O Allegash e o Braço Leste Os Bosques do Maine · Capítulo 4 de 7
Obra Menu

O Allegash e o Braço Leste

O ALLEGASH E O BRAÇO LESTE

Parti para minha terceira excursão aos bosques do Maine na segunda-feira, 20 de julho de 1857, com um companheiro, chegando a Bangor ao meio-dia do dia seguinte. Mal havíamos deixado o vapor quando cruzamos com Molly Molasses na rua. Enquanto ela viver, pode-se considerar que os Penobscot ainda existem como tribo. Na manhã seguinte, um parente meu, bastante familiarizado com os indígenas Penobscot e que fora meu companheiro em minhas duas excursões anteriores aos bosques do Maine, levou-me em sua carroça até Oldtown, para me ajudar a conseguir um indígena para esta expedição. Fomos transportados até a Ilha Indígena num batel. O filho do barqueiro havia conseguido a chave dele, mas o pai, que era ferreiro, depois de alguma hesitação cortou a corrente contra a pedra com um cinzel a frio. Disse-me que os indígenas tinham partido quase todos para o litoral e para Massachusetts, em parte por causa da varíola, que muito temem, ter surgido em Oldtown, e que era duvidoso encontrarmos em casa algum que nos servisse. O velho chefe Neptune, contudo, ainda estava lá. O primeiro homem que vimos na ilha foi um indígena chamado Joseph Polis, a quem meu parente conhecia desde menino e a quem agora se dirigia familiarmente como “Joe”. Ele estava curtindo uma pele de veado no quintal. A pele estava estendida sobre um tronco inclinado, e ele a raspava com um bastão segurado pelas duas mãos. Era de constituição robusta, talvez um pouco acima da estatura mediana, com rosto largo e, segundo diziam outros, traços e tez indígenas perfeitos. Sua casa era branca, de dois andares, com venezianas, a de melhor aparência que notei ali, e tão boa quanto uma casa comum numa rua de aldeia da Nova Inglaterra. Era cercada por uma horta e árvores frutíferas, com pés isolados de milho esparsos entre os feijoeiros. Perguntamos-lhe se conhecia algum bom indígena que quisesse entrar nos bosques conosco, isto é, ir aos lagos Allegash por Moosehead e voltar pelo Braço Leste do Penobscot, ou variar essa rota como bem entendêssemos. Ao que respondeu, daquela estranha distância em que o indígena sempre habita para o homem branco: “Eu mesmo gostar de ir; eu querer pegar alce”; e continuou raspando a pele. Seu irmão estivera nos bosques com meu parente apenas um ou dois anos antes, e o indígena então perguntou o que este havia feito com ele, já que não voltara, pois desde então não o vira nem tivera notícias suas.

Por fim, voltamos novamente ao assunto mais interessante. O barqueiro nos dissera que todos os melhores indígenas haviam partido, exceto Polis, que era um dos aristocratas. Ele certamente seria o melhor homem que poderíamos ter, mas, caso fosse, pediria um preço alto; por isso não esperávamos consegui-lo. A princípio, Polis pediu dois dólares por dia, mas concordou em ir por um dólar e meio, mais cinquenta centavos por semana pela canoa. Viria a Bangor com a canoa no trem das sete daquela noite, podíamos contar com ele. Consideramo-nos afortunados por assegurar os serviços daquele homem, conhecido por ser especialmente firme e digno de confiança.

Passei a tarde com meu companheiro, que permanecera em Bangor, preparando-nos para a expedição, comprando provisões, biscoito duro, carne de porco, café, açúcar etc., e algumas roupas de borracha.

A princípio, havíamos pensado em explorar o St. John desde a nascente até a foz, ou então subir o Penobscot pelo Braço Leste até os lagos do St. John e voltar por Chesuncook e Moosehead. Por fim, havíamos nos inclinado para a última rota, apenas invertendo-lhe a ordem, indo por Moosehead e voltando pelo Penobscot; de outro modo, seria todo o trajeto contra a corrente e levaria o dobro do tempo.

Ao anoitecer, o indígena chegou de trem, e eu fui à frente enquanto ele me seguia por três quartos de milha até a casa de meu amigo, com a canoa sobre a cabeça. Eu mesmo não conhecia a rota exata, mas me orientava pela configuração do terreno, como faço em Boston, e tentei entabular conversa com ele; porém, como ofegava sob o peso da canoa, sem dispor do equipamento usual para carregá-la, e, acima de tudo, como era um indígena, eu bem poderia ter passado o tempo batendo no fundo de sua casca de bétula. Em resposta às diversas observações que fiz para quebrar o gelo, ele apenas resmungou vagamente uma ou duas vezes debaixo da canoa, de modo que eu soubesse que ainda estava ali.

Bem cedo na manhã seguinte, 23 de julho, a diligência veio nos buscar, depois de o indígena tomar o café da manhã conosco e já ter acomodado a bagagem na canoa para ver como ficaria. Meu companheiro e eu tínhamos, cada um, uma grande mochila cheia até não caber mais nada, e levávamos dois grandes sacos de borracha que continham nossas provisões e utensílios. Quanto ao indígena, toda a bagagem que possuía, além do machado e da espingarda, era um cobertor, que trazia solto na mão. Contudo, abastecera-se de tabaco e de um cachimbo novo para a excursão. A canoa foi firmemente amarrada na diagonal sobre o teto da diligência, com pedaços de tapete enfiados sob a borda para impedir que se desgastasse pelo atrito. O prestativo cocheiro parecia tão acostumado a transportar canoas dessa maneira quanto caixas de chapéu.

No Bangor House, recolhemos quatro homens que partiam numa excursão de caça, um deles na função de cozinheiro. Tinham um cão, um vira-lata tigrado de porte médio, que corria ao lado da diligência, enquanto o dono punha a cabeça para fora e assobiava de tempos em tempos; mas, depois de percorrermos cerca de três milhas, notou-se de repente que o cão desaparecera, e dois integrantes do grupo voltaram para procurá-lo, enquanto a diligência, cheia de passageiros, esperava. Sugeri que ele havia retomado o caminho para o Bangor House. Por fim, um dos homens voltou, enquanto o outro prosseguia. Todo aquele grupo de caçadores declarou a intenção de permanecer ali até que o cão fosse encontrado; mas o muito solícito cocheiro estava disposto a esperar mais um pouco. Evidentemente, não queria perder tantos passageiros, que no dia seguinte tomariam um transporte particular ou talvez a outra linha de diligências. Era assim que avançávamos, tendo de cumprir naquele dia uma viagem de mais de sessenta milhas, enquanto uma tempestade de chuva apenas começava. Discutimos cães e seus instintos até esgotar o assunto, enquanto esperávamos ali, e a paisagem dos arredores de Bangor ainda está nitidamente gravada em minha memória. Depois de meia hora inteira, o homem voltou trazendo o cão por uma corda. Alcançara-o justamente quando ele entrava no Bangor House. O animal foi então amarrado sobre o teto da diligência, mas, como estava molhado e com frio, várias vezes ao longo da viagem saltou dali, e eu o vi pendurado pelo pescoço. Contavam com esse cão para deter ursos. Ele já havia detido um em algum lugar de New Hampshire, e posso testemunhar que deteve uma diligência no Maine. É provável que esse grupo de quatro nada tenha pago pela viagem do cão, nem por sua corrida, ao passo que nosso grupo de três pagou dois dólares, e nos cobraram quatro, pela leve canoa que permanecia imóvel no teto.

Logo começou a chover, e o tempo ficou cada vez mais tempestuoso à medida que o dia avançava. Era a terceira vez que eu percorria essa rota, e em todas elas choveu sem parar o dia inteiro. Por isso, vimos muito pouco da região. A diligência permaneceu lotada durante todo o trajeto, e dediquei mais atenção aos meus companheiros de viagem. Quem olhasse para dentro daquela carruagem pensaria que estávamos preparados para atravessar sob fogo cerrado uma quadrilha de salteadores, pois havia quatro ou cinco espingardas no banco dianteiro, incluindo a do indígena, e uma ou duas no traseiro, cada homem segurando sua querida nos braços. Um deles tinha uma espingarda que disparava doze balas por libra. Parecia que esse grupo de caçadores seguiria por nossa rota, mas muito além: desceria o Allegash e o St. John, depois subiria algum outro curso d’água e atravessaria até o Restigouche e a Baía de Chaleur, permanecendo fora por seis semanas. Tinham canoas, machados e suprimentos depositados em pontos mais adiante da rota. Levavam farinha e fariam pão fresco todos os dias. O líder era um homem bonito, de cerca de trinta anos, boa estatura, embora aparentemente não robusto, de trato cortês e vestuário impecável; alguém que se esperaria encontrar na Broadway. Na verdade, no sentido popular da palavra, era o homem de aparência mais “distinta” na diligência, ou entre todos os que vimos pela estrada. Tinha tez clara e branca, como se sempre houvesse vivido à sombra, rosto inteligente e modos tranquilos, e poderia passar por um estudante de teologia que conhecera algo do mundo. Surpreendeu-me descobrir, ao conversar com ele durante a viagem daquele dia, que fosse caçador, pois sua espingarda pouco aparecia, e mais ainda descobrir que era provavelmente o principal caçador branco do Maine e conhecido por toda a estrada. Também caçara em alguns dos Estados mais ao sul e a oeste. Mais tarde, ouvi falarem dele como alguém capaz de suportar grande exposição às intempéries e fadiga sem demonstrar seus efeitos; e não apenas sabia usar espingardas, como também fabricá-las, pois era armeiro. Na primavera, salvara do afogamento um cocheiro de diligência e dois passageiros, nas águas represadas do Piscataquis, em Foxcroft, nessa mesma estrada, nadando até a margem em água gélida, construindo uma jangada e retirando-os dali, embora os cavalos tivessem se afogado, com grande risco para si próprio, enquanto o único outro homem que sabia nadar se retirara para a casa mais próxima a fim de não congelar. Agora, podia viajar de graça por essa estrada. Conhecia nosso homem e observou que tínhamos ali um bom indígena, um bom caçador, acrescentando que diziam possuir ele uma fortuna de 6.000 dólares. O indígena também o conhecia e me disse: “o grande caçador”.

Este me contou que praticava uma espécie de caça de tocaia, nova ou incomum naquelas partes; que os caribus, por exemplo, pastavam dando voltas ao redor do mesmo prado, retornando pela mesma trilha, e ele ficava à espera deles.

O indígena permanecia sentado no banco dianteiro, sem dizer nada a ninguém, com expressão impassível, como se mal estivesse desperto para o que acontecia. Mais uma vez, impressionou-me a peculiar vagueza de suas respostas quando lhe dirigiam a palavra na diligência ou nas tavernas. Na verdade, nunca dizia coisa alguma nessas ocasiões. Era apenas provocado, como um animal selvagem, e murmurava passivamente alguma resposta insignificante. Sua resposta, nesses casos, jamais era consequência de uma energia mental positiva, mas vaga como uma baforada de fumaça, sem sugerir qualquer responsabilidade; e, ao examiná-la, descobria-se que nada se obtivera dele. Isso substituía a conversa convencional e a esperteza do homem branco, e era igualmente proveitoso. A maioria não consegue extrair do indígena mais do que isso e, em consequência, declara-o impassível. Surpreendeu-me ver o modo tolo e impertinente com que um homem do Maine, passageiro, se dirigia a ele, como se falasse com uma criança, o que apenas fez seus olhos cintilarem um pouco. Numa taverna, um canadense embriagado perguntou-lhe, em tom arrastado, se fumava, ao que ele respondeu com um “Sim” indefinido. “Você não me empresta seu cachimbo por um instante?”, perguntou o outro. Olhando para além da cabeça do homem, com o rosto singularmente alheio a todos os interesses ao redor, ele respondeu: “Eu não ter cachimbo”; no entanto, eu o vira pôr no bolso naquela manhã um cachimbo novo, com uma provisão de tabaco.

Nossa pequena canoa, tão bem-feita e resistente, recebeu comentários favoráveis de todos os sabichões entre os ociosos das tavernas ao longo da estrada. À beira do caminho, bem junto às rodas, notei uma esplêndida e grande orquídea franjada púrpura, com uma espiga tão grande quanto a de um epilóbio, e de bom grado teria feito a diligência parar para colhê-la; mas, como nunca se soubera que ela detivesse um urso, como o vira-lata sobre a diligência, o cocheiro provavelmente consideraria isso perda de tempo.

Quando chegamos ao lago, por volta das oito e meia da noite, ainda chovia sem parar, e mais forte do que antes; e, naquela atmosfera fresca e fria, as pererecas piavam e os sapos ressoavam por toda a volta do lago, como na primavera entre nós. Era como se a estação tivesse retrocedido dois ou três meses, ou como se eu houvesse chegado à morada da primavera perpétua.

Esperávamos entrar no lago imediatamente e, depois de remar duas ou três milhas, acampar em uma de suas ilhas; mas, por causa da chuva contínua e cada vez mais forte, decidimos ir a uma das tavernas para passar a noite, embora, de minha parte, eu teria preferido acampar ao relento.

Por volta das quatro horas da manhã seguinte (24 de julho), embora o céu estivesse bastante nublado, acompanhados pelo estalajadeiro até a beira da água, lançamos ao lago Moosehead nossa canoa, de cima de uma rocha, à luz do crepúsculo. Quando eu estivera ali quatro anos antes, tínhamos uma canoa um tanto pequena para três pessoas, e eu pensara que desta vez conseguiria uma maior, mas a atual era ainda menor que aquela. Tinha 18¼ pés de comprimento por 2 pés e 6½ polegadas de largura no meio, e um pé de profundidade interna, como verifiquei medindo-a, e calculei que pesasse perto de oitenta libras. O indígena a fizera ele próprio pouco tempo antes, e sua pequenez era em parte compensada por ser nova, bem como estanque e sólida, pois era feita de casca e nervuras muito grossas. Nossa bagagem pesava cerca de 166 libras, de modo que a canoa carregava ao todo umas 600 libras, ou o peso de quatro homens. A parte principal da bagagem foi, como de costume, colocada no meio da parte mais larga, enquanto nós nos acomodávamos nas frestas e reentrâncias que restavam à frente e atrás dela, onde não havia espaço para estender as pernas, sendo os objetos soltos enfiados nas extremidades. A canoa ficou assim tão apinhada quanto uma cesta de mercado, e talvez pudesse ter virado sem derramar nenhum de seus conteúdos. O indígena sentava-se numa travessa na popa, mas nós ficávamos estendidos no fundo, com uma tala ou lasca atrás das costas, para protegê-las da travessa, e um de nós em geral remava com ele. Previu que não precisaríamos de vara até alcançarmos o rio Umbazookskus, pois até lá seria água parada ou corrente a favor, e estava preparado para fazer uma vela com seu cobertor na proa, caso o vento fosse favorável; mas nunca a usamos.

Chovera mais ou menos nos quatro dias anteriores, de modo que julgamos poder contar com algum tempo bom. O vento era de início sudoeste.

Remando ao longo do lado leste do lago, na quietude da manhã, logo vimos alguns mergansos, que o indígena chamava de Shecorways, e alguns maçaricos, Naramekechus, na margem rochosa; vimos e ouvimos também mobelhas-grandes, Medawisla, o que, segundo ele, era sinal de vento. Era estimulante ouvir o mergulho regular dos remos, como se fossem nossas nadadeiras ou pés palmados, e perceber que enfim estávamos realmente embarcados. Nós, que nos sentíramos estranhos como passageiros de diligência e hóspedes de estalagem, fomos de súbito naturalizados ali e agraciados com a liberdade dos lagos e dos bosques. Depois de passarmos pelas pequenas ilhas rochosas, a duas ou três milhas da extremidade inferior do lago, fizemos uma breve consulta sobre nosso rumo e nos inclinamos para a margem oeste, a fim de aproveitar seu abrigo; pois, do contrário, se o vento se levantasse, seria impossível alcançarmos o monte Kineo, que fica aproximadamente no meio do lago, do lado leste, mas em seu trecho mais estreito, onde provavelmente poderíamos tornar a cruzá-lo se seguíssemos pela margem oeste. O vento é o principal obstáculo à travessia dos lagos, especialmente numa canoa tão pequena. O indígena observou várias vezes que não gostava de cruzar os lagos “em canoinha”, mas, ainda assim, “como nós dizia, para ele não fazia diferença”. Às vezes seguia em linha reta pelo meio do lago, entre as ilhas Sugar e Deer, quando não havia vento.

Medido no mapa, o lago Moosehead tem doze milhas de largura em seu ponto mais largo e trinta milhas de comprimento em linha reta, embora seja mais longo acompanhando-se seu contorno. O capitão do vapor disse que tinha trinta e oito milhas, conforme o percorria. Nós provavelmente percorreríamos umas quarenta. O indígena disse que era chamado “Mspame, porque água grande”. A montanha Squaw erguia-se escura à nossa esquerda, perto da saída do Kennebec, e, a leste, aquela que o indígena chamava de montanha da baía Spencer; e já víamos à nossa frente, ao norte, o monte Kineo.

Remando perto da margem, ouvíamos com frequência o pe-pe do papa-moscas-de-lados-oliváceos, além do piuí-da-floresta e do martim-pescador, tão cedo pela manhã. Como o indígena nos lembrasse de que não podia trabalhar sem comer, paramos para o café da manhã na margem continental, a sudoeste da ilha Deer, num ponto onde crescia em abundância a Mimulus ringens. Tiramos nossas sacolas, e o indígena acendeu uma fogueira debaixo de um enorme tronco descorado, usando casca de pinheiro-branco tirada de um toco, embora dissesse que a de tsuga era melhor, e fazendo a acendalha com casca de bétula-de-canoa. Nossa mesa era um grande pedaço de casca de bétula recém-descascada, disposto com o avesso para cima, e nosso café da manhã consistiu em biscoito duro, porco frito e café forte, bem adoçado, no qual não sentimos falta do leite.

Enquanto preparávamos o café da manhã, uma ninhada de doze patos-negros, já meio crescidos, passou remando a três ou quatro rods de nós, sem o menor alarme; e ficaram por ali tanto tempo quanto nós, ora amontoados bem juntos, dentro de um círculo de dezoito polegadas de diâmetro, ora afastando-se numa longa fila, de modo muito gracioso. Ainda assim, guardavam certa proporção com o grande lago Moosehead, sobre cujo seio flutuavam, e senti como se estivessem sob sua proteção.

Olhando para o norte daquele ponto, parecia que entrávamos numa grande baía, e não sabíamos se seríamos obrigados a desviar de nosso rumo e passar por fora de uma ponta que víamos, ou se encontraríamos uma passagem entre ela e o continente. Consultei meu mapa e usei a luneta, e o indígena fez o mesmo, mas não conseguimos localizar exatamente nossa posição no mapa, nem detectar qualquer abertura na margem. Quando perguntei ao indígena qual era o caminho, respondeu: “Não sei”, o que me pareceu notável, pois dissera conhecer bem o lago; mas ficou claro que nunca subira por este lado. Fazia um tempo enevoado de dias caniculares, e já havíamos penetrado numa baía menor da mesma espécie e rompido seu fundo, embora tivéssemos sido obrigados a passar por cima de uma pequena barra, entre uma ilha e a margem, onde havia largura e profundidade apenas suficientes para fazer a canoa flutuar, e o indígena observara: “Muito fácil fazer ponte aqui”; agora, porém, parecia que, se prosseguíssemos, ficaríamos de fato encurralados na baía. Pouco depois, contudo, embora não tivéssemos saído do lugar, a névoa se ergueu um pouco e revelou uma abertura na margem ao norte, mostrando que a ponta era parte da ilha Deer e que nosso rumo passava a oeste dela. Onde parecera haver uma margem contínua, mesmo vista pela luneta, via-se agora a olho nu que uma parte estava muito mais distante que a outra, que se sobrepunha a ela, apenas pela maior espessura da névoa que ainda repousava sobre a primeira, enquanto a parte mais próxima, ou insular, estava comparativamente limpa e verde. A linha de separação era muito nítida, e o indígena observou imediatamente: “Acho que você e eu vai por ali, acho que tem espaço para minha canoa ali.” Essa era sua expressão habitual em vez de dizer “nós”. Nunca se dirigia a nós pelos nomes, embora tivesse curiosidade de saber como eram escritos e o que significavam, ao passo que nós o chamávamos de Polis. Já adivinhara com grande exatidão nossas idades e disse ter quarenta e oito anos.

[Ilustração: Montanha Squaw, lago Moosehead]

Depois do café da manhã, despejei no lago a gordura de porco derretida que sobrara, formando o que os marinheiros chamam de “mancha lisa”, e fiquei observando até onde ela se espalhava e alisava a superfície agitada. O indígena olhou por um instante e disse: “Isso faz remada difícil por ali; segura canoa. Assim dizia antigamente.”

Recarregamos depressa, deixando a louça solta na proa, para que estivesse à mão quando necessária, e partimos de novo. A margem oeste, junto à qual remávamos, elevava-se suavemente até uma altura considerável e era por toda parte densamente coberta pela floresta, na qual havia grande proporção de árvores de madeira dura, que avivavam e quebravam a monotonia dos abetos e píceas.

O indígena disse que o líquen usnea que víamos pendendo das árvores se chamava chorchorque. Perguntamos-lhe os nomes de vários pássaros pequenos que ouvimos naquela manhã. O sabiá-das-florestas, bastante comum, cujo canto ele imitou, chamava-se, segundo ele, Adelungquamooktum; mas às vezes não sabia dizer o nome de algum pássaro pequeno que eu ouvia e conhecia, e então dizia: “Eu digo todos os pássaros daqui, deste país; não sei dizer barulhinho, mas eu vê ele, aí posso dizer.”

Observei que gostaria de ir à escola dele para aprender sua língua, vivendo nesse meio-tempo na ilha dos indígenas; isso não poderia ser feito? “Ah, sim”, respondeu, “muitos faz assim.” Perguntei quanto tempo achava que levaria. Disse uma semana. Eu lhe disse que, nessa viagem, contaria a ele tudo o que sabia, e ele me contaria tudo o que sabia, com o que concordou prontamente.

Os pássaros cantavam quase como em nossos bosques, a juruviara, a mariquita-de-cauda-vermelha, o sabiá-canela, o piuí-da-floresta etc., mas não vimos nenhum azulão-oriental em toda a viagem, e várias pessoas em Bangor me disseram que não havia ali esse pássaro. O monte Kineo, que em geral permanecia visível, embora ocasionalmente oculto por ilhas ou pelo continente à frente, tinha uma faixa horizontal de nuvens escondendo-lhe o cume, e todos os cumes das montanhas em torno do lago estavam cortados na mesma altura. Patos de várias espécies, mergansos, patos-carolinos etc., eram bastante comuns e corriam sobre a água à nossa frente tão depressa quanto um cavalo trota. Assim, logo desapareciam de vista.

O indígena perguntou o significado de reality, tanto quanto pude entender a palavra que, segundo ele, um de nós usara; perguntou também o de “interrent”, isto é, intelligent. Observei que raramente conseguia pronunciar a letra r, usando l em seu lugar, assim como às vezes r no lugar de l; dizia load em vez de road, pickelel em vez de pickerel, ilha Soogle em vez de ilha Sugar, lock em vez de rock etc. Ainda assim, repetindo depois de mim, fez vibrar muito bem o r.

Em geral acrescentava a sílaba um às palavras sempre que podia, como em paddlum etc. Certa vez ouvi um chippewa fazer uma conferência e levar involuntariamente o público ao riso por acrescentar m à palavra too, palavra que inseria a toda hora e sem necessidade, acentuando e prolongando esse som sonoramente em m-ah, como se fosse necessário introduzir um pouco de sua língua vernácula para dar descanso aos órgãos da fala, uma compensação por torcer as mandíbulas e enfiar a língua em todos os cantos da boca, como se queixava ser obrigado a fazer ao falar inglês. Havia tanto do sotaque indígena ressoando em seu inglês, tanto daquele “sabor de arco e flecha”, como diz meu vizinho, e não tenho dúvida de que essa palavra lhe parecia a mais bem pronunciada. Era um som selvagem e revigorante, como o do vento entre os pinheiros ou o ribombo da arrebentação na praia.

Perguntei-lhe o significado da palavra Musketicook, nome indígena do rio Concord. Ele a pronunciou Muskéeticook, enfatizando a segunda sílaba com um peculiar som gutural, e disse que significava “água parada”, o que de fato é, e nessa definição concordava exatamente com o indígena de St. Francis com quem conversei em 1853.

Numa ponta do continente, algumas milhas a sudoeste da ilha Sand-bar, onde desembarcamos para esticar as pernas e observar a vegetação, depois de avançar alguns passos para o interior descobri um fogo ainda brilhando sob as cinzas, onde alguém tomara o café da manhã, e uma cama de ramos preparada para a noite seguinte. Assim, eu sabia não apenas que haviam acabado de partir, mas também que pretendiam voltar, e, pela largura da cama, que havia mais de uma pessoa no grupo. Seria possível passar a menos de seis pés desses sinais sem vê-los. Ali cresciam a aveleira-de-bico, a única aveleira que vi nessa viagem, a diervilla, a arruda de sete pés de altura, muito abundante em todas as margens dos lagos e rios, e a Cornus stolonifera, ou corniso-vermelho, cuja casca, segundo o indígena, era boa para fumar e se chamava maquoxigill, “tabaco antes de gente branca vir para este país, tabaco indígena”.

O indígena era sempre muito cuidadoso ao se aproximar da margem, para não danificar a canoa nas pedras, deixando-a girar devagar de lado, e era ainda mais rigoroso para que não entrássemos nela enquanto estivesse em terra, nem antes de flutuar livremente, e então pisássemos com leveza, para não abrir suas emendas nem fazer um buraco no fundo. Disse que nos avisaria quando saltar.

Pouco depois de deixarmos esse ponto, passamos pelo Kennebec, ou desaguadouro do lago, e ouvimos as quedas junto à barragem dali, pois até o lago Moosehead é represado. Depois de passarmos pela ilha Deer, vimos o pequeno vapor vindo de Greenville, bem a leste, no meio do lago, e ele parecia quase imóvel. Às vezes mal conseguíamos distingui-lo de uma ilha que tivesse algumas árvores. Ali ficamos expostos ao vento que atravessava toda a largura do lago e corremos algum risco de sermos inundados. Enquanto eu mantinha os olhos fixos no ponto onde um peixe grande saltara, embarcamos um ou dois galões de água, que me encheram o colo; mas logo alcançamos a margem e transportamos a canoa por cima da barra, na ilha Sand-bar, que tinha apenas alguns pés de largura, poupando assim uma distância considerável. Um de nós desembarcou primeiro num lugar mais abrigado e, dando a volta, segurou a canoa pela proa, para impedir que se danificasse contra a margem.

Tornamos a atravessar uma baía larga, diante da foz do rio Moose, antes de alcançarmos o estreito junto ao monte Kineo, fazendo o que os voyageurs chamam de traverse, e encontramos a água bastante revolta. Um vento muito leve nesses lagos amplos levanta um mar capaz de inundar uma canoa. Vista da margem, a superfície pode parecer muito pouco agitada, quase lisa, a uma milha de distância, ou, quando se veem algumas cristas brancas, elas parecem estar quase no mesmo nível que o restante do lago; mas, ao chegar tão longe, pode-se encontrar um mar bem encapelado, e em pouco tempo, antes que se pense nisso, uma onda subirá suavemente pela lateral da canoa e lhe encherá o colo, como um monstro que deliberadamente o cobre com seu lodo antes de engoli-lo, ou atingirá a canoa com violência e rebentará para dentro dela. O mesmo pode acontecer quando o vento se levanta de repente, embora poucos minutos antes tudo ali estivesse perfeitamente calmo e liso; de modo que nada pode salvá-lo, a menos que consiga nadar até a margem, pois é impossível entrar novamente numa canoa depois que ela vira. Como se fica sentado rente ao fundo, ainda que o perigo não seja iminente, um pouco de água já causa grande incômodo, sem falar em molhar as provisões. Raramente atravessávamos diretamente até mesmo uma baía, de ponta a ponta, quando havia vento, mas fazíamos uma ligeira curva que acompanhava em alguma medida a margem, para que pudéssemos alcançá-la mais depressa caso o vento aumentasse.

Quando o vento vem de popa e não é forte demais, o indígena faz de seu cobertor uma vela de espicha. Assim, desliza com facilidade por toda a extensão desse lago num só dia.

O indígena remava de um lado, e um de nós do outro, para manter a canoa firme, e, quando queria trocar de mão, dizia: “Do outro lado.” Em resposta às nossas perguntas, afirmou que nunca virara uma canoa por si mesmo, embora outros talvez a tivessem virado com ele dentro.

Pensem em nossa canoinha, casca de ovo, balançando através daquele grande lago, mero ponto negro para a águia que pairava acima dela!

Meu companheiro ia pescando trutas de corrico enquanto remávamos, mas, tendo o indígena advertido que um peixe grande poderia nos virar, pois ali existem alguns muito grandes, ele concordou em passar depressa a linha para o guia, na popa, caso algum mordesse. Além de trutas, ouvi dizer que nesse lago havia cusk, peixe-branco etc.

Enquanto atravessávamos essa baía, com o monte Kineo erguendo-se escuro diante de nós, a duas ou três milhas, o indígena repetiu a tradição segundo a qual esse monte fora antigamente uma fêmea de alce, e contou como um poderoso caçador indígena, cujo nome esqueci, conseguiu matar com grande dificuldade essa rainha do povo dos alces, enquanto seu filhote foi morto em algum lugar entre as ilhas da baía de Penobscot; e, a seus olhos, a montanha ainda conservava a forma do alce reclinado, apresentando seu lado escarpado o contorno da cabeça dela. Contou isso com certa extensão, embora a história não desse para muito, e com aparente boa-fé, e perguntou-nos como supúnhamos que o caçador teria conseguido matar um alce tão poderoso, como nós o faríamos. Sugeriu-se então um navio de guerra que disparasse bordadas contra ela etc. Um indígena conta uma história dessas como se julgasse que ela merecesse muitas palavras, só que não dispõe delas para dizê-las, e por isso compensa a deficiência com um tom arrastado, prolixidade e um assombro mudo que espera tornar contagioso.

Aproximamo-nos novamente da terra por águas bastante revoltas e então rumamos diretamente através do lago, em sua parte mais estreita, para o lado leste, ficando logo parcialmente a sotavento da montanha, cerca de uma milha ao norte da Kineo House, depois de remarmos umas vinte milhas. Era então por volta do meio-dia.

Planejávamos parar ali naquela tarde e naquela noite, e passamos meia hora procurando ao longo da margem, em direção ao norte, um lugar adequado para acampar. Em certo ponto, tiramos em vão toda a bagagem, pois o terreno era pedregoso e irregular demais, e, enquanto nos ocupávamos dessa busca, travamos nosso primeiro conhecimento com a mosca-do-alce. Por fim, meia milha mais ao norte, entrando meia dúzia de rods no denso bosque de abetos e pinheiros do flanco da montanha, quase tão escuro quanto um porão, encontramos um lugar suficientemente desimpedido e plano para nos deitarmos, depois de cortarmos alguns arbustos. Precisávamos de um espaço de apenas sete pés por seis para nossa cama, ficando o fogo quatro ou cinco pés à frente, embora pouco importasse quão irregular fosse o chão da lareira; mas nem sempre era fácil encontrar isso naquelas matas. O indígena primeiro abriu com o machado um caminho até lá a partir da margem, e então carregamos para cima toda a bagagem, armamos a tenda e fizemos a cama, a fim de ficarmos preparados para o mau tempo que então nos ameaçava e para a noite. Ele reuniu uma grande braçada de ramos de abeto, quebrando-os, e disse que eram os melhores para nossa cama, em parte, pensei, porque eram os maiores e podiam ser recolhidos mais depressa. Chovera mais ou menos durante quatro ou cinco dias, e a madeira estava ainda mais úmida que de costume, mas ele conseguiu casca seca para o fogo na parte inferior de uma tsuga morta e inclinada, coisa que, segundo disse, sempre conseguia fazer.

Naquele meio-dia, sua mente estava ocupada com uma questão jurídica, e eu o encaminhei a meu companheiro, que era advogado. Ao que parecia, ele vinha comprando terras ultimamente, creio que cem acres, mas provavelmente havia um gravame sobre elas, pois outra pessoa alegava ter comprado o capim que nelas crescia para aquele ano. Ele queria saber a quem pertencia o capim, e lhe disseram que, se o outro homem pudesse provar que comprara o capim antes de ele, Polis, comprar a terra, o primeiro poderia levá-lo, soubesse ou não o segundo dessa compra. Ao que ele apenas respondeu: “Estranho!” Voltou várias vezes ao assunto, sentando-se de vez para tratá-lo, com as costas apoiadas numa árvore, como se pretendesse daí em diante nos confinar àquele tema; mas, como não avançava nada e, depois de cada explicação, chegava apenas ao ponto extremo de seu espanto diante das instituições dos homens brancos, deixamos o assunto morrer.

Disse que possuía cinquenta acres de capim, batatas etc. em algum lugar acima de Oldtown, além de uma área junto de sua casa; que contratava boa parte do trabalho, a capina etc., e preferia homens brancos a indígenas, porque “eles trabalham com constância e sabem como fazer”.

Depois do jantar, voltamos para o sul ao longo da margem, na canoa, devido à dificuldade de subir por cima das rochas e árvores caídas, e começamos a escalar a montanha pela borda do precipício. Mas, como uma pancada de chuva forte veio justamente então, o indígena se enfiou debaixo da canoa, enquanto nós, protegidos por nossos casacos de borracha, prosseguimos na coleta botânica. Assim, mandamo-lo de volta ao acampamento para se abrigar, combinando que viria nos buscar ali com a canoa ao cair da noite. Chovera um pouco de manhã, e confiávamos que aquela seria a pancada que limparia o tempo, como de fato foi; mas nossos pés e pernas ficaram completamente molhados pelos arbustos. Quando as nuvens começaram a se abrir um pouco, tivemos, enquanto subíamos, uma vista gloriosa e selvagem do vasto lago, com sua superfície cambiante e suas numerosas ilhas cobertas de floresta, estendendo-se para além de nossa visão tanto ao norte quanto ao sul, e da floresta sem limites ondulando para longe de suas margens em todas as direções, tão densamente cerrada quanto um campo de centeio e envolvendo, uma após outra, montanhas sem nome; mas, acima de tudo, olhando para oeste por cima de uma grande ilha, via-se uma parte muito distante do lago, embora então não suspeitássemos que fosse Moosehead, a princípio uma mera linha branca interrompida, vista através das copas das árvores da ilha, como montes de feno cobertos, mas alargando-se num lago quando chegamos mais alto. Além dele, vimos o que parece ser chamado de monte Bald no mapa, a umas vinte e cinco milhas de distância, perto das nascentes do Penobscot. Era um perfeito lago dos bosques. Mas aquilo foi apenas um clarão passageiro, pois a chuva ainda não terminara de todo.

Olhando para o sul, o céu estava completamente encoberto, as montanhas tinham as copas envoltas em nuvens, e o lago em geral apresentava um aspecto escuro e tempestuoso; mas, de sua superfície, logo ao norte da ilha Sugar, a seis ou oito milhas de distância, refletia-se para cima, até nós, através do ar enevoado, um vivo matiz azul vindo do céu distante e invisível de outra latitude, mais além. Provavelmente tinham então céu limpo em Greenville, na extremidade sul do lago. De pé numa montanha no meio de um lago, onde se procuraria o primeiro sinal da aproximação de bom tempo? Não no céu, ao que parece, mas no lago.

Tornamos a confundir uma pequena ilhota rochosa, vista através do drisk, com alguns troncos nus ou tocos mais altos sobre ela, com o vapor e suas chaminés; mas, como não mudara de posição depois de meia hora, desfizemos o engano. A tal ponto as obras do homem se assemelham às obras da natureza. Um alce poderia confundir um vapor com uma ilha flutuante e só se assustar ao ouvir sua baforada ou seu apito.

Se eu desejasse ver uma montanha ou outra paisagem sob os auspícios mais favoráveis, iria até ela durante o mau tempo, para estar ali quando o céu se abrisse; estamos então no estado de espírito mais apropriado, e a natureza se mostra mais fresca e inspiradora. Não há serenidade tão bela quanto aquela que acaba de se estabelecer num olho lacrimoso.

Jackson, em seu Relatório sobre a Geologia do Maine, de 1838, diz a respeito desta montanha: “A pedra córnea, que pode servir para pederneiras, ocorre em várias partes do Estado, onde rochas de trap atuaram sobre ardósia silicosa. A maior massa dessa pedra conhecida no mundo é o monte Kineo, no lago Moosehead, que parece ser inteiramente composto dela e se eleva setecentos pés acima do nível do lago. Vi essa variedade de pedra córnea em todas as partes da Nova Inglaterra, sob a forma de pontas de flecha indígenas, machados, cinzéis etc., provavelmente obtidos nessa montanha pelos habitantes aborígenes do país.” Eu mesmo encontrei centenas de pontas de flecha feitas do mesmo material. Em geral, ele tem cor de ardósia, com pintas brancas, tornando-se uniformemente branco onde exposto à luz e ao ar, e rompe-se com fratura concoidal, produzindo uma borda cortante irregular. Observei algumas cavidades concoidais com mais de um pé de diâmetro. Apanhei um fragmento pequeno e fino, de borda tão afiada que o usei como uma faca cega e, para ver o que conseguiria fazer, cortei de fato com ele um álamo de uma polegada de espessura, dobrando-o e fazendo muitos cortes, embora nesse meio-tempo eu tenha cortado bastante os dedos com o dorso da pedra.

[Ilustração: Lago Moosehead, visto do monte Kineo]

Do alto do precipício que forma os lados sul e leste dessa península montanhosa, e constitui sua característica mais notável, sendo descrito como tendo quinhentos ou seiscentos pés de altura, olhamos, e provavelmente poderíamos ter saltado, até a água, ou até as árvores aparentemente anãs do estreito istmo que a liga à terra firme. É um lugar perigoso para pôr à prova a firmeza dos nervos. Hodge diz que esses penhascos descem “perpendicularmente noventa pés” abaixo da superfície da água.

As plantas que mais atraíram nossa atenção nessa montanha foram a potentila-da-montanha (Potentilla tridentata), abundante e ainda em flor bem na base, junto à água, embora em nossa latitude costume restringir-se aos cumes das montanhas; campânulas muito belas pendendo sobre o precipício; uva-de-urso; o mirtilo-do-Canadá (Vaccinium Canadense), semelhante ao V. Pennsylvanicum, o mais precoce entre os nossos, mas de folhas inteiras e caule e folha aveludados (não o vi em Massachusetts); Diervilla trifida; Microstylis ophioglossoides, uma planta orquidácea nova para nós; azevinho-silvestre (Nemopanthes Canadensis); a grande orquídea-de-folhas-redondas (Platanthera orbiculata), havia pouco em flor; Spiranthes cernua, no topo; corniso-anão, tornando-se vermelho à medida que subíamos, verde na base da montanha, vermelho no topo; e a pequena samambaia Woodsia ilvensis, crescendo em tufos, agora em fruto. Também recebi desse lugar Liparis liliifolia, ou tway-blade. Tendo explorado as maravilhas da montanha, e estando o tempo agora inteiramente limpo, começamos a descida. Encontramos o indígena, bufando e ofegando, a cerca de um terço do caminho, mas pensando que devia estar perto do topo e dizendo que aquilo lhe tirava o fôlego. Pensei que a superstição tivesse algo que ver com seu cansaço. Talvez acreditasse estar subindo pelas costas de um alce tremendo. Disse que nunca havia subido o Kineo. Ao chegarmos à canoa, descobrimos que ele apanhara uma truta-do-lago de cerca de três libras, a uma profundidade de vinte e cinco ou trinta pés, enquanto estávamos na montanha.

Quando chegamos ao acampamento, a canoa foi retirada da água e virada, e pôs-se um tronco atravessado sobre ela para impedir que o vento a levasse. O indígena cortou alguns grandes troncos de madeira dura, úmidos e apodrecidos, para arderem em fogo lento e conservarem brasas durante a noite. A truta foi frita para o jantar. Nossa barraca era de tecido fino de algodão e bastante pequena, formando com o chão um prisma triangular fechado na extremidade traseira, com seis pés de comprimento, sete de largura e quatro de altura, de modo que mal conseguíamos ficar sentados no meio. Para armá-la, eram necessárias duas estacas bifurcadas, uma vara lisa para a cumeeira e uma dúzia ou mais de espeques. Protegia do orvalho e do vento, e de uma chuva comum, e servia bastante bem ao nosso propósito. Ficamos reclinados dentro dela até a hora de dormir, cada qual com sua bagagem junto à cabeça, ou então sentados ao redor do fogo, depois de pendurarmos nossas roupas molhadas numa vara diante das chamas para a noite.

Enquanto estávamos ali sentados, pouco antes de anoitecer, olhando através do bosque sombrio, o indígena ouviu um ruído que, segundo disse, era feito por uma cobra. A meu pedido, imitou-o, produzindo uma nota baixa e assobiada, pheet... pheet..., repetida duas ou três vezes, algo semelhante ao pio dos hilodes, mas não tão alto. Em resposta às minhas perguntas, disse que nunca as vira enquanto produziam o som, mas que, indo ao lugar, encontrava a cobra. Em outra ocasião, afirmou que isso era sinal de chuva. Quando escolhi aquele lugar para nosso acampamento, ele observou que havia cobras ali, pois as vira. “Mas elas não farão mal algum”, eu disse. “Oh, não”, respondeu, “como você diz; para mim não faz diferença.”

Ele se deitou do lado direito da barraca porque, segundo disse, era parcialmente surdo de um ouvido e queria ficar com o ouvido bom voltado para cima. Enquanto estávamos deitados, perguntou se eu já ouvira “indígena cantar”. Respondi que não muitas vezes e perguntei se não nos brindaria com uma canção. Ele concordou prontamente e, deitado de costas, com o cobertor enrolado ao redor do corpo, iniciou um canto lento, um tanto nasal, mas musical, em sua própria língua, que provavelmente fora ensinado a seu povo, muito tempo antes, pelos missionários católicos. Depois o traduziu para nós, frase por frase, querendo ver se conseguiríamos lembrá-lo. Revelou-se um exercício religioso ou hino muito simples, cujo refrão dizia que havia um só Deus, que governava o mundo inteiro. Isso era martelado (ou cantado) até ficar muito diluído, de modo que algumas estrofes quase não queriam dizer absolutamente nada, limitando-se a sustentar a ideia. Disse então que nos cantaria uma canção em latim; mas não detectamos latim algum, apenas uma ou duas palavras gregas; o resto talvez fosse latim com pronúncia indígena.

Seu canto transportou-me de volta ao período da descoberta da América, a San Salvador e aos incas, quando os europeus encontraram pela primeira vez a fé simples do indígena. Havia nela, de fato, uma bela simplicidade; nada de sombrio ou feroz, apenas o brando e infantil. Exprimiam-se sobretudo sentimentos de humildade e reverência.

Era num bosque denso e úmido de abetos e píceas que estávamos deitados, e, exceto por nosso fogo, tudo era perfeitamente escuro; e, quando acordei durante a noite, ouvi ora uma coruja mais para dentro da floresta atrás de nós, ora uma mobelha-grande ao longe sobre o lago. Levantando-me algum tempo depois da meia-noite para reunir os tições espalhados, enquanto meus companheiros dormiam profundamente, observei, em parte dentro do fogo, que deixara de flamejar, um anel elíptico de luz perfeitamente regular, com cerca de cinco polegadas em seu diâmetro menor, seis ou sete no maior, e de um oitavo a um quarto de polegada de largura. Era tão brilhante quanto o fogo, mas não avermelhado nem escarlate, como uma brasa, e sim uma luz branca e adormecida, como a do pirilampo. Eu só conseguia distingui-lo do fogo por sua brancura. Percebi de imediato que devia ser madeira fosforescente, da qual tantas vezes ouvira falar, mas que nunca tivera ocasião de ver. Pondo o dedo sobre ela, com alguma hesitação, descobri que era um pedaço morto de bordo-listrado (Acer striatum) que o indígena cortara obliquamente na noite anterior. Usando minha faca, descobri que a luz procedia daquela parte do alburno imediatamente sob a casca, e assim apresentava um anel regular na extremidade, que, de fato, parecia elevado acima do nível da madeira; e, quando aparei a casca e cortei o alburno, tudo reluzia ao longo do tronco. Surpreendeu-me descobrir que a madeira era bastante dura e aparentemente sã, embora a decomposição provavelmente tivesse começado no alburno, e cortei algumas pequenas lascas triangulares e, colocando-as na concha da mão, levei-as para dentro do acampamento, acordei meu companheiro e mostrei-as a ele. Iluminavam o interior de minha mão, revelando as linhas e rugas, e pareciam exatamente brasas levadas ao branco incandescente; e percebi de imediato como, provavelmente, os ilusionistas indígenas haviam enganado seu próprio povo e os viajantes, fingindo segurar brasas na boca.

Também notei que parte de um toco apodrecido a quatro ou cinco pés do fogo, uma faixa de uma polegada de largura por seis de comprimento, madeira mole e esfareladiça, brilhava com igual intensidade.

Negligenciei verificar se nosso fogo tinha alguma relação com isso, mas sem dúvida a chuva do dia anterior e o longo período de tempo úmido tinham.

Fiquei extraordinariamente interessado por esse fenômeno e já me sentia recompensado pela viagem. Dificilmente poderia ter-me causado maior emoção se houvesse assumido a forma de letras ou de um rosto humano. Se eu tivesse encontrado esse anel de luz enquanto tateava sozinho por essa floresta, longe de qualquer fogo, teria ficado ainda mais surpreso. Mal imaginava que houvesse semelhante luz brilhando para mim na escuridão da região selvagem.

No dia seguinte, o indígena me disse o nome que davam a essa luz, artoosoqu’; e, quando lhe perguntei sobre o fogo-fátuo e fenômenos semelhantes, disse que seu “povo” às vezes via fogos passando a várias alturas, até mesmo tão alto quanto as árvores, e fazendo ruído. Depois disso, eu estava preparado para ouvir falar dos fenômenos mais espantosos e inimagináveis, testemunhados por “seu povo”; eles circulam a todas as horas e estações por cenários tão pouco frequentados pelos brancos. A Natureza deve ter-lhes feito mil revelações que ainda permanecem segredos para nós.

Não lamentei não ter visto isso antes, pois agora o via em circunstâncias tão favoráveis. Eu estava exatamente no estado de espírito necessário para ver algo maravilhoso, e esse era um fenômeno adequado a minhas circunstâncias e expectativas, e me pôs em alerta para ver outros semelhantes. Exultei como “um pagão amamentado num credo” que jamais fora usado, mas era inteiramente novo e adequado à ocasião. Deixei a ciência de lado e me alegrei com aquela luz como se fosse uma criatura semelhante a mim. Vi que era excelente e fiquei muito contente de saber que custava tão pouco. Uma explicação científica, como se diz, estaria inteiramente deslocada ali. Isso é coisa para a pálida luz do dia. A ciência, com suas retortas, teria me feito adormecer; aproveitei a oportunidade de ser ignorante. Aquilo me sugeriu que havia algo para ver, desde que se tivessem olhos. Fez de mim um crente maior do que antes. Acreditei que os bosques não estavam sem habitantes, mas apinhados de espíritos honestos, tão bons quanto eu em qualquer dia; não uma câmara vazia, onde a química fora deixada a trabalhar sozinha, mas uma casa habitada; e, por alguns instantes, desfrutei da companhia deles. Seu pretenso sábio vive tentando convencer a si mesmo de que ali não há entidade alguma além dele próprio e de seus instrumentos, mas é muito mais fácil acreditar na verdade. Aquilo também sugeria que a mesma experiência dá sempre origem ao mesmo tipo de crença ou religião. Uma revelação foi feita ao indígena, outra ao homem branco. Tenho muito que aprender com o indígena, nada com o missionário. Não tenho certeza de que tudo o que me tentaria a ensinar ao indígena minha religião não seria a promessa dele de me ensinar a sua. Por tempo bastante eu ouvira falar de coisas irrelevantes; agora, enfim, alegrava-me em travar conhecimento com a luz que habita a madeira apodrecida. Para onde foi todo o seu conhecimento? Evapora-se por completo, pois não tem profundidade.

Guardei aquelas pequenas lascas e tornei a molhá-las na noite seguinte, mas não emitiram luz alguma.

SÁBADO, 25 de julho.

No café da manhã desse sábado, o indígena, evidentemente curioso para saber o que se esperaria dele no dia seguinte, se prosseguiríamos ou não, perguntou-me como eu passava o domingo quando estava em casa. Disse-lhe que de manhã costumava ficar sentado em meu quarto, lendo etc., e saía para caminhar à tarde. Ao ouvir isso, ele balançou a cabeça e disse: “Er, isso é muito ruim.” “Como você o passa?”, perguntei. Disse que não trabalhava, que ia à igreja em Oldtown quando estava em casa; em suma, fazia como lhe haviam ensinado os brancos. Isso levou a uma discussão em que me vi em minoria. Declarou que era protestante e perguntou se eu também era. A princípio, não soube o que dizer, mas pensei que podia responder com verdade que sim.

Quando lavávamos os pratos no lago, muitos peixes, aparentemente chivins, aproximaram-se bastante de nós para apanhar as partículas de gordura.

O tempo parecia mais firme naquela manhã, e partimos cedo para terminar nossa viagem lago acima antes que o vento se levantasse. Pouco depois da partida, o indígena chamou nossa atenção para a Portagem Nordeste, que podíamos ver com nitidez, a cerca de treze milhas de distância naquela direção, segundo a medição no mapa, embora se diga que fica muito mais longe. Essa portagem é uma ferrovia rudimentar de madeira, estendendo-se em linha perfeitamente reta de norte a sul por cerca de duas milhas, do lago ao Penobscot, através de um terreno baixo, com uma área aberta de três ou quatro rods de largura; mas, apesar de baixa, ela passa ali pela divisor de águas. Essa abertura aparecia como um ponto claro e brilhante, ou luminoso, no horizonte, assentado na borda do lago, cuja largura um fio de cabelo poderia cobrir a uma distância considerável do olho, e sem altura perceptível. Não teríamos suspeitado que fosse visível se o indígena não tivesse chamado nossa atenção para ela. Era uma espécie extraordinária de luz pela qual se orientar: a luz do dia vista através de uma alameda aberta na floresta, mas visível de tão longe quanto um farol comum à noite.

Atravessamos uma baía profunda e larga que se estende para leste ao norte do Kineo, deixando uma ilha à nossa esquerda e prosseguindo pela margem oriental do lago. Este ou aquele caminho conduzia a algum curso d’água Tomhegan ou Socatarian, por onde o indígena havia caçado e aonde eu ansiava ir. O último nome, porém, tinha um som espúrio, demasiado parecido com sectarian para meu gosto, como se algum missionário houvesse mexido nele; mas eu sabia que os indígenas eram muito liberais. Creio que teria preferido primeiro o Tomhegan.

Cruzamos então outra baía larga, que, como já não podíamos observar a margem em particular, proporcionou bastante tempo para conversa. O indígena disse que ganhara seu dinheiro caçando, sobretudo bem acima no Braço Oeste do Penobscot e na direção das cabeceiras do St. John; caçava ali desde menino e conhecia tudo daquela região. Sua caça consistira em castor, lontra, gato-preto (ou fisher), zibelina, alce etc. Ainda havia muitos loup-cervier (ou linces-do-canadá) em terrenos queimados. Para alimento nos bosques, ele comia perdizes, patos, carne-seca de alce, porco-espinho etc. As mobelhas-grandes também eram boas, bastava “fervê elas bem”. Contou-nos com algum detalhe como sofrera de fome quando era apenas um rapaz, surpreendido pelo inverno enquanto caçava com dois indígenas adultos no norte do Maine e obrigado a abandonar a canoa por causa do gelo.

Apontando para dentro da baía, disse que aquele era o caminho para vários lagos que conhecia. Só eram visíveis montanhas solenes, frequentadas por ursos, com suas grandes encostas cobertas de mata; onde, como o homem não está, supomos que esteja algum outro poder. Minha imaginação personificava as próprias encostas, como se, por sua mera extensão, fossem emboscá-lo e obrigá-lo a acampar nelas outra vez antes do anoitecer. Algum glutão invisível parecia prestes a cair das árvores e roer o coração do caçador solitário que atravessasse aqueles bosques; e, no entanto, senti-me tentado a caminhar por ali. O indígena disse que já passara por lá várias vezes.

Perguntei-lhe como se orientava nos bosques. “Ah”, disse ele, “sei um bom tanto de jeito.” Quando insisti, respondeu: “Às vezes olho lado do morro”, e lançou um olhar para uma colina ou montanha alta na margem leste, “grande diferença entre norte e sul, vê onde sol brilhou mais. Mesma coisa árvore, galho grande dobra pro sul. Às vezes olho rocha.” Perguntei o que via nas rochas, mas ele não descreveu nada em particular, respondendo vagamente, num tom misterioso ou arrastado: “Rocha nua na margem do lago, grande diferença entre lado norte, sul, leste, oeste, dá pra saber onde sol brilhou.” “Suponha”, disse eu, “que eu o levasse numa noite escura até aqui, bem para o meio dos bosques, a cem milhas de distância, o pusesse no chão e o girasse depressa vinte vezes; conseguiria seguir em linha reta para Oldtown?” “Ah, sim”, disse ele, “já fiz quase mesma coisa. Vou contar. Alguns anos atrás encontrei velho caçador branco em Millinocket; caçador muito bom. Ele disse que podia ir qualquer lugar nos bosques. Queria caçar comigo naquele dia, então partimos. Perseguimos alce manhã inteira, dando volta e mais volta, até meio da tarde, quando matamos. Então digo pra ele: ‘Agora vai direto pro acampamento. Não dá volta e mais volta por onde passamos, vai direto.’ Ele disse: ‘Não consigo fazer isso, não sei onde estou.’ ‘Onde acha acampamento?’, pergunto. Ele apontou assim. Então rio dele. Vou na frente e saio direto pro outro lado, cruzo nossos rastros muitas vezes, direto acampamento.” “Como faz isso?”, perguntei. “Ah, não sei dizer”, respondeu ele. “Grande diferença entre mim e homem branco.”

Parecia que as fontes de informação eram tão variadas que ele não prestava atenção distinta e consciente a nenhuma delas e, por isso, não conseguia remeter prontamente a alguma quando interrogado, mas encontrava o caminho de modo muito semelhante ao de um animal. Talvez o que comumente se chama instinto no animal, neste caso, seja apenas um sentido aguçado e educado. Muitas vezes, quando um indígena diz “não sei” a respeito da rota que tomará, não quer dizer o mesmo que um homem branco quereria dizer com essas palavras, pois seu instinto indígena ainda pode lhe dizer tanto quanto sabe o homem branco mais confiante. Ele não guarda as coisas na cabeça, nem se lembra exatamente da rota, como um homem branco, mas confia em si mesmo no momento. Como não experimentou a necessidade do outro tipo de conhecimento, todo rotulado e organizado, não o adquiriu.

O caçador branco com quem conversei na diligência conhecia alguns dos recursos do indígena. Disse que se orientava pelo vento ou pelos galhos das cicutas, que eram maiores no lado sul; também, às vezes, quando sabia que havia um lago por perto, disparava a espingarda e escutava para perceber a direção e a distância do eco vindo de além dele.

O percurso que fizemos neste lago, e depois em outros, raramente era direto, mas uma sucessão de curvas de ponta em ponta, internando-se consideravelmente em cada baía; e isso não se devia apenas ao vento, pois o indígena, olhando para o meio do lago, disse que era difícil ir por ali, mais fácil manter-se perto da margem, porque assim o atravessava por trechos sucessivos e via pela margem quanto avançava.

O que se segue bastará como experiência comum da travessia de lagos em canoa. À medida que a manhã avançava, o vento aumentava. A última baía que cruzamos antes de alcançar o cais desolado na Portagem Nordeste tinha duas ou três milhas de largura, e o vento soprava do sudoeste. Depois de percorrermos um terço do caminho, as ondas haviam crescido a ponto de ocasionalmente entrar na canoa, e vimos que adiante ficava cada vez pior. No começo, poderíamos ter voltado, mas não quisemos. Não teria adiantado seguir o contorno da margem, pois não só a distância seria muito maior, como as ondas corriam ainda mais altas ali, devido ao maior espaço que o vento tinha para ganhar força. De todo modo, agora seria perigoso mudar de rumo, porque as ondas nos atingiriam em posição vantajosa. Não convém enfrentá-las em ângulo reto, pois então entrarão pelos dois lados, mas é preciso recebê-las de través. Assim, o indígena ficou de pé na canoa e empregou toda a sua habilidade e força durante uma ou duas milhas, enquanto eu remava sem parar, a fim de lhe dar maior governo. Por mais de uma milha, ele não permitiu que uma única onda atingisse a canoa como teria atingido, mas a virava rapidamente de um lado para o outro, de modo que estivesse sempre sobre a crista de uma onda, ou perto dela, quando esta quebrava, onde toda a sua força já se gastara, e nós apenas descíamos com ela. Por fim, saltei para a extremidade do cais, contra o qual as ondas se arrebentavam violentamente, a fim de aliviar a canoa e segurá-la no desembarque, que não era muito abrigado; mas, justamente quando saltei, entraram dois ou três galões de água. Comentei com o indígena: “Você conduziu isso muito bem”, ao que ele respondeu: “Muito pouco homem faz isso. Onda demais; quando olho uma, outra vem depressa.”

Enquanto o indígena foi buscar casca de cedro etc. para transportar a canoa, cozinhamos o jantar na margem, nesta extremidade da portagem, em meio a uma chuva rala.

Ele preparou a canoa para o transporte da seguinte maneira. Pegou uma fasquia ou tala de cedro de dezoito polegadas de comprimento por quatro ou cinco de largura, arredondada numa das pontas para que os cantos não atrapalhassem, e amarrou-a com casca de cedro, por dois furos feitos a meio caminho, perto da borda de cada lado, à travessa central da canoa. Quando a canoa era erguida sobre sua cabeça, com o fundo para cima, essa fasquia, com a extremidade arredondada voltada para cima, distribuía o peso por seus ombros e sua cabeça, enquanto uma tira de casca de cedro, presa à travessa de cada lado da fasquia, passava ao redor de seu peito, e outra mais comprida, por fora da primeira, ao redor de sua testa; além disso, uma mão em cada borda lateral servia para governar a canoa e impedir que balançasse. Assim ele a carregava com os ombros, a cabeça, o peito, a testa e ambas as mãos, como se toda a parte superior de seu corpo fosse uma só mão para abraçá-la e sustentá-la. Caso conheçam maneira melhor, gostaria de ouvir falar dela. Um cedro forneceu todo o equipamento neste caso, assim como fornecera a estrutura de madeira da canoa. Um dos remos repousava sobre as travessas na proa. Pus a canoa sobre a cabeça e descobri que conseguia carregá-la com facilidade, embora as correias não estivessem ajustadas aos meus ombros; mas deixei que ele a carregasse, não querendo estabelecer um precedente diferente, embora dissesse que, se eu levasse a canoa, ele carregaria todo o restante da bagagem, exceto a de meu companheiro. Essa fasquia permaneceu amarrada à travessa durante toda a viagem, estava sempre pronta para as portagens e também servia para proteger as costas de um passageiro.

Fomos obrigados a atravessar esta portagem duas vezes, tão grande era nossa carga. Mas as portagens constituíam uma variedade agradável, e aproveitávamos a oportunidade para colher as plantas raras que havíamos visto quando voltávamos de mãos vazias.

Chegamos ao Penobscot por volta das quatro horas e encontramos ali alguns indígenas de St. Francis acampados na margem, no mesmo lugar onde eu acampara com quatro indígenas quatro anos antes. Estavam construindo uma canoa e, como naquela ocasião, secando carne de alce. A carne parecia muito apropriada para fazer ao menos um caldo preto. Nosso indígena disse que não estava boa. O acampamento deles era coberto com casca de abeto. Tinham um alce jovem, apanhado no rio quinze dias antes, confinado numa espécie de jaula de toras empilhadas como uma armação cruzada, com sete ou oito pés de altura. Era bastante manso, tinha cerca de quatro pés de altura e estava coberto de moscas-do-alce. Uma grande quantidade de ramos de corniso (C. stolonifera), bordo-vermelho, além de salgueiro e choupo, fora enfiada entre as toras por todos os lados, com as pontas cortadas para fora, e ele pastava suas folhas. À primeira vista, parecia estar num caramanchão, não num cercado.

Nosso indígena disse que ele usava raízes de abeto preto para costurar canoas, obtendo-as em terras altas ou montanhas. O indígena de St. Francis achava que raízes de abeto branco talvez fossem melhores. Mas o primeiro disse: “Não presta, quebra, não dá pra rachar”; disse também que eram difíceis de obter, pois ficavam fundo no solo, enquanto as pretas estavam perto da superfície, em terreno mais alto, além de serem mais resistentes. Disse que o abeto branco era subekoondark, e o preto, skusk. Eu lhe disse que achava que conseguiria fazer uma canoa, mas ele expressou grande dúvida; de todo modo, achava que meu trabalho não ficaria “bem-acabado” na primeira tentativa. Um indígena em Greenville me dissera que a casca de inverno, isto é, a casca retirada antes que a seiva começasse a correr em maio, era mais dura e muito melhor que a casca de verão.

Depois de tornarmos a carregar tudo, remamos Penobscot abaixo, que, como observou o indígena, e até eu percebi, lembrando-me de como parecera antes, estava extraordinariamente cheio. Pouco depois vimos junto à margem um esplêndido lírio-amarelo (Lilium Canadense), que colhi. Tinha seis pés de altura e doze flores, em dois verticilos, formando uma pirâmide, como os que já vi em Concord. Mais tarde vimos muitos outros igualmente altos ao longo desse curso d’água, e ainda mais numerosos no Braço Leste, e, neste último, um que me pareceu aproximar-se ainda mais do Lilium superbum. O indígena perguntou como o chamávamos e disse que as “raízes” eram boas para sopa, isto é, para cozinhar com carne e engrossá-la, substituindo a farinha. Eles as colhem no outono. Desenterrei algumas e encontrei uma massa de bulbos bem fundo na terra, com duas polegadas de diâmetro, que pareciam, e até tinham um sabor, um pouco semelhante ao milho-verde cru na espiga.

Quando havíamos descido cerca de três milhas pelo Penobscot, vimos por cima das copas das árvores uma tempestade com trovoadas que se aproximava pelo oeste, e procuramos em boa hora um lugar para acampar, por volta das cinco, no lado oeste, não muito abaixo da foz do que Joe Aitteon, em 1853, chamara Lobster Stream, vindo de Lobster Pond. Nosso indígena atual, contudo, não reconhecia esse nome, nem mesmo o de Matahumkeag, que está no mapa, mas chamava o lago de Beskabekuk.

Descreverei, de uma vez por todas, a rotina de acampar nesta estação. Em geral, dizíamos ao indígena que pararíamos no primeiro lugar adequado, para que ele ficasse atento à procura de um. Depois de avistar uma praia limpa, firme e plana para desembarcar, livre de lama e de pedras que pudessem danificar a canoa, um de nós subia correndo a margem para ver se havia entre as árvores espaço aberto e nivelado o bastante para o acampamento, ou se seria fácil desimpedi-lo, preferindo ao mesmo tempo um lugar fresco, por causa dos insetos. Às vezes remávamos uma milha ou mais antes de encontrar um que nos agradasse, pois, onde a margem era apropriada, o barranco muitas vezes era íngreme demais, ou então baixo e coberto de relva, e portanto cheio de mosquitos. Tirávamos então a bagagem e puxávamos a canoa para terra, às vezes virando-a na margem por segurança. O indígena abria um caminho até o ponto que havíamos escolhido, em geral a duas ou três rods da água, e levávamos nossa bagagem para lá. Um de nós, talvez, apanha casca de bétula-de-canoa, sempre à mão, e madeira ou casca morta e seca, e acende uma fogueira cinco ou seis pés à frente de onde pretendemos deitar. Em geral, pouco importa de que lado ela fica, porque há pouco ou nenhum vento numa floresta tão densa nessa estação; depois ele enche uma chaleira com água do rio e tira a carne de porco, o pão, o café etc. de seus diversos embrulhos.

Outro, nesse meio-tempo, com o machado, derruba o bordo-da-rocha morto mais próximo ou outra madeira dura, seca, reunindo vários toros grandes que durem a noite inteira, além de uma estaca verde, com um entalhe ou forquilha, que se inclina sobre o fogo, talvez apoiada numa pedra ou numa estaca bifurcada, para nela pendurar a chaleira, e duas estacas bifurcadas e uma vara para a tenda.

O terceiro homem arma a tenda, corta com a faca uma dúzia ou mais de espeques, geralmente de moose-wood, o arbusto rasteiro mais comum, para prendê-la ao chão, e então recolhe uma ou duas braçadas de raminhos de abeto,[8] tuia, pícea ou tsuga, o que estiver à mão, e faz a cama, começando por qualquer das extremidades e dispondo os raminhos com o lado avesso para cima, em fileiras regulares, cobrindo os tocos da fileira anterior; antes, porém, enchendo as depressões, se houver, com material mais grosseiro. Wrangel diz que seus guias na Sibéria primeiro espalhavam pelo chão certa quantidade de gravetos secos e, sobre eles, ramos de cedro.

Em geral, quando a cama fica pronta, ou dentro de quinze ou vinte minutos, a água ferve, a carne de porco está frita e a ceia está pronta. Comemos sentados no chão, ou num toco, se houver algum, em torno de um grande pedaço de casca de bétula que serve de mesa, cada qual segurando uma caneca numa das mãos e um pedaço de bolacha de navio ou de carne de porco frita na outra, agitando com frequência a mão diante do rosto, ou enfiando a cabeça na fumaça, para escapar dos mosquitos.

Em seguida, os que fumam acendem os cachimbos, os que têm véus os colocam, e nós examinamos e secamos às pressas nossas plantas, untamos o rosto e as mãos e vamos para a cama, e para os mosquitos.

Embora não se tenha nada a fazer além de ver a região, raramente sobra tempo, mal o bastante para examinar uma planta, antes que a noite ou a sonolência nos alcance.

Essa era a experiência habitual, mas naquela noite havíamos acampado mais cedo por causa da chuva e dispúnhamos de mais tempo.

Descobrimos que nosso acampamento naquela noite ficava sobre uma antiga estrada de abastecimento, agora ainda mais indistinta que de costume, que seguia ao longo do rio. O que ali se chama estrada não apresenta sulcos nem marcas de rodas, pois elas não são usadas; tampouco, a bem dizer, marcas de trenós, já que estes só são usados no inverno, quando a neve tem vários pés de profundidade. É apenas uma abertura indistinta através da mata, que exige um olhar experiente para ser percebida.

Mal havíamos armado a tenda quando a tempestade desabou sobre nós, e rastejamos depressa para debaixo dela, puxando nossas bolsas atrás de nós, curiosos para ver quanto abrigo aquele teto fino de algodão nos proporcionaria nesta excursão. Embora a violência da chuva fizesse atravessar o tecido, antes que ele estivesse devidamente molhado e encolhido, uma fina garoa que nos deixou bem orvalhados, conseguimos permanecer razoavelmente secos; apenas uma caixa de fósforos fora deixada do lado de fora e se estragara. Antes que déssemos por isso, a pancada havia passado, e somente as árvores gotejantes nos mantinham presos.

Querendo ver que peixes havia ali no rio, lançamos as linhas por cima dos arbustos molhados da margem, mas elas eram repetidamente arrastadas, em vão, pela correnteza veloz. Assim, deixando o indígena, tomamos a canoa pouco antes de escurecer e descemos o rio algumas rods para pescar na foz de um riacho preguiçoso do lado oposto. Avançamos por ele uma rod ou duas, onde talvez apenas uma canoa houvesse passado antes. Mas, embora houvesse ali alguns peixes pequenos, sobretudo chivin, logo fomos expulsos pelos mosquitos. Enquanto estávamos lá, ouvimos o indígena disparar sua espingarda duas vezes em sucessão tão rápida que pensamos que ela devia ter dois canos, embora depois observássemos que tinha apenas um. Seu propósito era limpá-la e secá-la depois da chuva; em seguida ele a carregou com bala, pois agora estávamos em terreno onde esperava encontrar caça de grande porte. Aquele ruído súbito, alto e estrepitoso nos corredores silenciosos da floresta afetou-me como um insulto à Natureza, ou, no mínimo, como falta de modos, como se alguém disparasse uma arma num salão ou templo. Contudo, não foi ouvido de muito longe, exceto ao longo do rio, pois o som foi rapidamente abafado ou absorvido pelas árvores úmidas e pelo chão coberto de musgo.

O indígena fez uma pequena fogueira abafada de folhas úmidas bem junto à parte de trás do acampamento, para que a fumaça o atravessasse e mantivesse os mosquitos afastados; mas, pouco antes de adormecermos, ela de repente se inflamou e quase ateou fogo à tenda. Fomos bastante atormentados pelos mosquitos nesse acampamento.

DOMINGO, 26 de julho.

O canto do pardal-de-garganta-branca, um som muito animador, mas quase metálico, foi o primeiro que ouvimos pela manhã, e com ele todos os bosques ressoavam. Essa era a ave predominante na parte norte do Maine. A floresta em geral estava inteiramente viva com eles nessa estação, e eram proporcionalmente numerosos e musicais nos arredores de Bangor. Evidentemente se reproduzem naquele Estado. Embora em geral não fossem vistos, seu simples ah, te-te-te, te-te-te, te-te-te, tão agudo e penetrante, era tão distinto para o ouvido quanto seria para os olhos o trajeto de uma centelha de fogo arremessada para o ponto mais escuro da floresta. Parecia-me que comumente o soltavam enquanto voavam. Ouço esse canto por apenas alguns dias na primavera, quando passam por Concord, e no outono torno a vê-los seguindo para o sul, mas então estão mudos. Em geral, éramos despertados muito cedo por sua melodia vivaz. Que tempo glorioso devem ter naquela região selvagem, longe da humanidade e do dia de eleição!

Disse ao indígena que iríamos à igreja em Chesuncook naquela manhã de domingo, a umas quinze milhas. Enfim o tempo se firmara. Algumas andorinhas esvoaçavam sobre a água; ouvimos mariquitas-de-garganta-amarela-do-maryland ao longo da margem, as notas fi-bi do chapim-de-cabeça-preta e, creio, rabirruivos-americanos; e moscas-do-alce de grande tamanho nos perseguiram no meio do rio.

O indígena achava que devíamos ficar parados no domingo. Disse ele: “Nós vir aqui olhar coisa, olhar tudo em volta; mas chegar domingo, fechar tudo isso, e então segunda olhar de novo.” Falou de um indígena conhecido seu que estivera com alguns ministros em Ktaadn e lhe contara como eles procediam. Descreveu isso em voz baixa e solene. “Eles fazer oração comprida toda manhã e noite, e em toda refeição. Chegar domingo”, disse ele, “eles parar tudo, não ir lugar nenhum naquele dia, ficar quieto, pregar o dia inteiro, primeiro um, depois outro, igual igreja. Oh, homens muito bons.” “Um dia”, disse ele, “indo por um rio, eles achar corpo de homem na água, afogado fazia muito tempo, já pronto para cair em pedaços. Eles ir logo para margem, parar ali, não ir mais longe naquele dia, fazer reunião ali, pregar e rezar igual domingo. Depois eles pegar varas e levantar corpo, e voltar levando corpo com eles. Oh, homens muito bons.”

Julguei por esse relato que cada acampamento deles era uma reunião campal, e que haviam errado o caminho, pois deviam ter ido a Eastham; queriam mais uma oportunidade de pregar em algum lugar do que ver Ktaadn. Li sobre outro grupo semelhante que parece ter passado o tempo ali cantando os cânticos de Sião. Fiquei contente por não ter ido àquela montanha com gente tão vagarosa.

Contudo, acrescentou o indígena, manejando o remo o tempo todo, se nós fôssemos adiante, ele tinha de ir conosco, ele nosso homem, e ele supor que, se não pegar pagamento pelo que fazer domingo, então não ter mal, mas, se pegar pagamento, então errado. Eu lhe disse que ele era mais rigoroso que os homens brancos. Ainda assim, notei que, ao fim, ele não se esqueceu de incluir os domingos na conta.

Parecia ser um homem muito religioso e fazia suas orações em voz alta, em língua indígena, ajoelhado diante do acampamento, de manhã e à noite; às vezes levantava-se de novo às pressas, quando havia se esquecido disso, e as dizia com grande rapidez. No decorrer do dia, observou, sem muita originalidade: “Homem pobre lembrar Deus mais que rico.”

Logo passamos pela ilha onde eu acampara quatro anos antes, e reconheci o próprio lugar. A água morta, uma ou duas milhas abaixo dela, o indígena chamava de Beskabekukskishtuk, por causa do lago Beskabekuk, que deságua acima. Essa água morta, disse ele, era “sempre um grande lugar para alce”. Vimos a relva dobrada onde um alce saíra da água na noite anterior, e o indígena disse que podia sentir o cheiro de um à mesma distância em que conseguia vê-lo; mas acrescentou que, se visse cinco ou seis naquele dia, bem perto da canoa, não atirar neles. Assim, como era o único do grupo que tinha uma arma, ou que viera para caçar, os alces estavam seguros.

Pouco abaixo dali, uma coruja-rajada voou pesadamente sobre o rio, e ele, perguntando se eu sabia o que era, imitou muito bem o habitual hu, hu, hu, hurer, hu de nossos bosques, produzindo um som duro e gutural: “Ugh, ugh, ugh, ugh, ugh.” Quando passamos pelo Moose-horn, ele disse que aquilo não tinha nome. O que Joe Aitteon chamara de Ragmuff, ele chamava de Paytaytequick, e disse que significava Riacho do Terreno Queimado. Paramos ali, onde eu havia parado antes, e banhei-me nesse tributário. Era raso, porém frio, frio demais, ao que parecia, para o indígena, que ficou olhando. Quando voltávamos a nos afastar, uma águia-de-cabeça-branca planou sobre nossas cabeças. Um trecho algumas milhas acima de Pine Stream, onde havia várias ilhas, o indígena disse ser a Água Morta de Nonglangyis. Pine Stream ele chamava de Rio Negro e disse que seu nome indígena era Karsaootuk. Ele podia chegar ao Lago Caribou por aquele caminho.

Carregamos uma parte da bagagem pela portagem das quedas de Pine Stream, enquanto o indígena desceu na canoa. Um comerciante de Bangor nos dissera que dois homens a seu serviço haviam se afogado algum tempo antes ao passar por essas quedas num batel, e que um terceiro se agarrara a uma pedra durante toda a noite e fora resgatado pela manhã. Havia magníficas orquídeas-de-franjas-roxas-grandes nessa portagem e nas margens próximas. Perto do fim da portagem, medi a maior bétula-de-canoa que vi nesta viagem. Tinha 14½ pés de circunferência a dois pés do chão, mas a cinco pés dividia-se em três partes. As bétulas-de-canoa da região eram comumente marcadas por saliências espirais escuras e conspícuas, com um sulco entre elas, de modo que a princípio pensei terem sido atingidas por raios; mas, como disse o indígena, isso era evidentemente causado pela fibra da árvore. Ele cortou do tronco de um abeto um pequeno nódulo lenhoso, do tamanho de uma avelã, aparentemente uma antiga vesícula de bálsamo preenchida por madeira, que disse ser um bom remédio.

Depois de embarcarmos e percorrermos meia milha, meu companheiro lembrou-se de que havia deixado a faca, e remamos de volta para buscá-la, contra a corrente forte e veloz. Isso nos ensinou a diferença entre subir e descer o rio, pois, enquanto abríamos caminho de volta por um quarto de milha, teríamos descido pelo menos uma milha e meia. Assim, desembarcamos e, enquanto ele e o indígena voltavam para buscá-la, observei os movimentos da espuma, uma espécie de ave aquática branca junto à margem, quarenta ou cinquenta rods rio abaixo. Ela alternadamente aparecia e desaparecia por trás da pedra, levada em torno por um redemoinho. Até mesmo aquela aparência de vida era interessante naquele rio solitário.

Imediatamente abaixo dessas quedas ficavam as Águas Mortas de Chesuncook, causadas pelo refluxo do lago. Enquanto remávamos devagar por elas, o indígena nos contou uma história de suas caçadas naquelas redondezas, e algo mais interessante sobre si mesmo. Ao que parecia, ele representara seu povo em Augusta, e também certa vez em Washington, onde encontrara alguns chefes do Oeste. Fora consultado em Augusta e dera conselhos, que, segundo ele, foram seguidos, a respeito da fronteira oriental do Maine, conforme determinada pelas terras altas e pelos cursos d’água, na época das dificuldades daquele lado. Trabalhara com os agrimensores na linha divisória. Também visitara Daniel Webster em Boston, por ocasião de seu discurso de Bunker Hill.

Surpreendeu-me ouvi-lo dizer que gostava de ir a Boston, Nova York, Filadélfia etc., etc.; que gostaria de morar lá. Mas então, como se recuasse um pouco, ao pensar na triste figura que faria ali, acrescentou: “Acho que, se eu morar em Nova York, eu ser pior caçador, suponho.” Ele compreendia muito bem tanto sua superioridade quanto sua inferioridade em relação aos brancos. Criticava o povo dos Estados Unidos em comparação com outras nações, mas a única ideia distinta com que se debatia era a de que eles eram “muito fortes”, porém, como certos indivíduos, “rápidos demais”. Deve-se dar-lhe o crédito por ter dito isso pouco antes do colapso geral das ferrovias e dos bancos. Tinha uma elevada opinião da educação e, de vez em quando, irrompia em expressões como esta: “Kademy, a-ca-de-my, coisa boa, acho que eles usam Quinto Livro de Leitura lá... Você foi faculdade?”

Dessas águas mortas, viam-se os contornos das montanhas ao redor de Ktaadn. O cume de Ktaadn estava oculto por uma nuvem, mas as Montanhas Souneunk ficavam mais perto e eram perfeitamente visíveis. Atravessamos a extremidade noroeste do lago, de onde olhamos para sul-sudeste, por toda a sua extensão, até a Montanha Joe Merry, avistada além da extremidade oposta. É uma mudança agradável atravessar um lago depois de se ter ficado encerrado nos bosques, não apenas pela maior extensão de água, mas também de céu. É uma das surpresas que a Natureza reserva ao viajante da floresta. Contemplar, nesse caso, mais de dezoito milhas de água era libertador e até civilizador. Sem dúvida, a curta distância a que se pode enxergar nos bosques e o crepúsculo geral acabariam por agir sobre os habitantes e torná-los selvagens. Os lagos também revelam as montanhas e dão amplo espaço e alcance ao nosso pensamento. As próprias gaivotas que víamos pousadas nas rochas, como pontos brancos, ou voando em círculos, lembravam-me funcionários da alfândega. Já havia meia dúzia de cabanas de toras em torno dessa extremidade do lago, embora tão distante de uma estrada. Percebo que, nesses bosques, os primeiros assentamentos, por vários motivos, se agrupam em torno dos lagos, mas em parte, penso eu, pelo benefício da vizinhança, por serem as clareiras mais antigas. São escolas da floresta já estabelecidas, grandes centros de luz. A água é uma pioneira que o colono segue, aproveitando-se de suas melhorias.

Até ali apenas eu já estivera antes. Por volta do meio-dia, viramos para o norte, subindo uma espécie de amplo estuário, e em seu canto nordeste encontramos o rio Caucomgomoc; depois de avançarmos cerca de uma milha desde o lago, chegamos ao Umbazookskus, que entra pela direita num ponto em que o primeiro rio, vindo do oeste, faz uma curva abrupta para o sul. Nosso percurso seguia pelo Umbazookskus, mas, como o indígena conhecia um bom lugar de acampamento, isto é, um lugar fresco onde havia poucos mosquitos, cerca de meia milha mais acima no Caucomgomoc, fomos até lá. A julgar pelo mapa, este último é o curso d’água mais longo e principal e, portanto, seu nome deve prevalecer abaixo da confluência. Com que rapidez trocamos o céu civilizador de Chesuncook pela mata escura do Caucomgomoc. Ao chegarmos ao local de acampamento do indígena, na margem sul, onde o barranco tinha cerca de doze pés de altura, li no tronco de um abeto, marcado a machado, uma inscrição a carvão que ele deixara. Acima dela havia o desenho de um urso remando numa canoa, que, segundo ele, era o sinal desde sempre usado por sua família. Embora rudimentar, o desenho não podia ser confundido com outra coisa senão um urso, e ele duvidou de minha capacidade de copiá-lo. A inscrição dizia assim, verbatim et literatim. Intercalo a tradução inglesa de seu idioma indígena, tal como ele a forneceu.

[A figura de um urso num barco.]

```

26 de julho

1853

-----------

niasoseb

Nós somente Joseph

Polis elioi

Polis parte

sia olta

para Oldtown

onke ni

imediatamente

quambi

------------

15 de julho

1855

niasoseb

```

Ele acrescentou agora, abaixo:

``` 1857 26 de julho Jo. Polis ```

Aquele era um de seus lares. Vi onde às vezes estendera suas peles de alce na margem oposta, a margem norte ensolarada do rio, onde havia um prado estreito.

Depois de escolhermos um lugar para o acampamento e acendermos o fogo, quase exatamente no local do último acampamento do indígena ali, ele olhou para cima e observou: “Aquela árvore perigo.” Era uma parte morta, com mais de um pé de diâmetro, de uma grande bétula-de-canoa que se ramificava junto ao chão. Esse galho, elevando-se trinta pés ou mais, inclinava-se diretamente sobre o lugar que havíamos escolhido para nossa cama. Disse-lhe que o experimentasse com o machado; mas ele não conseguiu fazê-lo estremecer de modo perceptível e, por isso, pareceu disposto a ignorá-lo, enquanto meu companheiro declarou-se disposto a correr o risco. Mas pareceu-me que seríamos tolos se nos deitássemos sob ele, pois, embora a parte inferior estivesse firme, o topo, pelo que sabíamos, podia estar prestes a cair e, de qualquer modo, ficaríamos muito inquietos se o vento se levantasse durante a noite. É um acidente comum homens acampados nos bosques morrerem atingidos pela queda de uma árvore. Assim, o acampamento foi transferido para o outro lado do fogo.

Era, como de costume, uma floresta úmida e eriçada, aquela do Caucomgomoc, e o máximo que se sabia sobre ela era que, de um lado, estendia-se em direção aos assentamentos e, do outro, rumo a regiões ainda menos frequentadas. Levávamos sempre tanta topografia na mente, e às vezes parecia fazer considerável diferença se nos sentávamos ou deitávamos mais perto dos assentamentos, ou mais longe deles, do que nossos companheiros, se éramos o homem da retaguarda ou o da fronteira do acampamento. Mas, na verdade, existe a mesma diferença entre nossas posições onde quer que estejamos acampados, e alguns estão mais próximos das fronteiras em camas de penas nas cidades do que outros sobre ramos de abeto nas matas do interior.

O indígena disse que o Umbazookskus, por ser um curso de águas paradas com amplos prados, era um bom lugar para alces, e que ele vinha caçar ali com frequência, permanecendo sozinho por três semanas ou mais longe de Oldtown. Às vezes também ia caçar nos Lagos Seboois, tomando a diligência com sua espingarda e munição, machado e cobertores, biscoito duro e carne de porco, talvez por cem milhas do trajeto, e saltava no ponto mais selvagem da estrada, onde imediatamente se sentia em casa, e cada rod era para ele um local de estalagem. Então, depois de uma curta jornada pelos bosques, construía em um dia uma canoa de casca de abeto, colocando nela poucas cavernas para que fosse leve e, depois de caçar com ela nos lagos, voltava com suas peles pelo mesmo caminho por onde viera. Temos assim um indígena valendo-se astutamente das vantagens da civilização, sem perder nada de seu conhecimento dos bosques, mas mostrando-se, por isso, um caçador ainda mais bem-sucedido.

Esse homem era muito hábil e rápido para aprender qualquer coisa de seu ofício. Nossa tenda era de um tipo novo para ele; mas, depois de vê-la armada uma única vez, era surpreendente a rapidez com que encontrava e preparava a vara e as estacas bifurcadas necessárias para erguê-la, cortando-as e colocando-as corretamente logo na primeira tentativa, embora eu tenha certeza de que a maioria dos homens brancos teria errado várias vezes.

Esse rio vinha do lago Caucomgomoc, cerca de dez milhas mais acima. Embora fosse lento ali, havia quedas não muito longe acima de nós, e de tempos em tempos víamos passar a espuma que delas vinha. O indígena disse que Caucomgomoc significava Lago da Gaivota-Grande (i. e., gaivota-arenque, suponho), pois gomoc significava lago. Portanto, aquele era o Caucomgomoctook, ou o rio que vinha desse lago. Aquele era o Caucomgomoctook do Penobscot; havia outro, do São João, não muito ao norte. Ele encontra os ovos dessa gaivota, às vezes vinte juntos, grandes como ovos de galinha, em saliências rochosas no lado oeste do rio Millinocket, por exemplo, e os come.

Pensei então em observar como ele passava o domingo. Enquanto meu companheiro e eu examinávamos as árvores e o rio, ele foi dormir. Na verdade, aproveitava todas as oportunidades para tirar um cochilo, fosse qual fosse o dia.

Vagando pelos bosques em torno desse acampamento, notei que eram compostos principalmente de abetos, píceas-negras e algumas píceas-brancas, bordos-vermelhos, bétulas-de-canoa e, ao longo do rio, amieiros-cinzentos (Alnus incana). Enumero-os pela ordem de abundância. O Viburnum nudum era um arbusto comum e, entre as plantas menores, havia corniso-anão, grande orquídea-de-folhas-redondas, abundante e florida, uma flor branco-esverdeada que crescia em pequenas comunidades, Uvularia grandiflora, cujo caule tinha gosto de pepino, Pyrola secunda, aparentemente a pírola mais comum naqueles bosques, já fora da floração, Pyrola elliptica e Chiogenes hispidula. A Clintonia borealis, com bagas maduras, era muito abundante e sentia-se perfeitamente em casa ali. Suas folhas, dispostas comumente em triângulos ao redor do caule, tinham forma tão bela e eram tão verdes, e suas bagas tão azuis e lustrosas, como se ela crescesse à margem do caminho predileto de algum botânico.

Eu podia distinguir os contornos de grandes bétulas que haviam caído muito tempo antes, desabado, apodrecido e se transformado em terra, por tênues linhas verde-amareladas de musgo semelhante a penas, com dezoito polegadas de largura e vinte ou trinta pés de comprimento, cruzadas por outras linhas semelhantes.

Ouvi uma mariquita-noturna, um sabiá-da-mata, um martim-pescador, o pássaro-pinça ou mariquita-variegada, e um bacurau. Também ouvi e vi esquilos-vermelhos e ouvi uma rã-touro. O indígena disse ter ouvido uma cobra.

Por mais selvagem que fosse o lugar, era difícil para mim livrar-me das associações com os assentamentos. Qualquer som contínuo e monótono ao qual eu não prestasse atenção distinta passava por som de atividade humana. Em minha imaginação, as quedas-d’água que eu ouvia não deixavam de ter suas barragens e moinhos; e várias vezes percebi que vinha tomando o rumor contínuo do vento que soprava por cima dos bosques, além dos rios, pelo ruído de um trem de vagões, os vagões em Quebec. Nossa mente, onde quer que esteja, quando deixada por conta própria, está sempre assim ocupada em tirar conclusões de premissas falsas.

Pedi ao indígena que nos fizesse uma tigela de açúcar com casca de bétula, o que ele fez usando a grande faca que pendia numa bainha de seu cinto; mas a casca se partiu nos cantos quando ele os dobrou para cima, e ele disse que não era boa; que havia grande diferença, nesse aspecto, entre a casca de uma bétula-de-canoa e a de outra, i. e., uma rachava com mais facilidade do que a outra. Usei em meu herbário algumas lâminas finas e delicadas dessa casca, que ele separou e cortou, pensando que serviriam bem para separar os espécimes secos dos verdes.

Meu companheiro, desejando distinguir a pícea-negra da branca, pediu a Polis que lhe mostrasse um ramo desta última, o que ele fez imediatamente, junto com um da negra; na verdade, conseguia distingui-las quase à distância a que podia enxergá-las. Mas, como os dois ramos pareciam muito semelhantes, meu companheiro pediu ao indígena que apontasse a diferença; então este, tomando os ramos, observou de imediato, ao passar sucessivamente a mão sobre eles como quem os acaricia, que o branco era áspero (i. e., as agulhas se erguiam quase perpendicularmente), mas o negro, liso (i. e., como se as agulhas estivessem curvadas ou penteadas para baixo). Era uma diferença evidente tanto à vista quanto ao tato. Contudo, se bem me lembro, isso não serviria para distinguir a pícea-branca da variedade clara da negra.

Pedi-lhe que me deixasse vê-lo extrair alguma raiz de pícea-negra e fazer linha com ela. Então, sem erguer os olhos para as árvores acima, começou a escavar o chão, distinguindo de imediato as raízes da pícea-negra; cortou uma raiz delgada, de três ou quatro pés de comprimento e da grossura de uma haste de cachimbo, abriu-lhe a extremidade com a faca e, segurando uma metade entre o polegar e o indicador de cada mão, separou rapidamente toda a extensão em duas metades semicilíndricas iguais; depois, dando-me outra raiz, disse: “Tente você.” Mas, em minhas mãos, a fenda logo desviou para um dos lados, e obtive apenas um pedaço muito curto. Em suma, embora parecesse muito fácil, descobri que havia grande arte em rachar essas raízes. A fenda é habilmente conduzida, dobrando-se a raiz em trechos curtos para um lado ou para o outro, e assim mantida no meio. Em seguida, ele retirou a casca de cada metade, pressionando com ambas as mãos um pequeno pedaço de casca de cedro contra o lado convexo, enquanto puxava a raiz para cima com os dentes. Os dentes de um indígena são fortes, e notei que ele usava os seus com frequência onde nós teríamos usado uma das mãos. Equivaliam a uma terceira mão. Desse modo obteve, num instante, um cordel muito bem-feito, resistente e flexível, que podia atar num nó ou até transformar em linha de pesca. Diz-se que, na Noruega e na Suécia, as raízes do abeto-da-noruega (Abies excelsa) são empregadas do mesmo modo e para o mesmo fim. Ele disse que seria preciso pagar meio dólar por raiz de abeto suficiente para uma canoa, assim preparada. Mandara outra pessoa costurar sua própria canoa, embora tivesse feito todo o resto. A raiz usada em sua canoa era de uma cor pálida de ardósia, adquirida provavelmente pela exposição ao tempo, ou talvez por ter sido antes fervida em água.

Ele descobrira no dia anterior que sua canoa vazava um pouco e disse que isso se devia a entrar nela com violência, o que forçava a água por baixo da borda das costuras horizontais da lateral. Perguntei-lhe onde obteria breu para consertá-la, pois costumam usar breu duro, adquirido dos brancos em Oldtown. Disse que podia fazer algo muito semelhante e igualmente bom, não com goma de abeto nem coisa parecida, mas com material que trazíamos conosco, e quis que eu adivinhasse o quê. Mas não consegui, e ele não quis me contar, embora me mostrasse uma bolinha da substância depois de pronta, do tamanho de uma ervilha e semelhante a breu negro, dizendo por fim que havia certas coisas que um homem não contava nem à própria esposa. Talvez tivesse sido descoberta sua. Na expedição de Arnold, os pioneiros usaram em sua canoa “a terebintina do pinheiro e as raspas do saco de carne de porco”.

Curioso para ver que espécie de peixe havia naquele rio escuro, profundo e lento, lancei a linha pouco antes do anoitecer e apanhei vários peixinhos um tanto amarelados, semelhantes a sugadores, que o indígena rejeitou de imediato, dizendo que eram peixes michigan (isto é, peixes moles e fedorentos) e não serviam para nada. Também não quis tocar num peixe-gato que pesquei, e disse que nem os indígenas nem os brancos das redondezas jamais os comiam, o que achei singular, pois são apreciados em Massachusetts, e ele me dissera que comia porcos-espinhos, mobelhas-grandes etc. Mas disse que uns pequenos peixes prateados, que eu chamava de white chivin, semelhantes em tamanho e forma aos primeiros, eram os melhores peixes das águas do Penobscot, e que, se eu os atirasse para ele na margem, os cozinharia para mim. Depois de limpá-los, não com muito cuidado e deixando-lhes as cabeças, colocou-os sobre as brasas e assim os assou.

Ao voltar de uma curta caminhada, ele trazia uma trepadeira na mão e perguntou se eu sabia o que era, dizendo que, de tudo quanto havia nos bosques, aquilo fazia o melhor chá. Era a creeping snowberry (Chiogenes hispidula), bastante comum ali, cujas bagas acabavam de se formar. Chamava-a cowosnebagosar, nome que indica que ela cresce onde velhos troncos caídos desabaram e apodreceram. Decidimos, portanto, preparar naquela noite um pouco de chá com ela. Tinha um leve sabor de checkerberry, e ambos concordamos que era realmente melhor do que o chá-preto que havíamos trazido. Consideramos aquilo uma verdadeira descoberta e pensamos que a planta bem poderia ser seca e vendida nas lojas. Quanto a mim, porém, não sou um velho bebedor de chá e não posso falar aos outros com autoridade. Teria sido particularmente bom levá-lo conosco como bebida fria durante o dia, pois a água das redondezas era invariavelmente morna. O indígena disse que eles também usavam para chá certa erva que crescia em terrenos baixos, mas que ele não encontrou ali, e o ledum, ou chá-do-labrador, que desde então encontrei e experimentei em Concord; também folhas de tsuga, estas sobretudo no inverno, quando as outras plantas estavam cobertas de neve, além de várias outras coisas; mas não aprovava a tuia, que eu disse ter bebido naqueles bosques. Poderíamos ter tomado uma espécie nova de chá todas as noites.

Pouco antes do anoitecer, vimos um musquash (ele não disse muskrat), o único que vimos nessa viagem, nadando rio abaixo no lado oposto da corrente. O indígena, querendo apanhar um para comer, fez-nos calar, dizendo: “Parem, eu chamar ele”; e, sentado rente ao chão na margem, começou a produzir com os lábios um curioso som agudo, estridente, esforçando-se bastante. Fiquei muito surpreso, pensei que afinal havia entrado na região selvagem e que ele era de fato um homem selvagem, por estar falando com um musquash! Eu não sabia qual dos dois me parecia mais estranho. De repente, ele parecia ter abandonado por completo a humanidade e passado para o lado do musquash. O musquash, porém, pelo que pude ver, não se desviou, embora talvez tenha hesitado um pouco, e o indígena disse que ele vira nosso fogo; mas era evidente que tinha o hábito de chamar o musquash para junto de si, como dizia. Um conhecido meu, que caçava alces naqueles bosques um mês depois, conta-me que seu indígena, desse modo, chamou repetidas vezes os musquash para perto do alcance de seu remo, à luz da lua, e tentou golpeá-los.

O indígena fez uma oração particularmente longa naquela noite de domingo, como se quisesse expiar o fato de ter trabalhado pela manhã.

SEGUNDA-FEIRA, 27 de julho.

Depois de carregarmos rapidamente a canoa, tarefa à qual o indígena sempre dava cuidadosa atenção, para que ela ficasse bem equilibrada, e de cada um dar, como de costume, uma olhada para ver se nada fora deixado para trás, partimos novamente, descendo o Caucomgomoc e virando para nordeste, rio acima pelo Umbazookskus. Esse nome, disse o indígena, significava Rio de Muitos Prados. Descobrimos que era uma corrente muito cheia de prados e de águas paradas, e agora muito larga por causa das chuvas, embora, segundo ele, às vezes fosse bastante estreita. O espaço entre os bosques, em sua maior parte prado aberto, tinha de cinquenta a duzentos rods de largura e era um lugar excepcional para alces. Lembrou-me o Concord; e o que aumentava a semelhança era uma velha casa de musquash quase flutuando.

Na água sobre os prados cresciam ciperáceas, wool-grass e, em abundância, o lírio-azul comum, cuja flor apenas surgia acima das águas altas, como se fosse um nenúfar azul; e, mais acima nos prados, muitos tufos de um salgueiro peculiar de folhas estreitas (Salix petiolaris), comum em nossos prados fluviais. Era a espécie predominante ali, e o indígena disse que o musquash comia muito dela; ali também crescia o corniso-vermelho (Cornus stolonifera), cujos grandes frutos estavam então esbranquiçados.

Embora ainda fosse cedo pela manhã, vimos bacuraus circulando sobre o prado e, como de costume, ouvimos o pepe (Muscicapa Cooperi), uma das aves predominantes nesses bosques, e o tordo-americano.

Era incomum que os bosques ficassem tão distantes da margem, e deles vinha um eco bastante nítido; mas, quando eu gritava para despertá-lo, o indígena me lembrou de que eu espantaria os alces, que ele procurava e que todos queríamos ver. A palavra para eco era Pockadunkquaywayle.

Uma larga faixa de lariços mortos ao longo da borda distante do prado, diante da floresta de ambos os lados, aumentava o caráter selvagem habitual da paisagem. O indígena chamava essas árvores de zimbro e disse que haviam sido mortas pelo refluxo causado pela barragem na saída do lago Chesuncook, a cerca de vinte milhas dali. Colhi à beira da água a Asclepias incarnata, de flores muito belas, num vermelho mais vivo do que o de nossa variedade (a pulchra). Foi a única forma dela que vi ali.

Depois de remarmos várias milhas pelo Umbazookskus, o rio de repente se contraiu até tornar-se mero riacho, estreito e rápido; os lariços e outras árvores aproximavam-se da margem, sem deixar nenhum prado aberto, e desembarcamos para obter uma vara de pícea-negra com que impulsionar a canoa contra a corrente. Foi a primeira ocasião em que precisamos de uma. A escolhida era bastante delgada, cortada com cerca de dez pés de comprimento, apenas talhada até formar uma ponta e com a casca raspada. Embora estreita e rápida, a corrente ainda era profunda, com fundo lodoso, como comprovei mergulhando até ele. Além das plantas que mencionei, observei ali na margem a Salix cordata e a rostrata, a Ranunculus recurvatus e a Rubus triflorus, esta com frutos maduros.

Enquanto estávamos assim ocupados, dois indígenas numa canoa surgiram de repente à vista, contornando os arbustos e descendo a corrente. Nosso indígena conhecia um deles, um velho, e pôs-se a conversar com ele em língua indígena. Ele morava ao pé de Moosehead. O outro pertencia a outro povo. Estavam voltando da caça. Perguntei ao mais jovem se haviam visto algum alce, ao que respondeu que não; mas eu, vendo as peles de alce projetarem-se de um grande fardo feito com seus cobertores no meio da canoa, acrescentei: “Apenas as peles deles.” Como era estrangeiro, talvez quisesse me enganar, pois é contra a lei que homens brancos e estrangeiros matem alces no Maine nessa época do ano. Mas talvez não precisasse ter ficado alarmado, pois os guardas de alces não são muito rigorosos. Ouvi diretamente a história de um deles que, perguntado por um homem branco a caminho dos bosques o que diria se ele matasse um alce, respondeu: “Se me trouxer um quarto dele, acho que não terá problemas.” Seu dever, segundo dizia, era apenas impedir o abate “indiscriminado” dos animais por suas peles. Suponho que consideraria indiscriminado o abate quando não se reservasse um quarto para ele próprio. Tais são as vantagens acessórias desse cargo.

Prosseguimos pela mais extensa mata de lariços que eu já vira, árvores altas e delgadas, com ramos fantásticos. Mas, embora fosse a árvore predominante ali, não me lembro de termos visto nenhuma depois. Não se encontram exemplares dispersos dessa espécie aqui e ali por toda a mata, mas antes uma pequena floresta deles. O mesmo ocorre com os pinheiros-brancos e vermelhos e com algumas outras árvores, para grande conveniência do madeireiro. Têm hábitos sociais, crescendo em “veios”, “tufos”, “grupos” ou “comunidades”, como os exploradores os chamam, distinguindo-os de muito longe, do alto de uma colina ou de uma árvore, com os pinheiros-brancos elevando-se acima da floresta ao redor; ou então formam por si mesmos extensas florestas. Eu teria gostado de encontrar uma grande comunidade de pinheiros que nunca tivesse sido invadida pelo exército da exploração madeireira.

Vimos algumas pegadas recentes de alce ao longo da margem, mas o indígena disse que os alces não eram expulsos dos bosques pelos insetos, como de costume naquela época do ano, por causa da abundância de água em toda parte. A corrente tinha apenas de um rod e meio a três rods de largura, era bastante sinuosa, com pequenas ilhas ocasionais, prados e alguns trechos muito rápidos e rasos. Quando chegávamos a uma ilha, o indígena jamais hesitava sobre qual lado tomar, como se a corrente lhe dissesse qual era o mais curto e profundo. Foi uma sorte para nós que a água estivesse tão alta. Tivemos de caminhar apenas uma vez nesse rio, carregando parte da carga num trecho rápido e raso, enquanto ele subia com a canoa, sem ser obrigado a tirá-la da água, embora dissesse que a corrente era muito forte. Uma ou duas vezes passamos pelos destroços vermelhos de um batel que se partira em alguma primavera.

Durante essa portagem, vi muitos exemplares esplêndidos da grande orquídea púrpura franjada, com três pés de altura. É notável que flores tão delicadas ornamentem aqui esses caminhos da região selvagem.

Depois de retomarmos nossos lugares na canoa, senti o indígena limpando minhas costas, nas quais cuspira por acidente. Disse que era sinal de que eu iria me casar.

Diz-se que o rio Umbazookskus tem dez milhas de extensão. Depois de avançarmos com a vara pelo trecho mais estreito durante umas três ou quatro milhas, a abertura seguinte no céu apareceu sobre o lago Umbazookskus, no qual entramos de repente por volta das onze horas da manhã. Ele se estende para noroeste por quatro ou cinco milhas, e muito além dele se via o que o indígena chamava de montanha Caucomgomoc. Foi uma mudança agradável.

Esse lago era muito raso a grande distância da margem, e vi no fundo montes de pedras como os do Assabet, em nossa terra. A canoa bateu num deles. O indígena pensava que haviam sido feitos por uma enguia. Joe Aitteon, em 1853, julgava que haviam sido feitos por chub. Atravessamos a extremidade sudeste do lago até a portagem para Mud Pond.

O lago Umbazookskus é a nascente do Penobscot nesta direção, e Mud Pond é a nascente mais próxima do Allegash, uma das principais fontes do St. John. Hodge, que passou por este caminho rumo ao St. Lawrence a serviço do Estado, atribui à portagem daqui uma extensão de uma milha e três quartos, e afirma que se verificou que Mud Pond fica catorze pés acima do lago Umbazookskus. Como se considera que o Braço Oeste do Penobscot, na portagem de Moosehead, esteja cerca de vinte e cinco pés abaixo do lago Moosehead, parece que o Penobscot, na parte superior de seu curso, corre por um vale amplo e pouco profundo, entre o Kennebec e o St. John, e abaixo de ambos, embora, a julgar pelo mapa, se pudesse esperar que fosse o mais elevado.

Mud Pond fica aproximadamente a meio caminho entre Umbazookskus e o lago Chamberlain, no qual deságua e para o qual nos dirigíamos. O indígena disse que esta era a portagem mais encharcada do Estado e, como a estação estava muito chuvosa, prevíamos uma caminhada desagradável. Como de costume, ele fez um grande fardo com o barrilzinho de carne de porco, os utensílios de cozinha e outros apetrechos soltos, amarrando-os em seu cobertor. Seríamos obrigados a atravessar a portagem duas vezes, e nosso método consistia em levar metade da carga por parte do caminho e depois voltar para buscar o restante.

Nosso caminho passava bem diante da porta de uma cabana de toras numa clareira, nesta extremidade da portagem. O indígena, o único que entrou, descobriu que ela era ocupada por um canadense e sua família, e que o homem estava cego havia um ano. Parecia especialmente infeliz que tivesse ficado cego ali, onde havia tão poucos olhos para enxergar por ele. Nem sequer poderia ser conduzido para fora daquela região por um cão, mas teria de ser levado rio abaixo pelas corredeiras tão passivamente quanto um barril de farinha. Essa era a primeira casa acima de Chesuncook e a última nas águas do Penobscot, e sem dúvida fora construída ali porque aquele era o caminho dos madeireiros no inverno e na primavera.

Depois de uma ligeira subida desde o lago, através do solo esponjoso da clareira do canadense, entramos numa trilha plana, muito molhada e pedregosa, através da densa e universal floresta de coníferas, nada mais que uma sarjeta de pavimentação frouxa, na qual avançávamos saltando de pedra em pedra e de um lado para outro, na vã tentativa de evitar a água e a lama. Concluímos que ainda eram águas do Penobscot, embora não houvesse correnteza. Foi nessa portagem que o caçador branco que encontrei na diligência, segundo me contou, havia abatido dois ursos alguns meses antes. Eles estavam bem no meio da trilha e não lhe deram passagem. Poderiam ser desculpados por não se desviarem ali, ou por apenas tomarem a direita, como manda a lei. Ele disse que, naquela estação, os ursos eram encontrados nas montanhas e encostas em busca de frutas silvestres, e tendiam a ser atrevidos; que poderíamos topar com eles mais acima, em Trout Stream. E acrescentou, coisa em que mal acreditei, que muitos indígenas dormiam em suas canoas, sem se atrever a dormir em terra por causa deles.

Aqui começa o que, vinte anos atrás, era chamado de melhor região madeireira do Estado. Este exato lugar foi descrito como “coberto pela maior abundância de pinheiros”, mas agora o pinheiro me pareceu, comparativamente, uma árvore incomum ali; e, no entanto, não se via onde mais algum poderia ter crescido em meio à densa vegetação de cedros, abetos etc. Na época, propôs-se abrir aqui um canal de um lago ao outro, mas a saída acabou sendo construída mais a leste, no lago Telos, como veremos.

O indígena, com sua canoa, logo desapareceu à nossa frente; mas não demorou a voltar e nos disse que tomássemos uma trilha que se desviava para oeste, pois era melhor para caminhar. Por sugestão minha, concordou em deixar um ramo na portagem regular, naquele ponto, para que não passássemos por ele por engano. Daí em diante, disse ele, deveríamos seguir a trilha principal, e acrescentou: “Vocês vê minhas pegadas.” Mas eu não tinha muita confiança em que conseguiríamos distinguir suas pegadas, pois outros haviam atravessado a portagem nos últimos dias.

Desviamo-nos no ponto certo, mas logo ficamos confusos com os numerosos caminhos madeireiros que convergiam para aquele em que estávamos e pelos quais os madeireiros haviam ido selecionar os pinheiros que mencionei. Ainda assim, seguimos o que considerávamos a trilha principal, embora fosse sinuosa, e nela, a longos intervalos, distinguíamos um vestígio tênue de passo. Embora relativamente pouco usada, ela era, a princípio, uma estrada melhor ou, pelo menos, mais seca do que a portagem regular que havíamos deixado. Conduzia através de uma mata erma de tuias do aspecto mais sombrio. As grandes árvores caídas e apodrecidas haviam sido cortadas e roladas para o lado, e seus enormes troncos terminavam junto à trilha de ambos os lados, enquanto outros ainda a atravessavam a dois ou três pés de altura. Era impossível discernir o rastro do indígena no musgo elástico que, como um tapete espesso, cobria todas as pedras e árvores caídas, além do próprio chão. Ainda assim, de vez em quando eu de fato detectava a pegada de um homem, e me atribuía algum mérito por isso. Levei toda a minha carga de uma só vez: uma mochila pesada e um grande saco de borracha-da-índia contendo nosso pão e um cobertor, suspenso numa pá de remo; ao todo, cerca de sessenta libras. Meu companheiro, porém, preferiu fazer duas viagens em trechos curtos, enquanto eu o esperava. Não podíamos ter certeza de que, a cada vez, não estávamos depositando nossas cargas cada vez mais longe da trilha verdadeira.

Enquanto eu permanecia sentado à espera de meu companheiro, ele parecia demorar muito, e tive ampla oportunidade de fazer observações sobre a floresta. Foi então que comecei, pela primeira vez, a ser seriamente importunado pela borrachudo, uma mosca muito pequena, mas perfeitamente formada, dessa cor, com cerca de um décimo de polegada de comprimento, que primeiro senti e depois vi em enxames ao meu redor, enquanto me sentava junto a uma bifurcação mais larga e mais duvidosa do que de costume naquela trilha escura da floresta. Os caçadores contam histórias sangrentas a respeito delas: como formam um anel ao redor do pescoço antes que se perceba e são removidas em grande número junto com o sangue da pessoa. Mas, lembrando-me de que tinha na mochila uma loção preparada por mãos atenciosas em Bangor, apressei-me a aplicá-la no rosto e nas mãos, e fiquei satisfeito ao constatar que era eficaz enquanto permanecia fresca, ou por vinte minutos, não apenas contra as borrachudos, mas contra todos os insetos que nos importunavam. Eles não pousavam na parte assim protegida. Era composta de azeite doce e óleo de terebintina, com um pouco de óleo de hortelã-verde e cânfora. Contudo, por fim concluí que o remédio era pior do que a doença. Era muito desagradável e incômodo ter o rosto e as mãos cobertos por semelhante mistura.

Três grandes aves cor de ardósia do gênero dos gaios (Garrulus Canadensis), o gaio-do-canadá, ave-do-alce, ave-da-carne ou como quer que se chame, vieram esvoaçando silenciosamente e aos poucos em minha direção, e desceram pelos galhos aos pulos, curiosas, até ficarem a sete ou oito pés de mim. Eram mais desajeitadas e nem de longe tão bonitas quanto o gaio-azul. Águias-pescadoras vindas do lago soltavam seus gritos agudos e assobiados, voando baixo sobre a copa da floresta perto de mim, como se estivessem inquietas por causa de um ninho ali.

Depois de ficar sentado ali por algum tempo, notei, nessa bifurcação da trilha, uma árvore marcada a machado, na qual estavam escritas com giz vermelho as letras “Chamb. L.”. Eu sabia que significavam lago Chamberlain. Concluí, portanto, que, de modo geral, estávamos no rumo certo, embora, como já tivéssemos percorrido quase duas milhas e não víssemos sinal algum de Mud Pond, eu de fato alimentasse a suspeita de que poderíamos estar seguindo diretamente para o lago Chamberlain, deixando Mud Pond de lado. Pelo mapa, verifiquei que seriam cerca de cinco milhas para nordeste, e então tomei o rumo com a bússola.

Quando meu companheiro voltou com seu saco, tendo também protegido o rosto e as mãos com a loção contra insetos, retomamos a marcha. O terreno piorou rapidamente, e a trilha tornou-se mais indistinta, até que, depois de atravessarmos uma área de Calla palustris, ainda abundantemente florida, vimo-nos num pântano mais aberto e regular, menos transitável do que de costume por causa da umidade excepcional da estação. A cada passo, afundávamos um pé na água e na lama, e às vezes até os joelhos, e o rastro estava quase apagado, não passando daquele que um rato-almiscarado deixa em lugares semelhantes ao separar a ciperácea flutuante. De fato, em alguns pontos provavelmente era mesmo um rastro de rato-almiscarado. Concluímos que, se Mud Pond fosse tão lamacento quanto era molhada a aproximação até ele, certamente merecia seu nome. Teria sido divertido contemplar o passo obstinado e deliberado com que entramos naquele pântano, sem trocar uma palavra, como se estivéssemos decididos a atravessá-lo ainda que a água nos chegasse ao pescoço. Depois de penetrarmos uma distância considerável nele e encontrarmos uma touceira sobre a qual podíamos depositar nossas cargas, embora não houvesse onde sentar, meu companheiro voltou para buscar o restante de sua bagagem. Eu havia pensado em observar, durante esta portagem, o momento em que cruzássemos a divisória entre o Penobscot e o St. John; mas, como meus pés mal haviam saído da água em todo o percurso, e tudo era plano e estagnado, comecei a perder a esperança de encontrá-la. Lembrei-me de ter ouvido falar muito das “terras altas” que dividiam as águas do Penobscot das do St. John, bem como das do St. Lawrence, na época da disputa da fronteira nordeste; e observei em meu mapa que a linha reivindicada pela Grã-Bretanha como fronteira antes de 1842 passava entre o lago Umbazookskus e Mud Pond, de modo que ou já a havíamos cruzado ou estávamos então sobre ela. Estas eram, portanto, segundo a interpretação dela do tratado de 1783, as “terras altas que separam os rios que deságuam no St. Lawrence daqueles que desembocam no oceano Atlântico”. Era, de fato, um lugar interessante para ficar de pé, caso fosse aquele, embora ali não fosse possível sentar-se. Pensei que, se os próprios comissários, acompanhados pelo rei da Holanda, tivessem passado alguns dias ali, com suas cargas às costas, procurando aquelas “terras altas”, teriam vivido momentos interessantes, e talvez isso houvesse modificado um pouco suas opiniões sobre a questão. O rei da Holanda teria estado em seu elemento. Tais eram minhas meditações enquanto meu companheiro voltava para buscar seu saco.

Era um pântano de cedros, através do qual a nota peculiar do pardal-de-garganta-branca ressoava alta e clara. Ali cresciam a flor-de-sela, o chá-do-labrador, a Kalmia glauca e, novidade para mim, a bétula-anã (Betula pumila), um pequeno arbusto de folhas redondas, com apenas dois ou três pés de altura. Pensamos em dar ao pântano o nome desta última.

Depois de muito tempo, meu companheiro voltou, e o indígena vinha com ele. Havíamos tomado a estrada errada, e o indígena nos perdera. Com muita sensatez, ele voltara ao acampamento do canadense e lhe perguntara por onde provavelmente havíamos ido, pois o canadense podia compreender melhor os modos dos homens brancos. Ele lhe disse corretamente que sem dúvida havíamos tomado a estrada de abastecimento para o lago Chamberlain (escassos suprimentos conseguiriam levar por semelhante estrada naquela estação). O indígena ficou muito surpreso por termos tomado o que chamava de estrada de “tow” (isto é, de transporte ou abastecimento), em vez de uma trilha de portagem; por não termos seguido suas pegadas. Disse que era “estranho” e evidentemente fez pouco caso de nossa habilidade na mata.

Depois de deliberarmos e comermos um pedaço de pão, concluímos que talvez agora fosse mais perto, para nós dois, prosseguir até o lago Chamberlain, omitindo Mud Pond, do que voltar e recomeçar a marcha para este último lugar, embora o indígena nunca tivesse passado por aquele caminho e nada soubesse a seu respeito. Enquanto isso, ele voltaria e terminaria de transportar sua canoa e seu fardo até Mud Pond, atravessaria o lago, desceria por seu escoadouro e subiria pelo lago Chamberlain, confiando em encontrar-nos ali antes do anoitecer. Já passava um pouco do meio-dia. Ele supunha que a água em que estávamos havia refluído de Mud Pond, que não podia estar muito longe para leste, mas era inacessível através do denso pântano de cedros.

Prosseguindo, não tardamos a ter uma agradável surpresa ao alcançar terreno mais firme, e atravessamos uma elevação onde o caminho era mais distinto, embora nunca se abrisse vista alguma sobre a floresta. Ao descer a última, vi muitos exemplares da grande orquídea de folhas redondas, de tamanho considerável; um que medi tinha folhas, como de costume, estendidas rente ao chão, com nove polegadas e meia de comprimento e nove de largura, e atingia dois pés de altura. A região selvagem, escura e úmida, favorece algumas dessas plantas orquidáceas, embora sejam delicadas demais para o cultivo. Vi também a groselheira-do-pântano (Rides lacustre), com frutos verdes, e, em todo o terreno baixo onde não era úmido demais, o Rubus triflorus com frutos. Em certo ponto, ouvi de um pequeno gavião uma nota muito límpida e penetrante, semelhante a uma única nota de um pardal-de-garganta-branca, porém muito mais forte, enquanto ele se lançava pelas copas das árvores sobre minha cabeça. Admirei-me de que se deixasse perturbar por nossa passagem, pois parecia que nem ele próprio poderia reencontrar facilmente o ninho naquela região selvagem. Também vimos e ouvimos várias vezes o esquilo-vermelho e, com frequência, como já observei, as escamas azuladas das pinhas de abeto que ele deixara sobre uma pedra ou uma árvore caída. Segundo o indígena, esse é o único esquilo encontrado naqueles bosques, com exceção de pouquíssimos esquilos-listrados. Deve levar uma vida solitária naquela escura floresta perene, onde há tão pouca vida, a setenta e cinco milhas de uma estrada, como havíamos percorrido. Eu me perguntava como podia chamar de lar qualquer árvore em particular naquele lugar; e, no entanto, ele subia correndo pelo tronco de uma entre as miríades, como se fosse para ele uma velha estrada. Como pode um gavião encontrá-lo ali? Imaginei que devia alegrar-se ao nos ver, embora parecesse ralhar conosco. Um daqueles bosques sombrios de abetos e píceas não fica completo sem que se ouça, saindo de seus recessos cavernosos, musgosos e cheios de gravetos, seu fino alarme, sua voz de pícea, semelhante ao movimento da seiva por alguma fenda de uma árvore, ao fermento da cerveja de pícea. De vez em quando, um sujeito impertinente desses tentava alarmar o bosque a meu respeito. “Ora”, disse eu, “conheço muito bem a sua família, conheço muito bem seus primos em Concord. Imagino que o correio seja irregular por estas bandas e que você gostaria de ter notícias deles.” Mas minhas propostas foram inúteis, pois ele se retirava por suas estradas de pedágio aéreas para o topo mais distante de um cedro e tornava a disparar seu chocalho.

Entramos então em outro pântano, avançando necessariamente devagar, onde a caminhada era pior do que nunca, não só por causa da água, mas também da madeira caída, que muitas vezes apagava por completo a trilha indistinta. As árvores caídas eram tão numerosas que, por longas distâncias, o percurso passava por uma sucessão de pequenos quintais, nos quais escalávamos cercas tão altas quanto nossa cabeça, descíamos para a água, muitas vezes até os joelhos, depois passávamos por outra cerca para um segundo quintal, e assim por diante; e, ao voltar para buscar sua sacola, meu companheiro certa vez perdeu o caminho e retornou sem ela. Em muitos lugares, a canoa teria navegado, não fosse a madeira caída. Depois o terreno tornava a ficar mais aberto, mas igualmente molhado, molhado demais para que crescessem árvores, e sem lugar algum onde sentar. Era um pântano musgoso, que exigia as pernas compridas de um alce para ser atravessado, e é muito provável que tenhamos espantado alguns durante nossa passagem, embora não víssemos nenhum. Parecia pronto a ecoar o rosnado de um urso, o uivo de um lobo ou o grito de uma pantera; mas, quando se entra de fato no meio de uma dessas florestas sinistras, surpreende descobrir que os habitantes maiores em geral não estão em casa e deixaram apenas um franzino esquilo-vermelho para latir para você. De modo geral, uma região selvagem ululante não ulula: é a imaginação do viajante que solta os uivos. Vi, contudo, um porco-espinho morto; talvez tivesse sucumbido às dificuldades do caminho. Esses sujeitos eriçados são um frutinho muito apropriado de regiões selvagens tão desgrenhadas.

Abrir um caminho madeireiro nos bosques do Maine é chamado de “swamping”, e os que fazem o trabalho são chamados de “swampers”. Percebi então a propriedade do termo. Esse era o mais perfeitamente convertido em pântano de todos os caminhos que já vi. A Natureza deve ter cooperado ali com a arte. Suponho, contudo, que diriam que o nome se originou do fato de que o principal trabalho dos abridores de caminhos naqueles bosques é tornar transitáveis os pântanos. Chegamos a um córrego onde a ponte, feita de toras amarradas com casca de cedro, se desmanchara, e atravessamos como pudemos. Provavelmente desaguava em Mud Pond, e talvez o indígena pudesse tê-lo subido e nos recolhido ali, caso soubesse. Tal como era, essa ponte arruinada constituía a principal prova de que estávamos em algum tipo de caminho.

Atravessamos então outro terreno baixo e ligeiramente elevado, e eu, que usava sapatos, tive a oportunidade de torcer as meias, mas meu companheiro, que usava botas, descobrira que essa não era uma experiência segura para ele, pois talvez não conseguisse tornar a calçar as botas molhadas. Ele percorreu todo o terreno, ou toda a água, três vezes, razão pela qual nosso avanço foi muito lento; além disso, a água amolecia nossos pés e, em certa medida, os tornava impróprios para caminhar. Enquanto eu me sentava à sua espera, naturalmente parecia inexplicável o tempo que ele levava. Portanto, como eu podia ver através dos bosques que o sol já baixava, e era incerto quão longe estaria o lago, mesmo que estivéssemos no rumo certo, e em que parte do mundo nos encontraríamos ao cair da noite, propus avançar com toda a rapidez possível, deixando galhos para marcar meu caminho, encontrar o lago e o indígena, se possível, antes do anoitecer, e mandar este último de volta para carregar a sacola de meu companheiro.

Depois de percorrer cerca de uma milha e tornar a entrar em terreno baixo, ouvi um som semelhante ao pio de uma coruja, que logo descobri ser produzido pelo indígena; respondi, e pouco depois nos encontramos. Ele chegara ao lago depois de atravessar Mud Pond e descer algumas corredeiras abaixo dele, e havia subido cerca de uma milha e meia por nosso caminho. Caso não tivesse voltado para nos encontrar, provavelmente não o teríamos achado naquela noite, pois o caminho se bifurcava uma ou duas vezes antes de alcançar essa parte específica do lago. Assim, ele voltou para buscar meu companheiro e sua sacola, enquanto eu prosseguia. Depois de vadear outro córrego, onde a ponte de toras se desmanchara e fora meio levada pela água, e isso não era de todo pior que nossa caminhada habitual, pois havia menos lama, continuamos, alternando lama e água, até a margem do lago Apmoojenegamook, que alcançamos a tempo de uma ceia tardia, em vez de almoçarmos ali, como esperávamos, pois havíamos ficado sem almoço. Eram pelo menos cinco milhas pelo caminho que havíamos percorrido e, como meu companheiro passara por quase tudo três vezes, caminhara boas doze milhas, ruins como eram. No inverno, quando a água está congelada e a neve tem quatro pés de profundidade, é sem dúvida um caminho tolerável para quem vai a pé. Tal como foi, eu não teria perdido aquela caminhada por muita coisa. Caso queira uma receita exata para fazer um caminho assim, tome uma parte de Mud Pond e dilua-a com partes iguais de Umbazookskus e Apmoojenegamook; depois mande uma família de ratos-almiscarados atravessá-lo para traçar o percurso, cuidar das inclinações e dos bueiros e acabá-lo ao gosto deles, e faça passar em seguida um furacão para erguer as cercas.

Saímos numa ponta que avançava pelo Apmoojenegamook, ou lago Chamberlain, a oeste da saída de Mud Pond, onde havia uma margem larga, pedregosa e coberta de cascalho, atravancada de toras e árvores descoradas. Alegramo-nos ao ver coisas tão secas naquela parte do mundo. Mas, de início, não demos tanta atenção à secura quanto à lama e à umidade. Nós três entramos no lago até a cintura para lavar as roupas.

Era outro lago majestoso, considerado com doze milhas de comprimento, de leste a oeste; caso se acrescente o lago Telos, que, desde a construção da barragem, ficou ligado a ele por águas paradas, terá vinte; e aparentemente mede de uma milha e meia a duas milhas de largura. Estávamos mais ou menos no meio de seu comprimento, no lado sul. Podíamos ver a única área aberta por aquelas bandas, chamada “Fazenda Chamberlain”, com duas ou três construções de toras bem juntas, na margem oposta, a cerca de duas milhas e meia de distância. A fumaça de nossa fogueira na margem trouxe da fazenda dois homens numa canoa, pois esse era um sinal comum, combinado para quando alguém desejava atravessar. Levaram cerca de meia hora para chegar, e dessa vez tiveram o trabalho por nada. Até o nome inglês do lago possuía uma sonoridade selvagem e silvestre, lembrando-me aquele Chamberlain que matou Paugus no combate de Lovewell.

Depois de vestirmos as roupas secas que tínhamos e pendurarmos as demais para secar na vara que o indígena armou sobre o fogo, comemos a ceia e nos deitamos na margem pedregosa, com os pés voltados para o fogo, sem armar a tenda, fazendo uma cama fina de capim para cobrir as pedras.

Foi ali que pela primeira vez fui importunado pelo minúsculo mosquito chamado no-see-em (Simulium nocivum, a última palavra não é o latim de no-see-em), sobretudo sobre a areia à beira da água, pois é uma espécie de mosquito-da-areia. Você não os notaria, não fossem suas asas claras. Dizem que entram por baixo da roupa e produzem um calor febril, que suponho ter sido o que senti naquela noite.

Para resumir nossos inimigos insetos nesta excursão, havia, em primeiro lugar, os mosquitos, os principais, mas incômodos apenas à noite ou quando ficávamos sentados e imóveis na margem durante o dia; em segundo, os borrachudos (Simulium molestum), que nos importunavam mais ou menos durante o dia nas portagens, como já descrevi, e às vezes nas partes mais estreitas do curso d’água. Harris se engana quando diz que não são vistos depois de junho. Em terceiro lugar, as moscas-do-alce. As grandes, disse Polis, eram chamadas Bososquasis. Trata-se de uma mosca robusta e marrom, muito parecida com uma mutuca, com cerca de onze dezesseis avos de polegada de comprimento, geralmente de cor ferruginosa por baixo e com asas sem manchas. Segundo Polis, podem dar mordidas dolorosas, mas são facilmente evitadas ou mortas. Em quarto lugar, os no-see-ems acima mencionados. De todos esses, os mosquitos foram os únicos que me incomodaram seriamente; mas, como eu estava munido de uma loção e de um véu, não deixaram impressão profunda alguma.

O indígena não quis usar nossa loção para proteger o rosto e as mãos, com receio de que prejudicasse sua pele, nem possuía véu algum; por isso sofreu com os insetos, então e durante toda essa viagem, mais do que qualquer um de nós. Creio que sofria mais do que eu quando nenhum dos dois estava protegido. Ele regularmente amarrava o lenço em torno do rosto e o enterrava no cobertor, e por fim se deitou na areia entre nós e o fogo por causa da fumaça, que tentava fazer entrar no cobertor ao redor do rosto; com o mesmo propósito, acendeu o cachimbo e soprou a fumaça para dentro do cobertor.

Enquanto jazíamos assim na margem, sem nada entre nós e as estrelas, perguntei-lhe quais estrelas conhecia ou para quais possuía nomes. Eram a Ursa Maior, que ele chamava por esse nome, as Sete Estrelas, para as quais não tinha nome em inglês, “a estrela da manhã” e “a estrela do norte”.

No meio da noite, como de fato acontecia toda vez que nos deitávamos à margem de um lago, ouvimos a voz da mobelha-grande, alta e distinta, vinda de longe, sobre o lago. É um som muito selvagem, inteiramente de acordo com o lugar e com as circunstâncias do viajante, e muito diferente da voz de uma ave. Eu poderia ficar desperto durante horas a ouvi-lo, de tão emocionante que é. Ao acampar numa região selvagem como esta, estamos preparados para ouvir sons de alguns de seus habitantes que deem voz à sua natureza selvagem. Alguma ideia de ursos, lobos ou panteras naturalmente nos passa pela cabeça, e, quando essa nota é ouvida pela primeira vez, muito ao longe, à meia-noite, enquanto se está deitado com o ouvido junto ao chão, com a floresta perfeitamente imóvel ao redor, toma-se por certo que é a voz de um lobo ou de alguma outra fera, pois à distância só se ouve a última parte; conclui-se que é uma alcateia de lobos ladrando para a lua ou, talvez, seguindo a trote um alce. Por estranho que pareça, o “mugido” de uma vaca na encosta de uma montanha é o que mais se aproxima da minha ideia da voz de um urso; e a nota dessa ave se assemelhava a isso. Era o som infalível e característico daqueles lagos. Não tivemos a sorte de ouvir lobos uivando, embora essa seja uma serenata ocasional. Alguns amigos meus, que dois anos antes haviam subido o rio Caucomgomoc, receberam uma serenata de lobos enquanto caçavam alces ao luar. Foi uma irrupção súbita, como se uma centena de demônios tivesse escapado, um som assustador o bastante, que, se algum pode fazê-lo, faria os cabelos se arrepiarem, e tudo tornou a ficar imóvel. Durou apenas um instante, e seria possível pensar que havia vinte deles, quando provavelmente eram apenas dois ou três. Ouviram-no somente duas vezes, e disseram que aquilo deu expressão à região selvagem, expressão que antes lhe faltava. Ouvi falar de alguns homens que, enquanto esfolavam recentemente um alce naqueles bosques, foram expulsos da carcaça por uma alcateia de lobos, que a devorou.

Esse som da mobelha-grande, não me refiro ao seu riso, mas ao seu chamado característico, é um chamado prolongado, por assim dizer, às vezes singularmente humano aos meus ouvidos, hu-hu-uuuuu, como o brado de um homem num tom muito agudo, depois de lançar a voz para a cabeça. Ouvi um som exatamente igual quando respirava pesadamente pelas próprias narinas, meio acordado, às dez da noite, o que sugeria meu parentesco com a mobelha-grande, como se, afinal, a linguagem dela fosse apenas um dialeto da minha. Antigamente, quando ficava desperto à meia-noite naqueles bosques, eu escutava na esperança de ouvir algumas palavras ou sílabas da língua de seus habitantes, mas sucedeu que escutei em vão até ouvir o grito da mobelha-grande. Já o ouvi ocasionalmente nas lagoas de minha cidade natal, mas ali sua natureza selvagem não é realçada pela paisagem circundante.

Fui despertado à meia-noite por alguma ave pesada que voava baixo, provavelmente uma mobelha-grande, batendo as asas bem perto sobre a minha cabeça, ao longo da margem. Assim, voltando para o fogo o outro lado de meu corpo seminu, procurei dormir novamente.

TERÇA-FEIRA, 28 de julho.

Quando acordamos, encontramos um orvalho intenso sobre nossos cobertores. Fiquei desperto desde muito cedo e ouvi o claro e estridente ah, ti ti, ti ti, ti do pardal-de-garganta-branca, repetido em breves intervalos, sem a menor variação, durante meia hora, como se ele nunca pudesse expressar suficientemente sua felicidade. Não sei se meus companheiros o ouviram ou não, mas para mim foi uma espécie de matinas e o acontecimento daquela manhã.

Foi um nascer do sol agradável, e tivemos uma vista das montanhas a sudeste. Ktaadn aparecia aproximadamente a sul-sudeste. Uma montanha de cume duplo, aproximadamente a leste-sudeste, e outra parte da mesma, a leste-sudeste. A última, o indígena chamava de Nerlumskeechticook, e disse que ficava na nascente do Braço Leste e que passaríamos perto dela ao regressar por aquele caminho.

Lavamo-nos mais um pouco no lago naquela manhã e, com nossas roupas penduradas nas árvores mortas e nas rochas, a margem parecia um dia de lavagem de roupa em casa. O indígena, captando a sugestão, tomou o sabão emprestado e, entrando no lago, lavou no próprio corpo sua única camisa de algodão; depois vestiu as calças e deixou que ela secasse nele.

Observei que ele vestia uma camisa de algodão, originalmente branca, uma de flanela esverdeada por cima, mas nenhum colete, ceroulas de flanela e calças resistentes de linho ou lona, que também haviam sido brancas, meias de lã azul, botas de couro bovino e um chapéu Kossuth. Não carregava muda de roupa alguma, mas, vestindo um casaco grosso e resistente, que deixava de lado na canoa, e apanhando um machado de tamanho normal, sua arma e munição, e um cobertor, que serviria de vela ou mochila, se necessário, e afivelando o cinto, que continha uma grande faca de bainha, partia de imediato, pronto para ficar fora durante todo o verão. Isso parecia muito independente: algumas ferramentas simples e eficazes, e nenhuma roupa de borracha. Era sempre o primeiro a estar pronto para partir pela manhã e, se seu cobertor não contivesse alguns de nossos pertences, nem sequer teria sido obrigado a enrolá-lo. Em vez de carregar um grande embrulho com roupas extras próprias e outras coisas, ele trouxe de volta, amarradas em seu cobertor, as grandes peles dos alces. Descobri que seu equipamento era resultado de longa experiência e, em linhas gerais, dificilmente poderia ser melhorado, a não ser com lavagens e uma camisa extra. Precisando de um botão, afastou-se até um lugar onde alguns indígenas haviam acampado recentemente e procurou um, mas creio que em vão.

Depois de amaciarmos nossas botas e sapatos endurecidos com a gordura de porco, destino habitual do que sobrava do café da manhã, atravessamos cedo o lago, seguindo em diagonal por cerca de quatro milhas rumo ao nordeste, até a saída, que só podia ser descoberta quando já estávamos perto dela. O nome indígena, Apmoojenegamook, significa lago que é atravessado, porque o percurso habitual passa através dele, e não ao longo dele. Este é o maior dos lagos do Allegash e foi a primeira água do São João sobre a qual flutuamos. Em linhas gerais, tem a forma de Chesuncook. Não há montanhas nem colinas altas muito próximas. Em Bangor, haviam-nos falado de um município muitas milhas mais a noroeste; indicaram-no como contendo o terreno mais elevado das redondezas, onde, subindo em determinada árvore da floresta, poderíamos obter uma ideia geral do país. Não tenho dúvida de que este último era um bom conselho, mas não fomos até lá. Não pretendíamos descer muito o Allegash, mas apenas avistar os grandes lagos que são sua fonte e depois regressar por este caminho ao Braço Leste do Penobscot. A água agora, por direito, corria para o norte, se é que se podia dizer que corria.

Depois de alcançarmos o meio do lago, verificamos que as ondas, como de costume, estavam bastante altas, e o indígena advertiu meu companheiro, que cochilava, de que não devia se deixar adormecer na canoa para não nos virar; acrescentou que, quando os indígenas querem dormir numa canoa, deitam-se estendidos no fundo. Mas, naquela canoa apinhada, isso era impossível. Disse, contudo, que lhe daria uma cotovelada se o visse cochilar.

Uma faixa de árvores mortas circundava todo o lago, algumas muito longe dentro da água, com outras caídas atrás delas, e tornavam a margem, na maior parte, quase inacessível. Esse é o efeito da barragem na saída. Assim, a margem natural, arenosa ou rochosa, com sua franja verde, fora ocultada e destruída. Costeamos para oeste ao longo do lado norte, procurando a saída, a cerca de um quarto de milha dessa margem de aspecto selvagem, contra a qual as ondas quebravam violentamente, sabendo que ela poderia estar facilmente escondida em meio àquele entulho ou pela sobreposição das margens. É notável como esses importantes portais de um lago são pouco anunciados. Não há arco triunfal sobre a modesta entrada ou saída; em algum ponto indistinto, porém, a água goteja para dentro ou para fora através da floresta ininterrupta, quase como através de uma esponja.

Chegamos à saída em cerca de uma hora e fizemos a portagem sobre a barragem que havia ali, uma estrutura bastante sólida; cerca de um quarto de milha adiante havia uma segunda barragem. O leitor perceberá que o resultado desse represamento específico em torno do lago Chamberlain é fazer com que as cabeceiras do São João fluam por Bangor. Represaram assim todos os lagos maiores, elevando em muitos pés suas vastas superfícies; Moosehead, por exemplo, com cerca de quarenta milhas de comprimento e um vapor navegando sobre ele; voltando desse modo as forças da natureza contra ela própria, para que pudessem fazer flutuar seus despojos para fora do país. Eles retiram rapidamente dessas imensas florestas toda a madeira de pinheiro mais fina e mais acessível e depois deixam os ursos a vigiar as barragens em decomposição, sem limpar nem cultivar a terra, sem abrir estradas nem construir casas, mas deixando-a tão selvagem quanto a encontraram. Em muitas partes, restam apenas essas barragens, como represas de castores abandonadas. Pensem em quanta terra inundaram sem pedir licença à Natureza! Quando o Estado deseja dotar uma academia ou universidade, concede-lhe uma extensão de terra florestal: uma serra representa uma academia; um conjunto de serras, uma universidade.

A região selvagem experimenta uma elevação súbita de todos os seus rios e lagos. Sente dez mil vermes roendo a base de suas árvores mais nobres. Muitos, combinando esforços, arrastam-nas para longe, fazendo-as sacudir sobre as raízes das sobreviventes, e as lançam no curso d’água mais próximo, até que, tendo tombado as mais belas, partem às pressas para saquear alguma nova região selvagem, e tudo torna a ficar imóvel. É como quando um exército migrante de camundongos anela uma floresta de pinheiros. O lenhador derruba árvores pelo mesmo motivo que o camundongo as rói: para ganhar a vida. Dizem-me que ele tem uma família mais interessante que a do camundongo. Isso depende das circunstâncias. Ele fala de um “lote” de madeira, um bom lugar em que se meter, assim como faria um verme. Quando o lenhador quer louvar um pinheiro, costuma dizer que aquele que cortou era tão grande que uma junta de bois podia ficar de pé sobre o toco; como se fosse para isso que o pinheiro tivesse crescido, para se tornar o escabelo dos bois. Aos olhos da mente, posso ver esses desajeitados cervos domésticos, com uma canga a prendê-los um ao outro e chifres de pontas revestidas de bronze traindo sua servidão, tomando posição sobre o toco de cada pinheiro gigante, um após outro, por toda esta floresta, e ali ruminando, até que ela não seja nada além de pasto para bois e, ainda assim, esgotado. Como se isso fizesse bem aos bois e alguma qualidade terebíntica ou medicinal lhes subisse pelas narinas. Ou será que sua posição elevada se destina apenas a simbolizar o fato de que a vida pastoril vem logo depois da vida silvestre ou de caçador?

O caráter da admiração do madeireiro é traído pelo próprio modo como ele a exprime. Se dissesse tudo o que tem em mente, diria: era tão grande que eu o derrubei e então uma junta de bois pôde ficar de pé sobre o toco. Ele admira a tora, a carcaça ou o cadáver, mais do que a árvore. Ora, meu caro senhor, a árvore poderia ter permanecido de pé sobre o próprio toco, com muito mais conforto e firmeza do que uma junta de bois, caso o senhor não a tivesse derrubado. Que direito tem de celebrar as virtudes do homem que assassinou?

O anglo-americano pode, de fato, derrubar e arrancar pelas raízes toda esta floresta ondulante, fazer um discurso de palanque e votar em Buchanan sobre suas ruínas, mas não pode conversar com o espírito da árvore que abate, não pode ler a poesia e a mitologia que recuam à medida que ele avança. Apaga por ignorância tábuas mitológicas para imprimir nelas seus panfletos e editais de reunião municipal. Antes de aprender seu a b c na bela, porém mística, tradição da região selvagem que Spenser e Dante mal haviam começado a ler, ele a derruba, cunha um xelim do pinheiro (como se quisesse indicar o valor que o pinheiro tem para ele), ergue uma escola distrital e introduz a cartilha ortográfica de Webster.

Abaixo da última barragem, como o rio era rápido e raso, embora largo o suficiente, nós dois caminhamos cerca de meia milha para aliviar a canoa. Eu adotara como regra carregar a mochila quando caminhava e também mantê-la amarrada a uma travessa quando estava na canoa, para que pudesse ser encontrada com a canoa caso virássemos.

Ouvi ali a cigarra dos dias de cão e, mais tarde, nas portagens, um som que eu associava apenas a regiões mais abertas, quando não povoadas. A área disponível para cigarras deve ser pequena nos bosques do Maine.

Estávamos agora de fato no rio Allegash, nome que, segundo nosso indígena, significava casca de tsuga. Essas águas correm para o norte por cerca de cem milhas, a princípio muito debilmente, depois por mais duzentas e cinquenta milhas rumo ao sudeste, até a baía de Fundy. Depois de talvez duas milhas de rio, entramos no lago Heron, chamado no mapa de Pongokwahem, espantando na entrada quarenta ou cinquenta shecorways jovens, mergansos, que correram sobre a água com grande rapidez, como de costume, em uma longa fila.

Este era o quarto grande lago, estendendo-se de noroeste a sudeste, como Chesuncook e a maioria dos lagos longos daquela região, e, a julgar pelo mapa, tem cerca de dez milhas de comprimento. Havíamos entrado pelo lado sudoeste e vimos uma montanha escura a nordeste, além do lago, não muito distante nem alta, que o indígena disse chamar-se Peaked Mountain e ser usada pelos exploradores para procurar madeira. Havia também outras terras altas mais a leste. As margens estavam na mesma condição irregular e desagradável, atravancadas de madeira morta, tanto caída quanto ainda em pé, como no lago anterior, devido à barragem no Allegash mais abaixo. Alguns pontos baixos ou ilhas estavam quase submersos.

Vi algo branco a uma milha de distância sobre a água, que se revelou ser uma grande gaivota pousada numa rocha no meio do lago, a qual o indígena teria tido prazer em matar e comer, mas ela voou para longe muito antes que nos aproximássemos; e também um bando de patos-de-verão que estavam junto à rocha com ela. Perguntei-lhe sobre garças, pois aquele era o Lago Heron, e ele disse que encontrava os ninhos da garça-azul nas árvores de madeira de lei. Pareceu-me ver um objeto de cor clara mover-se ao longo da margem oposta, ou setentrional, a quatro ou cinco milhas de distância. Ele não sabia o que poderia ser, a menos que fosse um alce, embora nunca tivesse visto um branco; mas disse que conseguia distinguir um alce “em qualquer ponto da margem, do outro lado inteiro do lago”.

Contornando uma ponta, atravessamos uma baía por uma milha e meia ou duas milhas, em direção a uma grande ilha, três ou quatro milhas lago abaixo. Encontramos efêmeras (shadfly) no meio do caminho, a cerca de uma milha da margem, e elas evidentemente voam sobre o lago inteiro. Em Moosehead eu vira uma grande libélula a meia milha da margem, vindo do meio do lago, onde este tinha pelo menos três ou quatro milhas de largura. Provavelmente o atravessara. Mas por fim, é claro, chega-se a lagos tão grandes que um inseto não consegue voar de uma margem à outra; e isso, talvez, sirva para distinguir um lago grande de um pequeno.

Desembarcamos no lado sudeste da ilha, que era um tanto elevada e densamente arborizada, com margem rochosa, a tempo de um almoço antecipado. Alguém acampara ali não muito antes e deixara a armação sobre a qual esticara uma pele de alce, que nosso indígena criticou severamente, julgando que revelava pouquíssima habilidade nas matas. Havia ali muitas carapaças de lagostins, ou lagostas de água doce, levadas à margem pelas águas, como as que deram nome a certos lagos e cursos d’água. Têm comumente quatro ou cinco polegadas de comprimento. O indígena tratou imediatamente de cortar uma bétula para canoa, inclinou-a contra outra árvore na margem, amarrou-a com um vime e deitou-se para dormir à sua sombra.

Quando estávamos no Caucomgomoc, ele nos recomendara um novo caminho para casa, precisamente aquele em que pensáramos primeiro, pelo São João. Chegou a dizer que era mais fácil e levaria apenas um pouco mais de tempo que o outro, pelo Braço Leste do Penobscot, embora desse uma volta muitíssimo maior; e, tomando o mapa, mostrou onde estaríamos a cada noite, pois conhecia bem a rota. Segundo seus cálculos, chegaríamos aos assentamentos franceses na noite seguinte àquela, mantendo-nos para o norte, descendo o Allegash, e, quando entrássemos no curso principal do São João, as margens estariam mais ou menos povoadas por todo o caminho; como se isso fosse uma recomendação. Haveria apenas uma ou duas quedas-d’água, com portagens curtas, e desceríamos a corrente muito depressa, até mesmo cem milhas por dia, se o vento permitisse; e ele indicou onde deveríamos transportar a canoa por terra até o rio Eel, para cortar uma curva abaixo de Woodstock, em New Brunswick, e assim entrar no Lago Schoodic, e dali seguir para o Mattawamkeag. Por esse caminho seriam cerca de trezentas e sessenta milhas até Bangor, embora pelo outro fossem apenas cerca de cento e sessenta; mas, no primeiro caso, exploraríamos o São João desde a nascente ao longo de dois terços de seu curso, bem como o Lago Schoodic e o Mattawamkeag, e mais uma vez nos sentimos tentados a seguir por ali. Eu temia, porém, que as margens do São João fossem povoadas demais. Quando lhe perguntei qual trajeto nos levaria pela região mais selvagem, ele disse que a rota pelo Braço Leste. Em parte por essa consideração, e também por ser mais curta, resolvemos ater-nos a esta última rota e talvez subir o Ktaadn no caminho. Fizemos dessa ilha o limite de nossa excursão naquela direção.

Já tínhamos visto o maior dos lagos do Allegash. A barragem seguinte “ficava umas quinze milhas” mais ao norte, descendo o Allegash, e até lá a água era parada. Em Bangor haviam-nos falado de um homem que vivia sozinho, uma espécie de eremita, naquela barragem, para cuidar dela, e que passava o tempo atirando uma bala de uma mão para a outra, por falta de ocupação, como se pudéssemos querer visitá-lo. Essa espécie de intercâmbio de toma lá, dá cá entre suas duas mãos, rebatendo de um lado para o outro um assunto de chumbo, parece ter sido seu símbolo da sociedade.

Essa ilha, segundo o mapa, ficava a cerca de cento e dez milhas em linha reta ao norte-noroeste de Bangor e a cerca de noventa e nove milhas a leste-sudeste de Quebec. Havia outra ilha visível na direção da extremidade norte do lago, com uma clareira elevada; mas soubemos depois que não era habitada, tendo sido usada apenas como pastagem para o gado que passava o verão naqueles bosques, embora nosso informante dissesse que havia uma cabana no continente, perto da saída do lago. Aquele trecho quadrangular, raspado de modo tão antinatural, no meio da floresta de outro modo ininterrupta, apenas nos lembrava o quanto a região era desabitada. Seria mais de esperar encontrar um urso do que um boi em semelhante clareira. De todo modo, deve ter sido uma surpresa para os ursos quando deram com ela. Uma obra assim, vista de longe ou de perto, reconhece-se de imediato como obra do homem, pois a Natureza jamais a faz. Para deixar a luz chegar à terra como sobre um lago, ele remove a floresta das encostas e planícies e espalha finas sementes de capim, como um encantador, atapetando assim o chão com um relvado firme.

Polis evidentemente tinha mais curiosidade que nós a respeito dos poucos colonos daqueles bosques. Quando nada se dizia, ele dava por certo que queríamos ir diretamente à próxima cabana de toras. Tendo observado que passáramos pelas cabanas de toras em Chesuncook e pela do canadense cego na portagem de Mud Pond sem parar para nos comunicar com os moradores, aproveitou agora a ocasião para sugerir que o costume, quando se chegava perto de uma casa, era ir até ela e contar aos habitantes o que se tinha visto ou ouvido, e então eles nos contariam o que tinham visto; mas rimos e dissemos que, por enquanto, já tivéramos casas em quantidade suficiente e que viéramos até ali em parte para evitá-las.

Enquanto isso, o vento, aumentando, derrubou a bétula do indígena e levantou tamanho mar que nos vimos prisioneiros na ilha, sendo a margem mais próxima, a oeste, talvez a uma milha de distância, e tiramos a canoa da água para impedir que fosse levada. Não sabíamos se seríamos obrigados a passar ali o resto do dia e a noite. De todo modo, o indígena voltou a dormir à sombra de sua bétula, meu companheiro ocupou-se em secar suas plantas, e eu vagueei para oeste ao longo da margem, que era bastante pedregosa e estava obstruída, numa largura de quatro ou cinco rods, por árvores caídas, descoradas ou trazidas pela corrente. Encontrei, crescendo nessa margem larga, rochosa e cascalhenta, Salix rostrata, discolor e lucida, Ranunculus recurvatus, Potentilla Norvegica, Scutellaria lateriflora, Eupatorium purpureum, Aster Tradescanti, Mentha Canadensis, Epilobium angustifolium (abundante), Lycopus sinuatus, Solidago lanceolata, Spiræa salicifolia, Antennaria margaraticea, Prunella, Rumex Acetosella, framboesas, capim-lanoso, Onoclea etc. As árvores mais próximas eram Betula papyracea e excelsa, e Populus tremuloides. Dou esses nomes porque aquele foi o ponto mais setentrional a que cheguei.

Nosso indígena disse que era médico e que poderia me indicar algum uso medicinal para cada planta que eu lhe mostrasse. Pus-lhe imediatamente à prova. Disse que a casca interna do álamo (Populus tremuloides) era boa para olhos inflamados; e assim com várias outras plantas, mostrando-se tão bom quanto sua palavra. Segundo seu relato, adquirira esse conhecimento na juventude com um velho indígena sábio com quem convivera, e lamentava que a geração atual de indígenas “tivesse perdido muita coisa”.

Disse que o caribu era um “corredor muito grande”, que já não havia nenhum ao redor daquele lago, embora antes houvesse muitos, e, apontando para a faixa de árvores mortas causada pelas barragens, acrescentou: “Não gosta toco, quando vê isso fica assustado.”

Apontando para sudeste, por sobre o lago e a floresta distante, observou: “Eu ir Oldtown em três dias.” Perguntei-lhe como atravessaria os pântanos e as árvores caídas. “Oh”, disse ele, “no inverno tudo coberto, ir qualquer lugar com raquetes de neve, direto através dos lagos.” Quando perguntei por onde ia, disse: “Primeiro eu ir Ktaadn, lado oeste, depois eu ir Millinocket, depois Pamadumcook, depois Nicketow, depois Lincoln, depois Oldtown”, ou então seguia por um caminho mais curto, pelo Piscataquis. Que caminhada por uma região selvagem para um homem fazer sozinho! Nada de pântanos de meia milha, nada de meros bosques de uma milha de largura, como nas franjas de nossas cidades, sem hotéis, tendo apenas uma montanha escura ou um lago como placa de direção e estação, por um terreno em grande parte intransitável no verão!

Isso me lembrou Prometeu Acorrentado. Ali estava uma viagem do velho tipo heroico, sobre a face inalterada da natureza. Partindo do Allegash, ou rio Hemlock, e do Lago Pongoquahem, atravessando o grande Apmoojenegamook e deixando a Montanha Nerlumskeechticook à esquerda, ele segue sob as encostas assombradas por ursos das montanhas Souneunk e Ktaadn até Pamadumcook e os mares interiores de Millinocket, onde muitas vezes ovos de gaivota podem aumentar suas provisões, e daí prossegue até as bifurcações do Nicketow (niasoseb, “só nós, Joseph”, vendo o que nossa gente vê), sempre afastando os galhos do abeto e da pícea, com sua carga de peles, lutando dia e noite, noite e dia, com a hirsuta vegetação demoníaca, viajando pelo cemitério musgoso das árvores. Ou poderia seguir por “aquele áspero dente do mar”, Kineo, grande fonte de flechas e lanças para os antigos, quando se usavam armas de pedra. Vendo e ouvindo alces, caribus, ursos, porcos-espinhos, linces, lobos e panteras. Lugares onde ele poderia viver e morrer sem jamais ouvir falar dos Estados Unidos, que fazem tamanho ruído no mundo, sem jamais ouvir falar da América, assim chamada pelo nome de um cavalheiro europeu.

Há uma estrada madeireira chamada estrada do Lago Eagle, que vai do Seboois até o lado leste deste lago. Pode parecer estranho que alguma estrada através de semelhante região selvagem seja transitável, mesmo no inverno, quando a neve tem três ou quatro pés de profundidade, mas nessa estação, onde quer que as operações madeireiras sejam conduzidas ativamente, as parelhas passam sem cessar pela trilha única, e ela se torna quase tão lisa quanto uma ferrovia. Disseram-me que, na região de Aroostook, a lei exige que os trenós tenham todos a mesma largura, quatro pés, e que os trenós ligeiros sejam modificados para se ajustarem à trilha, de modo que um patim siga por um sulco e o outro acompanhe o cavalo. Ainda assim, é muito ruim sair da trilha para dar passagem.

Havia algum tempo víamos uma tempestade de trovoada aproximar-se do oeste, por sobre os bosques da ilha, e ouvíamos o murmúrio do trovão, embora estivéssemos em dúvida se nos alcançaria; mas agora, com a escuridão aumentando rapidamente e uma brisa fresca fazendo a floresta farfalhar, recolhemos às pressas as plantas que vínhamos secando e, de comum acordo, corremos para o material da barraca e começamos a armá-la. Escolheu-se um lugar, e estacas e espeques foram cortados no menor tempo possível, e estávamos prendendo-a ao chão para que não fosse levada pelo vento quando a tempestade desabou subitamente sobre nós.

Enquanto permanecíamos amontoados sob a barraca, que deixava entrar bastante água pelas laterais, com nossa bagagem aos pés, escutávamos alguns dos mais grandiosos trovões que já ouvi, estrondos rápidos, redondos e cheios, bum, bum, bum, em sucessão, como artilharia disparada de alguma fortaleza no céu; e os relâmpagos eram proporcionalmente brilhantes. O indígena disse: “Deve ser pólvora boa.” Tudo em benefício dos alces e de nós, ecoando ao longe sobre os lagos ocultos. Pensei que devia ser um lugar amado pelo trovão, onde o relâmpago praticava para não perder a mão, e que não faria mal despedaçar alguns pinheiros. Em que teriam dado então as efêmeras e as libélulas? Teriam sido prudentes o bastante para buscar abrigo antes da tempestade? Talvez seus movimentos pudessem orientar o voyageur.

Olhando para fora, percebi que a chuva violenta que caía sobre o lago havia quase instantaneamente achatado as ondas, o comandante daquela fortaleza o alisara assim para nós, e, como o tempo estava abrindo, resolvemos partir de imediato, antes que o vento tornasse a levantá-las.

Ao sair, eu disse que ainda via nuvens a sudoeste e ouvia trovões naquela direção. O indígena perguntou se o trovão ia “em volta”, dizendo que, se fosse assim, teríamos mais chuva. Achei que ia. Embarcamos, apesar disso, e remamos rapidamente de volta em direção às barragens. Os pardais-de-garganta-branca estavam ativos na margem, cantando Ah, ti-i-i, ti-i-i, ti, ou então ah, ti-i-i, ti-i-i, ti-i-i, ti-i-i.

Na saída do Lago Chamberlain fomos alcançados por outra tempestade de chuva e rajadas, que nos obrigou a procurar abrigo, o indígena sob sua canoa na margem, enquanto nós corremos para debaixo da borda da barragem. Contudo, ficamos mais assustados que molhados. De meu esconderijo, eu podia ver o indígena espiando debaixo da canoa para ver o que havia sido feito da chuva. Depois que ocupamos nossos respectivos lugares desse modo uma ou duas vezes, sem que a chuva caísse para valer, começamos a vaguear pelas redondezas, pois a essa altura o vento levantara ondas tão grandes no lago que não podíamos sair do lugar, e temíamos ser obrigados a acampar ali. Fizemos uma ceia antecipada sobre a barragem e tentamos pescar ali, enquanto esperávamos que o tumulto diminuísse. Os peixes não só eram poucos, mas também pequenos e imprestáveis, e o indígena declarou que não havia peixes bons nas águas do São João; que teríamos de esperar até chegar às águas do Penobscot.

Por fim, pouco antes do pôr do sol, partimos novamente. Era uma tarde bravia quando costeamos o lado norte deste lago Apmoojenegamook. Uma tempestade de trovões acabara de passar, e as ondas que levantara ainda corriam com violência, enquanto outra tempestade era agora vista avançando pelo sudoeste, muito além do lago; mas poderia estar pior pela manhã, e queríamos seguir o mais longe possível em nosso caminho lago acima enquanto ainda podíamos. O vento soprava forte contra a margem norte, a cerca de um oitavo de milha à nossa esquerda, e havia exatamente tanto mar quanto nossa canoa rasa podia suportar sem que tomássemos cuidados extraordinários. A margem da qual nos mantínhamos afastados, e para a qual as ondas nos impeliam, era tão desolada e desprovida de abrigo quanto se possa imaginar. Por uma largura de meia dúzia de rods, era um perfeito emaranhado de árvores submersas, todas mortas, nuas e embranquecendo, algumas ainda de pé com metade de sua altura original, outras tombadas e cruzadas umas sobre as outras, acima ou abaixo da superfície, e misturados a elas havia árvores soltas, galhos e tocos, açoitando-se de um lado para outro. Imagine os cais da maior cidade do mundo apodrecidos, com a terra e o tabuado levados pela água, deixando as estacas de pé em disposição irregular, mas muitas vezes com o dobro da altura comum, e, misturados a elas e batendo contra elas, os destroços de dez mil marinhas, todos os seus mastros e madeiramentos, enquanto, à beira da água, ergue-se a mais densa e sombria região selvagem, pronta a fornecer mais material quando o anterior se esgotar, e talvez se possa ter uma vaga ideia daquela costa. Não teríamos conseguido desembarcar, mesmo que quiséssemos, sem o maior risco de sermos inundados; portanto, soprasse como soprasse, tínhamos de confiar em seguir costeando. Além disso, já era crepúsculo, e aquela nuvem tempestuosa avançava rapidamente atrás de nós. Era uma excitação agradável, mas ainda assim ficamos contentes por enfim alcançar, já no escuro, a margem desmatada da Fazenda Chamberlain.

Desembarcamos ali numa ponta baixa e pouco arborizada e, enquanto meus companheiros armavam a barraca, corri até a casa para conseguir um pouco de açúcar, pois nossas seis libras haviam acabado; não era de admirar, já que Polis era muito chegado a doces. Primeiro ele enchia sua caneca até quase um terço com açúcar e depois acrescentava o café. Havia ali uma área aberta que se estendia do lago até o alto de uma colina, com alguns edifícios escuros de toras e um armazém, e meia dúzia de homens parados diante da cabana principal, ávidos por notícias. Entre eles estava o homem que cuidava da barragem no Allegash e lançara a bala. Como era encarregado das barragens e soube que iríamos ao riacho Webster no dia seguinte, contou-me que alguns de seus homens, ocupados com o feno no lago Telos, haviam fechado a barragem do canal para apanhar trutas, e que, caso quiséssemos mais água para atravessar o canal, poderíamos levantar a comporta, pois ele gostaria que fosse levantada. A Fazenda Chamberlain é sem dúvida uma clareira alegre nos bosques, mas a hora já ia tão adiantada que ela deixou apenas uma impressão sombria em minha mente. Como já disse, a mera entrada de luz é civilizadora, e ainda assim imaginei que aos domingos eles caminhavam por sua clareira mais ou menos como num pátio de prisão.

Não quiseram ceder mais de quatro libras de açúcar mascavo, abrindo o armazém para buscá-lo, pois mantinham apenas um pouco para casos como este, e cobraram vinte centavos por libra, preço que certamente valia para fazê-lo chegar até ali.

Quando voltei à margem, estava completamente escuro, mas tínhamos um fogo vigoroso para nos aquecer e secar, e um cômodo aconchegante atrás dele. O indígena subiu até a casa para perguntar por um irmão que estivera ausente, caçando, havia um ou dois anos, e, enquanto outro aguaceiro começava, apalpei o terreno no escuro, cortando ramos de abeto e arbor-vitae para fazer uma cama. Preferi a arbor-vitae por causa de sua fragrância, e a espalhei com especial espessura na altura dos ombros. É notável com que pura satisfação o viajante nesses bosques alcança seu acampamento na véspera de uma noite tempestuosa como esta, como se tivesse chegado à sua hospedaria, e, enrolando-se no cobertor, estende-se em sua cama de seis pés por dois, feita de ramos gotejantes de abeto, com uma fina folha de algodão por teto, tão aconchegado quanto um rato-do-campo em seu ninho. Invariavelmente, nossas melhores noites eram aquelas em que chovia, pois então os mosquitos não nos incomodavam.

Logo se aprende a não dar importância à chuva em excursões como essas, ao menos no verão, pois é muito fácil se secar, supondo que não haja uma muda de roupa seca. Você consegue se secar muito mais depressa junto a um fogo como o que pode fazer nos bosques do que na cozinha de qualquer pessoa, pois a lareira é muito maior e a madeira, muito mais abundante. Uma barraca em forma de telheiro retém e reflete o calor como um forno portátil ianque, e você pode ir secando enquanto dorme.

Alguns que têm telhados com goteiras nas cidades talvez tenham ficado acordados, mas logo fomos embalados por uma chuva constante e penetrante, que durou a noite inteira. Nesta noite, como a chuva não veio de imediato com violência, os ramos logo secaram com o calor refletido.

QUARTA-FEIRA, 29 de julho.

Quando acordamos, havia parado de chover, embora ainda estivesse nublado. O fogo se apagara, e as botas do indígena, que haviam ficado sob o beiral da barraca, estavam meio cheias de água. Ele era muito mais imprevidente em tais assuntos do que qualquer um de nós, e teve de nos agradecer por mantermos sua pólvora seca. Decidimos atravessar o lago imediatamente, antes do café da manhã, ou enquanto ainda podíamos; e, antes de partir, tomei o rumo da margem que queríamos alcançar, S. S. E., a cerca de três milhas de distância, caso uma súbita chuva com neblina a ocultasse quando estivéssemos no meio do caminho. Embora a baía em que estávamos estivesse perfeitamente quieta e lisa, descobrimos que, lá fora, o lago já estava bem desperto, mas não de modo perigoso ou desagradável; ainda assim, quando se sai num desses lagos numa canoa como esta, não se esquece de que se está inteiramente à mercê do vento, e ele é um poder inconstante. As ondas brincalhonas podem a qualquer momento se tornar grosseiras demais em sua diversão e brincar por cima de você. Vimos alguns shecorways e uma águia-pescadora tão cedo assim e, depois de muito remar com constância e dançar sobre as ondas escuras de Apmoojenegamook, encontramo-nos nas proximidades da terra ao sul, ouvimos as ondas quebrarem contra ela e voltamos por completo nossos pensamentos para aquele lado. Depois de costear para leste ao longo dessa margem por uma ou duas milhas, tomamos o café da manhã numa ponta rochosa, o primeiro lugar conveniente que se apresentou.

Foi bom termos atravessado tão cedo, pois as ondas agora corriam bastante altas e teríamos sido obrigados a dar uma volta considerável; além desta ponta, porém, encontramos águas relativamente calmas. Em geral, é possível seguir por um lado ou pelo outro de um lago quando não se consegue atravessá-lo.

O indígena observava de tempos em tempos as cristas cobertas de árvores de madeira dura e disse que gostaria de comprar algumas centenas de acres em algum lugar perto deste lago, pedindo nosso conselho. Queria comprar o mais próximo possível do ponto de travessia.

Meu companheiro e eu, tendo discutido por um minuto algum ponto de história antiga, divertimo-nos com a atitude assumida pelo indígena, que não podia saber do que falávamos. Ele se constituiu árbitro e, julgando por nosso ar e nossos gestos, comentava com toda a seriedade, de tempos em tempos: “você venceu” ou “ele venceu”.

Deixando à nossa esquerda uma baía espaçosa, prolongamento nordeste do lago Chamberlain, entramos por um estreito curto num pequeno lago de umas duas milhas de largura, chamado Telasinis no mapa, mas para o qual o indígena não tinha nome distinto, e dali passamos ao lago Telos, que ele chamava Paytaywecomgomoc, ou lago da Terra Queimada. Este fazia uma curva para nordeste e talvez tivesse três ou quatro milhas de extensão no trajeto que remamos. Ele não estivera ali desde 1825. Não sabia o que Telos significava e achava que não era indígena. Empregou a palavra “spokelogan” para uma reentrância da margem que não levava a parte alguma e, quando lhe perguntei o significado, disse que “não havia indígena nela”. Havia uma clareira, com uma casa e um celeiro, na margem sudoeste, temporariamente ocupada por alguns homens que recolhiam o feno, como nos haviam contado; havia também uma área aberta para pastagem numa colina do lado oeste do lago.

Desembarcamos numa ponta rochosa do lado nordeste para observar alguns pinheiros-vermelhos (Pinus resinosa), os primeiros que havíamos notado, e apanhar algumas pinhas, pois os poucos que crescem em Concord não produzem nenhuma.

A saída do lago para o Braço Leste do Penobscot é artificial, e não era muito evidente onde exatamente se encontrava; mas o lago fazia uma longa curva para nordeste, penetrando em dois vales estreitos ou ravinas, como se durante muito tempo tivesse tateado seu caminho em direção às águas do Penobscot, ou se recordasse de quando antigamente corria para lá. Observando onde o horizonte era mais baixo e seguindo o mais longo desses vales, alcançamos por fim a barragem, depois de percorrer cerca de doze milhas desde o último acampamento. Alguém deixara uma linha armada para trutas e, ao lado dela, sobre a barragem, o canivete com que a isca fora cortada, indício de que havia gente por perto; e, sobre uma tora abandonada ali junto, havia um pão assado num forno portátil ianque. Essas coisas revelaram-se propriedade de um caçador solitário, que logo encontramos, e sua canoa, espingarda e armadilhas não estavam longe. Ele nos disse que, em nossa rota, ainda havia vinte milhas até a extremidade inferior do Grand Lake, onde se podia apanhar quantas trutas se quisesse, e que a primeira casa abaixo da extremidade do lago, no Braço Leste, era a de Hunt, cerca de quarenta e cinco milhas adiante; embora houvesse uma a aproximadamente uma milha e meia rio acima pelo riacho Trout, umas quinze milhas à frente, mas o caminho até ela era um tanto difícil de encontrar. Ocorreu que, embora a corrente estivesse a nosso favor, não alcançamos a casa seguinte senão na manhã do terceiro dia depois deste. A casa permanentemente habitada mais próxima atrás de nós ficava agora a doze milhas de distância, de modo que o intervalo entre as duas casas mais próximas em nossa rota era de cerca de sessenta milhas.

Esse caçador, um homem bastante pequeno e queimado de sol, que já havia transportado sua canoa por terra e assado seu pão, não tinha nada mais interessante ou urgente a fazer do que observar nossa passagem. Estava sozinho havia um mês ou mais. Quão mais selvagem e aventurosa era sua vida do que a do caçador nos bosques de Concord, que todas as noites volta para casa e para a barragem do moinho! No entanto, aqueles que nas cidades têm suas aveias-bravas para semear costumam semeá-las em solo cultivado e relativamente exaurido. E, quanto ao mundo arruaceiro das grandes cidades, tão pouco espírito de iniciativa ele tem que jamais se aventura nesta direção; antes, como vermes, aglomera-se em becos e tabernas, sendo sua maior façanha, talvez, correr ao lado de um carro de bombeiros e atirar tijoladas. O primeiro, porém, é comparativamente um homem independente e bem-sucedido, que ganha a vida de uma maneira de que gosta, sem perturbar seus vizinhos humanos. Quão mais respeitável é também a vida do pioneiro ou colono solitário nestes, ou em quaisquer bosques, enfrentando dificuldades reais, não criadas por ele próprio, e extraindo diretamente da natureza seu sustento, do que a das multidões desamparadas nas cidades, que dependem de satisfazer as necessidades extremamente artificiais da sociedade e ficam sem trabalho em tempos difíceis!

Aqui, pela primeira vez, encontramos framboesas realmente abundantes, isto é, ao transpor o divisor de águas entre o Allegash e o Braço Leste do Penobscot; o mesmo ocorria com os mirtilos.

O lago Telos, nascente do St. John deste lado, e a lagoa Webster, nascente do Braço Leste do Penobscot, ficam separados por apenas cerca de uma milha e são ligados por uma ravina, na qual foi preciso escavar muito pouco para fazer a água do primeiro, que fica mais alto, correr para a segunda. Esse canal, que tem um pouco menos de uma milha de comprimento e cerca de quatro rods de largura, foi aberto poucos anos antes de minha primeira visita ao Maine. Desde então, a madeira serrada do alto Allegash e de seus lagos tem sido conduzida Penobscot abaixo, isto é, Allegash acima, o qual aqui consiste principalmente numa cadeia de lagos grandes e estagnados, cujas passagens, ou elos fluviais, foram tornadas quase igualmente estagnadas por barragens, e depois Penobscot abaixo. A força da água produziu tais mudanças no canal que ele agora tem a aparência de um impetuoso riacho de montanha correndo por uma ravina, e ninguém suspeitaria que fora preciso escavar para persuadir as águas do St. John a correrem aqui para o Penobscot. Era tão sinuoso que se conseguia enxergar apenas uma pequena distância adiante.

Springer afirma, em seu Forest Life, que a causa da abertura desse canal foi a seguinte: segundo o tratado de 1842 com a Grã-Bretanha, ficou acordado que toda a madeira conduzida St. John abaixo, rio que nasce no Maine, “quando dentro da Província de New Brunswick [...] seria tratada como se fosse produto da referida Província”, o que nosso lado entendeu significar que estaria livre de tributação. Imediatamente, a Província, desejando tirar alguma coisa dos ianques, impôs uma tarifa a toda a madeira que descia pelo St. John; mas, para satisfazer seus próprios súditos, “concedeu um desconto correspondente no direito de corte cobrado daqueles que retiravam madeira das terras da Coroa”. O resultado foi que os ianques fizeram o St. John correr na direção oposta, ou seja, Penobscot abaixo, de modo que a Província perdeu tanto sua tarifa quanto sua água, enquanto os ianques, tendo enriquecido enormemente, tiveram motivos para lhe agradecer pela sugestão.

É extraordinário como esta região é bem irrigada. Ao remar através de um lago, apontarão a você certas baías; seguindo-as para o interior, e talvez também o curso tributário que nelas deságua, poderá, depois de uma curta portagem, ou possivelmente, em certas épocas, sem portagem alguma, alcançar outro rio, que deságua muito longe daquele em que você se encontra. Em geral, pode-se seguir em qualquer direção numa canoa, fazendo portagens frequentes, mas não muito longas. Você apenas torna a perceber aquilo de que toda a Natureza se recorda distintamente aqui, pois sem dúvida as águas corriam assim num período geológico anterior, e, em vez de uma região de lagos, isto era um arquipélago. Parece que os cursos d’água mais jovens e impressionáveis mal conseguem resistir aos numerosos convites e tentações para abandonar seus leitos natais e correr pelos canais dos vizinhos. Muitas vezes, suas portagens atravessam terrenos meio submersos, sobre os canais secos de uma época anterior. Ao transportar de um rio para outro, não passei por terrenos tão altos e rochosos quanto ao contornar as quedas do mesmo rio. Pois, no primeiro caso, certa vez me perdi num pântano, como já relatei, e, em outra ocasião, encontrei um canal artificial que parecia natural.

Lembro-me de certa vez ter sonhado que empurrava uma canoa rio acima pelos rios do Maine e que, quando chegava tão alto que os canais estavam secos, prosseguia pelas ravinas e gargantas quase tão bem quanto antes, apenas fazendo um pouco mais de força; e agora me parecia que meu sonho se realizava em parte.

Onde quer que haja um canal para a água, há uma estrada para a canoa. O piloto do vapor que, em 1854, subia o Penobscot desde Oldtown contou-me que a embarcação calava apenas catorze polegadas e navegava com facilidade em dois pés de água, embora não gostassem de fazê-lo. Diz-se que alguns vapores do Oeste conseguem navegar sobre um orvalho abundante, pelo que podemos imaginar o que uma canoa é capaz de fazer. Montresor, enviado de Quebec pelos ingleses por volta de 1760 para explorar a rota até o Kennebec, pela qual Arnold passaria mais tarde, forneceu água ao Penobscot perto de sua nascente abrindo as barragens dos castores, e diz: “Isto é feito com frequência.” Depois, afirma que o governador do Canadá proibira que se molestassem os castores nas proximidades da saída do Kennebec do lago Moosehead, em razão do serviço que suas barragens prestavam ao elevar a água para a navegação.

Esse chamado canal era um rio de tamanho considerável, extremamente rápido e rochoso. O indígena decidiu que havia água suficiente nele sem elevar a barragem, o que apenas o tornaria mais violento, e que desceria sozinho, enquanto carregávamos a maior parte da bagagem. Como cerca de metade de nossas provisões já fora consumida, restava menos carga na canoa. Havíamos jogado fora o barril de carne de porco e embrulhado seu conteúdo em casca de bétula, o inigualável papel de embrulho dos bosques.

Seguindo uma trilha úmida através da floresta, alcançamos a cabeceira de Webster Pond quase ao mesmo tempo que o indígena, apesar da velocidade com que ele avançava, pois nossa rota era a mais direta. O nome indígena de Webster Stream, do qual essa lagoa é a nascente, é, segundo ele, Madunkchunk, i. e., Divisor de Águas, e o da lagoa, Madunkchunk-gamooc, ou Lagoa do Divisor de Águas. Esta última tinha duas ou três milhas de comprimento. Passamos perto de um pinheiro em sua margem que fora estilhaçado por um raio, talvez no dia anterior. Essas foram as primeiras águas propriamente ditas do Braço Leste do Penobscot que encontramos.

Na saída de Webster Lake havia outra barragem, onde paramos e colhemos framboesas, enquanto o indígena descia o curso por meia milha através da floresta para ver com o que teria de lidar. Havia ali um acampamento de toras abandonado, aparentemente usado no inverno anterior, com seu “abrigo”, ou estábulo para o gado. Na cabana havia uma grande cama de ramos de abeto, elevada dois pés acima do chão e ocupando boa parte do único cômodo; uma mesa comprida e estreita contra a parede, com um banco robusto de tronco diante dela; e, acima da mesa, uma pequena janela, a única que havia, por onde entrava uma luz débil. Era uma fortaleza simples e sólida erguida contra o frio e sugeria que valentes trabalhos de garfo e prato haviam sido realizados ali. Descobri uma ou duas curiosas armadilhas de madeira, havia muito sem uso, nos bosques próximos. A parte principal consistia numa vara longa e delgada.

Preparamos nosso jantar na margem, acima da barragem. Enquanto estávamos sentados junto ao fogo, ocultos pelo talude de terra da barragem, uma longa fila de mergansos ainda não plenamente crescidos veio bamboleando por cima dela desde a água abaixo, passando a cerca de um rod de nós, de modo que quase poderíamos tê-los apanhado com as mãos. Eram muito abundantes em todos os cursos d’água e lagos que visitamos e, a cada duas ou três horas, disparavam numa longa fila pela água diante de nós, de vinte a cinquenta de uma vez, quase nunca voando, mas correndo com grande rapidez rio acima ou abaixo, até mesmo no meio das corredeiras mais violentas, e aparentemente tão depressa para cima quanto para baixo; ou então cruzavam em diagonal, ficando o adulto, ao que parecia, atrás deles e conduzindo-os, e voando de tempos em tempos para a frente, como se quisesse orientá-los. Vimos também muitos pequenos mergulhadores negros, que se comportavam de maneira semelhante, e, uma ou duas vezes, alguns patos-negros.

Um indígena de Oldtown nos dissera que seríamos obrigados a fazer uma portagem de dez milhas entre Telos Lake, no St. John, e Second Lake, no Braço Leste do Penobscot; mas os madeireiros que encontramos garantiram que não haveria mais de uma milha de portagem. No fim, o indígena, que havia percorrido recentemente essa rota, foi quem mais se aproximou da verdade, ao menos no que nos dizia respeito. Contudo, se um de nós pudesse ter ajudado o indígena a manobrar a canoa nas corredeiras, talvez tivéssemos navegado a maior parte do caminho; mas, como ele estava sozinho no manejo da canoa em tais lugares, fomos obrigados a caminhar a maior parte do percurso. Eu ainda não me sentia preparado para tentar semelhante experiência em Webster Stream, que tem tão má reputação. Segundo minhas observações, um batel com tripulação adequada vence corredeiras como coisa corriqueira, enquanto um indígena sozinho, numa canoa, faz a portagem ao redor delas.

Meu companheiro e eu carregamos boa parte da bagagem nos ombros, enquanto o indígena levou na canoa aquilo que menos sofreria se molhado. Não sabíamos quando voltaríamos a vê-lo, pois ele não passava por ali desde que o canal fora aberto, nem havia mais de trinta anos. Combinou parar quando chegasse a águas tranquilas, subir e procurar nossa trilha, se pudesse, e gritar por nós; depois de esperar um tempo razoável, seguiria adiante e tentaria de novo, e nós, da mesma forma, ficaríamos atentos a ele.

Começou passando pelo vertedouro e por cima da barragem, como de costume, em pé na canoa sacudida, e logo desapareceu atrás de uma ponta, numa garganta selvagem. Webster Stream é bem conhecido dos madeireiros como um curso difícil. É extremamente rápido e rochoso, além de raso, e mal pode ser considerado navegável, a menos que isso queira dizer que tudo o que nele é lançado certamente será levado depressa corrente abaixo, embora possa ser despedaçado no caminho. É um pouco como navegar por uma tromba de trovão. Com uma força em geral irresistível impelindo-o adiante, é preciso escolher a cada instante o próprio curso entre as rochas e os baixios, entrar nele avançando sempre com a maior moderação possível e, muitas vezes, agarrar-se ao que puder, se puder, para examinar as corredeiras antes de prosseguir.

Por orientação do indígena, tomamos uma velha trilha do lado sul, que parecia acompanhar o curso rio abaixo, embora a uma distância considerável dele, cortando as curvas, talvez até Second Lake; por segurança, havíamos primeiro determinado com a bússola, a partir do mapa, a direção, que era nordeste. Era uma trilha agreste pela mata, com algumas marcas de bois que haviam sido conduzidos por ela, provavelmente até a clareira de algum antigo acampamento para pastagem, misturadas às pegadas de alces que a haviam usado recentemente. Prosseguimos sem parar por cerca de uma hora, sem pousar as cargas, contornando de vez em quando uma árvore caída ou passando por cima dela, na maior parte do tempo muito além da vista e do som do rio; até que, depois de caminhar cerca de três milhas, ficamos contentes ao descobrir que a trilha voltava ao rio num antigo terreno de acampamento, onde havia uma pequena abertura na floresta e onde fizemos uma pausa. Por mais veloz que corresse ali o rio raso e rochoso, uma corredeira contínua de ondas dançantes, vi, sentado na margem, uma longa fila de mergansos que alguma coisa assustara correr rio acima pelo lado oposto, diante de mim, com a mesma facilidade com que em geral desciam, apenas tocando a superfície das ondas e recebendo delas um impulso à medida que passavam por baixo; mas logo voltaram, tangidos pelo indígena, que ficara um pouco atrás de nós por causa das curvas. Ele surgiu velozmente em torno de uma ponta logo acima e veio aportar junto de nós com uma quantidade considerável de água na canoa. Encontrara, como disse, “água muito forte” e fora obrigado a desembarcar uma vez antes para esvaziar a água que entrara. Queixou-se do esforço de remar com tanta força para manter a canoa reta em seu curso, sem ninguém na proa para ajudá-lo, e disse que, por mais raso que fosse, não seria brincadeira virar ali, pois a força da água era tamanha que tanto lhe faria eu golpeá-lo na cabeça com um remo quanto aquela água golpeá-lo. Vê-lo sair daquela abertura era como despejar água por uma calha inclinada e em zigue-zague, depois soltar nela uma casca de noz e, tomando um atalho até o fundo, chegar a tempo de vê-la sair, apesar da torrente e do tumulto, com o lado certo para cima e apenas parcialmente cheia de água.

Depois de um instante para recuperar o fôlego, enquanto eu segurava sua canoa, ele logo tornou a desaparecer em outra curva, e nós, colocando as cargas nos ombros, retomamos o caminho.

Não reencontramos logo a trilha, mas avançamos com dificuldade pela beira do rio até que, por fim, penetrando na floresta, tornamos a encontrá-la. Antes de percorrermos uma milha, ouvimos o indígena chamando por nós. Ele subira através dos bosques e pela trilha para nos encontrar, pois alcançara águas suficientemente tranquilas para que pudesse nos receber na canoa. A margem ficava a cerca de um quarto de milha, através de uma floresta densa e escura, e, enquanto ele nos conduzia de volta até ela, serpenteando rapidamente para a direita e para a esquerda, tive a curiosidade de olhar atentamente para o chão e descobri que ele seguia seus próprios passos no sentido inverso. Eu só conseguia perceber de vez em quando seu rastro no musgo, e ainda assim ele não parecia olhar para baixo nem hesitar por um instante, mas nos levou exatamente até sua canoa. Isso me surpreendeu, pois, sem bússola, nem a vista ou o som do rio para nos orientar, não teríamos conseguido manter o rumo por muitos minutos e só poderíamos ter refeito nossos passos por uma curta distância, com enorme esforço e muita lentidão, valendo-nos de uma circunspecção laboriosa. Mas era evidente que ele podia voltar pela floresta a qualquer lugar por onde houvesse passado durante o dia.

Depois dessa caminhada penosa pelos bosques escuros, foi uma mudança agradável deslizar de novo na canoa rio abaixo pela corrente rápida. Esse rio, que tinha aproximadamente o tamanho de nosso Assabet, em Concord, embora ainda muito veloz, era ali quase perfeitamente liso e apresentava, por várias milhas, uma declividade bem visível, um plano regularmente inclinado, como um espelho colocado um pouco de través, pelo qual descíamos como quem desliza por uma encosta. Essa descida regular e muito evidente, particularmente nítida quando eu observava a linha da água contra as margens, causou-me uma impressão singular, provavelmente intensificada pela rapidez de nosso movimento, de modo que parecíamos deslizar por uma declividade muito mais íngreme do que de fato era e que não conseguiríamos escapar de corredeiras e quedas caso surgissem de repente. Meu companheiro não percebeu essa inclinação, mas tenho olhos de agrimensor e me convenci de que não se tratava de ilusão de ótica. Ao se aproximar de um rio assim, podia-se saber de relance para que lado corria a água, ainda que não se percebesse movimento algum. Observei o ângulo em que uma linha de nível encontraria a superfície e calculei a queda ao longo de um rod, que não precisava ser extraordinariamente grande para produzir esse efeito.

Era muito estimulante, a própria perfeição da viagem, bem diferente de flutuar em nosso inerte rio Concord: deslizar por esse espelho inclinado, que de vez em quando fazia uma curva suave, descendo de fato uma montanha entre duas florestas de sempre-verdes, orladas por altos pinheiros-brancos mortos, alguns inclinados até a metade sobre o curso e destinados em breve a servir-lhe de ponte. Vi ali alguns monstros quase desprovidos de galhos e cujo diâmetro mal diminuía ao longo de oitenta ou noventa pés.

Enquanto assim avançávamos velozmente, nosso indígena repetiu, num tom pausado e arrastado, as palavras “Daniel Webster, grande advogado”, aparentemente lembrado dele pelo nome do curso d’água, e contou que certa vez fora visitá-lo em Boston, no que supunha ser sua pensão. Não tinha assunto algum a tratar com ele, mas fora apenas prestar-lhe seus respeitos, como diríamos. Em resposta às nossas perguntas, descreveu sua aparência bastante bem. Foi no dia seguinte àquele em que Webster pronunciou seu discurso de Bunker Hill, que, creio, Polis ouviu. Na primeira vez em que o procurou, esperou até se cansar, sem conseguir vê-lo, e então foi embora. Na vez seguinte, viu-o passar várias vezes pela porta da sala onde aguardava, em mangas de camisa, sem lhe dar atenção. Pensou que, se Webster tivesse ido ver indígenas, eles não o teriam tratado assim. Por fim, depois de uma demora muito longa, ele entrou, caminhou em sua direção e perguntou em voz alta, rispidamente: “O que você quer?”; e Polis, pensando de início, pelo movimento de sua mão, que ele fosse golpeá-lo, disse consigo: “É melhor tomar cuidado; se tentar isso, saberei o que fazer.” Não gostou dele e declarou que tudo o que dissera “não valia uma conversa sobre um rato-almiscarado”. Sugerimos que provavelmente o sr. Webster estava muito ocupado e tinha muitos visitantes naquela ocasião.

Ao chegarmos a quedas e corredeiras, nosso avanço fácil terminou de repente. O indígena seguiu pela margem para examinar a água, enquanto nós escalávamos as rochas, colhendo bagas. O crescimento peculiar dos mirtilos no topo das grandes rochas dali dava a impressão de terras altas, e de fato aquele era o riacho Height-of-Land. Quando o indígena voltou, observou: “Vocês têm de andar; água muito forte.” Assim, tirando sua canoa da água, tornou a lançá-la abaixo das quedas e logo desapareceu de vista. Nessas ocasiões, ele entrava na canoa, tomava o remo e, com um ar de mistério, partia, olhando para bem longe rio abaixo e guardando para si o que pensava, como se absorvesse em si toda a inteligência da floresta e do curso d’água; mas às vezes eu detectava certa graça em seu rosto, que podia corresponder ao meu sorriso solidário, pois ele era de um bom humor completo. Enquanto isso, avançávamos aos tropeços pela margem, com nossas mochilas, sem trilha alguma. Foi o fim da nossa navegação naquele dia.

A rocha predominante ali era uma espécie de ardósia, assentada sobre as bordas, e meu companheiro, que voltara recentemente da Califórnia, achou-a exatamente igual àquela em que se encontra ouro, e disse que, se tivesse uma bateia, gostaria de lavar um pouco da areia dali.

O indígena agora avançava muito mais depressa do que nós e nos esperava de tempos em tempos. Encontrei ali a única fonte fresca de que bebi em toda essa excursão, um pouco de água enchendo uma cavidade no barranco arenoso. Foi um acontecimento bastante memorável, devido à elevação do terreno, pois, em todos os outros lugares por onde passáramos, a água dos rios e dos cursos d’água que neles desembocavam era parada e morna, comparada à de uma região montanhosa. Era muito ruim caminhar pela margem, por cima de árvores caídas e trazidas pela corrente, arbustos e rochas, às vezes nos pendurando para contorná-los sobre a água, ou então seguindo por um banco de cascalho ou entrando pela mata. Em certo ponto, estando o indígena adiante, fui obrigado a tirar toda a roupa para vadear um curso d’água pequeno, porém profundo, que desembocava ali, enquanto meu companheiro, que seguira pelo interior, encontrou uma ponte rudimentar, bem acima na mata, e por algum tempo não tornei a vê-lo. Vi ali rastros muito recentes de alce, encontrei uma vara-de-ouro nova para mim (talvez Solidago thyrsoidea) e passei por um tronco de pinheiro-branco que ficara preso na floresta, perto da margem do riacho, e que tinha nada menos que cinco pés de diâmetro na base. Provavelmente seu tamanho o detivera.

Pouco depois alcancei o indígena à beira de uma área queimada, que se estendia por pelo menos três ou quatro milhas, começando cerca de três milhas acima do Second Lake, onde esperávamos chegar naquela noite e que fica a cerca de dez milhas do lago Telos. Essa região queimada era ainda mais rochosa do que antes, mas, embora relativamente aberta, ainda não conseguíamos ver o lago. Como fazia algum tempo que eu não via meu companheiro, subi com o indígena numa rocha alta e singular à margem do rio, que formava uma crista estreita de apenas um ou dois pés de largura no topo, a fim de procurá-lo; e, depois de chamar muitas vezes, por fim ouvi sua resposta a uma distância considerável mata adentro, pois ele tomara uma trilha que se afastava do rio, talvez diretamente rumo ao lago, e agora procurava o rio outra vez. Vendo uma rocha muito mais alta, do mesmo caráter, cerca de um terço de milha mais a leste, ou rio abaixo, segui em sua direção, através da área queimada, para avistar o lago do cume, supondo que o indígena desceria o curso d’água em sua canoa e gritando durante todo o trajeto para que meu companheiro pudesse juntar-se a mim no caminho. Antes de nos reunirmos, notei o ponto onde um alce, que talvez eu tivesse assustado com meus gritos, aparentemente acabara de correr ao longo do grande tronco apodrecido de um pinheiro, que fazia uma ponte de trinta ou quarenta pés sobre uma depressão, tão conveniente para ele quanto para mim. Os rastros eram tão grandes quanto os de um boi, mas um boi não poderia ter atravessado ali. A área queimada era uma região extremamente selvagem e desolada. A julgar pelas ervas daninhas e pelos brotos, parecia ter queimado cerca de dois anos antes. Estava coberta de troncos carbonizados, caídos ou ainda em pé, que sujavam de negro nossas roupas e mãos, e ali não teríamos distinguido facilmente um urso pela cor. Grandes cascas ocas de árvores, às vezes intactas por fora, ou queimadas apenas de um lado, mas negras por dentro, erguiam-se a vinte ou quarenta pés. O fogo subira pelo interior, como numa chaminé, deixando o alburno. Às vezes atravessávamos uma ravina rochosa de cinquenta pés de largura sobre um tronco caído; e havia grandes campos de erva-do-fogo (Epilobium angustifolium) por todos os lados, os mais extensos que já vi, formando grandes massas cor-de-rosa. Misturavam-se a elas arbustos de mirtilo e framboesa.

Depois de atravessar uma segunda crista rochosa semelhante à primeira, quando eu começava a subir a terceira, o indígena, que eu deixara na margem cerca de cinquenta rods atrás, fez-me sinal para que fosse até ele, mas indiquei que primeiro subiria à rocha mais alta diante de mim, de onde esperava ver o lago. Meu companheiro me acompanhou até o topo. Ela tinha exatamente a mesma formação das outras. Impressionado com o perfeito paralelismo dessas singulares colinas rochosas, por mais que uma se adiantasse em relação à outra, tirei a bússola e descobri que se alinhavam de noroeste a sudeste, com a rocha assentada sobre a borda, e bordas afiadas eram aquelas. Esta, falando de memória, talvez tivesse um terço de milha de comprimento, mas era muito estreita, elevando-se gradualmente desde o noroeste até uma altura de cerca de oitenta pés, porém íngreme na extremidade sudeste. O lado sudoeste era tão inclinado quanto um telhado comum, ou tão inclinado quanto podíamos escalar com segurança; o nordeste era um precipício abrupto, do qual se podia saltar diretamente até o fundo, perto de onde corria o rio; enquanto o topo plano da crista, por onde se caminhava, tinha apenas de um a três ou quatro pés de largura. Para uma ilustração grosseira, tome a metade de uma pera cortada longitudinalmente em duas, coloque-a sobre o lado plano, com o cabo voltado para noroeste, e então corte-a verticalmente ao meio no sentido do comprimento, conservando a metade sudoeste. Essa era sua forma geral.

O incêndio revelara uma série notável dessas grandes ondas de rocha, como que arrebentações. Não era de admirar que o rio que encontrava passagem entre elas fosse rápido e obstruído por quedas. Sem dúvida, a ausência de solo sobre essas rochas, ou sua secura onde havia algum, fez com que a queimada fosse muito completa. Podíamos ver o lago por cima da mata, duas ou três milhas adiante, e que o rio fazia uma curva abrupta para o sul em torno da extremidade noroeste do penhasco onde estávamos, ou um pouco acima de nós, de modo que havíamos cortado caminho por uma curva, e que havia nele uma queda importante a curta distância abaixo de nós. Eu podia ver a canoa cem rods atrás, agora porém na margem oposta, e supus que o indígena decidira tirá-la da água e transportá-la por terra ao redor de algumas corredeiras ruins daquele lado, e que talvez fosse por isso que me fizera sinal; mas, depois de esperar algum tempo, eu ainda não via nada dele, e observei a meu companheiro que me perguntava onde estaria, embora começasse a suspeitar que tivesse entrado pela mata para procurar o lago do alto de alguma colina daquele lado, como nós havíamos feito. Foi exatamente o que ocorreu; pois, depois que comecei a voltar para a canoa, ouvi um grito distante e o avistei no topo de uma colina rochosa longínqua daquela margem. Mas, como, depois de muito tempo, eu ainda via sua canoa no mesmo lugar, e ele não voltara para ela nem parecia ter pressa de fazê-lo, e, além disso, como me lembrei de que antes me fizera sinal, pensei que talvez houvesse algo mais a detê-lo do que eu sabia e comecei a retornar para noroeste, ao longo da crista, rumo ao ângulo do rio. Meu companheiro, que acabara de ficar separado de nós e chegara até a considerar a necessidade de acampar sozinho, querendo poupar seus passos e ainda assim permanecer conosco, perguntou aonde eu ia; respondi que voltaria o bastante para me comunicar com o indígena e que, depois disso, achava melhor seguirmos juntos pela margem, mantendo-o à vista.

Quando chegamos à margem, o indígena apareceu saindo da mata do lado oposto, mas, por causa do rugido da água, era difícil comunicar-nos com ele. Seguiu pela margem para oeste, rumo à canoa, enquanto paramos no ângulo onde o curso d’água virava para o sul em torno do precipício. Tornei a dizer a meu companheiro que seguiríamos pela margem e manteríamos o indígena à vista. Partimos para fazer isso, bem próximos um do outro, enquanto o indígena, atrás de nós, tornava a lançar sua canoa; mas nesse exato momento vi este último, que atravessara para o nosso lado, quarenta ou cinquenta rods atrás, fazendo-me sinal, e gritei para meu companheiro, que acabara de desaparecer atrás de grandes rochas na ponta do precipício, três ou quatro rods à minha frente, a caminho rio abaixo, que eu iria ajudar o indígena por um instante. Assim fiz: ajudei a passar a canoa por uma queda, deitado com o peito sobre uma rocha e segurando uma das pontas enquanto ele a recebia abaixo; e, em no máximo dez ou quinze minutos, eu estava novamente no ponto onde o rio virava para o sul, a fim de alcançar meu companheiro, enquanto Polis deslizava sozinho rio abaixo, paralelamente a mim. Mas, para minha surpresa, quando contornei o precipício, embora a margem estivesse sem árvores nem rochas por pelo menos um quarto de milha, meu companheiro não estava à vista. Era como se tivesse afundado na terra. Isso me parecia ainda mais inexplicável porque eu sabia que seus pés, desde nossa travessia do pântano, estavam muito doloridos e que ele queria permanecer com o grupo; além disso, caminhar ali era muito ruim, escalando ou contornando as rochas. Apressei-me, gritando e procurando por ele, pensando que pudesse estar oculto atrás de uma rocha, embora duvidasse se não teria tomado o outro lado do precipício; mas o indígena avançara ainda mais depressa em sua canoa, até ser detido pelas quedas, cerca de um quarto de milha abaixo. Então desembarcou e disse que não poderíamos seguir adiante naquela noite. O sol estava se pondo e, por causa das quedas e corredeiras, seríamos obrigados a deixar aquele rio e transportar a canoa por um longo trecho até outro, mais a leste. A primeira coisa, portanto, era encontrar meu companheiro, pois eu estava agora muito alarmado por causa dele, e mandei o indígena seguir pela margem rio abaixo, que logo abaixo das quedas começava novamente a ser coberta por mata não queimada, enquanto eu procurava para trás, em torno do precipício por onde havíamos passado. O indígena demonstrou certa relutância em fazer esforço, queixando-se de estar muito cansado em consequência do trabalho daquele dia, de ter se extenuado muito ao descer sozinho tantas corredeiras; mas partiu, chamando de um modo um tanto semelhante ao de uma coruja. Lembrei-me de que meu companheiro era míope e temi que tivesse caído do precipício, ou desmaiado e tombado entre as rochas abaixo dele. Gritei e procurei acima e abaixo do precipício, no crepúsculo, até não conseguir mais enxergar, esperando nada menos que encontrar seu corpo sob ele. Durante meia hora, antecipei e acreditei apenas no pior. Pensei no que faria no dia seguinte se não o encontrasse, no que eu poderia fazer numa região selvagem como aquela e em como seus parentes se sentiriam se eu voltasse sem ele. Senti que, se estivesse realmente perdido longe do rio, seria uma tarefa desesperada encontrá-lo; e onde estavam aqueles que poderiam ajudar? O que significaria mobilizar a região, onde havia apenas dois ou três acampamentos, separados por vinte ou trinta milhas, sem estrada alguma e talvez sem ninguém em casa? Ainda assim, quanto menor a perspectiva de êxito, mais arduamente teríamos de tentar.

Desci correndo daquele precipício até a canoa para disparar a arma do indígena, mas descobri que meu companheiro estava com as espoletas. Eu ainda pensava em fazê-la disparar quando o indígena voltou. Não o encontrara, mas disse que vira suas pegadas uma ou duas vezes ao longo da margem. Isso me animou muito. Ele se opôs a que disparássemos a arma, dizendo que, se meu companheiro a ouvisse, o que não era provável por causa do estrondo da corrente, seria tentado a vir em nossa direção e poderia quebrar o pescoço no escuro. Pela mesma razão, abstivemo-nos de acender uma fogueira no rochedo mais alto. Propus que ambos seguíssemos corrente abaixo até o lago, ou que ao menos eu fosse, mas o indígena disse: “Não adianta, não dá para fazer nada no escuro; quando amanhecer, então nós encontra ele. Nenhum perigo, ele faz acampamento. Não tem animal ruim aqui, nem urso-cinzento, como na Califórnia, onde ele esteve, noite quente, ele está tão bem quanto você e eu.” Considerei que, se estivesse bem, poderia passar sem nós. Acabara de viver oito anos na Califórnia e tinha muita experiência com feras e homens ainda mais selvagens, além de estar particularmente acostumado a fazer jornadas muito longas; mas, se estivesse doente ou morto, estaria perto de onde nos encontrávamos. A escuridão no bosque já se tornara tão espessa que ela por si só decidiu a questão. Tínhamos de acampar onde estávamos. Eu sabia que ele tinha sua mochila, com cobertores e fósforos, e, se estivesse bem, não passaria pior do que nós, salvo por não ter ceia nem companhia.

Como este lado do rio estava tão atravancado de rochas, passamos para a margem leste, mais lisa, e fomos acampar ali, a dois ou três rods das quedas. Não armamos a tenda, mas nos deitamos na areia, pondo sob o corpo alguns punhados de capim e gravetos, pois não havia nenhuma conífera à mão. Para combustível, tínhamos alguns dos tocos carbonizados. Nossos vários sacos de provisões haviam ficado bastante molhados nas corredeiras, e eu os dispus ao redor do fogo para secarem. A queda bem ao lado era a principal daquela corrente e fazia tremer a terra sob nós. Era uma noite fresca, por causa do orvalho; talvez ainda mais em razão da proximidade das quedas. O indígena se queixou bastante e depois achou que apanhara ali um resfriado que provocou uma enfermidade mais grave. De todo modo, os mosquitos não nos incomodaram muito. Fiquei acordado boa parte da noite, tomado de ansiedade, mas, de maneira que eu mesmo não conseguia explicar, acabei relativamente tranquilo a respeito dele. A princípio, eu temera o pior, mas agora quase não duvidava de que o encontraria pela manhã. De tempos em tempos, imaginava ouvir sua voz chamando através do estrondo das quedas, do lado oposto do rio; mas é duvidoso que pudéssemos ouvi-lo do outro lado da corrente naquele ponto. Às vezes, eu duvidava de que o indígena tivesse realmente visto suas pegadas, pois demonstrava pouca disposição para fazer uma busca mais extensa, e então minha ansiedade voltava.

Era a região mais selvagem e desolada em que havíamos acampado, onde, se em algum lugar, seria de esperar que encontrássemos habitantes à altura; mas ouvi apenas o guincho de um bacurau que esvoaçava por cima. A lua, em seu quarto crescente, no início da noite, pondo-se sobre as colinas rochosas e nuas, guarnecidas de tocos altos, carbonizados e ocos, ou de cascas de árvores, servia para revelar a desolação.

QUINTA-FEIRA, 30 de julho.

Despertei o indígena cedo naquela manhã para irmos em busca de nosso companheiro, esperando encontrá-lo a uma ou duas milhas, mais abaixo na corrente. O indígena queria primeiro tomar o desjejum, mas lembrei-lhe que meu companheiro não tivera nem desjejum nem ceia. Fomos obrigados, antes de tudo, a transportar nossa canoa e a bagagem até outra corrente, o Braço Leste principal, distante cerca de três quartos de milha, pois o Webster Stream não era navegável dali em diante. Percorremos duas vezes essa portagem, e os arbustos cobertos de orvalho nos encharcaram como água até a cintura; de tempos em tempos, eu dava gritos em tom agudo, embora tivesse pouca esperança de ser ouvido por sobre o estrondo das corredeiras e, além disso, estivéssemos necessariamente no lado oposto da corrente em relação a ele. Quando atravessávamos essa portagem pela última vez, o indígena, que seguia à minha frente com a canoa sobre a cabeça, tropeçou e caiu pesadamente, ficando por um momento em silêncio, como se sentisse dor. Avancei depressa para ajudá-lo, perguntando se se machucara muito, mas, após uma pausa, sem responder, ele se levantou de um salto e seguiu adiante. Durante todo o caminho, estava sujeito a acessos de taciturnidade, mas eram inofensivos.

Mal tínhamos lançado a canoa e descido um pequeno trecho do Braço Leste quando ouvi um grito em resposta, vindo de meu companheiro, e pouco depois o vi de pé numa ponta onde havia uma clareira, um quarto de milha abaixo, com a fumaça de sua fogueira subindo ali perto. Antes de vê-lo, naturalmente tornei a gritar várias vezes, mas o indígena observou, secamente: “Ele ouve você”, como se uma vez bastasse. Era logo abaixo da foz do Webster Stream. Quando chegamos, ele fumava seu cachimbo e disse que passara uma noite razoavelmente confortável, embora um tanto fria por causa do orvalho.

Soube-se que, quando estivéramos juntos na noite anterior, e eu gritava para o indígena do outro lado do rio, ele, sendo míope, não vira nem o indígena nem sua canoa; e, quando voltei para ajudar o indígena, não viu para que lado eu fora e supôs que estávamos abaixo dele, e não acima. Assim, apressando-se para nos alcançar, correu para longe de nós. Ao chegar àquela clareira, uma milha ou mais abaixo de nosso acampamento, a noite o alcançou, e ele fez uma fogueira numa pequena depressão e se deitou junto dela, enrolado em seu cobertor, ainda pensando que estávamos à sua frente. Achou provável que tivesse ouvido o indígena gritar uma vez na noite anterior, mas confundira o som com o de uma coruja. Antes que escurecesse, vira uma raridade botânica: um Epilobium angustifolium inteiramente branco em meio aos campos de exemplares cor-de-rosa, nas terras queimadas. Já havia erguido, numa vara à beira d’água, o que restava da camisa de um madeireiro, encontrada na ponta, para servir de sinal, e afixara nela um bilhete informando-nos de que seguira para o lago e de que, se não nos encontrasse lá, estaria de volta em duas horas. Caso não nos encontrasse logo, pensara em voltar à procura do caçador solitário que havíamos encontrado no Lago Telos, dez milhas atrás, e, se tivesse êxito, contratá-lo para levá-lo a Bangor. Mas, se esse caçador tivesse avançado tão depressa quanto nós, a essa altura estaria a vinte milhas dali, e quem poderia adivinhar em que direção? Procurá-lo naqueles bosques seria como procurar uma agulha num palheiro. Ele vinha calculando por quanto tempo conseguiria viver apenas de bagas.

Substituímos seu bilhete por um cartão contendo nossos nomes, nosso destino e a data de nossa visita, que Polis envolveu habilmente num pedaço de casca de bétula para mantê-lo seco. É provável que algum caçador ou explorador já o tenha lido a esta altura.

Todos estávamos com bom apetite para o desjejum que nos apressamos a preparar ali e, depois de secarmos parcialmente as roupas, deslizamos velozmente pela corrente sinuosa em direção ao Segundo Lago.

À medida que as margens se tornavam mais planas, com frequentes bancos de cascalho e areia, e a corrente mais sinuosa nas terras baixas próximas ao lago, surgiram olmos e freixos; também o lírio-amarelo-silvestre (Lilium Canadense), do qual colhi alguns bulbos para uma sopa. Em algumas elevações, a terra queimada se estendia até o lago. Era um lago belíssimo, com duas ou três milhas de comprimento, e altas montanhas no lado sudoeste, o Nerlumskeechticook, como disse nosso indígena, i. e., Montanha Deadwater. Parece ser a mesma chamada de Montanha Carbuncle no mapa. Segundo Polis, ela se estende em elevações separadas ao longo de todo este lago e do seguinte, que é muito maior. Creio que o lago também recebe o mesmo nome, talvez com o acréscimo de gamoc ou mooc. A manhã estava luminosa, perfeitamente calma e serena, e o lago, liso como vidro, sendo nós a única ondulação ao remar para dentro dele. As montanhas escuras ao redor apareciam através de uma névoa glauca, e os brilhantes troncos brancos das bétulas-de-canoa misturavam-se aos demais bosques em torno. O tordo-da-floresta cantava na margem distante, e o riso de algumas mobelhas-grandes, brincando numa baía oculta a oeste, como se inspiradas pela manhã, chegava nitidamente até nós através do lago; e, o que era ainda mais notável, o eco que corria ao redor do lago era muito mais alto que o som original. Provavelmente, como a mobelha se encontrava numa baía de curvatura regular sob a montanha, estávamos exatamente no foco de muitos ecos, o som refletindo-se como a luz num espelho côncavo. A beleza da cena talvez tenha sido realçada a nossos olhos pelo fato de termos acabado de nos reunir novamente após uma noite de certa ansiedade. Aquilo me fez lembrar o Lago Ambejijis, no Braço Oeste, que atravessei em minha primeira ida ao Maine. Depois de remarmos por três quartos do lago, paramos, enquanto meu companheiro lançava a linha para pescar. Uma gaivota branca, ou esbranquiçada, pousava numa rocha que se erguia acima da superfície no meio do lago, não muito longe, em perfeita harmonia com a cena; e, enquanto descansávamos ali sob o sol quente, ouvimos na floresta, a quarenta ou cinquenta rods de distância, um forte som de esmagamento ou estalo, como o de um galho quebrado pelo pé de algum animal grande. Até isso era um acontecimento interessante naquele lugar. Em meio a nossos sonhos com trutas-do-lago gigantes, que mesmo então supúnhamos estar mordiscando a isca, nossos pescadores puxaram um diminuto peixe-sol-vermelho, e retomamos depressa os remos.

Não era evidente onde ficava a saída daquele lago e, enquanto o indígena achava que estava numa direção, eu achava que estava em outra. Ele disse: “Aposto quatro pence que é ali”, mas ainda assim continuou na minha direção, que se revelou a correta. Quando nos aproximávamos da saída, ainda cedo pela manhã, ele exclamou de repente: “Alce! Alce!”, e nos mandou ficar quietos. Pôs uma espoleta na arma e, de pé na popa, impeliu rapidamente a canoa em linha reta para a margem e para o alce. Era uma fêmea, a cerca de trinta rods, parada na água ao lado da saída, parcialmente atrás de alguns troncos caídos e arbustos, e, àquela distância, não parecia muito grande. Agitava as grandes orelhas e, de tempos em tempos, espantava com o focinho as moscas de alguma parte do corpo. Não parecia muito alarmada com nossa proximidade; apenas de vez em quando virava a cabeça e nos encarava diretamente, tornando depois a dar atenção às moscas. Quando chegamos mais perto, saiu da água, ficou num ponto mais alto e passou a nos observar com maior desconfiança. Polis impelia a canoa firmemente pela água rasa, e por um momento esqueci o alce ao me deter em alguns belos Polygonums cor-de-rosa que mal despontavam acima da superfície; mas a canoa logo encalhou na lama, a oito ou dez rods do alce, e o indígena agarrou a arma e se preparou para atirar. Depois de permanecer imóvel por um instante, ela se virou devagar, como de costume, expondo o flanco, e ele aproveitou o momento para disparar por cima de nossas cabeças. Então ela se afastou oito ou dez rods, em passo moderado, atravessando uma baía rasa até um antigo ponto onde costumava ficar, atrás de alguns bordos-vermelhos caídos, na margem oposta; ali voltou a permanecer imóvel, a doze ou quatorze rods de nós, enquanto o indígena recarregava às pressas e disparava duas vezes contra ela, sem que se movesse. Meu companheiro, que lhe passava as espoletas e as balas, disse que Polis estava tão excitado quanto um menino de quinze anos, que sua mão tremia e que, certa vez, recolocou a vareta de carregar de cabeça para baixo. Isso era notável num caçador tão experiente. Talvez estivesse ansioso para fazer um bom disparo diante de nós. O caçador branco me dissera que os indígenas não eram bons atiradores porque se excitavam, embora tivesse dito que havíamos conseguido um bom caçador para nos acompanhar.

O indígena então recuou rápida e silenciosamente, dando uma longa volta para entrar na saída, pois havia disparado por sobre o colo de uma península situada entre ela e o lago, até nos aproximarmos do lugar onde o alce estivera; então exclamou: “Ela já era!”, e se surpreendeu por não a vermos tão depressa quanto ele. E ali, de fato, ela jazia completamente morta, com a língua pendente, exatamente onde estivera parada para receber os últimos disparos, parecendo inesperadamente grande e semelhante a um cavalo; e vimos onde as balas haviam marcado as árvores.

Usando uma fita, verifiquei que o alce media exatamente seis pés do ombro à ponta do casco e oito pés de comprimento, tal como jazia. Algumas partes do corpo, numa extensão de um pé de diâmetro, estavam quase cobertas de moscas, aparentemente a mosca comum de nossos bosques, com uma mancha escura na asa, e não aquelas muito grandes que ocasionalmente nos perseguiam no meio da corrente, embora ambas sejam chamadas de moscas-do-alce.

Preparando-se para esfolar o alce, Polis pediu-me que o ajudasse a encontrar uma pedra em que pudesse afiar sua grande faca. Como o local onde o animal caíra era todo um terreno aluvial plano, coberto de bordos-vermelhos etc., isso não era tarefa fácil; procuramos por toda parte durante muito tempo, até que por fim encontrei uma espécie de pedra de ardósia achatada, e pouco depois ele voltou com outra semelhante, na qual logo deixou a faca muito afiada.

Enquanto ele esfolava o alce, tratei de averiguar que espécies de peixe se encontravam naquele escoadouro lento e lodoso. A maior dificuldade era achar uma vara. Era quase impossível encontrar naqueles bosques uma vara fina e reta de dez ou doze pés de comprimento. Podia-se procurar em vão por meia hora. Em geral, as árvores são abetos, arbor-vitae, bálsamos etc., baixas, grossas e cheias de galhos, e não dão boas varas de pesca, mesmo depois que se cortam pacientemente todos os seus galhos duros e desgrenhados. Os peixes eram percas-vermelhas e chivins.

Tendo cortado um grande pedaço do lombo, o lábio superior e a língua, o indígena os embrulhou no couro e os colocou no fundo da canoa, observando que ali havia “um homem”, querendo dizer o peso de um homem. Nossa carga fora antes reduzida em cerca de trinta libras, mas agora se lhe acrescentavam cem libras, um acréscimo considerável, que tornou nosso espaço ainda mais estreito e aumentou bastante tanto o perigo nos lagos e corredeiras quanto o trabalho das portagens. Segundo o costume, o couro era nosso, pois o indígena estava a nosso serviço, mas nem pensamos em reivindicá-lo. Como ele sabia curtir muito bem couros de alce, faria aquele valer sete ou oito dólares para si, segundo me disseram. Contou que às vezes ganhava cinquenta ou sessenta dólares por dia com eles; havia matado dez alces num só dia, embora a esfola e todo o resto levassem dois dias. Fora assim que adquirira seus bens. Havia por ali rastros de um filhote, que, segundo ele, viria “logo, logo”, e ele poderia apanhá-lo caso quiséssemos esperar, mas tratei de esfriar o projeto.

Continuamos pelo escoadouro em direção ao Grand Lake, através de uma região pantanosa, por uma água morta longa, sinuosa e estreita, muito obstruída por troncos, onde às vezes éramos obrigados a desembarcar para fazer a canoa passar por cima de um deles. Era difícil encontrar qualquer canal, e não sabíamos se acabaríamos perdidos no pântano. Como de costume, havia muitos patos. Por fim, chegamos ao Grand Lake, que o indígena chamava de Matungamook.

Na cabeceira dele vimos o Trout Stream, ou Uncardnerheese, vindo do sudoeste, numa curva que parecia sair de uma garganta entre as montanhas; o indígena disse que esse nome tinha alguma relação com montanhas.

Paramos para almoçar numa interessante ilha rochosa e elevada, pouco depois de entrar no lago Matungamook, prendendo nossa canoa à margem escarpada. É sempre agradável passar de um barco para uma grande rocha ou penhasco. Ali havia uma boa oportunidade de secar nossos cobertores úmidos de orvalho sobre a rocha aberta e ensolarada. Indígenas haviam acampado ali recentemente e, por acidente, queimado a extremidade ocidental da ilha; Polis apanhou um estojo de espingarda feito de casimira azul e disse que conhecia o indígena a quem pertencia e que o levaria até ele. Seu povo não é tão numeroso que ele não possa conhecer todos os seus pertences. Tratamos de acender uma fogueira e preparar nosso almoço entre alguns pinheiros, onde nossos predecessores haviam feito o mesmo, enquanto o indígena se ocupava com seu couro de alce na margem, pois dizia achar um bom plano que uma pessoa fizesse todo o trabalho de cozinhar, isto é, suponho, desde que essa pessoa não fosse ele. Uma conífera peculiar pendia sobre nossa fogueira e, à primeira vista, parecia um pinheiro-de-piche (P. rigida), com folhas semelhantes às de um abeto e pouco maiores que uma polegada; descobrimos, porém, que era o Pinus Banksiana, o “pinheiro-de-Banks, ou pinheiro-do-Labrador”, também chamado pinheiro-rasteiro, pinheiro-cinzento etc., uma árvore nova para nós. Aqueles deviam ser bons exemplares, pois vários tinham trinta ou trinta e cinco pés de altura. Richardson encontrou a espécie com quarenta pés ou mais e afirma que o porco-espinho se alimenta de sua casca. Ali também crescia o pinheiro-vermelho (Pinus resinosa).

Vi onde os indígenas haviam feito canoas numa pequena depressão abrigada no bosque, no alto da rocha, onde ficavam protegidos do vento, e ainda restavam grandes montes de aparas. Aquele devia ter sido um refúgio predileto de seus antepassados e, com efeito, encontramos ali a ponta de uma flecha do tipo que eles não usam há dois séculos e já não sabem fabricar. Apanhando uma pedra, o indígena me observou: “Pedra muito estranha.” Era um pedaço de hornstone, e eu lhe disse que seu povo provavelmente o trouxera até ali séculos antes para fazer pontas de flecha. Ele também apanhou junto à nossa fogueira um osso amarelado e curvo e me pediu que adivinhasse o que era. Tratava-se de um dos incisivos superiores de um castor, com o qual algum grupo se banqueteara um ou dois anos antes. Encontrei também a maior parte dos dentes, o crânio etc. Ali almoçamos carne de alce frita.

Um homem que me acompanhou em minhas duas excursões anteriores a esses bosques conta que, quando caçava nas proximidades do Caucomgomoc, cerca de dois anos antes, certa vez se viu almoçando carne de alce, tartaruga-do-lodo, truta e castor, e pensou que havia poucos lugares no mundo onde esses pratos pudessem ser reunidos com facilidade numa mesma mesa.

Depois das corredeiras e quedas quase incessantes do Madunkchunk (Height-of-Land, ou Webster Stream), acabávamos de atravessar a água morta do Second Lake e estávamos agora na água morta, muito maior, do Grand Lake, e achei que o indígena tinha direito a tirar ali uma soneca extra. Dizem que Ktaadn, perto do qual passaríamos no dia seguinte, significa “Terra Mais Alta”. Há muita geografia em seus nomes. O navegador indígena distingue naturalmente por um nome as partes de um curso d’água onde encontrou águas rápidas e bifurcações e, de novo, os lagos e águas tranquilas onde pode descansar os braços cansados, pois essas são para ele as partes mais interessantes e mais navegáveis. A simples visão das Nerlumskeechticook, ou Montanhas da Água Morta, a um dia de viagem por sobre a floresta, tal como as vimos pela primeira vez, deve despertar nele lembranças agradáveis. E não é menos interessante para o viajante branco, ao cruzar um lago plácido nesses bosques remotos, talvez pensando ser, em certo sentido, um de seus primeiros descobridores, ser lembrado de que ele já era assim bem conhecido e adequadamente nomeado por caçadores indígenas talvez mil anos antes.

Subindo a rocha íngreme que formava essa ilha longa e estreita, surpreendi-me ao descobrir que seu cume era uma crista estreita, com um precipício de um lado, e que seu eixo de elevação se estendia de noroeste a sudeste, exatamente como o da grande crista rochosa no começo do Burnt Ground, dez milhas a noroeste. A mesma disposição prevalecia ali, e podíamos ver claramente que as cristas montanhosas a oeste do lago seguiam a mesma direção. Esplêndidas campânulas grandes balançavam sobre a borda e nas fendas do penhasco, e os mirtilos (Vaccinium Canadense) eram, pela primeira vez, realmente abundantes no solo raso do alto. Dali em diante não faltariam no Braço Leste. Havia dali uma bela vista do lago cintilante, que parecia puro e profundo e possuía, ao todo, duas ou três ilhas rochosas. Estando secos nossos cobertores, partimos novamente, tendo o indígena, como de costume, deixado seu jornal numa árvore. Desta vez, éramos nós três numa canoa, meu companheiro fumando. Remamos para o sul por esse belo lago, que parecia estender-se quase tanto para leste quanto para sul, mantendo-nos perto da margem ocidental, logo além de uma pequena ilha, sob a escura montanha Nerlumskeechticook. Pois eu observara em meu mapa que esse era o rumo. O lago tinha três ou quatro milhas de largura. Ocorreu-me que o contorno dessa montanha a sudoeste do lago, e o de outra além dela, não apenas se parecia com as enormes ondas de rocha do Webster Stream, mas, em linhas gerais, também com Kineo, no Moosehead Lake, pois tinha um precipício semelhante, embora menos abrupto, na extremidade sudeste; em suma, que todas as colinas e cristas proeminentes dos arredores eram Kineos maiores ou menores, e que possivelmente havia tal relação entre Kineo e as rochas do Webster Stream.

[Ilustração: Penhasco do Monte Kineo]

O indígena não sabia exatamente onde ficava o escoadouro, se no extremo sudoeste ou mais para leste, e pedira para ver meu mapa na última parada, mas eu me esquecera de mostrá-lo. Como de costume, avançou tateando por um rumo intermediário entre dois pontos prováveis, dos quais poderia por fim desviar-se para qualquer lado sem perder muita distância. Ao nos aproximarmos da margem sul, como as nuvens pareciam anunciar rajadas e as ondas corriam bastante altas, dirigimos a canoa de modo a ficar em parte a sotavento de uma ilha, embora ainda muito distantes dela.

Não consegui distinguir o escoadouro até estarmos quase dentro dele e ouvir a água caindo sobre a barragem.

Ali havia uma queda considerável e uma barragem muito sólida, mas nenhum sinal de cabana ou acampamento. O caçador que encontramos no Telos Lake nos dissera que havia muitas trutas ali, mas àquela hora elas não mordiam a isca, apenas uma prima da truta, bem no meio das águas impetuosas. Não há tantos peixes nesses rios quanto no Concord.

Enquanto nos demorávamos ali, Polis aproveitou para cortar com sua faca grande parte do pelo de seu couro de alce, aliviando-o e preparando-o para secar. Em vários antigos acampamentos indígenas nos bosques, notei o monte de pelos que haviam cortado de seus couros.

Depois de transportar a canoa por terra junto à barragem, ele se lançou pelas corredeiras, deixando-nos caminhar por uma milha ou mais, onde na maior parte não havia trilha e a marcha junto ao curso d’água era muito cerrada e difícil. Por fim, ele chamava para nos avisar onde nos esperava com a canoa, quando, por causa das voltas do curso d’água, não sabíamos onde ficava a margem; mas não chamava com frequência suficiente, esquecendo-se de que não éramos indígenas. Parecia economizar muito o fôlego, embora ficasse surpreso caso passássemos direto ou não chegássemos ao ponto certo. Isso não acontecia por falta de solicitude, mas era prova de maneiras superiores. Os indígenas gostam de seguir viagem com o mínimo possível de comunicação e alvoroço. Na verdade, ele nos prestava o tempo todo um grande elogio, supondo que preferíamos uma pista a um pontapé.

Por fim, trepando sobre os salgueiros e as árvores caídas, quando isso era mais fácil do que contorná-los ou passar por baixo, alcançamos a canoa e deslizamos curso abaixo por águas lisas, mas rápidas, durante várias milhas. Ali observei de novo, como no Webster Stream, e numa escala ainda maior no dia seguinte, que o rio era um plano liso e regularmente inclinado pelo qual descíamos deslizando. Enquanto avançávamos assim, espantamos os primeiros patos-pretos que conseguimos distinguir.

Decidimos acampar cedo naquela noite, para termos bastante tempo antes de escurecer; assim, paramos na primeira margem favorável, onde havia uma estreita praia de cascalho no lado ocidental, cerca de cinco milhas abaixo do escoadouro do lago. Era um lugar interessante, onde o rio começava a fazer uma grande curva para leste, e a última das peculiares montanhas Nerlumskeechticook, com forma de cabeça de alce, não muito a sudoeste do Grand Lake, erguia-se escura a noroeste, a pouca distância atrás de nós, exibindo seu lado sudeste cinzento e escarpado; mas não podíamos vê-lo sem sair até a margem.

Dois passos para longe da água, de qualquer lado, e chega-se à borda abrupta da ribanceira, coberta de arbustos e raízes, quando não de relva, com quatro ou cinco pés de altura, onde começa a floresta interminável, como se o curso d’água acabasse de abrir caminho através dela.

É surpreendente, ao desembarcar em qualquer ponto dessa região selvagem intacta, ver com tanta frequência, pelo menos a poucos rods do rio, as marcas do machado deixadas por madeireiros que acamparam ali ou conduziram toras rio abaixo em primaveras anteriores. Talvez se veja onde eles, tratando do mesmo assunto que nós, cortaram grandes lascas de um alto toco de pinheiro-branco para alimentar a fogueira. Enquanto armávamos o acampamento e preparávamos a ceia, o indígena cortou o restante do pelo de seu couro de alce e tratou de estendê-lo verticalmente sobre uma armação provisória entre duas arvorezinhas, a meia dúzia de pés do lado oposto da fogueira, amarrando-o e esticando-o com casca de arbor-vitae, que estava sempre à mão e, nesse caso, foi retirada de uma das próprias árvores às quais o couro estava preso. Pedindo uma nova espécie de chá, ele nos preparou um, bastante bom, de checkerberry (Gaultheria procumbens), que cobria o chão, deixando cair na chaleira um pequeno feixe da planta amarrado com casca de cedro; mas não era tão bom quanto o de Chiogenes. Por isso, chamamos o lugar de Acampamento do Chá de Checkerberry.

Chamou-me a atenção a abundância de Linnæa borealis, checkerberry e Chiogenes hispidula em quase toda parte nos bosques do Maine. A wintergreen (Chimaphila umbellata) ainda estava em flor ali, e os frutos da clintônia eram abundantes e maduros. Essa bela planta é uma das mais comuns naquela floresta. Ali notamos pela primeira vez o moose-wood com frutos nas margens. As árvores predominantes eram o abeto, em geral o negro, a arbor-vitae, a bétula-de-canoa, começando a aparecer o freixo-negro e os olmos, a bétula-amarela, o bordo-vermelho e um pouco de tsuga escondida na floresta. O indígena disse que a madeira esponjosa do bordo-branco era a melhor para servir de isca, que a da bétula-amarela também era bastante boa, porém dura. Depois da ceia, pôs a língua e os lábios do alce para ferver, retirando o septum. Mostrou-me como escrever na face interna da casca de bétula com um graveto de pícea-negra, que é duro e resistente e pode ser apontado.

Pouco antes do anoitecer, o indígena afastou-se por uma curta distância dentro do bosque e, ao voltar, disse: “Eu achou grande tesouro, vale cinquenta, sessenta dólares.” “O que é?”, perguntamos. “Armadilhas de aço, debaixo dum tronco, trinta ou quarenta, não contei. Acho que trabalho de indígena, valem três dólares cada.” Foi uma coincidência singular que ele tivesse por acaso caminhado até aquele tronco específico e olhado debaixo dele, naquela floresta sem trilhas.

Vi chivins e chubs no riacho enquanto lavava as mãos, mas meu companheiro tentou em vão apanhá-los. Ouvi também o som de rãs-touro vindo de um pântano na margem oposta, pensando a princípio que fossem alces; um pato passou remando velozmente; e, sentado naquela região selvagem crepuscular, sob aquela montanha escura, junto ao rio luminoso, cheio de luz refletida, ainda ouvi o sabiá-dos-bosques cantar, como se não fosse possível alcançar civilização mais elevada. A essa altura, a noite já caía sobre nós.

Em geral, arma-se o acampamento exatamente ao pôr do sol, e recolhe-se lenha, prepara-se a ceia ou monta-se a tenda enquanto as sombras da noite se juntam ao redor e vêm aumentar a escuridão já densa da floresta. Não há tempo para explorar nem olhar em volta antes de escurecer. Talvez você penetre meia dúzia de rods mais adentro naquela região selvagem do crepúsculo, à procura de alguma casca seca com que acender o fogo, e se pergunte que mistérios permanecem ocultos ainda mais fundo nela, digamos, ao fim de uma longa jornada a pé; ou talvez corra até a margem para buscar uma concha de água, obtenha por breve trecho uma vista mais clara rio acima ou abaixo e, enquanto está ali, veja um peixe saltar, ou um pato pousar no rio, ou ouça um sabiá-dos-bosques ou um tordo-americano cantar na mata. É como se tivesse ido à cidade ou a regiões civilizadas. Mas não há como sair andando sem rumo para conhecer a região, e dez ou quinze rods parecem uma enorme distância de seus companheiros; você volta com ares de homem muito viajado, como de uma longa jornada, com aventuras para contar, embora possa ter ouvido o crepitar do fogo o tempo todo, e, a cem rods, talvez se perdesse sem possibilidade de resgate e tivesse de acampar onde estivesse. Tudo é musgoso e alcino. Em alguns daqueles bosques densos de abetos e píceas, mal há espaço para a fumaça subir. As árvores são uma noite em pé, e cada abeto e cada pícea que você derruba é uma pluma arrancada da asa de corvo da noite. Então, à noite, o silêncio geral impressiona mais que qualquer som, mas, de vez em quando, ouve-se o chamado de uma coruja, mais distante ou mais próximo na mata, e, junto a um lago, o grito semihumano das mobelhas-grandes em seus folguedos sobrenaturais.

Naquela noite, o indígena deitou-se entre o fogo e sua pele de alce estendida, para evitar os mosquitos. Na verdade, fez também uma pequena fogueira fumacenta de folhas úmidas junto à cabeça e outra junto aos pés e, como de costume, enrolou a cabeça no cobertor. Nós, com nossos véus e nossa loção, ficamos razoavelmente confortáveis, mas seria difícil dedicar-se a qualquer ocupação sedentária nos bosques nessa estação; à noite, não se consegue enxergar o bastante para ler muito à luz do fogo através de um véu, nem manejar bem lápis e papel com luvas ou dedos untados.

SEXTA-FEIRA, 31 de julho.

O indígena disse: “Você e eu matar alce noite passada, por isso usar melhor lenha. Sempre usar madeira dura para cozinhar carne de alce.” Sua “melhor lenha” era bordo-açucareiro. Atirou o beiço do alce ao fogo para queimar os pelos e depois o enrolou junto com a carne para levar. Percebendo que nos sentávamos para o desjejum sem toucinho algum, disse, com expressão muito grave: “Eu querer gordura”; então lhe disseram que podia comer quanto quisesse fritar.

Por uma distância considerável, tivemos água lisa, porém veloz, e deslizávamos rapidamente, espantando patos e martins-pescadores. Mas, como de costume, nosso avanço tranquilo logo chegou ao fim, e fomos obrigados a transportar a canoa e tudo o mais por cerca de meia milha ao longo da margem direita, contornando algumas corredeiras ou quedas. Às vezes eram necessários olhos muito atentos para saber de que lado ficava a portagem antes de se precipitar pela queda, mas Polis jamais deixou de nos fazer desembarcar no lugar certo. As framboesas eram particularmente abundantes e grandes ali, e todos se puseram a comê-las, enquanto o indígena comentava o tamanho delas.

Muitas vezes, nas portagens rochosas e nuas, a trilha era tão indistinta que eu a perdia repetidamente; mas, quando caminhava atrás dele, observava que conseguia segui-la quase como um cão farejador, e raramente hesitava, ou, se parava por um instante sobre uma rocha nua, seus olhos logo detectavam algum sinal que me teria escapado. Com frequência, nós não encontrávamos trilha alguma nesses lugares e, para ele, atrasávamo-nos inexplicavelmente. Limitava-se a dizer que era “muito estranho”.

Tínhamos ouvido falar de uma Grande Queda nesse rio e julgávamos que cada queda a que chegávamos devia ser ela; mas, depois de batizarmos várias sucessivamente com esse nome, desistimos da busca. Havia mais Grandes ou Pequenas Quedas do que consigo recordar.

Não sei dizer quantas vezes tivemos de caminhar por causa de quedas ou corredeiras. Esperávamos o tempo todo que o rio desse um salto final e alcançasse águas lisas, mas não houve melhora naquela manhã. As portagens, contudo, eram uma variedade agradável. Mal saíamos da canoa e esticávamos as pernas, encontrávamo-nos num jardim de mirtilos e framboesas, pois os dois lados de nossa trilha rochosa ao redor das quedas eram ladeados por uma ou por ambas as frutas. Não houve uma única portagem no Braço Leste principal em que não encontrássemos abundância dessas duas bagas, pois aqueles eram os lugares mais rochosos e parcialmente desimpedidos, exatamente como essas plantas preferem, e ninguém passara antes de nós para colher as melhores.

Em nossas três travessias pelas portagens, pois éramos obrigados a passar pelo mesmo terreno três vezes sempre que a canoa era retirada da água, fizemos plena justiça às frutas, e elas eram exatamente o que precisávamos para corrigir os efeitos de nossa dieta de biscoito duro e toucinho. Outro nome para fazer uma portagem poderia ter sido sair para colher frutas. Encontramos também algumas bagas de amelânquia, ou serviceberries, embora a maioria fosse abortada; ainda assim, vingavam de modo um pouco mais geral que em Concord. O indígena as chamava pemoymenuk e dizia que davam muitos frutos em certos lugares. Às vezes, comia também as cerejas-vermelhas-silvestres do norte, dizendo que eram um bom remédio, mas mal eram comestíveis. Banhámo-nos e almoçamos ao pé de uma dessas portagens. Era o indígena quem geralmente nos lembrava que estava na hora do almoço, às vezes até virando a proa para a margem. Certa vez apresentou uma desculpa indireta, porém longa, dizendo que talvez achássemos estranho, mas que quem trabalhava duro o dia inteiro fazia muita questão de almoçar na hora certa. Na queda mais considerável desse rio, quando eu percorria a portagem logo atrás do indígena, ele notou uma pegada na rocha, apenas ligeiramente coberta de terra, e, abaixando-se, murmurou: “caribu”. Quando voltamos, observou uma pegada muito maior perto do mesmo lugar, onde a pata de algum animal afundara numa pequena cavidade da rocha, parcialmente cheia de capim e terra, e exclamou, surpreso: “Que isso?” “Bem, o que é?”, perguntei. Abaixando-se e pondo a mão dentro dela, respondeu com ar misterioso, quase num sussurro: “Diabo [isto é, Diabo Indígena, ou puma], penhascos por aqui, animal muito ruim, despedaçar pedras todas.” “Há quanto tempo foi feita?”, perguntei. “Hoje ou ontem”, disse ele. Mas, quando depois lhe perguntei se tinha certeza de que era a pegada do diabo, respondeu que não sabia. Tinham-me dito que o grito de um puma fora ouvido recentemente nas proximidades de Ktaadn, e não estávamos longe daquela montanha.

Passamos pelo menos metade do dia caminhando, e a caminhada foi tão ruim quanto de costume, pois o indígena, estando sozinho, geralmente avançava muito além do fim das portagens antes de esperar por nós. As próprias trilhas de portagem eram mais indistintas que o habitual; muitas vezes, o caminho só se revelava pelos incontáveis furinhos na madeira caída, feitos pelas tachas nas botas dos condutores, ou, quando havia uma trilha tênue, nós não a encontrávamos. Era um matagal emaranhado e desconcertante, através do qual tropeçávamos e abríamos caminho, e, ao completar uma milha daquilo, nosso ponto de partida parecia muito distante. Alegramo-nos por não ter de ir a pé até Bangor pelas margens daquele rio, o que seria uma jornada de mais de cem milhas. Pense na densidade da floresta, nas árvores caídas e nas rochas, nas curvas do rio, nos riachos que nele desembocam e nos frequentes pântanos a atravessar. Dava calafrios. E, no entanto, de tempos em tempos o indígena nos apontava onde assim se esgueirara, dia após dia, quando era um menino de dez anos e passava fome. Estivera caçando muito ao norte dali com dois indígenas adultos. O inverno chegara inesperadamente cedo, e o gelo os obrigara a deixar a canoa no Grand Lake e descer a pé pela margem. Puseram as peles nos ombros e partiram rumo a Oldtown. A neve não era funda o bastante para raquetes de neve, nem para cobrir as irregularidades do terreno. Polis logo ficou fraco demais para carregar qualquer peso, mas conseguiu apanhar uma lontra. Foi quase tudo o que os três tiveram para comer durante a jornada, e ele se lembrava de como eram boas as raízes de lírio-amarelo, transformadas em sopa com a gordura da lontra. Dividiu esse alimento igualmente com os outros dois, mas, por ser tão pequeno, sofreu muito mais que eles. Atravessou a vau o Mattawamkeag em sua foz, quando fazia um frio congelante e a água lhe chegava ao queixo; muito fraco e emaciado, esperava ser arrastado pela corrente. A primeira casa a que chegaram ficava em Lincoln, e por aquelas bandas encontraram um carreteiro branco que levava provisões e que, vendo o estado em que estavam, deu-lhes de sua carga tudo quanto conseguiram comer. Durante seis meses após chegar em casa, ele ficou muito abatido, não esperava sobreviver e talvez jamais se tenha recuperado por completo.

Não conseguimos encontrar em nossos mapas muito mais que metade da jornada daquele dia (o “Mapa das Terras Públicas do Maine e de Massachusetts” e o “Mapa Ferroviário e Municipal do Maine, de Colton”, que copia o primeiro). Segundo os mapas, não havia mais de quinze milhas entre os acampamentos, na estimativa mais ampla, e, contudo, tínhamos avançado ativamente o dia inteiro e, durante boa parte do tempo, com grande rapidez.

Por sete ou oito milhas abaixo daquela sucessão de quedas “Grandes”, o aspecto das margens, assim como o caráter do rio, mudou. Depois de passarmos por um afluente vindo do nordeste, talvez o Bowlin Stream, tivemos água boa, veloz e lisa, com uma inclinação regular, como já descrevi. Começaram a surgir margens baixas e relvosas e praias lodosas. Muitos olmos, bem como bordos, e um número maior de freixos pendiam sobre o rio e substituíam as píceas.

Como minhas raízes de lírio se haviam perdido quando a canoa foi retirada da água numa portagem, desembarquei no fim da tarde, num lugar baixo e relvoso entre bordos, para colher mais. Era um trabalho lento, escavá-las no meio da areia, e os mosquitos se banqueteavam comigo o tempo todo. Mosquitos, borrachudos e outros insetos nos perseguiam até no meio do canal, e às vezes ficávamos contentes por entrar em corredeiras violentas, pois então escapávamos deles.

Um pica-pau-de-cabeça-vermelha atravessou o rio voando, e o indígena comentou que era bom para comer. Enquanto deslizávamos velozmente pelo plano inclinado do rio, uma grande coruja-listrada lançou-se de um toco na margem e cruzou pesadamente o rio; o indígena, como de costume, imitou seu chamado. Logo a mesma ave tornou a passar diante de nós, e depois passamos por ela empoleirada numa árvore. Pouco depois, uma águia-de-cabeça-branca planou rio abaixo à nossa frente. Fizemo-la avançar por várias milhas enquanto procurávamos um bom lugar para acampar, pois esperávamos ser alcançados por uma pancada de chuva, e ainda conseguíamos distingui-la pela cauda branca, levantando voo de tempos em tempos de alguma árvore junto à margem para pousar ainda mais adiante rio abaixo. Surpreendemos algumas shecorways; parte delas mergulhou, passamos diretamente por cima e pudemos acompanhar seu curso aqui e ali por uma bolha na superfície, mas não as vimos emergir. Polis detectou uma ou duas vezes o que chamava de estrada de “reboque”, uma trilha indistinta que entrava pela floresta. Enquanto isso, passamos pela foz do Seboois à nossa esquerda. Ele não parecia tão grande quanto nosso rio, que era, de fato, o curso principal. Levamos algum tempo para encontrar lugar de acampamento, pois a margem ou era relvosa e lodosa demais, onde abundavam mosquitos, ou era uma encosta íngreme demais. O indígena disse que havia poucos mosquitos numa encosta íngreme. Examinamos um bom lugar onde alguém acampara por muito tempo; mas parecia lamentável ocupar um sítio antigo quando havia tanto espaço para escolher, por isso seguimos adiante. Por fim encontramos um lugar que nos agradava, na margem oeste, cerca de uma milha abaixo da foz do Seboois, onde, numa mata muito densa de píceas acima de uma praia de cascalho, parecia haver poucos insetos. As árvores eram tão cerradas que tivemos de abrir um espaço para fazer o fogo e nos deitar, e as jovens píceas que ficaram pareciam as paredes de um aposento erguendo-se ao nosso redor. Tivemos de nos puxar por uma margem íngreme para chegar até lá. Mas o lugar escolhido para acampamento, por mais áspero e sombrio que seja, começa de imediato a revelar seus atrativos e se torna para você um verdadeiro centro de civilização: “Lar é lar, por mais modesto que seja.”

No fim, havia ali mais mosquitos do que em qualquer lugar onde os encontráramos antes, e o indígena se queixou bastante, embora se deitasse, como na noite anterior, entre três fogueiras e sua pele estendida. Enquanto eu me sentava num toco junto ao fogo, de véu e luvas, tentando ler, ele observou: “Eu fazer vela para você”; num minuto, pegou um pedaço de casca de bétula de cerca de duas polegadas de largura, enrolou-o bem apertado, como um allumette de quinze polegadas de comprimento, acendeu-o e prendeu a outra ponta horizontalmente numa vara fendida de três pés de altura, fincada no chão, virando a extremidade em chamas para o vento e dizendo-me que a aparasse de tempos em tempos. Serviu bastante bem como vela.

Notei, como já havia notado antes, que por volta da meia-noite havia uma trégua entre os mosquitos, e que eles recomeçavam pela manhã. A Natureza é assim misericordiosa. Mas, ao que parece, eles precisam descansar tanto quanto nós. Poucas criaturas, se é que alguma, são igualmente ativas a noite inteira. Assim que clareou, vi, através do meu véu, que o interior da barraca, em torno de nossas cabeças, estava completamente enegrecido por miríades deles, cada um batendo as asas em voo, segundo se calculou, cerca de três mil vezes por minuto, e o zumbido conjunto era quase tão difícil de suportar quanto as picadas. Tive uma noite desconfortável por esse motivo, embora não tenha certeza de que algum deles tenha conseguido me picar. Não sofremos tanto com os insetos nesta excursão quanto as afirmações de alguns que exploraram estes bosques em pleno verão nos haviam levado a prever. Ainda assim, não tenho dúvida de que, em certas estações e em certos lugares, eles constituem uma praga muito mais grave. O jesuíta Hierome Lalemant, de Quebec, ao relatar a morte do padre Reni Menard, que foi abandonado, perdeu o caminho e morreu nos bosques, entre os Ontarios, perto do lago Superior, em 1661, detém-se sobretudo nos sofrimentos que ele provavelmente padeceu com os ataques dos mosquitos quando já estava fraco demais para se defender, acrescentando que havia naquelas paragens uma quantidade assustadora deles, “e tão insuportáveis”, diz ele, “que os três franceses que fizeram aquela viagem afirmam não haver outro meio de defender-se senão correr sempre, sem parar, e que era até necessário empregar dois deles para afastar essas criaturas enquanto o terceiro queria beber, pois, de outro modo, ele não teria conseguido”. Não tenho dúvida de que isso foi dito de boa-fé.

1º de agosto.

Peguei dois ou três grandes chivin vermelhos (Leuciscus pulchellus) bem cedo nesta manhã, a menos de vinte pés do acampamento, os quais, somados à língua de alce que havia ficado no caldeirão, fervendo durante a noite, e às nossas outras provisões, compuseram um café da manhã suntuoso. O indígena fez para nós um chá de tsuga em vez de café, e não fomos obrigados a ir até a China para obtê-lo; na verdade, nem tão longe quanto para buscar o peixe. Era tolerável, embora ele dissesse que não estava forte o bastante. Era interessante ver um prato tão simples quanto um caldeirão de água com um punhado de raminhos verdes de tsuga dentro, fervendo sobre a enorme fogueira ao ar livre, as folhas perdendo depressa sua viva cor verde, e saber que aquilo era para o nosso café da manhã.

Ficamos contentes em embarcar mais uma vez e deixar para trás alguns dos mosquitos. Havíamos passado pelo Wassataquoik sem percebê-lo. Este, segundo o indígena, é o nome do próprio Braço Leste principal, e não se aplica propriamente apenas a esse pequeno afluente, como nos mapas.

Descobrimos que havíamos acampado cerca de uma milha acima da casa de Hunt, que fica na margem leste e é a última casa para os que sobem o Ktaadn por este lado.

Esperávamos subi-lo a partir desse ponto, mas meu companheiro foi obrigado a desistir por causa dos pés feridos. O indígena, porém, sugeriu que talvez ele conseguisse um par de mocassins naquele lugar, e que poderia caminhar com muita facilidade neles sem machucar os pés, usando vários pares de meias; disse ainda que eram tão porosos que, quando entrava água, ela escorria toda de novo em pouco tempo. Paramos para conseguir um pouco de açúcar, mas descobrimos que a família havia se mudado e que a casa estava desocupada, exceto temporariamente por alguns homens que recolhiam o feno. Disseram-me que o caminho para o Ktaadn deixava o rio oito milhas acima; disseram também que talvez pudéssemos conseguir açúcar na casa de Fisk, catorze milhas abaixo. Não me lembro de termos visto a montanha em momento algum a partir do rio. Notei ali uma rede de cerco estendida na margem, provavelmente usada para apanhar salmões. Logo abaixo, na margem oeste, vimos uma pele de alce esticada e, junto dela, uma pele de urso, comparativamente muito pequena. Interessei-me ainda mais por essa visão porque foi perto dali que um concidadão nosso, então ainda um rapazinho e sozinho, matou um grande urso alguns anos antes. O indígena disse que pertenciam a Joe Aitteon, meu último guia, mas não sei como ele pôde saber. Provavelmente caçava nas proximidades e as havia deixado ali durante o dia. Ao descobrir que íamos diretamente para Oldtown, lamentou não ter levado mais carne de alce para sua família, dizendo que, em pouco tempo, ao secá-la, poderia tê-la tornado tão leve que teria levado consigo a maior parte, deixando os ossos. Uma ou duas vezes perguntamos pelo beiço, que é um petisco famoso, mas ele disse: “Aquilo vai Oldtown para minha velha; não pega todo dia”.

Os bordos se tornavam cada vez mais numerosos. O tempo estava carregado, e choveu um pouco durante a manhã; como esperávamos nos molhar, paramos cedo e almoçamos no lado leste de uma pequena expansão do rio, logo acima do que provavelmente se chama Whetstone Falls, cerca de uma dúzia de milhas abaixo da casa de Hunt. Havia pegadas de alce bastante recentes junto à água. Por ali havia singulares cristas compridas, chamadas “dorsos de cavalo”, cobertas de samambaias. Meu companheiro, tendo perdido o cachimbo, perguntou ao indígena se não poderia fazer um para ele. “Oh, sim”, disse ele, e num minuto enrolou um de casca de bétula, dizendo-lhe que molhasse o fornilho de tempos em tempos. Ali também deixou seu jornal preso a uma árvore.

Fizemos a portagem ao redor das quedas logo abaixo, pelo lado oeste. As rochas se erguiam pelas arestas e eram muito afiadas. A distância era de cerca de três quartos de milha. Depois de transportarmos uma carga, o indígena voltou pela margem, e eu, pela trilha; embora não tenha me apressado em especial, fiquei surpreso ao encontrá-lo na outra extremidade tão cedo quanto eu. Era notável a facilidade com que avançava pelo pior terreno. Ele me disse: “Eu levo canoa e você leva resto, acha que consegue acompanhar comigo?”. Pensei que quisesse dizer que, enquanto ele descesse as corredeiras, eu deveria acompanhá-lo pela margem e estar pronto para ajudá-lo de tempos em tempos, como fizera antes; mas, como a caminhada seria muito ruim, respondi: “Acho que você irá depressa demais para mim, mas vou tentar”. Mas eu deveria ir pela trilha, disse ele. Achei que isso não ajudaria em nada, pois eu teria de percorrer uma grande distância para chegar à beira do rio quando ele precisasse de mim. Mas também não era isso que ele queria dizer. Estava propondo uma corrida pela portagem e me perguntou se eu achava que conseguiria acompanhá-lo pela mesma trilha, acrescentando que eu teria de ser bem ágil para fazê-lo. Como a carga dele, a canoa, seria de longe a mais pesada e volumosa, embora a mais simples, achei que deveria ser capaz e disse que tentaria. Então comecei a juntar a espingarda, o machado, o remo, o caldeirão, a frigideira, os pratos, as canecas, os tapetes etc., etc., e, enquanto eu fazia isso, ele me atirou suas botas de couro de vaca. “O quê, estas também entram no trato?”, perguntei. “Oh, sim”, disse ele; mas, antes que eu pudesse formar um fardo com minha carga, vi-o desaparecer por cima de uma colina com a canoa na cabeça; assim, juntando às pressas os diversos objetos, saí correndo e logo passei por ele entre os arbustos, mas mal o havia perdido de vista numa depressão rochosa quando os pratos engordurados, as canecas etc. criaram asas, e, enquanto eu me ocupava em recolhê-los de novo, ele passou por mim; mas, apertando às pressas o caldeirão fuliginoso contra o flanco, parti mais uma vez e, logo passando por ele de novo, não o vi mais durante a portagem. Não menciono isso como proeza alguma, pois da minha parte foi uma corrida bem medíocre, e ele era obrigado a avançar com grande cautela, por medo de quebrar tanto a canoa quanto o pescoço. Quando apareceu, bufando e ofegando como eu, em resposta às minhas perguntas sobre onde estivera, disse: “Pedras cortam pé”, e, rindo, acrescentou: “Oh, eu gostar de brincar às vezes”. Disse que ele e seus companheiros, quando chegavam a portagens de várias milhas, costumavam disputar quem atravessaria primeiro; cada qual, talvez, com uma canoa na cabeça. Carreguei a marca do caldeirão em meu saco de linho marrom pelo resto da viagem.

Fizemos uma segunda portagem no lado oeste, ao redor de algumas quedas cerca de uma milha abaixo. Em terra firme havia pinheiros-da-noruega, indicando uma nova formação geológica, e o solo era tão seco e arenoso quanto nenhum que tivéssemos notado antes.

Ao nos aproximarmos da foz do Braço Leste, passamos por duas ou três cabanas, primeiro sinal de civilização depois da casa de Hunt, embora ainda não víssemos estrada alguma; ouvimos um sino de vaca e chegamos até a ver um bebê erguido diante de uma pequena janela quadrada para nos ver passar, mas, ao que parecia, o bebê e a mãe que o segurava eram os únicos habitantes então em casa por várias milhas. Isso tirou o vento de nossas velas, lembrando-nos de que nós é que éramos viajantes, sem dúvida, ao passo que ele era natural daquele solo e levava vantagem sobre nós. A conversa arrefeceu. Eu apenas ouvia o indígena, talvez, perguntar a meu companheiro: “Você enche meu cachimbo?”. Disse que fumava casca de amieiro como remédio. Ao entrarmos no Braço Oeste em Nicketow, este pareceu muito maior que o Braço Leste. Polis observou que o anterior agora havia acabado e se perdido, que dali até Oldtown era tudo água mansa, e jogou fora a vara que havia cortado no Umbazookskus. Pensando nas corredeiras, disse uma ou duas vezes que ninguém o pegaria indo de novo pelo Braço Leste; mas não queria dizer, nem de longe, tudo o que dizia.

As coisas mudaram muito desde que estive aqui onze anos atrás. Onde havia apenas uma ou duas casas, encontrei agora quase uma aldeia, com serrarias e uma loja, esta última trancada, mas com seu conteúdo tanto mais seguramente guardado, e havia uma estrada de diligências para Mattawamkeag, além do rumor de uma diligência. Na verdade, um vapor havia subido até ali certa vez, quando as águas estavam muito altas. Mas não conseguimos obter açúcar algum, apenas uma telha de madeira melhor para encostar as costas.

Acampamos cerca de duas milhas abaixo de Nicketow, no lado sul do Braço Oeste, cobrindo com ramos frescos o leito ressequido de um viajante anterior e sentindo que agora estávamos em região povoada, sobretudo quando, ao anoitecer, ouvimos um boi espirrar em seu pasto bravio do outro lado do rio. Onde quer que se desembarque ao longo da parte frequentada do rio, não é preciso ir longe para encontrar esses locais de pousadas temporárias, o leito ressequido de ramos achatados, os gravetos carbonizados e talvez as varas da barraca. E não faz muito tempo, leitos semelhantes eram estendidos ao longo do Connecticut, do Hudson e do Delaware, e, há ainda mais tempo, junto ao Tâmisa e ao Sena; hoje eles ajudam a formar o solo onde há jardins particulares e públicos, solares e palácios. Não conseguimos ali ramos de abeto para o nosso leito, e a pícea era áspero em comparação, tendo mais ramo em proporção às folhas, mas o melhoramos um pouco com tsuga. O indígena observou, como antes: “Precisa madeira dura para cozinhar carne de alce”, como se fosse uma máxima, e tratou de consegui-la. Meu companheiro cozinhou um pouco à moda da Califórnia, enrolando uma longa tira da carne em torno de uma vara e girando-a lentamente na mão diante do fogo. Estava muito boa. Mas o indígena, por não aprovar o método, ou porque não lhe permitiram cozinhá-la à sua maneira, não quis prová-la. Depois da ceia regular, tentamos fazer uma sopa de lírio com os bulbos que eu trouxera, pois desejava aprender tudo o que pudesse antes de sair dos bosques. Seguindo as instruções do indígena, pois ele começava a passar mal, lavei cuidadosamente os bulbos, piquei um pouco de carne de alce e de porco, salguei e fervi tudo junto, mas não tivemos paciência para realizar a experiência de modo justo, pois ele disse que era preciso ferver até as raízes amolecerem completamente, de modo a engrossarem a sopa como farinha; contudo, embora a tenhamos deixado no fogo a noite inteira, pela manhã descobrimos que ela havia secado e grudado no caldeirão, sem ainda ter se desfeito em farinha. Talvez as raízes não estivessem maduras o suficiente, pois em geral são colhidas no outono. Tal como estava, era bastante palatável, mas me lembrou o caldo de pedra calcária do irlandês. Os outros ingredientes já bastavam por si. O nome indígena desses bulbos era Sheepnoc. Por acaso, mexi a sopa com uma vara de bordo-listrado, ou pau-de-alce, que eu havia descascado, e ele observou que sua casca era emética.

Ele se preparou para acampar como de costume entre sua pele de alce e o fogo; mas, como começou a chover de repente, refugiou-se sob a barraca conosco e nos cantou uma canção antes de adormecer. Choveu forte durante a noite e estragou para nós outra caixa de fósforos que o indígena havia deixado do lado de fora, pois era muito descuidado; mas, como de costume, tivemos uma noite tanto melhor por causa da chuva, já que ela manteve os mosquitos afastados.

DOMINGO, 2 de agosto.

Era uma manhã nublada e pouco promissora. Um de nós observou ao indígena: “O senhor não esticou sua pele de alce ontem à noite, esticou, Sr. Polis?” Ao que ele respondeu, num tom de surpresa, embora talvez não de mau humor: “Por que você me faz essa pergunta? Suponha eu esticar ela, você vê ela. Pode ser seu jeito de falar, pode ser tudo certo, não jeito indígena.” Eu havia observado que ele não queria responder à mesma pergunta mais de uma vez, e muitas vezes permanecia calado quando ela era repetida por questão de certeza, como se estivesse amuado. Não que fosse pouco comunicativo, pois com frequência começava, por iniciativa própria, uma narrativa prolixa, repetia longamente a tradição de alguma antiga batalha ou algum episódio da história recente de sua tribo no qual desempenhara papel de destaque, de tempos em tempos tomando um longo fôlego e retomando o fio da história, com a lentidão própria do verdadeiro contador de histórias, talvez depois de descer uma corredeira, prefaciando com “Be-e-em, pouco-pouco”, etc., enquanto remava. Sobretudo depois de encerrado o trabalho do dia, e de ter-se acomodado para a noite, tornava-se inesperadamente sociável, exibia até a bonhommie de um francês, e nós adormecíamos antes que ele terminasse seus períodos.

Diz-se que Nicketow fica a onze milhas de Mattawamkeag pelo rio. Nosso acampamento estava, portanto, a cerca de nove milhas deste último lugar.

O indígena estava bastante doente de cólica naquela manhã. Achei que fora o pior para ele a carne de alce que comera.

Chegamos a Mattawamkeag às oito e meia da manhã, em meio a uma chuva fina, e, depois de comprarmos um pouco de açúcar, partimos novamente.

Como o indígena piorava muito, paramos na parte norte de Lincoln para conseguir um pouco de conhaque para ele; mas, não o encontrando, um boticário recomendou as pílulas de Brandreth, que ele se recusou a tomar porque não as conhecia. Disse-me: “Eu médico, primeiro estudar meu caso, descobrir o que aflige ele, então eu sei o que tomar.” Descemos um pouco mais e paramos, em meados da manhã, numa ilha, onde lhe fizemos uma concha de chá. Ali também almoçamos e lavamos algumas coisas e coletamos plantas, enquanto ele permanecia deitado na margem. À tarde avançamos um pouco mais, embora o indígena não estivesse melhor. “Burntibus”, como ele o chamava, era um trecho longo, liso e semelhante a um lago, abaixo das Cinco Ilhas. Ele disse que possuía cem acres em algum lugar por aquelas bandas. Como parecia aproximar-se uma tempestade de trovões, paramos diante de um celeiro na margem oeste, em Chester, cerca de uma milha acima de Lincoln. Ali, por fim, fomos obrigados a passar o restante do dia e a noite por causa de nosso paciente, cuja enfermidade não diminuía. Ele jazia gemendo sob sua canoa na margem, com um aspecto muito desolado, embora fosse apenas um caso comum de cólica. Quem o visse assim estendido não imaginaria que ele era proprietário de tantos acres naquela vizinhança, possuía seis mil dólares e estivera em Washington. Pareceu-me que, como os irlandeses, fazia mais alarde de sua doença do que um ianque, e se assustava mais consigo mesmo. Conversamos um pouco sobre deixá-lo com seu povo em Lincoln, pois aquele era um de seus lares, e tomar a diligência no dia seguinte, mas ele se opôs por causa da despesa, dizendo: “Suponha eu bom de manhã, você e eu ir Oldtown até meio-dia.”

Enquanto tomávamos nosso chá ao crepúsculo, e ele continuava gemendo sob a canoa, tendo por fim descoberto “o que afligia ele”, pediu-me que lhe trouxesse uma concha de água. Tomando a concha numa das mãos, agarrou a pólvora com a outra e, despejando nela uma ou duas cargas de pólvora, mexeu com o dedo e bebeu tudo. Foi tudo o que tomou naquele dia depois do café da manhã, além do chá.

Para poupar o trabalho de armar nossa barraca, depois de protegermos nossas provisões dos cães errantes, acampamos no celeiro solitário e semiaberto perto da margem, com a permissão do proprietário, deitando-nos sobre feno recém-cortado com quatro pés de profundidade. A fragrância do feno, no qual se misturavam muitas samambaias etc., era agradável, embora ele estivesse inteiramente vivo de gafanhotos, que podíamos ouvir rastejando por dentro. Isso serviu para graduar nossa aproximação às casas e aos colchões de penas. Durante a noite, alguma ave grande, provavelmente uma coruja, esvoaçou por cima de nossas cabeças, e bem cedo pela manhã fomos despertados pelo gorjeio das andorinhas que ali tinham seus ninhos.

SEGUNDA-FEIRA, 3 de agosto.

Partimos cedo, antes do café da manhã, estando o indígena consideravelmente melhor, e logo deslizamos por Lincoln; depois de outro trecho longo e belo, semelhante a um lago, paramos para tomar o café da manhã na margem oeste, duas ou três milhas abaixo da cidade.

Passávamos com frequência por ilhas indígenas com pequenas casas sobre elas. O governador, Aitteon, mora numa delas, em Lincoln.

Os indígenas Penobscot parecem ser ainda mais sociáveis que os brancos. De vez em quando, na mais profunda região selvagem do Maine, chega-se à cabana de toras de um colono ianque ou canadense, mas um Penobscot jamais estabelece residência em semelhante solidão. Eles nem sequer ficam espalhados por suas ilhas no Penobscot, todas dentro das áreas povoadas, mas se reúnem em duas ou três, embora nem sempre no melhor solo, evidentemente por amor à convivência. Vi uma ou duas casas que já não eram usadas por eles porque, como disse nosso indígena Polis, eram solitárias demais.

O pequeno rio que deságua em Lincoln é o Matanancook, que, notamos, era também o nome de um vapor ali atracado. Assim, remávamos e flutuávamos adiante, espiando as desembocaduras dos rios. Ao passar pelas Corredeiras Mohawk, ou, como o indígena as chamava, “Mohog lips”, quatro ou cinco milhas abaixo de Lincoln, ele nos contou longamente a história de uma luta travada ali, em tempos antigos, entre sua tribo e os Mohawks, como estes foram vencidos por um estratagema, usando os Penobscots facas ocultas, mas durante muito tempo não conseguiram matar o chefe Mohawk, que era um homem muito grande e forte, embora fosse atacado por várias canoas ao mesmo tempo, quando nadava sozinho no rio.

De tempos em tempos encontrávamos indígenas em suas canoas, subindo o rio. Nosso homem em geral não se aproximava deles, mas trocava com eles algumas palavras à distância em sua língua. Eram os primeiros indígenas que encontrávamos desde que deixáramos o Umbazookskus.

Nas Quedas Piscataquis, logo acima do rio desse nome, caminhamos pela ferrovia de madeira na margem oriental, com cerca de uma milha e meia de extensão, enquanto o indígena deslizava pelas corredeiras. O vapor vindo de Oldtown para ali, e os passageiros tomam um novo barco acima. Piscataquis, cuja foz passamos ali, significa “braço”. O rio é obstruído por quedas em sua foz, mas pode ser navegado por batéis ou canoas acima, através de uma região povoada, até mesmo nas proximidades do lago Moosehead, e a princípio havíamos pensado em seguir por esse caminho. Depois disso, não fomos obrigados a sair da canoa por causa de quedas ou corredeiras, nem, na verdade, era inteiramente necessário fazê-lo ali. Prestamos menos atenção à paisagem naquele dia porque estávamos numa região bastante povoada. O rio tornou-se largo e lento, e vimos uma garça-azul avançando lentamente rio abaixo diante de nós.

Passamos pelo rio Passadumkeag à nossa esquerda e vimos, à distância, a sudeste, as montanhas azuis de Olamon. Por aquelas paragens, nosso indígena contou-nos longamente a história da disputa deles com o padre a respeito das escolas. Ele dava grande valor à educação e a recomendara à sua tribo. Seu argumento a favor dela era que, se alguém tivesse frequentado a faculdade e aprendido a calcular, poderia “conservar propriedade, nenhum outro jeito”. Disse que seu filho era o melhor aluno da escola em Oldtown, que frequentava junto com brancos. Ele próprio é protestante e vai regularmente à igreja em Oldtown. Segundo seu relato, muitos de sua tribo são protestantes, e muitos dos católicos também são favoráveis às escolas. Alguns anos antes, eles haviam tido um professor protestante de quem gostavam muito. O padre veio e disse que deviam mandá-lo embora, e por fim exerceu tamanha influência, dizendo-lhes que acabariam indo para o lugar ruim se o mantivessem, que o dispensaram. O partido da escola, embora numeroso, estava prestes a desistir. O bispo Fenwick veio de Boston e usou sua influência contra eles. Mas nosso indígena disse aos de seu lado que não deviam desistir, que tinham de resistir, pois eram os mais fortes. Se desistissem, então não teriam partido algum. Mas eles responderam que era “inútil, padre forte demais, melhor desistir”. Por fim, ele os persuadiu a tomar posição.

O padre estava indo buscar uma autorização para derrubar o mastro da liberdade. Então Polis e seu partido realizaram uma reunião secreta a respeito; ele preparou quinze ou vinte jovens robustos, “tirou roupa deles, e pintou eles como tempos antigos”, e disse-lhes que, quando o padre e seu partido fossem derrubar o mastro da liberdade, deveriam correr até lá, agarrá-lo e impedi-los, garantindo-lhes que não haveria guerra, apenas barulho, “não guerra onde padre está”. Manteve seus homens escondidos numa casa próxima e, quando o partido do padre estava prestes a derrubar o mastro da liberdade, cuja queda teria sido um golpe mortal para o partido da escola, deu um sinal, e seus jovens saíram correndo e agarraram o mastro. Houve grande tumulto, e estavam prestes a chegar às vias de fato, mas o padre interveio, dizendo: “Não guerra, não guerra”, e assim o mastro continua de pé, e a escola ainda funciona.

Achamos que isso revelava bastante tato de sua parte, aproveitar aquela ocasião e firmar nela sua posição, demonstrando quão bem compreendia aqueles com quem tinha de lidar.

O rio Olamon vem do leste e desemboca em Greenbush, algumas milhas abaixo do Passadumkeag. Quando perguntamos o significado desse nome, o indígena disse que havia uma ilha diante de sua foz chamada Olarmon; que, antigamente, quando visitantes iam a Oldtown, costumavam parar ali para se vestir, arrumar-se ou pintar-se. “O que é aquilo que mulheres usavam?”, perguntou. Ruĝe? Vermelhão? “Sim”, disse ele, “isso é larmon, um tipo de argila ou tinta vermelha, que eles costumavam obter aqui.”

Decidimos que nós também pararíamos naquela ilha e arrumaríamos, ao menos, nosso homem interior, almoçando.

Era uma ilha grande, com abundância de cânhamo-bravo, mas não notei ali nenhum tipo de tinta vermelha. O rio Olamon, pelo menos em sua foz, é uma corrente de águas paradas. Havia outra grande ilha naquela vizinhança, que o indígena chamava de Ilha “Soogle” (isto é, Açúcar).

Cerca de doze milhas antes de chegarmos a Oldtown, ele perguntou: “Como você gosta de seu piloto?” Mas adiamos a resposta até estarmos inteiramente de volta.

O Sunkhaze, outra corrente curta de águas paradas, vem do leste e desemboca duas milhas acima de Oldtown. Diz-se que há em suas margens alguns dos melhores terrenos de veados do Maine. Perguntando o significado do nome, o indígena disse: “Suponha você descendo Penobscot, justo como nós, e você vê canoa sair de margem e seguir diante de você, mas você não vê corrente. Isso é Sunkhaze.”

Ele já me havia elogiado por meu modo de remar, dizendo que eu remava “como qualquer um”, e me dera um nome indígena que significava “grande remador”. Diante dessa corrente, disse a mim, que estava sentado na proa: “Eu ensinar você remar.” Assim, virando em direção à margem, desembarcou, veio para a frente e colocou minhas mãos como queria. Pôs uma delas bem para fora da embarcação e a outra paralela à primeira, segurando o remo perto da ponta, não sobre a extremidade chata, e disse-me que o deslizasse para a frente e para trás sobre a lateral da canoa. Descobri que aquilo era uma grande melhoria na qual eu não pensara, poupando-me o trabalho de erguer o remo a cada vez, e me perguntei por que ele não a sugerira antes. É verdade que, antes de nossa bagagem ser reduzida, éramos obrigados a sentar com as pernas recolhidas e os joelhos acima da borda da canoa, o que nos teria impedido de remar daquela maneira; ou talvez ele receasse desgastar sua canoa pelo atrito constante na lateral.

Disse-lhe que eu estava acostumado a sentar na popa e, erguendo o remo a cada remada, dar-lhe uma torção para governar a embarcação, apenas usando a lateral como apoio a cada vez, e ainda remava em parte como se estivesse na popa. Então ele quis ver-me remar na popa. Assim, trocando os remos, pois ele tinha o mais longo e melhor, e invertendo nossas posições, ele sentado rente ao fundo e eu na travessa, começou a remar com muita força, tentando fazer a canoa virar, olhando por cima do ombro e rindo; mas, vendo que era inútil, relaxou os esforços, embora ainda avançássemos muito depressa por uma ou duas milhas. Disse que não tinha defeito algum a apontar em meu modo de remar na popa, mas eu me queixei de que ele não remava na proa conforme suas próprias instruções.

Diante do Sunkhaze fica a principal barreira de toras do Penobscot, onde são reunidas e separadas as toras vindas de muito acima no rio.

À medida que nos aproximávamos de Oldtown, perguntei a Polis se ele não estava contente por voltar para casa; mas não houve abrandamento de sua natureza selvagem, e ele disse: “Não faz diferença para mim onde eu estou.” Tal é sempre a pretensão do indígena.

Aproximamo-nos da Ilha Indígena pelo estreito canal chamado “Cook”. Ele disse: “Eu espera nós tomar água ali, rio tão alto, nunca ver ele tão alto nesta estação. Água muito brava ali, mas curta; afundou barco a vapor uma vez. Não remar até eu dizer, então você remar direto.” Era uma corredeira muito curta. Quando estávamos no meio dela, ele gritou “reme”, e atravessamos disparados sem embarcar uma gota.

Logo depois, as casas indígenas apareceram, mas a princípio eu não soube dizer a meu companheiro qual de duas ou três grandes casas brancas era a de nosso guia. Ele disse que era a que tinha venezianas.

Desembarcamos diante de sua porta por volta das quatro da tarde, tendo percorrido cerca de quarenta milhas naquele dia. Desde o Piscataquis, avançáramos com rapidez notável e inexplicável, provavelmente tão depressa quanto a diligência ou o barco, embora as últimas doze milhas fossem de águas paradas.

Polis queria vender-nos sua canoa, disse que ela duraria sete ou oito anos, ou, com cuidado, talvez dez; mas não estávamos dispostos a comprá-la.

Paramos por uma hora em sua casa, onde meu companheiro fez a barba com a navalha dele, que declarou estar em muito bom estado. A Sra. P. usava chapéu e tinha um broche de prata no peito, mas não nos foi apresentada. A casa era espaçosa e asseada. Um grande mapa novo de Oldtown e da Ilha Indígena pendia na parede, com um relógio diante dele. Querendo saber a que horas partiam os trens de Oldtown, o filho de Polis trouxe um dos jornais mais recentes de Bangor, que vi estar endereçado a “Joseph Polis”, vindo da redação.

Essa foi a última vez que vi Joe Polis. Tomamos o último trem e chegamos a Bangor naquela noite.

NOTA:

[8] Esses ramos são chamados de Sediak no Dicionário de Rasle.

1/1
Menu

Fazer anotação