediatamente. Meu companheiro recarregou; o indígena amarrou sua canoa de casca, tirou o chapéu, ajustou a faixa da cintura, apanhou a machadinha e partiu. Mais tarde, contou-me casualmente que, antes de desembarcarmos, vira uma gota de sangue na margem, quando esta ainda se achava a dois ou três rods de distância. Subiu rapidamente a margem e avançou pela floresta com uma passada peculiar, elástica, silenciosa e furtiva, olhando para a direita e para a esquerda no chão e pisando nas marcas tênues do alce ferido, de vez em quando apontando em silêncio uma única gota de sangue sobre as belas folhas lustrosas da Clintonia borealis, que cobriam o chão por toda parte, ou uma haste seca de feto recém-partida, enquanto mascava o tempo todo alguma folha ou então goma de abeto. Eu o seguia, observando mais seus movimentos que o rastro do alce. Depois de seguir a pista por cerca de quarenta rods numa direção bastante reta, passando por cima de árvores caídas e serpenteando entre as que permaneciam de pé, acabou por perdê-la, pois havia ali muitas outras pegadas de alce; voltando mais uma vez à última mancha de sangue, seguiu-a por uma curta distância e tornou a perdê-la e, cedo demais, pensei eu, para um bom caçador, desistiu por completo. Seguiu também por alguns passos as pegadas do filhote; mas, não vendo sangue, logo abandonou a busca.
Observei, enquanto ele seguia o rastro do alce, certa reserva ou moderação nele. Não comunicou várias observações interessantes que fez, como teria feito um homem branco, embora talvez lhe tenham escapado depois. Em outra ocasião, quando ouvimos um leve estalar de gravetos e ele desembarcou para reconhecer o terreno, avançou com leveza e graça, esgueirando-se pelos arbustos com o mínimo ruído possível, de um modo como nenhum homem branco faz, como se encontrasse a cada passo um lugar para pôr o pé.
Cerca de meia hora depois de avistarmos o alce, prosseguimos viagem Pine Stream acima e, chegando logo a um trecho muito raso e também rápido, retiramos a bagagem e fomos transportá-la por terra, enquanto Joe subia sozinho com a canoa. Estávamos quase concluindo a portagem, e eu me achava absorto nas plantas, admirando as folhas do Aster macrophyllus, com dez polegadas de largura, e colhendo as sementes da grande orquídea de folhas redondas, quando Joe exclamou do riacho que havia matado um alce. Encontrara a fêmea de alce morta, mas ainda bem quente, no meio do riacho, que era tão raso que ela repousava no fundo, com pouco mais de um terço do corpo acima da água. Fazia cerca de uma hora que levara o tiro, e estava inchada de água. Correra cerca de cem rods e procurara novamente o riacho, cortando uma pequena curva. Sem dúvida, um caçador melhor a teria seguido até aquele ponto de imediato. Fiquei surpreso com seu grande tamanho, semelhante ao de um cavalo, mas Joe disse que não era uma fêmea de alce grande. Meu companheiro tornou a procurar o filhote. Segurei o alce pelas orelhas, enquanto Joe empurrava sua canoa riacho abaixo em direção a uma margem favorável, e assim conseguimos, embora com alguma dificuldade, pois o focinho comprido frequentemente se enterrava no fundo, arrastá-lo para águas ainda mais rasas. Era negro-amarronzado, ou talvez cinza-ferro escuro, no dorso e nos flancos, mas mais claro por baixo e na parte dianteira. Peguei a corda que servia de cabo de proa da canoa e, com a ajuda de Joe, medi-o cuidadosamente, começando pelas maiores distâncias e dando um nó a cada vez. Como o cabo era necessário, naquela noite converti essas medidas, com igual cuidado, em comprimentos e frações de meu guarda-chuva, começando pelas menores e desatando os nós à medida que avançava; e, quando chegamos a Chesuncook no dia seguinte, encontrei ali uma régua de dois pés e converti as últimas em pés e polegadas; além disso, fiz para mim uma régua de dois pés com uma tira fina e estreita de freixo-negro, que se dobrava convenientemente até ficar com seis polegadas. Tomei todo esse trabalho porque não queria ser obrigado a dizer apenas que o alce era muito grande. Das várias dimensões que obtive, mencionarei somente duas. A distância das pontas dos cascos das patas dianteiras, estendidas, até o alto do dorso entre os ombros era de sete pés e cinco polegadas. Mal posso acreditar em minha própria medição, pois isso é cerca de dois pés mais do que a altura de um cavalo alto. (Na verdade, agora estou convencido de que essa medição estava incorreta, mas posso garantir que as demais medidas aqui apresentadas estão corretas, pois as comprovei numa visita mais recente àqueles bosques.) O comprimento total era de oito pés e duas polegadas. Outra fêmea de alce, que desde então medi naqueles bosques com uma fita, tinha exatamente seis pés da ponta do casco aos ombros e oito pés de comprimento enquanto jazia no chão.
Quando depois perguntei a um indígena na portagem quanto o macho era mais alto, ele respondeu: “Dezoito polegadas”, e fez com que eu observasse a altura de uma estaca transversal sobre o fogo, a mais de quatro pés do chão, para me dar alguma ideia da profundidade de seu peito. Outro indígena, em Oldtown, disse-me que chegavam a nove pés de altura até o alto do dorso, e que um que ele tentara carregar pesava oitocentas libras. O comprimento das projeções da espinha entre os ombros é muito grande. Um caçador branco, a melhor autoridade entre os caçadores a que pude recorrer, disse-me que o macho não era dezoito polegadas mais alto que a fêmea; contudo, concordava que às vezes atingia nove pés até o alto do dorso e pesava mil libras. Somente o macho tem galhadas, e elas se elevam dois pés ou mais acima dos ombros, abrindo-se por três ou quatro, e às vezes seis pés, o que faria com que ele tivesse, ao todo, em certos casos, onze pés de altura! Segundo esse cálculo, o alce é tão alto, embora talvez não tão grande, quanto o grande alce-irlandês, Megaceros Hibernicus, de uma época anterior, do qual Mantell diz que “excedia em muito, em magnitude, qualquer espécie viva”, sendo o esqueleto “de mais de dez pés de altura do chão até o ponto mais elevado das galhadas”. Joe disse que, embora o alce derrube toda a galhada anualmente, cada nova galhada tem uma ponta adicional; mas notei que às vezes eles têm mais pontas de um lado que do outro. Impressionaram-me a delicadeza e a maciez dos cascos, que se dividem muito para cima, e uma metade podia ser bastante pressionada para trás da outra, tornando provavelmente o animal mais firme sobre o terreno irregular e os troncos escorregadios cobertos de musgo da floresta primitiva. Eram muito diferentes dos pés rígidos e maltratados de nossos cavalos e bois. A parte nua e córnea da pata dianteira tinha exatamente seis polegadas de comprimento, e as duas porções podiam ser separadas por quatro polegadas nas extremidades.
O alce tem uma aparência singularmente grotesca e desajeitada. Por que haveria de ser tão alto nos ombros? Por que ter uma cabeça tão comprida? Por que não ter cauda digna de menção? Pois, em meu exame, deixei-a inteiramente passar despercebida. Os naturalistas dizem que ela tem uma polegada e meia de comprimento. Fez-me lembrar de imediato a girafa, alta na frente e baixa atrás, e não admira, pois, como ela, é adaptada a pastar nas árvores. Para esse fim, o lábio superior projetava-se duas polegadas além do inferior. Esse era o tipo de homem que se sentia em casa ali; pois, até onde consigo saber, aquela nunca foi a residência do indígena, mas antes seu território de caça. Talvez um dia o alce se extinga; mas quão naturalmente então, quando existir apenas como relíquia fóssil, e invisível como tal, poderá o poeta ou escultor inventar um animal fabuloso com galhadas semelhantes, ramificadas e folhosas, uma espécie de fucus ou líquen em osso, para habitar uma floresta como esta!
Ali, bem na cabeceira das corredeiras murmurantes, Joe começou então a esfolar o alce com um canivete, enquanto eu observava; e era uma tarefa trágica, ver aquele corpo ainda quente e palpitante ser perfurado por uma faca, ver o leite morno jorrar do úbere rasgado e a medonha carcaça nua e vermelha aparecer de dentro de sua veste bem-composta, feita para ocultá-la. A bala atravessara obliquamente a omoplata e se alojara sob a pele do lado oposto, ficando parcialmente achatada. Meu companheiro a guarda para mostrar aos netos. Ele tem as canelas de outro alce que matou desde então, esfoladas e recheadas, prontas para serem transformadas em botas mediante a colocação de uma sola grossa de couro. Joe disse que, se um alce estivesse de frente para você, não se deveria atirar, mas avançar em sua direção, pois ele se viraria devagar e ofereceria um bom alvo. No leito desse riacho estreito, selvagem e pedregoso, entre duas altas paredes de abetos e píceas, mera fenda na floresta aberta pelo curso d’água, prosseguia esse trabalho. Por fim, Joe retirou a pele e a arrastou até a margem, deixando-a correr pelo chão atrás de si, e declarou que pesava cem libras, embora provavelmente cinquenta estivesse mais perto da verdade. Cortou uma grande porção da carne para levar conosco e pôs outra, junto com a língua e o focinho, sobre a pele na margem, para que ali permanecesse a noite toda, ou até voltarmos. Surpreendeu-me que considerasse deixar a carne assim exposta junto à carcaça como o procedimento mais simples, sem receio de que alguma criatura a tocasse; mas nenhuma tocou. Isso dificilmente teria acontecido na margem de um de nossos rios na parte leste de Massachusetts; suspeito, porém, que menos animais selvagens de pequeno porte rondem por ali do que entre nós. Duas vezes, contudo, durante essa excursão, tive um vislumbre de uma espécie de camundongo grande.
Esse riacho era tão apartado, e as pegadas de alce estavam tão frescas, que meus companheiros, ainda decididos a caçar, resolveram subir mais por ele, acampar e então caçar rio acima ou abaixo durante a noite. Meia milha acima dali, num lugar onde vi o Aster puniceus e a aveleira-de-bico enquanto remávamos, Joe, ouvindo um leve farfalhar entre os amieiros e vendo algo negro a cerca de dois rods, levantou-se de um salto e sussurrou: “Urso!” Mas, antes que o caçador disparasse sua arma, corrigiu-se: “Castor!”, “Porco-espinho!” A bala matou um grande porco-espinho com mais de dois pés e oito polegadas de comprimento. Os espinhos se abriam em raios e estavam achatados na parte posterior do dorso, como se ele tivesse estado deitado sobre ela, mas eram eretos e compridos entre esse ponto e a cauda. Suas pontas, examinadas de perto, revelaram-se finamente farpadas e em forma de sovela, isto é, ligeiramente côncavas, para dar eficácia às farpas. Depois de cerca de uma milha de águas tranquilas, preparamos nosso acampamento na margem direita, bem ao pé de uma queda considerável. Pouco se cortou naquela noite, por medo de espantar os alces. No jantar, comemos carne de alce frita. Tinha gosto de carne bovina macia, talvez com mais sabor, e às vezes lembrava vitela.
Depois do jantar, já tendo nascido a lua, partimos para caçar uma milha riacho acima, primeiro transportando a canoa por terra ao redor das quedas. Formávamos uma cena pitoresca, avançando em fila única ao longo da margem, trepando por rochas e troncos, enquanto Joe, que vinha por último, girava a canoa nas mãos como se fosse uma pena, em lugares onde já era difícil avançar sem carga alguma. Lançamos novamente a canoa da saliência rochosa sobre a qual o riacho caía, mas, depois de meia milha de águas tranquilas, apropriadas à caça, ele tornou a ficar rápido, e fomos obrigados a abrir caminho pela margem, enquanto Joe tentava subir sozinho na canoa de casca de bétula, embora ainda lhe fosse muito difícil escolher passagem entre as rochas durante a noite. Nós, na margem, encontramos o pior terreno para caminhar, um perfeito caos de árvores caídas e trazidas pela corrente, e de arbustos que se projetavam muito sobre a água, e de vez em quando atravessávamos a foz de um pequeno afluente sobre uma espécie de trama de amieiros. Assim prosseguimos aos tombos no escuro, estando do lado sombreado, espantando com grande eficácia todos os alces e ursos que pudessem estar pelas redondezas. Por fim, chegamos a um ponto em que não podíamos avançar, e Joe foi adiante reconhecer o terreno; mas informou que, até onde fora, ou por meia milha, ainda era uma corredeira contínua, sem perspectiva de melhora, como se descesse de uma montanha. Assim, demos meia-volta, caçando de volta ao acampamento pelas águas tranquilas. Era uma esplêndida noite de luar e, ficando sonolento à medida que se fazia tarde, pois nada tinha a fazer, achei difícil compreender onde estava. Esse riacho era muito menos frequentado que o principal, pois as operações madeireiras já não eram realizadas naquela região. Tinha apenas três ou quatro rods de largura, mas os abetos e as píceas por entre os quais corria em fio pareciam ainda mais altos pelo contraste. Nesse estado de devaneio, intensificado pelo luar, eu não distinguia claramente a margem, mas parecia, na maior parte do tempo, flutuar por jardins ornamentais, pois associava as copas dos abetos a tais cenas; muito alto em alguma Broadway, e sob ou entre suas copas, julgava ver uma sucessão interminável de pórticos e colunas, cornijas e fachadas, varandas e igrejas. Eu não apenas imaginava isso; em meu estado sonolento, tal era a ilusão. Perdi-me de fato no sono várias vezes, ainda sonhando com aquela arquitetura e com a nobreza que morava por trás dela e poderia sair dali; mas, de repente, despertava e recuperava a noção de minha verdadeira posição ao som da trompa de casca de bétula de Joe, em meio a todo aquele silêncio, chamando o alce, ugh, ugh, oo-oo-oo-oo-oo-oo, e eu me preparava para ouvir um alce furioso vir irrompendo e estilhaçando a floresta, e vê-lo saltar para a estreita faixa de campina ao nosso lado.
Mas, por mais de uma razão, eu já tivera o bastante da caça ao alce. Não viera aos bosques com esse propósito, nem o previra, embora estivesse disposto a aprender como o indígena manobrava; mas um alce morto valia tanto quanto uma dúzia, se não era igualmente ruim. A tragédia daquela tarde, e a parte que me coubera nela, na medida em que afetava a inocência, destruiu o prazer de minha aventura. É verdade que cheguei tão perto quanto é possível de me tornar caçador sem de fato me tornar um; e, tal como estão as coisas, penso que poderia passar um ano nos bosques, pescando e caçando apenas o bastante para me sustentar, com satisfação. Isso seria quase viver como um filósofo dos frutos da terra que ele próprio cultivou, coisa que também me atrai. Mas essa caça ao alce apenas pela satisfação de matá-lo, nem sequer por causa do couro, sem fazer nenhum esforço extraordinário nem correr risco algum, parece-se demais com sair à noite para algum pasto à margem do bosque e atirar nos cavalos do vizinho. Estes são os próprios cavalos de Deus, pobres criaturas tímidas, que correrão depressa o bastante assim que sentirem seu cheiro, embora tenham nove pés de altura. Joe contou-nos que alguns caçadores, um ou dois anos antes, haviam abatido vários bois à noite, em algum lugar dos bosques do Maine, tomando-os por alces. E o mesmo poderia acontecer a qualquer caçador; e qual é a diferença no esporte, além do nome? No primeiro caso, depois de matar um dos bois de Deus e seu próprio, você lhe arranca o couro, porque esse é o troféu costumeiro e, além disso, ouviu dizer que ele pode ser vendido para a fabricação de mocassins, corta um bife das ancas e deixa a enorme carcaça empestar o céu em seu nome. Isso não é melhor, pelo menos, do que assistir ao trabalho de um matadouro.
A experiência daquela tarde sugeriu-me quão baixos ou grosseiros são os motivos que comumente levam os homens à região selvagem. Os exploradores e madeireiros em geral são todos assalariados, pagos certa quantia por dia de trabalho, e, como tais, não têm mais amor pela natureza selvagem do que os serradores de madeira têm pelas florestas. Outros homens brancos e indígenas que vêm para cá são, em sua maior parte, caçadores, cujo objetivo é matar tantos alces e outros animais selvagens quanto possível. Mas, pergunto, não poderia alguém passar algumas semanas ou anos na solidão desta vasta região selvagem com outras ocupações que não essas, ocupações perfeitamente doces, inocentes e enobrecedoras? Para cada um que vem com um lápis para desenhar ou cantar, mil vêm com um machado ou um rifle. Que uso grosseiro e imperfeito da natureza fazem os indígenas e os caçadores! Não admira que sua raça seja tão depressa exterminada. Eu já sentia, e continuei sentindo por semanas, minha natureza mais grosseira por causa dessa parte de minha experiência nos bosques, e fui lembrado de que nossa vida deveria ser vivida com a mesma ternura e delicadeza com que se colhe uma flor.
Com esses pensamentos, quando chegamos ao local de acampamento, decidi deixar meus companheiros continuarem a caçar alces rio abaixo, enquanto eu preparava o acampamento, embora me pedissem que não cortasse muita lenha nem fizesse uma fogueira grande, por medo de que eu espantasse a caça. No meio do úmido bosque de abetos, no alto da margem musgosa, por volta das nove horas daquela clara noite de luar, acendi uma fogueira depois que eles partiram e, sentado sobre ramos de abeto, ao alcance do som das quedas, examinei à sua luz os espécimes botânicos que havia coletado naquela tarde e anotei algumas das reflexões que aqui desenvolvi; ou então caminhava pela margem e contemplava o rio acima, onde todo o espaço além das quedas estava cheio de uma luz suave. Sentado diante da fogueira em meu assento de ramos de abeto, sem paredes acima nem ao redor, lembrei-me de quão longe, em todas as direções, aquela região selvagem se estendia antes que se chegasse a campos abertos ou cultivados, e perguntei-me se algum urso ou alce estaria observando a luz de minha fogueira; pois a Natureza me olhava com severidade por causa do assassinato do alce.
É estranho que tão poucos venham aos bosques para ver como o pinheiro vive, cresce e se ergue em ponta, elevando para a luz seus braços sempre verdes, para ver seu êxito perfeito; a maioria, porém, contenta-se em contemplá-lo na forma de muitas tábuas largas levadas ao mercado e julga que esse é seu verdadeiro êxito! Mas o pinheiro não é madeira serrada mais do que o homem o é, e ser transformado em tábuas e casas não constitui seu uso verdadeiro e mais elevado mais do que o uso mais verdadeiro de um homem seria ser derrubado e transformado em adubo. Há uma lei superior que rege nossa relação com os pinheiros, assim como com os homens. Um pinheiro abatido, um pinheiro morto, não é mais um pinheiro do que uma carcaça humana morta é um homem. Pode-se dizer que aquele que descobriu apenas alguns dos valores da barbatana e do óleo de baleia descobriu o verdadeiro uso da baleia? Pode-se dizer que aquele que mata o elefante por causa do marfim “viu o elefante”? Esses são usos mesquinhos e acidentais; seria como se uma raça mais forte nos matasse para fazer botões e flautins com nossos ossos, pois tudo pode servir tanto a um uso inferior quanto a um superior. Toda criatura é melhor viva do que morta, homens, alces e pinheiros, e aquele que compreende isso corretamente preferirá preservar-lhe a vida a destruí-la.
[Ilustração: Pinheiro, Montanha Boar]
É então o madeireiro o amigo e amante do pinheiro, aquele que está mais próximo dele e melhor compreende sua natureza? É o curtidor que lhe arrancou a casca, ou aquele que o entalhou para extrair terebintina, que a posteridade dirá em suas fábulas ter sido por fim transformado em pinheiro? Não! Não! É o poeta; é ele quem faz do pinheiro o uso mais verdadeiro, quem não o acaricia com um machado, nem lhe faz cócegas com uma serra, nem o afaga com uma plaina, quem sabe se seu cerne é falso sem cortá-lo, quem não comprou os direitos de corte da área municipal onde ele se ergue. Todos os pinheiros estremecem e soltam um suspiro quando esse homem pisa o chão da floresta. Não, é o poeta, que os ama como à própria sombra no ar e os deixa de pé. Já estive no pátio de madeira, na oficina do carpinteiro, no curtume, na fábrica de negro de fumo e na clareira de extração de terebintina; mas, quando por fim vi as copas dos pinheiros ondulando e refletindo a luz ao longe, bem acima de todo o resto da floresta, compreendi que aqueles não eram os usos mais elevados do pinheiro. Não são seus ossos, seu couro ou seu sebo que mais amo. É com o espírito vivo da árvore, não com seu espírito de terebintina, que simpatizo, e é ele que cura meus cortes. Ele é tão imortal quanto eu e talvez vá para um céu igualmente elevado, onde continuará a se altear acima de mim.
Não demorou muito para que os caçadores voltassem, sem terem visto nenhum alce, mas, em consequência de minhas sugestões, trazendo um quarto do animal morto, que, somado a nós mesmos, constituía uma carga considerável para a canoa.
Depois de tomarmos o desjejum com carne de alce, descemos de volta o Pine Stream, a caminho do lago Chesuncook, que ficava a cerca de cinco milhas. Podíamos ver a carcaça vermelha do alce jazendo no Pine Stream quando ainda estávamos a quase meia milha de distância. Logo abaixo da foz desse curso d’água ficavam as corredeiras mais consideráveis entre os dois lagos, chamadas Pine Stream Falls, onde havia grandes rochas achatadas, polidas pelas águas, e naquele momento era possível atravessar facilmente a vau acima delas. Joe desceu sozinho, enquanto nós percorríamos a portagem, meu companheiro recolhendo goma de pícea para os amigos de casa, e eu procurando flores. Perto do lago, do qual nos aproximávamos com tanta expectativa como se fosse uma universidade, pois não é frequente que o curso de nossa vida se abra em expansões semelhantes, havia ilhas e uma margem baixa e campestre, com árvores dispersas, bétulas brancas e amarelas inclinadas sobre a água, e bordos; muitas das bétulas brancas estavam mortas, aparentemente por causa de inundações. Havia uma quantidade considerável de capim nativo; e até mesmo algumas cabeças de gado, cujos movimentos ouvimos, embora não as víssemos, tomando-as de início por alces, pastavam ali.
Ao entrarmos no lago, onde o rio corre para sudeste, e já havia algum tempo antes disso, avistávamos as montanhas nas proximidades de Ktaadn, que, segundo alguém, são chamadas Katahdinauquoh, como um aglomerado de fungos azuis de crescimento vigoroso, aparentemente a vinte e cinco ou trinta milhas de distância, na direção sudeste, com os cumes ocultos pelas nuvens. Joe chamou algumas delas de montanhas Sowadnehunk. Esse é o nome de um curso d’água daquela região, que outro indígena nos disse significar “correndo entre montanhas”. Embora alguns cumes mais baixos tenham depois ficado descobertos, não obtivemos uma vista mais completa de Ktaadn enquanto estivemos nos bosques. A clareira para a qual nos dirigíamos ficava à direita da foz do rio e era alcançada contornando-se uma ponta baixa, onde a água permanecia rasa a grande distância da margem. O lago Chesuncook estende-se de noroeste a sudeste e dizem que tem dezoito milhas de comprimento por três de largura, sem ilha alguma. Havíamos entrado por seu canto noroeste e, quando nos aproximamos da margem, só conseguíamos enxergar parte de sua extensão. As principais montanhas visíveis dali em terra eram as já mencionadas, entre sudeste e leste, e alguns cumes um pouco a oeste do norte; mas, em geral, o horizonte ao norte e noroeste, na direção do St. John e da fronteira britânica, era comparativamente plano.
A propriedade de Ansell Smith, a clareira mais antiga e principal nas proximidades desse lago, parecia ser um verdadeiro porto para batéis e canoas; sete ou oito dos primeiros estavam espalhados por ali, e havia uma pequena chata para feno, além de um cabrestante sobre uma plataforma, então bem acima e longe da água, pronto para ser posto a flutuar e ancorado a fim de rebocar jangadas. Era um tipo muito primitivo de porto, onde os barcos eram puxados para terra entre os tocos, um porto, pensei, como aquele de onde a Argo poderia ter sido lançada. Havia cinco outras cabanas com pequenas clareiras no lado oposto do lago, todas nesta extremidade e visíveis daquele ponto. Um dos Smiths disse-me que o terreno já estava aberto a tal ponto que eles vieram morar ali e construíram a casa atual quatro anos antes, embora a família estivesse ali havia apenas alguns meses.
Interessava-me ver como vivia um pioneiro neste lado do país. Sua vida é, em certos aspectos, mais aventurosa do que a de seu irmão no Oeste; pois ele luta tanto contra o inverno quanto contra a região selvagem, e há ao menos um intervalo maior entre ele e o exército que virá depois. Aqui, a imigração é uma maré que pode recuar depois de arrastar consigo os pinheiros; lá, não é uma maré, mas uma inundação, e estradas e outras melhorias vêm avançando sem cessar logo atrás.
Quando nos aproximamos da casa de toras, a doze rods do lago e consideravelmente acima dele, as extremidades salientes das toras, sobrepostas de modo irregular por vários pés nos cantos, conferiam-lhe uma aparência muito rica e pitoresca, muito distante da pobreza das tábuas de revestimento. Era uma construção muito espaçosa e baixa, com cerca de oitenta pés de comprimento e muitos aposentos grandes. As paredes estavam bem vedadas com argila entre as toras, que eram grandes e redondas, exceto nas faces superior e inferior, e tão visíveis por dentro quanto por fora, sucessivas faces abauladas que diminuíam gradualmente para cima e eram ajustadas umas às outras com o machado, como flautas de Pã. É provável que os deuses musicais da floresta ainda não as tivessem posto de lado; nunca o fazem enquanto não são fendidas ou perdem a casca. Era um estilo de arquitetura que, suspeito, não foi descrito por Vitrúvio, embora talvez tenha sido insinuado na biografia de Orfeu; nada daquelas colunas franzidas ou caneladas, que ostentam uma falsa imponência e não sustentam coisa alguma além da empena e das pretensões de quem as construiu, isto é, aos olhos da multidão. E, quanto à “ornamentação”, uma dessas palavras de cauda morta que os arquitetos empregam com muita propriedade para descrever seus floreios, havia os líquens, os musgos e as franjas de casca, com os quais ninguém se dava o trabalho de se preocupar. Certamente deixamos para trás, nos bosques, a mais bela pintura e as melhores tábuas sobrepostas quando arrancamos a casca e nos envenenamos com alvaiade nas cidades. Obtemos apenas metade dos despojos da floresta. Para a beleza, deem-me árvores ainda com a pele. Essa casa fora projetada e construída com a liberdade de golpe do machado de um homem da floresta, sem outro compasso nem esquadro além dos que a Natureza usa. Onde quer que as toras fossem interrompidas por uma janela ou porta, isto é, não fossem mantidas no lugar pela sobreposição alternada, eram presas umas às outras por pinos muito grandes, cravados diagonalmente de cada lado, onde poderiam ter existido galhos, e depois cortados tão rente acima e abaixo que não se projetavam além da curva da tora, como se as toras se abraçassem. Essas toras eram, tudo de uma vez, postes, montantes, tábuas, revestimento, ripas, reboco e pregos. Onde o cidadão usa uma simples lasca ou tábua, o pioneiro emprega o tronco inteiro de uma árvore. A casa tinha grandes chaminés de pedra e era coberta com casca de pícea. As janelas eram importadas, exceto pelos caixilhos. Uma das extremidades era um acampamento regular de madeireiros, destinado aos hóspedes, com o piso habitual de ramos de abeto e bancos de toras. Assim, essa casa não passava de um ligeiro afastamento da árvore oca que o urso ainda habita, uma cavidade feita de árvores empilhadas, com um revestimento de casca como o original.
A adega era uma construção separada, semelhante a uma casa de gelo, e servia de refrigerador naquela estação, pois ali se guardava nossa carne de alce. Era uma cova para batatas com teto permanente. Cada estrutura e instituição ali era tão primitiva que se podia de imediato remontá-la à sua origem; mas nossos edifícios em geral não sugerem nem sua origem nem sua finalidade. Havia um celeiro grande e, como diriam os agricultores, vistoso, parte de cujas tábuas fora serrada com serra de vaivém; e o fosso de serragem, com sua enorme pilha de pó, permanecia diante da casa. As longas telhas fendidas de uma parte do celeiro estavam assentadas com um pé exposto às intempéries, sugerindo que espécie de tempo enfrentam por ali. Dizia-se que o celeiro de Grant, no lago Caribou, era ainda maior, o maior ninho de bois dos bosques, com cinquenta pés por cem. Pensem num celeiro monstruoso naquela floresta primitiva, erguendo o dorso cinzento acima das copas das árvores! O homem faz para seus animais domésticos um ninho de capim seco e forragem muito semelhante ao que os esquilos e muitas outras criaturas selvagens fazem para si.
Havia também uma ferraria, onde evidentemente se fazia muito trabalho. Os bois e cavalos empregados nas operações madeireiras eram ferrados, e todo o trabalho de ferro dos trenós etc. era consertado ou feito ali. Na terça-feira seguinte, vi carregarem um batel na portagem de Moosehead com cerca de treze quintais de barras de ferro para essa oficina. Isso me fez lembrar quão primitivo e honroso era o ofício de Vulcano. Não consta que houvesse carpinteiro ou alfaiate entre os deuses. O ferreiro parece ter precedido estes e todos os demais artífices em Chesuncook, assim como no Olimpo, e sua família é a mais amplamente dispersa, quer ele tenha sido batizado John, quer Ansell.
Smith possuía duas milhas ao longo do lago por meia milha de largura. Havia ali cerca de cem acres desmatados. Naquele ano, ele cortou setenta toneladas de feno inglês nesse terreno e outras vinte em outra área aberta, e usa tudo ele mesmo nas operações madeireiras. O celeiro estava abarrotado de feno prensado e de uma máquina para prensá-lo. Havia uma grande horta cheia de raízes, nabos, beterrabas, cenouras, batatas etc., todas de tamanho enorme. Disseram que ali valiam tanto quanto em Nova York. Sugeri algumas groselhas para molho, sobretudo porque não haviam plantado macieiras, e mostrei como poderiam obtê-las facilmente.
Junto à porta havia o habitual machado de cabo comprido dos bosques primitivos, com três pés e meio de comprimento, pois minha nova régua de freixo-negro estava em uso constante, e um cão grande e desgrenhado, cujo focinho, segundo se dizia, estava cheio de espinhos de porco-espinho. Posso testemunhar que ele parecia muito circunspecto. Essa é a sorte habitual dos cães pioneiros, pois têm de suportar o impacto da batalha por sua raça e desempenhar, sem intenção, o papel de Arnold Winkelried. Caso convidasse um de seus amigos da cidade a subir até ali, prometendo carne de alce e liberdade ilimitada, este poderia perguntar com toda pertinência: “O que é isso espetado no seu focinho?” Depois que uma ou duas gerações gastam todos os dardos dos inimigos, seus sucessores levam uma vida comparativamente fácil. Devemos bênçãos análogas a nossos pais. Muitos idosos recebem pensões, ao que me parece, sem outra razão senão como compensação por terem vivido há muito tempo. Sem dúvida, nossos cães da cidade ainda falam, fungando, dos dias que puseram à prova os focinhos caninos. Não sei como levaram uma gata até lá, pois gatos são tão arredios quanto minha tia para entrar numa canoa. Admirei-me de que ela não tivesse subido numa árvore pelo caminho; mas talvez tenha ficado desnorteada diante da própria multidão de oportunidades.
Vinte ou trinta madeireiros, ianques e canadenses, iam e vinham, Aleck entre eles, e de tempos em tempos algum indígena passava por ali. No inverno, às vezes cem homens se alojam ali de uma só vez. A notícia mais interessante que circulava entre eles parecia ser a de que quatro cavalos pertencentes a Smith, avaliados em setecentos dólares, haviam passado uma semana antes, seguindo mais para dentro dos bosques.
O pinheiro-branco estava no fundo, ou no extremo mais distante, de tudo isso. É uma guerra contra os pinheiros, a única verdadeira guerra de Aroostook ou do Penobscot. Não tenho dúvida de que levavam quase o mesmo tipo de vida na era homérica, pois os homens sempre pensaram mais em comer do que em lutar; então, como agora, sua mente se ocupava sobretudo com “pão quente e bolos doces”; e o comércio de peles e madeira é uma velha história na Ásia e na Europa. Duvido que os homens alguma vez tenham feito do heroísmo um comércio. Mesmo nos dias de Aquiles, deleitavam-se com grandes celeiros e, quem sabe, com feno prensado, e aquele que possuía a parelha mais valiosa era o melhor sujeito.
Tínhamos planejado subir ao entardecer pelo Caucomgomoc, cuja foz ficava a uma ou duas milhas de distância, até o lago de mesmo nome, cerca de dez milhas adiante; mas alguns indígenas conhecidos de Joe, que fabricavam canoas no Caucomgomoc, vieram daquele lado e fizeram um relato tão ruim da caça ao alce, pois tantos haviam sido mortos ali recentemente, que meus companheiros decidiram não ir. Joe passou esse domingo e a noite com seus conhecidos. Os madeireiros me disseram que havia muitos alces nos arredores, mas nenhum caribu ou veado. Um homem de Oldtown matara dez ou doze alces, no espaço de um ano, tão perto da casa que ouviram todos os seus tiros. Talvez seu nome fosse Hércules, pelo que sei, embora eu esperasse antes ouvir o estrépito de sua clava; mas, sem dúvida, ele acompanha os progressos da época e agora usa um rifle Sharps; provavelmente manda fazer e consertar toda a sua armadura na oficina de Smith. Em dois anos, um alce fora morto e outro recebera um tiro à vista da casa. Não sei se Smith já conseguiu um poeta para cuidar do gado, que, por causa do degelo precoce, é obrigado a passar o verão nos bosques, mas eu sugeriria esse posto àqueles de meus conhecidos que gostam de escrever versos e sair para caçar.
Depois de um jantar em que o molho de maçã foi para mim o maior luxo, embora os madeireiros pedissem com mais frequência nossa carne de alce, atravessei a área aberta e entrei na floresta, rumo ao sul, voltando pela margem. Como sobremesa, servi-me de uma grande fatia dos bosques de Chesuncook e tomei um farto gole de suas águas com todos os meus sentidos. Os bosques estavam tão frescos e repletos de vida vegetal quanto um líquen em tempo úmido, e continham muitas plantas interessantes; mas, a menos que sejam pinheiros-brancos, recebem ali tão pouco respeito quanto o mofo, e, no outro caso, apenas são derrubados com maior rapidez. A margem era formada por rochas de ardósia grossas e planas, muitas vezes em lajes, contra as quais a arrebentação batia. As rochas e os troncos à deriva descorados, que se estendiam por certa distância mata desgrenhada adentro, indicavam uma elevação e descida de seis ou oito pés, causadas em parte pela represa na saída. Disseram que, no inverno, a neve chegava ali a três pés de profundidade em terreno plano, e às vezes a quatro ou cinco; que o gelo no lago tinha dois pés de espessura, límpido, e quatro pés contando o gelo de neve. Já se formara gelo nos recipientes.
Alojamo-nos ali naquela noite de domingo num quarto confortável, aparentemente o melhor; e tudo o que notei de incomum durante a noite, pois eu ainda continuava tomando notas, como um espião no acampamento, foi o ranger das finas tábuas fendidas quando algum de nossos vizinhos se mexia.
Assim eram os primeiros e rudes começos de uma cidade. Falavam da viabilidade de uma estrada de inverno até a portagem de Moosehead, que não custaria muito e os ligaria aos vapores, às diligências e a todo o mundo atarefado. Quase duvidei de que o lago continuaria ali, o mesmíssimo lago, preservando sua forma e identidade, quando as margens fossem desmatadas e povoadas; como se esses lagos e cursos d’água relatados pelos exploradores jamais tivessem aguardado o advento do cidadão.
A visão de uma dessas casas da fronteira, construída com esses enormes troncos, cujos habitantes mantiveram sua posição sem vacilar durante tantos verões e invernos na região selvagem, faz-me lembrar fortes famosos, como Ticonderoga ou Crown Point, que resistiram a cercos memoráveis. São sobretudo quartéis de inverno, e naquela estação este tinha um aspecto parcialmente abandonado, como se o cerco houvesse sido um pouco levantado, tendo os bancos de neve derretido diante dele e sua guarnição, por conseguinte, sido reduzida. Penso no alimento diário deles como rações, embora seja chamado de “mantimentos”; uma Bíblia e um capote são munições de guerra, e um único homem visto pelos arredores é uma sentinela de serviço. Espera-se que ele exija a senha e, quem sabe, tome você por Ethan Allen, vindo exigir a rendição de seu forte em nome do Congresso Continental. É uma espécie de serviço de patrulheiros. A expedição de Arnold é uma experiência diária para esses colonos. Eles podem provar que estiveram em campanha quase a qualquer momento; e penso que toda a primeira geração deles merece uma pensão mais do que qualquer um dos que foram à guerra do México.
Na manhã seguinte, bem cedo, iniciamos nosso retorno subindo o Penobscot, pois meu companheiro desejava seguir cerca de vinte e cinco milhas acima da portagem de Moosehead até um acampamento próximo da junção dos dois braços e procurar alces ali. Nosso anfitrião nos deu certa quantia pelo quarto do alce que havíamos trazido e que ele ficou contente em receber. Dois exploradores vindos do lago Chamberlain partiram ao mesmo tempo que nós. Camisas de flanela vermelha deveriam ser usadas nos bosques, nem que fosse apenas pelo belo contraste que essa cor faz com as árvores sempre-verdes e a água. Foi o que pensei quando vi as figuras dos exploradores em sua canoa de casca de bétula, impulsionando-se com varas correnteza acima, bem à nossa frente, distantes contra a floresta. É também a cor do agrimensor, a mais nitidamente visível em todas as circunstâncias. Paramos para jantar em Ragmuff, como antes. Dessa vez, foi meu companheiro quem subiu errante pelo curso d’água à procura de alces, enquanto Joe dormia na margem, de modo que nos sentíamos seguros de que ele não se perderia; e aproveitei a oportunidade para herborizar e tomar banho. Pouco depois de recomeçarmos, enquanto Joe voltara na canoa para buscar a frigideira que havia sido esquecida, colhemos cerca de dois quartos de galão de bagas de viburno para fazer molho.
Fiquei surpreso quando Joe me perguntou qual era a distância até o Moosehorn. Ele conhecia razoavelmente bem aquele curso d’água, mas notara que eu tinha curiosidade por distâncias e possuía vários mapas. Ele e os indígenas em geral com quem conversei não são capazes de descrever dimensões ou distâncias em nossas medidas com qualquer exatidão. Talvez pudesse dizer a que horas chegaríamos, mas não a que distância ficava. Vimos alguns patos-carolinos, mergansos e patos-pretos, mas naquela estação não eram tão numerosos ali quanto em nosso rio, em casa. Espantamos diante de nós a mesma família de patos-carolinos, tanto na ida quanto na volta. Ouvimos também o chamado de uma águia-pescadora, um tanto semelhante ao de um pica-pau-cintilante, e pouco depois a vimos pousada perto do topo de um pinheiro-branco morto, diante da ilha onde havíamos acampado pela primeira vez, enquanto um bando de maçaricos-malhados chilreava e balançava o corpo sobre a carcaça de um alce, numa língua baixa e arenosa logo abaixo. Fizemos a águia-pescadora voar de poleiro em poleiro, arrancando-lhe a cada vez um grito ou assobio, por muitas milhas à nossa frente. Como seguíamos contra a corrente, éramos obrigados a trabalhar muito mais do que antes e recorríamos com frequência à vara. Às vezes, os três remávamos juntos, em pé, pequena e pesadamente carregada como estava a canoa. A cerca de seis milhas de Moosehead, começamos a avistar as montanhas a leste da extremidade norte do lago, e às quatro horas alcançamos a portagem.
Os indígenas ainda estavam acampados ali. Eram três, incluindo o indígena de St. Francis que viera conosco no vapor. Um dos outros chamava-se Sabattis. Joe e o indígena de St. Francis eram nitidamente indígenas sem mistura; os outros dois pareciam mestiços de indígena e branco; mas, até onde pude ver, a diferença se limitava a seus traços e à tez. Ali cozinhamos para o jantar a língua do alce, tendo deixado em Chesuncook o focinho, considerado a parte mais saborosa, ainda fervendo, pois seu preparo dá bastante trabalho. Também ensopamos nossas bagas de viburno (Viburnum opulus), adoçando-as com açúcar. Os madeireiros às vezes as cozinham com melaço. Foram usadas na expedição de Arnold. Esse molho foi muito agradável para nós, que havíamos ficado limitados a biscoito duro, carne de porco e carne de alce, e, apesar das sementes, nós três as declaramos iguais às oxicocos comuns; mas talvez se deva conceder algum desconto a nossos apetites florestais. Valeria a pena cultivá-las, tanto pela beleza quanto pelo alimento. Mais tarde, vi-as num jardim em Bangor. Joe disse que eram chamadas ebeemenar.
Enquanto preparávamos o jantar, Joe começou a curtir a pele do alce, sobre a qual eu me sentara durante boa parte da viagem, tendo ele já cortado a maior parte dos pelos com a faca no Caucomgomoc. Fincou na margem duas varas robustas e bifurcadas, com sete ou oito pés de altura e separadas por distância igual no sentido leste-oeste; depois de fazer cortes de oito ou dez polegadas de comprimento, espaçados pela mesma distância, junto à borda dos lados da pele, passou varas por eles e então, apoiando uma das varas nas estacas bifurcadas, amarrou a outra com firmeza embaixo. As duas extremidades também foram amarradas com casca de cedro, seu cordame habitual, às varas verticais, por pequenos furos feitos a intervalos curtos. A pele, assim esticada e um pouco inclinada para o norte, a fim de expor ao sol o lado da carne, media, nos pontos extremos, oito pés de comprimento por seis de altura. Onde ainda restava carne aderida, Joe a retalhava com decisão usando a faca, para abri-la ao sol. Agora ela parecia um tanto manchada e danificada pelos bagos de chumbo. Em muitos locais de acampamento desses bosques, podem-se ver as velhas armações nas quais as peles foram esticadas.
Por uma razão ou outra, desistiu-se de ir às bifurcações do Penobscot, e decidimos parar ali, pois meu companheiro pretendia caçar descendo o rio à noite. Os indígenas nos convidaram a alojar-nos com eles, mas meu companheiro se inclinava a ir para o acampamento de toras na portagem. Esse acampamento era fechado e sujo, e tinha mau cheiro, e eu preferia aceitar a oferta dos indígenas, caso não fizéssemos um acampamento para nós mesmos; pois, embora também fossem sujos, estavam mais ao ar livre e eram companhia muito mais agradável, e até refinada, do que os madeireiros. A questão mais interessante debatida no acampamento dos madeireiros era qual homem poderia “dar conta” de qualquer outro na portagem; e, em sua maioria, não possuíam qualidade alguma em que não se pudesse pôr as mãos. Assim, fomos para o acampamento ou wigwam dos indígenas.
Ventava bastante, e por isso Joe resolveu caçar depois da meia-noite, caso o vento amainasse, o que os outros indígenas achavam que não aconteceria, porque vinha do sul. Os dois mestiços, contudo, partiram rio acima à procura de alces ao escurecer, antes de chegarmos ao acampamento deles. Esse acampamento indígena era uma construção leve e remendada, que permanecia ali havia várias semanas, erguida como um abrigo de uma só água, aberto para o fogo a oeste. Se o vento mudasse, eles podiam virá-lo. Era formado por duas estacas bifurcadas e uma travessa, com caibros inclinados desta até o chão. A cobertura era em parte uma vela velha, em parte casca de bétula, bastante imperfeita, mas bem amarrada, e descia até o chão nas laterais. Um tronco grande fora rolado para o fundo, servindo de cabeceira, e duas ou três peles de alce estavam estendidas no chão, com o pelo para cima. Diversas peças de suas roupas estavam enfiadas pelas laterais e cantos, ou sob o teto. Defumavam carne de alce numa grelha exatamente como a representada por With, na Collectio Peregrinationum de De Bry, publicada em 1588, e que os nativos do Brasil chamavam de boucan (de onde vem buccaneer), sobre a qual eram muitas vezes mostrados pedaços de carne humana secando junto com o restante. Ela fora erguida diante do acampamento, sobre o grande fogo de costume, na forma de um retângulo alongado. Duas estacas robustas e bifurcadas, separadas por quatro ou cinco pés e com cinco pés de altura, estavam fincadas no chão em cada extremidade; depois, duas varas de dez pés de comprimento haviam sido estendidas sobre o fogo, e outras menores, dispostas transversalmente sobre elas, a intervalos de um pé. Nestas últimas pendiam grandes fatias finas de carne de alce, defumando e secando, deixando-se um espaço aberto sobre o centro do fogo. Ali estava o coração inteiro, negro como uma bala de canhão de trinta e duas libras, pendurado num dos cantos. Disseram que eram necessários três ou quatro dias para curar aquela carne, e que ela se conservaria por um ano ou mais. Pedaços rejeitados jaziam pelo chão em diferentes estágios de decomposição, e havia também alguns no fogo, meio enterrados e chiando nas cinzas, tão negros e sujos quanto um sapato velho. A princípio pensei que estes últimos tivessem sido jogados fora, mas depois descobri que estavam sendo cozidos. Havia ainda um enorme pedaço de costela assando diante do fogo, espetado numa estaca vertical introduzida para dentro e para fora entre as costelas. Uma pele de alce estava esticada e sendo curada em varas, como a nossa, e bem perto havia uma pilha considerável de peles já curtidas. Eles haviam matado vinte e dois alces em dois meses, mas, como só podiam aproveitar uma parte muito pequena da carne, deixavam as carcaças no chão. No conjunto, era uma visão tão selvagem quanto qualquer outra que já se tenha testemunhado, e fui transportado de imediato trezentos anos para trás. Muitas tochas de casca de bétula, moldadas como cornetas retas de lata, jaziam prontas para uso sobre um toco do lado de fora.
Por receio da sujeira, estendemos nossos cobertores sobre as peles deles, de modo a não tocá-las em parte alguma. A princípio estavam ali apenas o indígena de St. Francis e Joe, e ficamos deitados de costas, conversando com eles até a meia-noite. Eram muito sociáveis e, quando não falavam conosco, mantinham uma conversa contínua em sua própria língua. Ouvimos uma pequena ave logo depois de escurecer, que, segundo Joe, cantava a certa hora da noite, às dez horas, acreditava ele. Ouvimos também os hilódeos e as pererecas, e os madeireiros cantando em seu acampamento, a um quarto de milha dali. Contei-lhes que vira, representados em livros antigos, pedaços de carne humana secando sobre aquelas grelhas; ao que repetiram alguma tradição sobre os mohawks comerem carne humana, quais partes preferiam etc., e também sobre uma batalha contra os mohawks perto de Moosehead, na qual muitos destes últimos foram mortos; mas descobri que sabiam muito pouco da história de seu povo e que podiam ser entretidos com histórias sobre seus antepassados tão facilmente quanto de qualquer outro modo. A princípio quase fui assado para fora dali, pois estava deitado junto a um dos lados do acampamento e sentia o calor refletido não só pela casca de bétula acima, mas também pela lateral; e mais uma vez me lembrei dos sofrimentos dos missionários jesuítas e dos extremos de calor e frio que se dizia que os indígenas suportavam. Lutei por muito tempo entre o desejo de permanecer e conversar com eles e o impulso de sair correndo e me estender sobre a relva fresca; e, quando eu estava prestes a dar o passo final, Joe, ouvindo meus murmúrios, ou talvez sentindo-se desconfortável ele próprio, levantou-se e espalhou parcialmente o fogo. Suponho que isso sejam boas maneiras indígenas: defender-se por conta própria.
Enquanto permanecia ali deitado, ouvindo os indígenas, eu me divertia tentando adivinhar o assunto deles por seus gestos ou por algum nome próprio introduzido na conversa. Não pode haver prova mais surpreendente de que constituem um povo distinto e comparativamente aborígine do que ouvir essa língua indígena inalterada, que o homem branco não consegue falar nem compreender. Podemos suspeitar de mudança e deterioração em quase todos os outros aspectos, mas não na língua, que nos é tão inteiramente ininteligível. Ela me apanhou de surpresa, embora eu tivesse encontrado tantas pontas de flecha, e me convenceu de que o indígena não era invenção de historiadores e poetas. Era um som americano puramente selvagem e primitivo, tanto quanto o latido de um chickaree, e eu não conseguia entender uma sílaba sequer; mas Paugus, se estivesse ali, o teria compreendido. Esses abenakis tagarelavam, riam e gracejavam na língua em que está escrita a Bíblia indígena de Eliot, a língua que tem sido falada na Nova Inglaterra sabe-se lá há quanto tempo. Eram esses os sons que saíam dos wigwams deste país antes de Colombo nascer; ainda não se extinguiram; e, com pouquíssimas exceções, a língua de seus antepassados continua copiosa o bastante para eles. Senti que naquela noite estava, ou melhor, jazia, tão perto do homem primitivo da América quanto jamais estiveram quaisquer de seus descobridores.
No meio da conversa deles, Joe de repente recorreu a mim para saber qual era o comprimento do lago Moosehead.
Enquanto isso, enquanto permanecíamos ali deitados, Joe fabricava e experimentava sua corneta, para estar pronto para caçar depois da meia-noite. O indígena de St. Francis também se divertia fazendo-a soar, ou melhor, chamando através dela; pois o som é produzido com a voz, e não soprando pela corneta. Este último parecia ser um negociante de peles de alce. Comprou a de meu companheiro por dois dólares e vinte e cinco centavos, ainda verde. Joe disse que ela valia dois dólares e cinquenta centavos em Oldtown. Seu principal uso é na fabricação de mocassins. Um ou dois desses indígenas os usavam. Disseram-me que, por uma lei recente do Maine, estrangeiros não tinham permissão para matar alces ali em estação alguma; americanos brancos só podiam matá-los numa estação determinada, mas os indígenas do Maine podiam fazê-lo em todas as estações. Por isso, o indígena de St. Francis pediu a meu companheiro um wighiggin, ou recibo, para apresentar, já que era estrangeiro. Ele morava perto de Sorel. Descobri que sabia escrever muito bem o próprio nome, Tahmunt Swasen. Um certo Ellis, velho homem branco de Guilford, cidade pela qual passamos, não muito longe da extremidade sul de Moosehead, era o mais célebre caçador de alces daquela região. Indígenas e brancos falavam dele com igual respeito. Tahmunt disse que havia mais alces ali do que na região dos Adirondacks, em Nova York, onde caçara; que três anos antes havia muitíssimos por perto e que agora também havia muitos nos bosques, mas eles não saíam até a água. Não adiantava caçá-los à meia-noite, pois não sairiam então. Perguntei a Sabattis, depois que voltou para casa, se os alces nunca o atacavam. Respondeu que não se devia atirar muitas vezes, para não enfurecê-los. “Atiro uma vez e acerto no lugar certo, e de manhã o encontro. Ele não vai longe. Mas, se você continua atirando, você o enfurece. Uma vez disparei cinco balas, todas atravessando o coração, e ele nem ligou; isso só o deixou mais enfurecido.” Perguntei-lhe se não os caçavam com cães. Disse que sim no inverno, mas nunca no verão, pois então não adiantava; eles saíam correndo em linha reta e velozmente por cem milhas.
Outro indígena disse que o alce, uma vez assustado, corria o dia inteiro. Um cão se agarrava aos lábios deles e era carregado até ser arremessado contra uma árvore e cair. Eles não conseguem correr sobre uma camada de gelo liso, embora consigam correr em neve de quatro pés de profundidade; mas o caribu consegue correr sobre o gelo. Em geral encontram dois ou três alces juntos. Eles se cobrem de água, deixando de fora apenas o focinho, para escapar das moscas. Ele tinha os chifres do que chamava de “alce negro que anda nas terras baixas”. Estes se abriam por três ou quatro pés. O “alce vermelho” era outro tipo, que “corria nas montanhas”, e tinha chifres que se abriam por seis pés. Essas eram as distinções que fazia. Ambos conseguem mover os chifres. As largas lâminas achatadas são cobertas de pelos e, quando o animal está vivo, são tão macias que se pode atravessá-las com uma faca. Eles consideram bom ou mau sinal os chifres se voltarem para este ou aquele lado. Os chifres de caribu dele haviam sido roídos por ratos em seu wigwam, mas ele achava que nem os chifres do alce nem os do caribu eram jamais roídos enquanto o animal estava vivo, como alguns afirmaram. Um indígena que encontrei mais tarde em Oldtown, e que levara consigo um urso e outros animais do Maine para exibição, contou-me que trinta anos antes não havia tantos alces no Maine quanto agora; disse também que os alces eram domesticados com muita facilidade e voltavam depois de alimentados uma vez, assim como os cervos, mas não os caribus. Os indígenas dessa região conhecem o alce quase tão bem quanto conhecemos o boi, por terem convivido com eles por tantas gerações. O padre Rasles, em seu Dicionário da Língua Abenaki, fornece não só uma palavra para o alce macho (aianbé) e outra para a fêmea (hèrar), mas também para o osso que fica no meio do coração do alce (!), e para sua perna traseira esquerda.
Não havia ali em cima nenhum dos cervos pequenos; eles são mais comuns nas proximidades dos povoados. Um deles entrou na cidade de Bangor dois anos antes, saltou através de uma janela de vidro laminado caro e depois contra um espelho, no qual pensou reconhecer um de sua espécie, e tornou a sair, e assim por diante, saltando sobre a cabeça da multidão, até ser capturado. Os habitantes se referem a ele como o cervo que foi fazer compras. O indígena mencionado por último falou do lunxus, ou diabo indígena (que suponho ser o puma, e não o Gulo luscus), como o único animal do Maine que o homem precisava temer; ele seguia um homem e não se importava com o fogo. Disse também que os castores começavam a ficar novamente bastante numerosos onde estivemos, mas suas peles agora alcançavam preço tão baixo que não valia a pena caçá-los.
Eu pusera as orelhas de nosso alce, que tinham dez polegadas de comprimento, para secar junto com a carne de alce sobre o fogo, pois desejava conservá-las; mas Sabattis me disse que eu precisava esfolá-las e curá-las, do contrário todo o pelo cairia. Observou que eles faziam bolsas de tabaco com a pele das orelhas, unindo as duas, face interna contra face interna. Perguntei-lhe como conseguia fogo, e ele mostrou uma pequena caixa cilíndrica de fósforos de fricção. Tinha também pederneiras e aço, além de um pouco de mecha, que não estava seca; penso que era de bétula-amarela. “Mas suponha que vocês virem a canoa, e tudo isso e sua pólvora se molhem.” “Então”, disse ele, “esperamos até chegar a algum lugar onde haja fogo.” Tirei do bolso um pequeno frasco contendo fósforos, fechado com uma rolha à prova d’água, e lhe disse que, mesmo que virássemos a canoa, ainda teríamos alguns fósforos secos; diante disso, ele ficou me olhando sem dizer palavra.
Ficamos assim acordados por muito tempo, conversando, e eles nos deram o significado de muitos nomes indígenas de lagos e cursos d’água das redondezas, sobretudo Tahmunt. Perguntei qual era o nome indígena do lago Moosehead. Joe respondeu Sebamook; Tahmunt o pronunciou Sebemook. Quando perguntei o que significava, responderam: lago Moosehead. Por fim, compreendendo o que eu queria dizer, repetiram alternadamente a palavra para si mesmos, como faria um filólogo, Sebamook, Sebamook, de vez em quando comparando suas conclusões em língua indígena, pois havia uma pequena diferença entre seus dialetos; e finalmente Tahmunt disse: “Ugh! Eu sei”, e ergueu-se parcialmente sobre a pele de alce. “É como se aqui fosse um lugar, e ali fosse outro”, disse, apontando para partes diferentes da pele, “e você tira água de lá e enche isto, e ela fica aqui; isso é Sebamook.” Entendi que ele queria dizer que era um reservatório de água que não escoava, com o rio entrando de um lado e saindo de novo perto do mesmo lugar, deixando uma baía permanente. Outro indígena disse que significava Lago da Grande Baía e que Sebago e Sebec, nomes de outros lagos, eram palavras aparentadas, significando grandes águas abertas. Joe disse que Seboois significava Rio Pequeno. Observei a incapacidade deles, tantas vezes descrita, de transmitir uma ideia abstrata. Tendo apreendido a ideia, embora indistintamente, tateavam em vão à procura de palavras com que expressá-la. Tahmunt achava que os brancos o chamavam lago Moosehead porque o monte Kineo, que o domina, tem a forma da cabeça de um alce, e que o rio Moose tinha esse nome “porque a montanha aponta diretamente através do lago para a sua foz”. John Josselyn, escrevendo por volta de 1673, diz: “A doze milhas da baía de Casco, e transitável para homens e cavalos, há um lago, chamado pelos indígenas Sebug. À sua margem, numa das extremidades, fica a famosa rocha, com a forma de um cervo-alce ou helk, diáfana, e chamada Rocha do Alce.” Parece que ele confundiu Sebamook com Sebago, que fica mais perto, mas não tem nenhuma rocha “diáfana” em sua margem.
Dou mais algumas definições deles, pelo que possam valer, em parte porque às vezes diferem das geralmente aceitas. Eles nunca haviam analisado essas palavras antes. Depois de longa deliberação e de repetir a palavra, pois ela lhes deu muito trabalho, Tahmunt disse que Chesuncook significava um lugar onde muitos cursos d’água desembocavam (?), e enumerou-os: Penobscot, Umbazookskus, Cusabesex, Red Brook etc. “Caucomgomoc, o que significa?” “Como se chamam aquelas grandes aves brancas?”, perguntou ele. “Gaivotas”, respondi. “Ugh! Lago das Gaivotas.” Joe achava que Pammadumcook significava Lago de Fundo ou Leito Cascalhoso. Tahmunt concluiu por fim, depois de perguntar se bétulas subiam por ele, pois disse não conhecê-lo muito bem, que Kenduskeag significava algo assim: “Você sobe o Penobscot até chegar a Kenduskeag, e passa adiante, não entra ali. Isso é Kenduskeag.” (?) Outro indígena, porém, que conhecia melhor o rio, disse-nos depois que significava Pequeno Rio das Enguias. Mattawamkeag era um lugar onde dois rios se encontram. (?) Penobscot era Rio Rochoso. Um autor diz que esse era “originalmente o nome de apenas uma seção do canal principal, desde o início das águas de maré até uma curta distância acima de Oldtown”.
Um indígena muito inteligente, que encontramos mais tarde, genro de Neptune, deu-nos também estas outras definições: Umbazookskus, Córrego do Prado; Millinoket, Lugar das Ilhas; Aboljacarmegus, Quedas da Laje Lisa (e Água Morta); Aboljacarmeguscook, o curso d’água que ali desemboca (esta última foi a palavra que ele deu quando perguntei por Aboljacknagesic, que não reconheceu); Mattahumkeag, Lagoa do Córrego Arenoso; Piscataquis, Braço de um Rio.
Perguntei aos nossos anfitriões o que significava Musketaquid, o nome indígena de Concord, Massachusetts; mas eles o mudaram para Musketicook, repetiram essa forma, e Tahmunt disse que significava Córrego Morto, o que provavelmente é verdade. Cook parece significar curso d’água, e talvez quid signifique o lugar ou o terreno. Quando perguntei o significado dos nomes de duas de nossas colinas, responderam que pertenciam a outra língua. Como Tahmunt disse que comerciava em Quebec, meu companheiro perguntou o significado da palavra Quebec, sobre a qual tanto se discutiu. Ele não sabia, mas começou a conjecturar. Perguntou como se chamavam aqueles grandes navios que transportavam soldados. “Navios de guerra”, respondemos. “Pois bem”, disse ele, “quando os navios ingleses subiram o rio, não puderam ir mais longe, porque ali era muito estreito; tiveram de voltar, go back, isso é Que-bec.” Menciono isso para mostrar o valor de sua autoridade nos demais casos.
Tarde da noite, os outros dois indígenas voltaram da caça ao alce, sem terem tido êxito, atiçaram de novo o fogo, acenderam os cachimbos, fumaram por algum tempo, beberam algo forte, comeram carne de alce e, encontrando o espaço que puderam, deitaram-se sobre as peles de alce; e assim passamos a noite, dois homens brancos e quatro indígenas, lado a lado.
Quando despertei pela manhã, caía uma garoa. Um dos indígenas estava deitado do lado de fora, enrolado no cobertor, do outro lado do fogo, por falta de espaço. Joe deixara de acordar meu companheiro, e este não caçara naquela noite. Tahmunt fazia uma travessa para sua canoa com uma faca de formato singular, do tipo que desde então vi outros indígenas usarem. A lâmina era fina, com cerca de três quartos de polegada de largura e oito ou nove polegadas de comprimento, mas curvada para fora de seu plano em forma de gancho, o que, segundo ele, a tornava mais conveniente para desbastar madeira. Como indígenas de regiões muito distantes ao norte e a noroeste usam o mesmo tipo de faca, suspeito que tenha sido feita segundo um modelo aborígine, embora alguns artesãos brancos talvez utilizem uma semelhante. Para o desjejum, os indígenas assaram um pão de farinha numa frigideira de ferro apoiada de lado diante do fogo; e, enquanto meu companheiro fazia chá, capturei no Penobscot uma dúzia de peixes de bom tamanho, duas espécies de peixe-ventosa e uma truta. Depois que tomamos nosso desjejum à parte, um de nossos companheiros de cama, que também já havia comido, aproximou-se e, convidado, tomou uma xícara de chá; por fim, pegou a travessa comum e a lambeu até deixá-la limpa. Mas ele não era nada comparado a um sujeito branco, um madeireiro, que se empanturrava continuamente com a carne de alce dos indígenas e, por isso, era alvo das piadas dos companheiros. Ele parecia achar que aquilo era um banquete “para comer tudo”. Diz-se com frequência que o homem branco acaba por superar o indígena em seu próprio terreno, e isso se comprovou neste caso. Não posso jurar no que ele se ocupou durante as horas de escuridão, mas vi que retomara a tarefa assim que amanheceu, embora tivesse percorrido um quarto de milha para chegar ao trabalho.
A chuva nos impediu de continuar mais tempo nos bosques; assim, depois de dar aos indígenas parte de nossas provisões e utensílios, despedimo-nos deles. Como aquele era o dia do vapor, parti imediatamente para o lago.
Atravessei sozinho a portagem e esperei na cabeceira do lago. Uma águia, ou alguma outra ave grande, levantou voo de seu poleiro junto à margem, afastando-se aos gritos quando me aproximei. Durante uma hora depois de eu chegar à margem, não se via ser humano algum, e tive só para mim toda aquela ampla paisagem. Pareceu-me ouvir o som do vapor antes que ele surgisse no lago aberto. Quando o vapor chegou, notei no desembarcadouro um de nossos companheiros de cama, que estivera caçando alces na noite anterior, agora muito elegantemente vestido com camisa branca limpa e boas calças pretas, um verdadeiro dândi indígena, que evidentemente atravessara a portagem para se exibir a quem chegasse à margem norte do lago Moosehead, assim como os dândis de Nova York passeiam pela Broadway e ficam parados nos degraus de um hotel.
No meio do lago, recebemos a bordo dois homens de meia-idade e aspecto viril, com seu batel, que haviam passado seis semanas explorando a região até a fronteira do Canadá e tinham deixado a barba crescer. Traziam a pele de um castor que haviam capturado recentemente, esticada num aro oval, embora a pelagem não fosse boa naquela estação. Conversei com um deles, dizendo-lhe que percorrera toda aquela distância em parte para ver onde crescia o pinheiro-branco, a madeira do Leste com que nossas casas são construídas, mas que, nesta excursão e numa anterior a outra parte do Maine, eu o encontrara como árvore escassa; e perguntei onde deveria procurá-lo. Com um sorriso, respondeu que mal saberia me dizer. Contudo, afirmou ter encontrado o bastante para ocupar duas equipes no inverno seguinte, num lugar onde se supunha não restar nenhum. O que agora se considerava uma árvore “de primeiríssima” nem sequer teria merecido atenção vinte anos antes, quando ele começou no ofício; mas agora conseguiam resultados muito bons com o que naquela época era considerado madeira bastante inferior. O explorador costumava golpear uma árvore cada vez mais acima, para verificar se o cerne estava deteriorado, e, se houvesse um miolo podre da grossura de seu braço, deixava-a de lado; agora, porém, cortavam tal árvore e serravam ao redor da podridão, e dela saíam as melhores tábuas, pois nesses casos nunca ficavam rachadas.
Uma pessoa ligada às operações madeireiras em Bangor contou-me que o maior pinheiro pertencente à sua firma, cortado no inverno anterior, havia sido avaliado nos bosques em quatro mil e quinhentos pés de madeira e valia noventa dólares como tora na barreira de retenção de Bangor, em Oldtown. Abriram uma estrada de três milhas e meia apenas para essa árvore. Ele julgava que a principal região de onde vinha agora o pinheiro-branco que descia pelo Penobscot ficava nas cabeceiras do Braço Leste e do Allegash, nos arredores do córrego Webster e dos lagos Eagle e Chamberlain. Muita madeira tem sido roubada das terras públicas. (Ora, que espécie de guarda-florestal é o próprio Público?) Ouvi falar de um homem que, tendo descoberto algumas árvores excepcionalmente belas logo dentro dos limites das terras públicas e não ousando empregar um cúmplice, derrubou-as e, por meio de moitões e cabos, sem animais de tração, fez com que rolassem para dentro de um curso d’água, conseguindo assim levá-las embora sem a menor ajuda. Certamente, roubar pinheiros dessa maneira não é tão vil quanto assaltar galinheiros.
Chegamos a Monson naquela noite e, no dia seguinte, viajamos até Bangor, novamente sob chuva durante todo o caminho, variando um pouco a rota. Algumas das tavernas dessa estrada, particularmente sujas, encontravam-se claramente num estado de transição entre o acampamento e a casa.
Na manhã seguinte, fomos a Oldtown. Um indígena velho e magro na margem de Oldtown, que reconheceu meu companheiro, estava cheio de alegria e gestos, como um francês. Um padre católico atravessou para a ilha no mesmo batel que nós. As casas indígenas têm estrutura de madeira, em sua maioria de um só andar, e dispõem-se em fileiras, umas atrás das outras, na extremidade sul da ilha, havendo algumas dispersas. Contei cerca de quarenta, sem incluir a igreja e o que meu companheiro chamou de casa do conselho. Esta última, que suponho ser a casa municipal deles, tinha estrutura regular de madeira e telhado de tábuas como as demais. Havia várias de dois andares, bastante asseadas, com os quintais da frente cercados, e pelo menos uma tinha venezianas verdes. Aqui e ali, viam-se peles de alce estendidas para secar ao redor delas. Não havia caminhos para carroças nem marcas de cavalos, apenas trilhas para pedestres; pouquíssima terra cultivada, mas abundância de ervas daninhas, nativas e naturalizadas; mais ervas introduzidas do que hortaliças úteis, assim como se diz que o indígena cultiva antes os vícios que as virtudes do homem branco. Ainda assim, essa aldeia era mais limpa do que eu esperava, muito mais limpa do que aldeias irlandesas que já vi. As crianças não estavam especialmente esfarrapadas nem sujas. Os meninos vinham ao nosso encontro com o arco na mão e a flecha na corda, e gritavam: “Erga um centavo.” Na verdade, o indígena já não segura seu arco com muita firmeza; mas a curiosidade do homem branco é insaciável e, desde o princípio, ele se mostrou ávido por testemunhar essa habilidade dos bosques. Aquele pedaço elástico de madeira, com seu dardo emplumado, tão certo de perder a corda ao entrar em contato com a civilização, servirá de emblema, de brasão do selvagem. Ai da Raça dos Caçadores! O homem branco afugentou sua caça e pôs um centavo em seu lugar. Vi uma mulher indígena lavando roupa à beira d’água. Ela estava de pé sobre uma rocha e, depois de mergulhar as roupas no rio, colocava-as sobre a pedra e batia nelas com um porrete curto. No cemitério, apinhado de sepulturas e tomado por ervas daninhas, notei uma inscrição em língua indígena, pintada numa lápide de madeira. Havia uma grande cruz de madeira na ilha.
Como meu companheiro o conhecia, visitamos o Governador Neptune, que morava numa pequena “casa de dez pés”, uma das mais humildes de todas. Como se permitem alusões pessoais ao falar de homens públicos, darei os pormenores de nossa visita. Ele estava de cama. Quando entramos no cômodo, que ocupava metade da casa, estava sentado à beira do leito. Havia um relógio pendurado num canto. Vestia uma sobrecasaca preta e calças pretas, muito gastas, camisa branca de algodão, meias, um lenço de seda vermelho ao pescoço e chapéu de palha. Seu cabelo preto estava apenas ligeiramente grisalho. Tinha as faces muito largas, e seus traços eram decidida e agradavelmente diferentes dos de qualquer membro arrivista do partido Native American que eu já tivesse visto. Não era mais escuro do que muitos velhos brancos. Disse-me ter oitenta e nove anos; mas iria caçar alces naquele outono, como fizera no anterior. Provavelmente eram seus companheiros que faziam a caçada. Vimos várias mulheres indígenas entrando e saindo furtivamente. Uma sentou-se na cama ao lado dele e o ajudou a completar suas histórias. Eram extraordinariamente corpulentas, com rostos lisos e redondos, aparentemente cheios de bom humor. Certamente nosso tão difamado clima não lhes havia ressecado a substância adiposa. Enquanto estivemos ali, pois permanecemos por bastante tempo, uma delas atravessou para Oldtown, voltou e cortou, sobre outra cama do cômodo, o tecido de um vestido que havia comprado. O Governador disse que “conseguia se lembrar de quando os alces eram muito maiores; que eles não costumavam viver nos bosques, mas saíam da água, como faziam todos os cervos. O alce já foi baleia. Muito para os lados do Merrimack, uma baleia veio dar em terra numa baía rasa. O mar recuou e a deixou ali, e ela subiu à terra como alce. O que os fez saber que era uma baleia foi que, no começo, antes de começar a correr pelos arbustos, ela não tinha entranhas dentro de si, mas...” Então a mulher indígena que estava sentada na cama ao lado dele, como auxiliar do Governador, e que de vez em quando acrescentava uma palavra e confirmava a história, perguntou-me como chamávamos aquela coisa mole que encontramos à beira-mar. “Água-viva”, sugeri. “Sim”, disse ele, “sem entranhas, apenas água-viva.”
Pode haver alguma verdade no que ele disse sobre os alces terem sido maiores antigamente; pois o pitoresco John Josselyn, médico que passou muitos anos justamente nessa região do Maine no século XVII, diz que as pontas de seus chifres “às vezes são encontradas a duas braças uma da outra”, e faz questão de nos informar que uma braça tem seis pés, “e [eles têm] de altura, desde o dedo do pé dianteiro até o ponto mais alto do ombro, doze pés, coisas ambas que alguns de meus leitores cépticos tomaram por mentiras monstruosas”; e acrescenta: “Há certos transcendentia em toda criatura, que são o caráter indelével de Deus e que revelam Deus.” Esse é um dilema maior em que se deixar apanhar do que o apresentado pelo crânio do jovem boi bechuana, aparentemente outro dos transcendentia, na coleção de Thomas Steel, Upper Brook Street, Londres, cujo “comprimento total do chifre, de ponta a ponta, acompanhando a curva, é de 13 pés e 5 polegadas; distância (em linha reta) entre as pontas dos chifres, 8 pés e 8½ polegadas”. Contudo, pelo que constatei, o tamanho tanto do alce quanto do puma é em geral antes subestimado que exagerado, e eu me inclinaria a acrescentar à estimativa popular uma parte do que subtraí da de Josselyn.
Mas conversamos sobretudo com o genro do Governador, um indígena muito sensato; e o Governador, por ser tão velho e surdo, permitiu que o ignorássemos enquanto fazíamos perguntas a seu respeito. O primeiro disse que havia entre eles dois partidos políticos, um favorável às escolas e outro contrário a elas, ou melhor, que não desejava resistir ao padre, que se opunha a elas. O primeiro acabara de vencer a eleição e mandara seu homem para a legislatura. Neptune, Aitteon e ele próprio eram favoráveis às escolas. Disse: “Se os indígenas recebessem instrução, conservariam seu dinheiro.” Quando perguntamos onde estava Aitteon, pai de Joe, ele sabia que devia estar em Lincoln, embora estivesse prestes a sair para caçar alces, pois um mensageiro acabara de ir até ele ali para obter sua assinatura em alguns papéis. Perguntei a Neptune se ainda tinham cães da raça antiga. Ele respondeu: “Sim.” “Mas esse”, disse eu, apontando para um que acabara de entrar, “é um cão ianque.” Ele concordou. Eu disse que não parecia bom. “Ah, sim!”, respondeu, e contou, com muito gosto, como, no ano anterior, ele agarrara um lobo pela garganta e o segurara. Um filhote preto muito pequeno irrompeu no aposento e avançou contra os pés do Governador, que estava sentado de meias, com as pernas pendendo da beira da cama. O Governador esfregou as mãos e o desafiou a vir, entrando na brincadeira com animação. Até onde sei, nada mais de significativo ocorreu durante essa entrevista. Foi a primeira vez que fiz uma visita a um governador, mas, como não pedi nenhum cargo, posso falar dela com maior liberdade.
Um indígena que fazia canoas atrás de uma casa, erguendo os olhos com simpatia do trabalho, pois conhecia meu companheiro, disse chamar-se Velho John Pennyweight. Eu já ouvira falar dele muito antes e perguntei por um de seus contemporâneos, Joe Four-pence-ha’penny; mas, ai de mim, ele já não circula. Fiz um estudo atento da construção de canoas e pensei que gostaria de servir como aprendiz desse ofício por uma temporada, entrando nos bosques em busca de casca com meu “patrão”, fazendo lá a canoa e, por fim, voltando nela.
Enquanto o batel atravessava para nos buscar, recolhi na margem alguns fragmentos de pontas de flecha e um cinzel de pedra quebrado, que eram novidades maiores para os indígenas do que para mim. Depois disso, em Old Fort Hill, na curva do Penobscot, três milhas acima de Bangor, procurando o local de uma aldeia indígena que alguns supõem ter existido por ali, encontrei mais pontas de flecha e dois pequenos fragmentos escuros e esfarelados de cerâmica indígena, nas cinzas de suas fogueiras. Os indígenas da ilha pareciam viver bastante felizes e ser bem tratados pelos habitantes de Oldtown.
Visitamos as serrarias de Veazie, logo abaixo da ilha, onde havia dezesseis conjuntos de serras, algumas serras múltiplas, dezesseis por conjunto, sem contar as serras circulares. De um lado, puxavam as toras por um plano inclinado movido a força hidráulica; do outro, faziam sair tábuas, pranchas e madeira serrada, reunindo-as em jangadas. Ali, as árvores eram literalmente arrastadas e esquartejadas. Para formar as jangadas, usam os três pés inferiores de mudas de madeira dura, que têm a extremidade da base torta e nodosa, como cavilhas, passando-as de baixo para cima por furos abertos nos cantos e nas laterais das jangadas e prendendo-as com cunhas. Em outro compartimento faziam ripas para cercas, dessas que se veem por toda a Nova Inglaterra, aproveitando sobras e retalhos; e pode ser que eu tenha visto de onde veio a cerca de estacas atrás da qual moro em casa. Surpreendeu-me encontrar um rapaz recolhendo as longas aparas laterais das tábuas assim que eram cortadas e enfiando-as numa moega, onde eram trituradas sob a serraria para que não ficassem no caminho; de outro modo, acumulam-se em enormes montes ao lado do edifício, aumentando o risco de incêndio, ou, levadas pela corrente, obstruem o rio. Aquilo, portanto, não era apenas uma serraria, mas também um moinho. Os habitantes de Oldtown, Stillwater e Bangor certamente não podem sofrer por falta de material para acender o fogo. Alguns ganham a vida exclusivamente recolhendo madeira à deriva e vendendo-a por cordas no inverno. Num lugar, vi onde um irlandês, que mantém uma parelha e um homem para esse fim, cobrira a margem por uma longa distância com pilhas regulares, e disseram-me que ele vendera mil e duzentos dólares em um ano. Outro, que morava junto à margem, contou-me que obtivera do rio todo o material de suas construções externas e cercas; e, naquela vizinhança, percebi que essa madeira de refugo era usada com frequência em lugar de areia para preencher depressões, sendo aparentemente mais barata que terra.
Obtive minha primeira visão nítida de Ktaadn nessa excursão, do alto de uma colina cerca de duas milhas a noroeste de Bangor, aonde fui com esse propósito. Depois disso, estava pronto para voltar a Massachusetts.
Humboldt escreveu um capítulo interessante sobre a floresta primitiva, mas ninguém ainda descreveu para mim a diferença entre aquela floresta selvagem que outrora ocupava nossos municípios mais antigos e a floresta domesticada que encontro ali hoje. É uma diferença a que valeria a pena prestar atenção. O homem civilizado não apenas desmata permanentemente a terra em grande escala e cultiva campos abertos, mas também domestica e cultiva, até certo ponto, a própria floresta. Quase por sua mera existência, altera a natureza das árvores como nenhuma outra criatura faz. O sol e o ar, e talvez o fogo, foram introduzidos, e cultivou-se cereal onde ela se ergue. Ela perdeu seu aspecto selvagem, úmido e desgrenhado; as incontáveis árvores caídas e em decomposição desapareceram e, por conseguinte, desapareceu também a espessa camada de musgo que vivia sobre elas. A terra está relativamente nua, lisa e seca. Os lugares mais primitivos que nos restam são os pântanos, onde o abeto ainda cresce desgrenhado de usnea. A superfície do solo nos bosques do Maine é por toda parte esponjosa e saturada de umidade. Notei que as plantas que ali cobrem o chão da floresta são daquelas que entre nós costumam ficar confinadas aos pântanos, a Clintonia borealis, as orquídeas, a gaulteria-rasteira e outras; e o áster predominante ali é o Aster acuminatus, que entre nós cresce em bosques úmidos e sombrios. Os ásteres cordifolius e macrophyllus também são comuns, ásteres de pouca ou nenhuma cor e às vezes sem pétalas. Não vi nenhum pinheiro-branco de crescimento secundário, macio e espalhado, de casca lisa, reconhecendo a chegada do lenhador; até os pinheiros-brancos jovens eram todos árvores altas, esguias e de casca áspera.
Esses bosques do Maine diferem essencialmente dos nossos. Ali nunca somos lembrados de que a região selvagem por onde abrimos caminho é, afinal, o lote de mata familiar de algum aldeão, a terça parte de alguma viúva, de onde seus antepassados arrastaram combustível em trenós durante gerações, minuciosamente descrita em alguma escritura antiga registrada, da qual o proprietário também possui uma planta, e onde antigos marcos de divisa podem ser encontrados a cada quarenta rods, caso se procure. É verdade que o mapa pode informar que estamos em terras concedidas pelo Estado a alguma academia, ou na compra de Bingham; mas esses nomes não nos enganam, pois nada vemos que nos faça lembrar da academia ou de Bingham. O que eram as “florestas” da Inglaterra comparadas a essas? Um escritor conta a respeito da Ilha de Wight que, no tempo de Carlos II, “havia na ilha bosques tão completos e extensos que, segundo se dizia, um esquilo poderia ter viajado em várias partes, por muitas léguas seguidas, sobre o topo das árvores”. Não fossem os rios, e ele poderia contornar suas cabeceiras, um esquilo poderia viajar assim por toda a largura deste território.
Ainda não tivemos uma descrição adequada de uma floresta primitiva de pinheiros. Notei que, num atlas físico publicado recentemente em Massachusetts e usado em nossas escolas, a “região arborizada” da América do Norte está limitada quase exclusivamente aos vales do Ohio e de alguns dos Grandes Lagos, e as grandes florestas de pinheiros do globo não estão representadas. Em nossa região, por exemplo, New Brunswick e Maine aparecem tão nus quanto a Groenlândia. Pode ser que as crianças de Greenville, ao pé do lago Moosehead, que certamente não são do tipo que se assusta com uma coruja, sejam remetidas ao vale do Ohio para formar uma ideia de floresta; mas não saberiam o que fazer ali com seus alces, ursos, caribus, castores etc. Deixaremos a um inglês a tarefa de nos informar que “na América do Norte, tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá, encontram-se as florestas de pinheiros mais extensas do mundo”? A maior parte de New Brunswick, a metade setentrional do Maine e partes adjacentes do Canadá, sem falar do nordeste de Nova York e de outras regiões mais distantes, ainda estão cobertas por uma floresta de pinheiros quase ininterrupta.
Mas talvez o Maine em breve esteja onde Massachusetts está agora. Boa parte de seu território já é tão nua e banal quanto grande parte de nossa vizinhança, e suas aldeias em geral não são tão bem sombreadas quanto as nossas. Parecemos pensar que a terra deve passar pela provação de servir de pasto às ovelhas antes de se tornar habitável pelo homem. Considere-se Nahant, retiro de toda a sociedade elegante de Boston, península que vi apenas indistintamente no crepúsculo, quando passei por ela a vapor, e julguei que permanecesse inalterada desde o descobrimento. John Smith descreveu-a em 1614 como “os Mattahunts, duas ilhas aprazíveis de bosques, jardins e milharais”; e outros nos dizem que foi outrora bem arborizada e até forneceu madeira para construir os cais de Boston. Agora é difícil fazer uma árvore crescer ali, e o visitante vai embora com a visão das cercas feias do Sr. Tudor, de um rod de altura, destinadas a proteger alguns arbustos de pereira. E a que estamos chegando em nossos municípios de Middlesex? Uma casa municipal ou casa de reuniões calva e escancarada, e um poste da liberdade nu, tão desfolhado quanto infrutífero, pelo que posso ver. Daqui por diante, seremos obrigados a importar a madeira para este último, ou emendar os gravetos que tivermos. E nossas ideias de liberdade são igualmente mesquinhas. Até as fileiras de salgueiros podadas a cada três anos para combustível ou pólvora, e todo pinheiro e carvalho de tamanho aproveitável, ou qualquer outra árvore da floresta, derrubados no espaço da memória humana! Como se fosse permitido a especuladores individuais exportar as nuvens do céu, ou as estrelas do firmamento, uma a uma. Seremos reduzidos a roer a própria crosta da terra em busca de alimento.
Chegaram até a uma caça menor. Ultimamente, segundo ouvi, inventaram uma máquina para picar finamente os arbustos de mirtilo e assim convertê-los em combustível, arbustos que, apenas por seus frutos, valem muitas vezes mais que todas as pereiras do país. (Posso dar-lhe uma lista das três melhores espécies, caso a deseje.) Nesse ritmo, todos seremos obrigados ao menos a deixar a barba crescer, nem que seja apenas para esconder a nudez da terra e produzir uma aparência silvestre. O agricultor às vezes fala em “limpar o mato”, simplesmente como se o chão nu parecesse melhor que o chão vestido, que aquele que usa suas vestes naturais, como se as sebes silvestres, que talvez sejam mais valiosas para seus filhos do que todo o resto de sua fazenda, fossem sujeira. Conheço um homem que merece ser chamado de Odiador de Árvores e talvez legar esse nome como novo patronímico a seus filhos. Seria de pensar que um oráculo o advertira de que seria morto pela queda de uma árvore, e que por isso ele estava resolvido a antecipar-se a todas elas. Os jornalistas julgam que jamais podem dizer demais em favor de tais “melhoramentos” agrícolas; é um tema seguro, como a piedade; mas, quanto à beleza de uma dessas “fazendas-modelo”, eu preferiria igualmente ver uma batedeira patenteada e um homem fazendo-a girar. São, em geral, apenas lugares onde alguém está ganhando dinheiro, talvez falsificando-o. A virtude de fazer crescer duas folhas de capim onde antes crescia apenas uma está longe de começar a ser sobre-humana.
Ainda assim, foi um alívio voltar à nossa paisagem suave, mas ainda variada. Para residência permanente, pareceu-me não haver comparação possível entre esta e a região selvagem, por mais necessária que esta última seja como recurso e pano de fundo, matéria-prima de toda a nossa civilização. A região selvagem é simples, quase até a esterilidade. É a região parcialmente cultivada que sobretudo inspirou, e continuará a inspirar, as melodias dos poetas, das quais se compõe a massa de qualquer literatura. Nossos bosques são silvestres, e seus habitantes, homens dos bosques e rústicos; aquela é selvaggia, e os habitantes são salvages. Um homem civilizado, usando a palavra no sentido comum, com suas ideias e associações, há de por fim definhar ali, como uma planta cultivada que enlaça suas fibras em torno de uma massa crua e não dissolvida de turfa. No extremo norte, os viajantes são obrigados a dançar e encenar peças para se ocupar. Talvez nossos próprios bosques e campos, nos municípios mais arborizados, onde não precisamos brigar por causa dos mirtilos, com os pântanos primitivos espalhados aqui e ali em seu meio, mas sem predominar sobre eles, sejam a perfeição dos parques e bosques, jardins, caramanchões, caminhos, perspectivas e paisagens. São a consequência natural da arte e do refinamento que possuímos como povo, o terreno comum de cada aldeia, seu verdadeiro paraíso, em comparação com o qual todos os parques e jardins laboriosamente construídos pela riqueza e pela vontade são imitações mesquinhas. Ou, melhor dizendo, assim eram nossos bosques vinte anos atrás. O caminho do poeta, em geral, não é o do madeireiro, mas o do homem dos bosques. O madeireiro e o pioneiro o precederam, como João Batista; comeram o mel silvestre, talvez, mas também os gafanhotos; baniram a madeira em decomposição e os musgos esponjosos que dela se alimentam, construíram lareiras e humanizaram a Natureza para ele.
Mas há espíritos de cultura ainda mais liberal, para os quais nenhuma simplicidade é estéril. Há não apenas pinheiros majestosos, mas flores frágeis, como as orquídeas, comumente descritas como delicadas demais para o cultivo, que extraem seu alimento da mais crua massa de turfa. Elas nos lembram que, não apenas pela força, mas pela beleza, o poeta deve, de tempos em tempos, percorrer o caminho do madeireiro e a trilha do indígena, para beber em alguma fonte nova e mais revigorante das Musas, bem no interior da região selvagem.
Antigamente, os reis da Inglaterra tinham suas florestas “para guardar a caça do rei”, por esporte ou alimento, às vezes destruindo aldeias para criá-las ou ampliá-las; e penso que eram movidos por um instinto verdadeiro. Por que nós, que renunciamos à autoridade do rei, não deveríamos ter nossas reservas nacionais, nas quais nenhuma aldeia precisasse ser destruída, onde o urso e o puma, e até alguns membros da raça dos caçadores, ainda pudessem existir, em vez de ser “civilizados para fora da face da terra”, nossas florestas, não apenas para guardar a caça do rei, mas também para guardar e preservar o próprio rei, o senhor da criação, não por esporte ocioso ou alimento, mas por inspiração e nossa verdadeira recreação? Ou iremos nós, como os vilões, arrancá-las todas pela raiz, caçando furtivamente em nossos próprios domínios nacionais?