Capítulo XII: Causação O Caibalion · Capítulo 15 de 18
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Capítulo XII: Causação

“Toda Causa tem seu Efeito; todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é apenas um nome dado à Lei não reconhecida; há muitos planos de causação, mas nada escapa à Lei.”

O Caibalion

O grande Sexto Princípio Hermético, o Princípio de Causa e Efeito, encerra a verdade de que a Lei permeia o Universo; de que nada acontece por Acaso; de que Acaso é apenas um termo que indica uma causa existente, porém não reconhecida ou percebida; e de que os fenômenos formam uma continuidade, sem ruptura nem exceção.

O Princípio de Causa e Efeito está na base de todo pensamento científico, antigo e moderno, e foi enunciado pelos Mestres Herméticos nos tempos mais remotos. Embora desde então tenham surgido muitas e variadas controvérsias entre as diversas escolas de pensamento, essas disputas referem-se principalmente aos detalhes da operação do Princípio e, ainda mais frequentemente, ao significado de certas palavras.

O Princípio fundamental de Causa e Efeito foi aceito como correto por praticamente todos os pensadores do mundo dignos desse nome. Pensar de outra maneira seria retirar os fenômenos do Universo do domínio da Lei e da Ordem e entregá-los ao controle daquela coisa imaginária que os homens chamaram de “Acaso”.

Uma breve reflexão mostrará a qualquer pessoa que, na realidade, não existe algo como o puro acaso. Webster define “Acaso” como um suposto agente ou modo de atividade diferente de força, lei ou propósito; a operação de tal agente; seu suposto efeito; um acontecimento fortuito, uma casualidade e assim por diante. Mas um pouco de reflexão mostrará que não pode existir semelhante agente chamado “Acaso”, no sentido de algo exterior à Lei, algo fora de Causa e Efeito.

Como poderia haver, no Universo fenomenal, alguma coisa atuando independentemente de suas leis, de sua ordem e de sua continuidade? Tal coisa seria inteiramente independente da tendência ordenada do Universo e, portanto, superior a ela. Não podemos conceber coisa alguma fora de O TODO que esteja acima da Lei, e isso apenas porque O TODO é a própria LEI. Não há lugar no Universo para algo exterior e independente da Lei.

A existência de semelhante coisa tornaria ineficazes todas as Leis Naturais e lançaria o Universo em desordem caótica e ausência de lei.

Um exame cuidadoso mostrará que aquilo a que chamamos “Acaso” é apenas uma expressão relacionada a causas obscuras; causas que não conseguimos perceber; causas que não conseguimos compreender. A palavra “acaso” deriva de uma ideia ligada a “cair”, como na queda dos dados, sendo a concepção a de que a queda de um dado, e muitos outros acontecimentos, seriam apenas acontecimentos sem relação com qualquer causa. É nesse sentido que o termo costuma ser empregado.

Quando a questão é examinada de perto, porém, percebe-se que não há acaso algum na queda dos dados. Cada vez que um dado cai e apresenta determinado número, obedece a uma lei tão infalível quanto aquela que governa o movimento dos planetas ao redor do Sol. Por trás da queda do dado encontram-se causas, ou cadeias de causas, que recuam para muito além do alcance da mente.

A posição do dado na caixa; a quantidade de energia muscular empregada no lançamento; as condições da mesa e outros fatores semelhantes são causas cujos efeitos podem ser observados. Mas por trás dessas causas visíveis encontram-se cadeias de causas anteriores invisíveis, e todas elas exerceram influência sobre o número que terminou voltado para cima.

Se um dado for lançado um grande número de vezes, verificar-se-á que os números apresentados tendem a distribuir-se aproximadamente de maneira uniforme; isto é, cada uma das faces aparecerá voltada para cima aproximadamente o mesmo número de vezes. Lançai uma moeda ao ar e ela poderá cair em “cara” ou “coroa”; realizai, porém, um número suficientemente grande de lançamentos, e caras e coroas tenderão a equilibrar-se. Essa é a operação da lei das médias.

Mas tanto a média quanto o lançamento individual estão submetidos à Lei de Causa e Efeito. Se pudéssemos examinar todas as causas anteriores, veríamos claramente que, sob as mesmas circunstâncias e no mesmo instante, teria sido simplesmente impossível que o dado caísse de maneira diferente daquela em que caiu. Dadas as mesmas causas, os mesmos resultados se seguirão. Há sempre uma “causa” e um “porque” para cada acontecimento. Nada simplesmente “acontece” sem uma causa, ou, mais precisamente, sem uma cadeia de causas.

Alguma confusão surgiu na mente das pessoas que consideraram este Princípio porque não conseguiam explicar como uma coisa poderia causar outra, isto é, ser a “criadora” de uma segunda coisa.

Na realidade, nenhuma “coisa” causa ou “cria” outra “coisa”. Causa e Efeito dizem respeito apenas a “acontecimentos”. Um acontecimento é aquilo que vem, chega ou ocorre como resultado ou consequência de algum acontecimento anterior. Nenhum acontecimento “cria” outro; ele é apenas um elo anterior na grande cadeia ordenada de acontecimentos que flui da energia criadora de O TODO. Existe continuidade entre todos os acontecimentos anteriores, consequentes e subsequentes.

Há uma relação entre tudo aquilo que veio antes e tudo aquilo que vem depois. Uma pedra desprende-se da encosta de uma montanha e atravessa o telhado de uma casa no vale abaixo. À primeira vista, consideramos isso um efeito do acaso, mas, quando examinamos a questão, encontramos por trás dele uma grande cadeia de causas.

Primeiro houve a chuva, que amoleceu a terra que sustentava a pedra e permitiu sua queda; antes disso houve a influência do Sol, outras chuvas e outros fatores que gradualmente separaram aquele fragmento de uma massa maior de rocha; antes ainda existiram as causas que conduziram à formação da montanha e à sua elevação por convulsões da Natureza, e assim por diante, indefinidamente. Poderíamos então seguir as causas que estavam por trás da chuva e continuar ainda mais.

Depois poderíamos considerar a própria existência do telhado. Em pouco tempo, encontrar-nos-íamos envolvidos em uma rede de Causa e Efeito da qual logo tentaríamos escapar.

Assim como um homem possui dois pais, quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós e assim sucessivamente, até que, ao calcularmos quarenta gerações, o número de ancestrais alcança muitos milhões, assim também ocorre com o número de causas situadas por trás até mesmo do acontecimento ou fenômeno mais insignificante, como a passagem de uma minúscula partícula de fuligem diante de vosso olho.

Não é tarefa simples acompanhar essa partícula de fuligem até um período remoto da história do mundo em que formava parte do tronco de uma enorme árvore, mais tarde transformada em carvão, e assim sucessivamente, até que, como a pequena partícula que agora passa diante de vossos olhos, segue em direção a novas aventuras. Uma poderosa cadeia de acontecimentos, causas e efeitos, conduziu-a à sua condição atual, e esta é apenas um dos elos da cadeia de acontecimentos que contribuirão para produzir outros eventos daqui a centenas de anos.

Um dos acontecimentos decorrentes da pequena partícula de fuligem foi a escrita destas linhas, que fez com que o tipógrafo realizasse determinado trabalho, que o revisor fizesse o mesmo e que despertará certos pensamentos em vossa mente e na mente de outras pessoas, pensamentos que, por sua vez, afetarão outras pessoas, e assim sucessivamente, para além da capacidade humana de acompanhar a sequência. E tudo isso a partir da passagem de uma minúscula partícula de fuligem. Isso demonstra a relatividade e a associação de todas as coisas, bem como a verdade de que “não há grande; não há pequeno, na Mente que causa tudo”.

Detende-vos por um instante para pensar. Se determinado homem não tivesse encontrado determinada mulher no obscuro período da Idade da Pedra, vós, que agora ledes estas linhas, não estaríeis aqui. E se, talvez, esse mesmo casal não tivesse se encontrado, nós, que agora escrevemos estas linhas, também não estaríamos aqui.

E o próprio ato de escrever, de nossa parte, assim como o ato de ler, de vossa parte, afetará não apenas nossas respectivas vidas e a vossa, mas terá também efeito direto ou indireto sobre muitas outras pessoas que vivem atualmente e sobre outras que viverão nas eras futuras. Todo pensamento que pensamos, todo ato que realizamos, possui resultados diretos e indiretos que se encaixam na grande cadeia de Causa e Efeito.

Não desejamos entrar, nesta obra, na discussão sobre Livre-Arbítrio e Determinismo, por diversas razões. Entre elas, a principal é que nenhum dos lados da controvérsia está inteiramente correto. Na verdade, ambos estão parcialmente corretos, segundo os Ensinamentos Herméticos. O Princípio da Polaridade mostra que ambos são apenas Meias-Verdades, os polos opostos da Verdade.

Os Ensinamentos afirmam que um homem pode ser ao mesmo tempo Livre e, ainda assim, estar submetido à Necessidade, dependendo do significado atribuído aos termos e da altura de Verdade a partir da qual a questão é examinada. Os antigos escritores expressaram o assunto desta maneira: “Quanto mais distante a criação está do Centro, mais presa se encontra; quanto mais se aproxima do Centro, mais próxima está da Liberdade.”

A maioria das pessoas é, em maior ou menor grau, escrava da hereditariedade, do ambiente e de outras influências e manifesta pouquíssima Liberdade. É conduzida pelas opiniões, costumes e pensamentos do mundo exterior, assim como por suas emoções, sentimentos, estados de ânimo e outros elementos semelhantes. Não manifesta nenhum Domínio digno desse nome.

Essas pessoas rejeitam indignadas essa afirmação, dizendo: “Ora, certamente sou livre para agir e fazer o que me agrada. Faço exatamente aquilo que quero fazer.” Mas deixam de explicar de onde surgem esse “querer” e esse “agradar”. O que as faz “querer” fazer uma coisa em preferência a outra? O que as faz “preferir” fazer isto e não aquilo? Não existe um “porque” por trás de suas preferências e vontades? O Mestre pode transformar essas “preferências” e esses “quereres” em outros, situados no extremo oposto do polo mental.

Ele é capaz de “Querer querer”, em vez de simplesmente querer porque algum sentimento, estado de ânimo, emoção ou sugestão do ambiente despertou nele determinada tendência ou desejo.

A maioria das pessoas é levada adiante como a pedra que cai, obedecendo ao ambiente, às influências externas e aos estados de ânimo e desejos internos, sem mencionar os desejos e vontades de outras pessoas mais fortes que elas, a hereditariedade, o ambiente e a sugestão, que as carregam sem resistência de sua parte nem exercício da Vontade. Movidas como peões no tabuleiro da vida, desempenham seus papéis e são retiradas depois que o jogo termina.

Os Mestres, porém, conhecendo as regras do jogo, elevam-se acima do plano da vida material e, colocando-se em contato com os poderes superiores de sua própria natureza, dominam seus estados de ânimo, caráter, qualidades e polaridade, assim como o ambiente que os cerca. Desse modo, tornam-se Agentes no jogo, em vez de Peões; Causas, em vez de Efeitos. Os Mestres não escapam à Causação dos planos superiores, mas alinham-se às leis superiores e, dessa maneira, dominam as circunstâncias no plano inferior.

Assim, tornam-se uma parte consciente da Lei, em vez de simples instrumentos cegos. Enquanto Servem nos Planos Superiores, Governam no Plano Material.

Mas, tanto no superior quanto no inferior, a Lei está sempre em operação. Não existe Acaso. A deusa cega foi abolida pela Razão. Podemos agora perceber, com os olhos esclarecidos pelo conhecimento, que tudo é governado pela Lei Universal; que o número infinito de leis é apenas manifestação da Única Grande Lei, a LEI que é O TODO.

É verdade que nenhum pardal cai sem ser percebido pela Mente de O TODO; que até os cabelos de nossa cabeça estão contados, como disseram as Escrituras. Nada existe fora da Lei; nada acontece em oposição a ela. E, ainda assim, não cometais o erro de supor que o Homem seja apenas um autômato cego. Muito longe disso.

Os Ensinamentos Herméticos afirmam que o Homem pode utilizar a Lei para superar leis, e que o superior sempre prevalecerá sobre o inferior, até que finalmente alcance o estágio em que busca refúgio na própria LEI e contempla com desdém as leis fenomenais. Sois capazes de apreender o significado interior disso?

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