Capítulo 6: Rumores e sombras
Logo após se despedir de seu orientador, Fabiana foi para casa, pois naquela tarde não tinha nenhuma aula marcada.
Assim que chegou em sua moradia, ela deixou a bolsa na mesinha e sentou-se no sofazinho e começou a refletir sobre tudo o que ocorreu no almoço que teve com seu orientador.
As palavras e o jeito como ele se dirigiu a ela, estavam lhe incomodando, pois nunca pensou que se aproximaria de uma forma mais íntima dele. Gostava dele, o admirava como ator, mas não podia nutrir nenhum sentimento por ele, mesmo que fosse quase impossível não fantasiar alguma coisa.
Para aliviar os seus pensamentos que estavam um pouco agitados, Fabiana decidiu tomar um banho rápido e depois estudar um pouco.
******
Nesse mesmo momento, Dong-jung se encontrava num bairro um pouco afastado da faculdade, numa casa antiga, com a pintura já desbotada pelo tempo. Lá ele conversava com um homem de meia idade, que lhe mostrava algumas fotos impressas que estavam em cima de uma mesinha de madeira antiga.
— Parece que a isca já está chamando a atenção da criatura. Olhe essas fotos das câmeras de alguns comércios próximos da universidade.
Dong-jung suspirou preocupado e pegou na mão as fotografias, que mostravam Fabiana andando na rua, provavelmente já fora do pátio da universidade e uma sombra se esgueirando pelas árvores e becos escuros seguindo sua aluna.
— Isso é preocupante, precisamos colocar alguém para vigiá-la e protegê-la onde ela mora e também na faculdade.
— Acabei de designar dois caçadores, um vai seguir todos os passos que ela der quando você não estiver por perto e o outro vai morar próximo dela para agir caso aconteça alguma movimentação suspeita.
— Não podemos descuidar da segurança dela, se acontecer algo pode prejudicar a minha carreira de ator e professor.
— Fique tranquilo, tudo vai dar certo, é só mantermos a vigilância e atacar quando a criatura resolver agir.
— Certo, agora preciso ir e vê se me mantém informado. — falou autoritário, antes de sair do cômodo e caminhar até o pátio e descer alguns degraus que levavam para fora da residência.
*****
A primeira semana de aula passou em um ritmo intenso. Fabiana se dividia entre seminários, leituras extensas e troca de mensagens curtas com seu orientador a respeito da dissertação de mestrado, nada a respeito do almoço daquele dia foi mencionado, ela não sabia se era um alívio ou uma decepção.
A presença de Dong-jung era esporádica, mas marcante. Mesmo quando não falava diretamente com ela, Fabiana sentia sua presença antes mesmo de vê-lo entrar em uma sala. Havia algo no silêncio dele que dizia mais do que suas palavras calculadas.
Durante os intervalos, os colegas de mestrado começaram a se entrosar melhor. Almoços em grupo e cafés rápidos entre as aulas eram comuns. Foi em um desses momentos, em uma pequena cafeteria escondida atrás da biblioteca, que os primeiros sussurros chegaram até ela.
— Já percebeu como a faculdade anda… meio nervosa com alunos estrangeiros? — perguntou Aiko, a garota japonesa, enquanto mexia o chá com o canudo.
— Nervosa como? — Fabiana respondeu, franzindo a testa.
— Você não ouviu falar? — Hye-mi se inclinou sobre a mesa, sussurrando. — Três alunas sumiram no último ano. Todas estrangeiras. A última, uma tailandesa, desapareceu há três meses. A polícia investigou, mas nada foi encontrado. Nem mochila, nem rastros.
Fabiana congelou por um momento, a colher parada no meio do caminho entre o pote de iogurte e a boca.
— Achei que fossem só boatos… — disse ela, tentando soar cética.
— Talvez sejam — completou Aiko, dando de ombros. — Mas é estranho. E o mais estranho é que ninguém aqui parece realmente chocado. É como se estivessem acostumados a fingir que nada aconteceu.
— E você sabe quem eram essas meninas? — Fabiana perguntou, num tom mais baixo.
— Não diretamente. Mas ouvi dizer que nenhuma era aluna dos professores mais rigorosos. Nem do Professor Kim Dong-jung, por exemplo. Só que todas estavam ligadas de algum jeito ao campus de artes.
O nome dele fez Fabiana engolir em seco. Tentou disfarçar, mas não conseguiu evitar que uma imagem surgisse em sua mente: o olhar fixo de Dong-jung naquela primeira vez em que a viu. Como se ela fosse um quadro que ele já conhecia.
*****
Naquele dia, depois da aula, Fabiana voltou para casa com a cabeça fervendo. Quis buscar mais informações a respeito do assunto que tinha conversado com as colegas de aula, mas tudo que ela encontrou online foram matérias superficiais, notícias antigas sobre o desaparecimento de uma estudante vietnamita e rumores vagos em fóruns em inglês e tailandês. Nada concreto. Tudo sempre abafado.
Mais tarde, ao revisar as notas que fez na produtora audiovisual, seu celular vibrou. Era uma mensagem de Dong-jung:
"Gostaria de marcar nossa segunda reunião de orientação formal. Pode ser amanhã, às 10h, na minha sala. Traga suas ideias para o projeto."
A frieza formal da mensagem contrastava com a naturalidade da conversa que tiveram quando ela foi até a produtora. Era como se ele tivesse duas versões de si mesmo, uma pública, professoral, e outra que se soltava aos poucos, com ela. Fabiana hesitou, mas respondeu:
"Confirmado. Estarei lá."