Aquarelas — Os Triunfadores
Seção: Aquarelas
ALEXANDRE
I
Num sonho excelso, com o olhar o mundo abarcas:
E partes, num tropel de atletas e gigantes,
Ásia a fora, quebrando o cetro dos monarcas
E brechando brutais muralhas de elefantes!
Ficam por todo o Oriente as indeléveis marcas
Das patas dos corcéis. As falanges brilhantes,
Que Marte impele e Zeus protege, amealham arcas
De ouro e prata e montões de pedras coruscantes.
Oferecem-te o amor as princesas mais belas!
Perfumam-te os jardins da rica Babilônia!
Comes pavões da Média em rútilas baixelas!
De sátrapas e reis quebras o jugo fero...
Para os feitos cantar-te, água da Macedônia,
Só tem cordas a teorba olímpica de Homero!
ANÍBAL
II
Em Sagunto recebe a água lustral da glória:
E, caminho da Itália, o gênio de Cartago,
Entre avalanches, presto, os Alpes vinga, o estrago
Espalhando através da longa trajetória.
Carregado de anéis e pompas de vitória,
De bucinas marciais num estridor pressago,
Lá vai! Por onde passa um borbulhante lago
De sangue deixa, abrindo um sulco astral na História!
Firme, o Cartaginês, aríete dos aríetes,
Passeia entre um fulgor de escâmeos capacetes,
De armaduras de bronze e lanças rutilantes...
Cônsules e legiões de assombro semimortas
Triunfantemente leva até de Roma às portas,
A patas de corcéis e trombas de elefantes!
CÉSAR
III
Por sobre as Gálias solta as águias belicosas,
Transpõe o Reno e invade a inóspita Bretanha...
Muralhas não detêm suas legiões gloriosas
Que pisam nobremente orgulhos de montanha!
Podem setas zunir! Pode raivar a sanha
Dos bárbaros sem conta! As hostes vitoriosas
No sinistro fragor da pertinaz campanha,
Colhem para coroá-lo imarcescíveis rosas!
Estremece o inimigo assim que lhe ouve o passo;
No torvelim da luta a sua espada brilha
Furando corações de heróis de peitos de aço.
Por degraus de lauréis sobe ao sonhado sólio,
E Roma, que o seu vulto enche de maravilha,
Eleva o triunfador de Munda ao Capitólio!
BONAPARTE
IV
Entre o crebro estridor das músicas de guerra,
Como um raio, percorre os campos de batalha,
E, terror das nações, abala toda a Terra
Com urros de canhão e estrondos de metralha.
Quando, de gládio em punho, o Corso passa, aterra,
E ao clamor dos clarins o pânico se espalha!
Da Holanda à Rússia, entre ais, choros e pragas, erra.
Dando aos corvos festins de opípara mortualha.
Desde as três colossais pirâmides do Egito
— Arcas de tradições, assombros de granito, —
Veio aos seus pés curvando o alto orgulho realengo.
Viena, Berlim, Moscou guardam vivaz memória
Do semideus que tem, para perpétua glória,
Os troféus de Wagram e os louros de Marengo...