Capítulo VI: O Paradoxo Divino O Caibalion · Capítulo 9 de 18
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Capítulo VI: O Paradoxo Divino

“Os semissábios, reconhecendo a irrealidade comparativa do Universo, imaginam que podem desafiar suas Leis; tais são tolos vaidosos e presunçosos, e, em razão de sua insensatez, despedaçam-se contra as rochas e são dilacerados pelos elementos. Os verdadeiramente sábios, conhecendo a natureza do Universo, usam a Lei contra as leis; o superior contra o inferior; e, pela Arte da Alquimia, transmutam aquilo que é indesejável naquilo que é digno, e assim triunfam.

A Maestria não consiste em sonhos anormais, visões e fantasias ou modos de vida extravagantes, mas em empregar as forças superiores contra as inferiores, escapando aos sofrimentos dos planos inferiores por meio da vibração nos superiores. A Transmutação, e não a negação presunçosa, é a arma do Mestre.”

O Caibalion

Este é o Paradoxo do Universo, resultante do Princípio da Polaridade que se manifesta quando O TODO começa a Criar. Escutai-o, pois ele assinala a diferença entre a semissabedoria e a sabedoria.

Enquanto para O TODO INFINITO o Universo, suas Leis, seus Poderes, sua vida e seus Fenômenos são como coisas testemunhadas em estado de Meditação ou Sonho, para tudo aquilo que é Finito o Universo deve ser tratado como Real, e a vida, a ação e o pensamento devem nele se basear, sempre, contudo, com a compreensão da Verdade Superior. Cada qual segundo seu próprio Plano e suas Leis.

Se O TODO imaginasse que o Universo fosse de fato a Realidade, pobre Universo! Não haveria então passagem do inferior ao superior, rumo ao divino; o Universo se tornaria uma coisa fixa e o progresso seria impossível.

E, se o Homem, por causa da semissabedoria, age, vive e pensa no Universo como se este fosse apenas um sonho semelhante a seus próprios sonhos finitos, então ele realmente se torna assim para o homem. Como um sonâmbulo, ele tropeça continuamente em círculos, sem avançar, até ser finalmente obrigado a despertar ao cair, ferido e ensanguentado, sobre as Leis Naturais que ignorou.

Mantende a mente sempre voltada para a Estrela, mas deixai que os olhos vigiem vossos passos, para que não caiais na lama enquanto contemplais o alto. Lembrai-vos do Paradoxo Divino: embora o Universo NÃO SEJA, ainda assim ELE É. Lembrai-vos sempre dos Dois Polos da Verdade, o Absoluto e o Relativo. Cuidado com as Meias-Verdades.

Aquilo que os hermetistas conhecem como “Lei do Paradoxo” é um aspecto do Princípio da Polaridade. Os escritos herméticos estão repletos de referências ao aparecimento do Paradoxo quando se consideram os problemas da Vida e do Ser. Os Mestres advertem constantemente seus estudantes contra o erro de omitir o “outro lado” de qualquer questão.

E suas advertências dirigem-se de maneira especial aos problemas do Absoluto e do Relativo, que confundem todos os estudantes de filosofia e levam tantos a pensar e agir de maneira contrária àquilo que geralmente se conhece como “bom senso”. Advertimos todos os estudantes para que apreendam com clareza o Paradoxo Divino do Absoluto e do Relativo, a fim de não se enredarem na lama da Meia-Verdade. Foi com esse propósito que esta lição particular foi escrita. Lede-a cuidadosamente!

O primeiro pensamento que ocorre ao homem que pensa, depois de compreender a verdade de que o Universo é uma Criação Mental de O TODO, é que o Universo e tudo aquilo que contém constituem mera ilusão, uma irrealidade, ideia contra a qual seus instintos se revoltam. Essa questão, porém, como todas as outras grandes verdades, deve ser considerada tanto do ponto de vista Absoluto quanto do Relativo.

Do ponto de vista Absoluto, naturalmente, o Universo possui a natureza de uma ilusão, um sonho, uma fantasmagoria, quando comparado a O TODO em si mesmo.

Reconhecemos isso até em nossa maneira comum de ver as coisas, pois falamos do mundo como de um “espetáculo passageiro” que vem e vai, nasce e morre. O elemento da impermanência e da mudança, da finitude e da ausência de substancialidade, deve sempre estar ligado à ideia de um Universo criado quando este é contrastado com a ideia de O TODO, quaisquer que sejam nossas crenças acerca da natureza de ambos.

Filósofo, metafísico, cientista e teólogo concordam com essa ideia, e o pensamento se encontra em todas as formas de reflexão filosófica e concepções religiosas, assim como nas teorias das respectivas escolas de metafísica e teologia.

Portanto, os Ensinamentos Herméticos não proclamam a falta de substancialidade do Universo em termos mais fortes do que aqueles que já vos são familiares, embora sua maneira de apresentar o assunto talvez pareça mais surpreendente. Tudo aquilo que tem começo e fim deve ser, em certo sentido, irreal e não verdadeiro, e o Universo está sujeito a essa regra em todas as escolas de pensamento. Do ponto de vista Absoluto, nada é Real exceto O TODO, quaisquer que sejam os termos que utilizemos ao pensar ou discutir o assunto.

Quer o Universo seja criado de Matéria, quer seja uma Criação Mental na Mente de O TODO, ele é insubstancial, não duradouro, algo pertencente ao tempo, ao espaço e à mudança. Queremos que compreendais profundamente esse fato antes de julgardes a concepção Hermética da natureza Mental do Universo. Refleti sobre todas as outras concepções e vede se isso também não é verdadeiro para elas.

O ponto de vista Absoluto, porém, mostra apenas um lado do quadro. O outro lado é o Relativo.

A Verdade Absoluta foi definida como “as coisas tal como a mente de Deus as conhece”, enquanto a Verdade Relativa é “as coisas tal como a mais elevada razão do Homem as compreende”. Assim, embora para O TODO o Universo deva ser irreal e ilusório, um simples sonho ou resultado de meditação, para as mentes finitas que formam parte desse Universo e o contemplam por meio de faculdades mortais, o Universo é realmente muito real e deve ser considerado dessa maneira.

Ao reconhecer o ponto de vista Absoluto, não devemos cometer o erro de ignorar ou negar os fatos e fenômenos do Universo tal como se apresentam às nossas faculdades mortais. Lembrai-vos: nós não somos O TODO.

Tomemos exemplos familiares. Todos reconhecemos que a matéria “existe” para nossos sentidos, e nos sairemos muito mal se não o fizermos. Ainda assim, até nossas mentes finitas compreendem a afirmação científica de que, de certo ponto de vista, não existe algo como a Matéria; aquilo que chamamos de Matéria é considerado apenas uma agregação de átomos, sendo os próprios átomos agrupamentos de unidades de força chamadas elétrons ou “íons”, vibrando e em constante movimento circular.

Chutamos uma pedra e sentimos o impacto. Ela parece real, apesar de sabermos que é apenas aquilo que acabamos de descrever. Lembrai-vos, porém, de que nosso pé, que sente o impacto por meio do cérebro, também é Matéria e, portanto, é igualmente constituído de elétrons; o mesmo vale para nosso cérebro. E, afinal, se não fosse por nossa Mente, não conheceríamos nem o pé nem a pedra.

Da mesma forma, o ideal do artista ou do escultor, que ele procura reproduzir na pedra ou na tela, parece-lhe muito real. Assim também os personagens existentes na mente do autor ou dramaturgo, que ele procura expressar de maneira que outros possam reconhecê-los.

E, se isso é verdadeiro no caso de nossas mentes finitas, qual deve ser o grau de Realidade das Imagens Mentais criadas na Mente do Infinito? Amigos, para os mortais este Universo de Mentalidade é de fato muito real. É o único que jamais poderemos conhecer, ainda que ascendamos de plano em plano, cada vez mais alto dentro dele. Para conhecê-lo de outra maneira, por experiência efetiva, precisaríamos ser O TODO em si mesmo.

É verdade que, quanto mais alto ascendemos na escala, quanto mais nos aproximamos da “mente do Pai”, mais evidente se torna a natureza ilusória das coisas finitas. Entretanto, somente quando O TODO finalmente nos recolher para dentro de si a visão desaparecerá de fato.

Portanto, não precisamos insistir no aspecto da ilusão. Reconhecendo a verdadeira natureza do Universo, procuremos compreender suas leis mentais e utilizá-las da melhor maneira possível em nosso progresso ascendente pela vida, enquanto viajamos de plano em plano do Ser. As Leis do Universo não são menos “Leis de Ferro” por possuírem natureza mental. Todos, exceto O TODO, estão submetidos a elas.

Aquilo que está NA MENTE INFINITA DE O TODO é REAL em grau inferior apenas à própria Realidade que reside na natureza de O TODO.

Não vos sintais, portanto, inseguros ou amedrontados. Todos somos MANTIDOS FIRMEMENTE NA MENTE INFINITA DE O TODO, e nada existe que possa nos ferir ou que devamos temer. Não há Poder fora de O TODO capaz de nos afetar. Podemos, assim, repousar tranquilos e seguros. Há um mundo de consolo e segurança nessa compreensão, uma vez alcançada. Então, “calmos e serenos dormimos, embalados no Berço das Profundezas”, repousando em segurança sobre o seio do Oceano da Mente Infinita, que é O TODO.

Em O TODO, verdadeiramente, “vivemos, nos movemos e temos nosso ser”.

A Matéria não deixa de ser Matéria para nós enquanto habitamos o plano da Matéria, embora saibamos que ela é apenas uma agregação de “elétrons”, ou partículas de Força, vibrando rapidamente e girando umas ao redor das outras na formação dos átomos; os átomos, por sua vez, vibram e giram, formando moléculas, e estas formam massas maiores de Matéria.

A Matéria tampouco se torna menos Matéria quando prosseguimos nessa investigação e aprendemos, segundo os Ensinamentos Herméticos, que a “Força” da qual os elétrons são apenas unidades é simplesmente uma manifestação da Mente de O TODO e, como tudo o mais no Universo, possui natureza puramente Mental. Enquanto estivermos no Plano da Matéria, devemos reconhecer seus fenômenos. Podemos controlar a Matéria, como fazem todos os Mestres em maior ou menor grau, mas o fazemos mediante a aplicação de forças superiores.

Cometemos uma insensatez quando tentamos negar a existência da Matéria em seu aspecto relativo. Podemos negar seu domínio sobre nós, e com razão, mas não devemos procurar ignorá-la em seu aspecto relativo, pelo menos enquanto habitarmos seu plano.

As Leis da Natureza também não se tornam menos constantes ou eficazes quando sabemos que são igualmente criações mentais. Elas atuam plenamente nos diversos planos. Superamos as leis inferiores pela aplicação de leis superiores, e somente dessa maneira. Não podemos escapar da Lei nem elevar-nos completamente acima dela. Nada além de O TODO pode escapar da Lei, porque O TODO é a própria LEI da qual todas as Leis procedem.

Os Mestres mais avançados podem adquirir poderes que os homens costumam atribuir aos deuses; e existem incontáveis graus de seres na grande hierarquia da vida cujo ser e cujo poder transcendem até os mais elevados Mestres entre os homens em uma medida inconcebível aos mortais. Ainda assim, até o mais elevado Mestre e o mais elevado Ser devem curvar-se diante da Lei e ser como Nada aos olhos de O TODO.

Se até esses Seres superiores, cujos poderes excedem aqueles atribuídos pelos homens a seus deuses, estão submetidos e subordinados à Lei, imaginai a presunção do homem mortal, de nossa raça e de nosso grau, quando ousa considerar as Leis da Natureza “irreais”, visionárias e ilusórias apenas porque conseguiu apreender a verdade de que as Leis possuem natureza Mental e são simplesmente Criações Mentais de O TODO.

As Leis que O TODO destina a serem Leis governantes não podem ser desafiadas nem eliminadas por argumentos. Enquanto o Universo perdurar, elas perdurarão, pois o Universo existe em virtude dessas Leis, que formam sua estrutura e o mantêm unido.

O Princípio Hermético do Mentalismo, ao explicar a verdadeira natureza do Universo pelo princípio de que tudo é Mental, não altera as concepções científicas do Universo, da Vida ou da Evolução. Na realidade, a Ciência Moderna apenas corrobora os Ensinamentos Herméticos. Estes ensinam simplesmente que a natureza do Universo é “Mental”, enquanto a ciência moderna ensinou que ela é “Material” ou, mais recentemente, que em última análise é “Energia”.

Os Ensinamentos Herméticos não encontram motivo para discordar do princípio básico de Herbert Spencer, que postula a existência de uma “Energia Infinita e Eterna, da qual todas as coisas procedem”. Na verdade, os hermetistas reconhecem na filosofia de Spencer a mais elevada formulação exterior do funcionamento das Leis Naturais jamais proclamada. Acreditam ainda que Spencer tenha sido a reencarnação de um antigo filósofo que viveu no Egito há milhares de anos e que mais tarde encarnou como Heráclito, o filósofo grego que viveu por volta de 500 a.C.

Consideram sua formulação da “Energia Infinita e Eterna” diretamente alinhada aos Ensinamentos Herméticos, acrescentando apenas sua própria doutrina de que essa “Energia” é a Energia da Mente de O TODO. Com a Chave-Mestra da Filosofia Hermética, o estudante de Spencer poderá abrir muitas portas das concepções filosóficas interiores do grande filósofo inglês, cuja obra mostra os resultados da preparação de suas encarnações anteriores.

Seus ensinamentos a respeito da Evolução e do Ritmo encontram-se em concordância quase perfeita com os Ensinamentos Herméticos relativos ao Princípio do Ritmo.

Assim, o estudante do Hermetismo não precisa abandonar nenhuma de suas concepções científicas estimadas a respeito do Universo. Tudo o que lhe é pedido é que compreenda o princípio subjacente: “O TODO é Mente; o Universo é Mental, contido na Mente de O TODO.” Descobrirá que os outros seis dos Sete Princípios se encaixam em seu conhecimento científico e servem para esclarecer pontos obscuros e lançar luz sobre regiões sombrias.

Isso não causa surpresa quando consideramos a influência do pensamento Hermético sobre os primeiros filósofos da Grécia, sobre cujos fundamentos intelectuais repousa grande parte das teorias da ciência moderna.

A aceitação do Primeiro Princípio Hermético, o Mentalismo, constitui o único grande ponto de diferença entre a Ciência Moderna e os estudantes Herméticos; e a Ciência se aproxima gradualmente da posição Hermética enquanto tateia no escuro em busca de uma saída do Labirinto em que entrou durante sua procura pela Realidade.

O propósito desta lição é imprimir na mente de nossos estudantes o fato de que, para todos os efeitos, o Universo, suas leis e seus fenômenos são tão REAIS para o Homem quanto seriam sob as hipóteses do Materialismo ou do Energismo. Sob qualquer hipótese, o Universo, em seu aspecto exterior, está em mudança, em fluxo constante e é transitório, sendo, portanto, destituído de substancialidade e realidade.

Entretanto, observai o outro polo da verdade: sob essas mesmas hipóteses, somos obrigados a AGIR E VIVER como se as coisas passageiras fossem reais e substanciais. Há sempre esta diferença entre as várias hipóteses: nas concepções antigas, o Poder Mental era ignorado como Força Natural; sob o Mentalismo, ele se torna a Maior Força Natural. E essa única diferença revoluciona a Vida daqueles que compreendem o Princípio e as leis e práticas que dele resultam.

Portanto, finalmente, estudantes, compreendei a vantagem do Mentalismo e aprendei a conhecer, utilizar e aplicar as leis que dele resultam.

Não cedais, porém, à tentação que, como afirma O Caibalion, domina os semissábios e faz com que sejam hipnotizados pela aparente irrealidade das coisas. A consequência é que vagueiam como pessoas sonhando dentro de um mundo de sonhos, ignorando o trabalho prático e a vida do homem, até que “se despedaçam contra as rochas e são dilacerados pelos elementos em razão de sua insensatez”.

Segui antes o exemplo dos sábios, que, segundo a mesma autoridade, “usam a Lei contra as leis; o superior contra o inferior; e, pela Arte da Alquimia, transmutam aquilo que é indesejável naquilo que é digno, e assim triunfam”. Seguindo essa orientação, evitemos a semissabedoria, que é insensatez, e que ignora a verdade de que “a Maestria não consiste em sonhos anormais, visões e fantasias ou modos de vida extravagantes, mas em empregar as forças superiores contra as inferiores, escapando aos sofrimentos dos planos inferiores por meio da vibração nos superiores”.

Lembrai-vos sempre, estudante, de que “a Transmutação, e não a negação presunçosa, é a arma do Mestre”. As citações acima são de O Caibalion e merecem ser guardadas na memória pelo estudante.

Não vivemos em um mundo de sonhos, mas em um Universo que, embora relativo, é real no que diz respeito à nossa vida e às nossas ações. Nosso papel no Universo não é negar sua existência, mas VIVER, utilizando as Leis para ascender do inferior ao superior; vivendo, fazendo o melhor que pudermos diante das circunstâncias que surgem a cada dia e procurando viver, tanto quanto possível, de acordo com nossas maiores ideias e ideais.

O verdadeiro Sentido da Vida não é conhecido pelos homens neste plano, se é que o é por alguém. Entretanto, as mais elevadas autoridades e nossas próprias intuições ensinam que não erraremos ao viver segundo o melhor que existe em nós, tanto quanto possível, reconhecendo a tendência Universal nessa mesma direção apesar das aparências em contrário. Estamos todos no Caminho, e a estrada conduz sempre para cima, ainda que com frequentes lugares de repouso.

Lede a mensagem de O Caibalion e segui o exemplo dos “sábios”, evitando o erro dos “semissábios”, que perecem em razão de sua insensatez.

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