A Mulher de Verde
Clara ficou parada no corredor do segundo andar por tempo suficiente para Silas perguntar se havia algum problema. A porta ao fundo, aquela que acabara de engolir a mulher de vestido verde, estava fechada outra vez, lisa, escura, numerada com uma placa de latão tão polida que refletia a luz dos arandelas. Duzentos e dezenove. Clara memorizou o número antes de responder. Disse que estava apenas cansada da viagem. Silas aceitou a explicação com a mesma neutralidade com que abrira o portão, porem seus olhos foram até a porta antes de voltar para ela. A pequena traição do olhar bastou. Ele também vira alguma coisa, ou sabia que ela veria. O corredor tinha carpete vinho, paredes creme, retratos de barcos antigos e um cheiro fraco de madeira molhada. Nenhum som vinha do quarto duzentos e dezenove. Nenhum passo, nenhuma fechadura, nenhum arrependimento humano por ter aparecido no lugar errado.
A suíte de Clara ficava duas portas antes, no duzentos e quinze. Silas abriu, acendeu as luzes, explicou a disposição com frases curtas. Cama, banheiro, armário, telefone interno, frigobar, vista para o mar que a chuva escondia. Sobre a escrivaninha havia uma bandeja com água, chá, biscoitos amanteigados e um envelope lacrado com seu nome. Clara esperou que ele saísse para tocar em qualquer coisa. A porta fechou sem ruído. Ela colocou a pasta preta na cama, tirou os sapatos e foi até a janela. Do lado de fora, o jardim do hotel descia em níveis até um muro baixo, depois a encosta desaparecia na noite. O mar fazia barulho sem se mostrar. Clara encostou a testa no vidro frio e sentiu, pela primeira vez desde a assinatura, o tamanho físico da própria escolha. Trinta dias naquele lugar, fingindo amor por um homem que usava verdades como isca.
O envelope da escrivaninha continha um cartão de boas-vindas impresso em papel grosso e uma chave menor, de metal escurecido, presa por fita azul. No cartão, uma frase escrita à mão. Para emergências, porta interna do corredor sul. A letra era de Elias, inclinada, econômica, sem adorno. Clara virou a chave entre os dedos. Uma saída extra podia ser cuidado, armadilha ou as duas coisas. Guardou a chave dentro do forro da bolsa e examinou o quarto. Móveis antigos, telefone de disco adaptado, cortinas pesadas, espelho oval, um quadro com paisagem marítima acima da cabeceira. Nenhuma câmera visível. Isso não significava muito. No Mirante, paredes pareciam treinadas para ouvir sem parecer interessadas. Abriu a torneira do banheiro, deixou a água correr e só então ligou o celular para gravar uma mensagem de voz para Daniel, caso o sinal voltasse em algum ponto.
O aparelho encontrou uma barra fraca perto da janela. Havia três mensagens perdidas do advogado plantonista, duas de uma vizinha de Daniel e uma de número desconhecido. Clara abriu primeiro as do advogado. A audiência de custódia tinha sido antecipada, a delegacia recebera comunicação da família Montenegro, e Daniel provavelmente sairia pela manhã mediante termo. Clara segurou o celular com força até os dedos doerem. O alívio veio atrasado, desconfiado, incapaz de ocupar o corpo inteiro. Elias cumprira a primeira parte antes de ela conseguir decidir se isso o tornava menos perigoso. A mensagem de número desconhecido era curta. Não durma com a luz apagada. Clara olhou para a tela até a frase perder forma. Não havia assinatura. O DDD era local. A hora do envio marcava meia-noite e dezessete, três minutos depois de ela entrar na suíte.
Clara caminhou até a porta e encostou o ouvido. O corredor permanecia quieto. Voltou, fez captura da mensagem, encaminhou para si mesma por e-mail e anotou o número em uma página da agenda. Depois ligou para Daniel. Chamou duas vezes, caiu. Tentou de novo. Na terceira, a voz dele veio baixa, quebrada por sono ou medo. Clara fechou os olhos ao ouvir o irmão dizer seu nome. Ele perguntou onde ela estava. Ela mentiu apenas pela metade. Disse que estava resolvendo o acordo com os Montenegro e que ele sairia pela manhã. Daniel começou a chorar. Clara deixou. Desde pequeno, ele chorava com raiva de si, tentando engolir o som e falhando. Ela pediu que escutasse. Disse que não falasse com ninguém sobre a mulher de vestido verde, sobre o dinheiro, sobre Bia, sobre o hotel. Ele ficou em silêncio. Depois perguntou se Bia estava viva. Clara olhou para a fotografia antiga sobre a cama. Respondeu que ainda iria descobrir.
Quando desligou, alguém bateu na porta. Três batidas leves. Clara pegou a chave menor na bolsa antes de perguntar quem era. A voz de Elias respondeu do outro lado. Ela abriu apenas depois de prender a corrente. Ele estava no corredor, sem o copo da biblioteca, cabelo um pouco úmido, expressão menos controlada. Disse que precisava falar sobre a mensagem que ela recebera. Clara ergueu o celular. Perguntou se ele monitorava seu aparelho ou seus corredores. Elias olhou para a corrente, depois para ela. Disse que o hotel tinha problemas de sinal, mas a central registrava números que se conectavam à rede interna quando usavam repetidores da propriedade. A explicação era técnica o bastante para ser plausível e invasiva o bastante para irritar. Clara perguntou quem mandara. Elias respondeu que o número pertencia a uma linha desativada havia seis anos, registrada em nome de Aurora Montenegro.
A corrente da porta pareceu frágil demais. Clara pediu que ele repetisse. Elias obedeceu. Aurora Montenegro, tia dele, filha mais nova do avô, oficialmente morta em um acidente no mar. Oficialmente era palavra que advogados ouvem com cuidado. Clara perguntou a idade da tia quando morreu. Dezenove. Perguntou se ela usava vestido verde. Elias não respondeu de imediato. Clara percebeu a resposta na pausa. Ele disse que havia um retrato dela no terceiro andar. O andar proibido. Clara riu de maneira curta. A família dele tinha uma morta que mandava mensagem por linha desativada, uma amiga desaparecida que escrevera o nome dela em foto antiga, uma mulher de vestido verde caminhando pelo segundo andar e um contrato que impedia perguntas a funcionários. Elias apoiou a mão no batente da porta. Disse que por isso ela precisava descansar antes de agir. Clara quase fechou a porta na cara dele.
Em vez disso, abriu a corrente. Não para convidá-lo a entrar, e sim para sair. Elias recuou um passo, surpreso. Clara atravessou o vão, fechou a porta atrás de si e apontou para o fim do corredor. Perguntou quem ocupava o duzentos e dezenove. Elias olhou na direção da placa. Disse que o quarto estava interditado desde o inverno passado por infiltração. Clara começou a andar. Ele a acompanhou. O carpete abafava os passos dos dois, e isso deixava o corredor ainda pior. Diante da porta, Clara tocou a maçaneta. Fria. Tentou girar. Trancada. Elias disse que Silas guardava as chaves dos quartos interditados. Clara se abaixou, examinou a fresta inferior e encontrou um traço escuro no carpete. Lama. Não muita, apenas uma meia-lua deixada por sola molhada. Ela apontou. Elias ficou imóvel. A chuva ainda batia nas janelas, e ninguém no hotel admitia ter passado por ali.
Clara tirou uma foto da marca com o celular. Elias pediu que não enviasse a ninguém ainda. Ela perguntou se aquilo era ordem de noivo ou súplica de cúmplice. Ele respondeu que era medo de alguém apagar o resto antes de eles conseguirem ver. Clara odiou a parte sensata da resposta. Perguntou onde ficava o corredor sul da chave que ele deixara no quarto. Elias pareceu dividido entre se arrepender e admitir. Disse que levava a uma escada de serviço usada por camareiras, jardineiros e entregas antigas. Uma escada fora do circuito principal. Clara perguntou por que entregar uma chave secreta a uma mulher que ele conhecera naquela noite. Elias respondeu que ela já estava presa ao contrato e merecia pelo menos uma saída que a família dele não controlasse. A frase trouxe menos conforto do que deveria. Saídas oferecidas por homens ricos ainda tinham dono.
Um ruído veio de dentro do duzentos e dezenove. Baixo, seco, rápido. Clara levantou a mão pedindo silêncio. Elias escutou também. Outra batida, desta vez mais clara, talvez madeira contra parede, talvez alguém esbarrando em móvel. Clara tentou a maçaneta de novo. Nada. Elias chamou pelo corredor. Silas. A voz dele saiu baixa e carregada de autoridade. Nenhuma resposta. Clara bateu na porta. A madeira devolveu o som e depois guardou tudo. Ela se inclinou perto da fechadura. Um cheiro veio pela fresta, fraco e familiar, misturando perfume doce e pano úmido. O mesmo cheiro da fotografia de Bia. Clara sentiu o sangue sumir das mãos. Elias viu seu rosto mudar e perguntou o que era. Ela respondeu que a amiga estivera ali. Não no hotel, não no portão, não em alguma versão conveniente da recepção. Naquele quarto.
Elias saiu em busca de Silas sem pedir que Clara esperasse. Ela esperou mesmo assim, durante os primeiros dez segundos. Depois olhou para a porta da suíte duzentos e quinze, para a curva do corredor, para a placa do quarto interditado. A mulher de verde havia desaparecido rápido demais para uma hóspede perdida. Clara tirou da bolsa um grampo de cabelo, ajoelhou diante da fechadura e se odiou por lembrar tão bem do que Bia ensinara na faculdade, em uma noite de riso, vinho barato e porta trancada por engano. Não era habilidade nobre. Era habilidade útil. O grampo escorregou duas vezes antes de encontrar resistência. A fechadura antiga cedeu com um clique pequeno, quase íntimo. Clara empurrou a porta apenas o bastante para entrar. O quarto duzentos e dezenove cheirava a mofo, perfume doce e chuva guardada.
A luz do corredor cortou o escuro em uma faixa estreita. Clara encontrou o interruptor na parede. Nada. Usou a lanterna do celular. O quarto estava sem móveis grandes, coberto por lençóis brancos sobre cadeiras empilhadas e um espelho apoiado contra a parede. O carpete tinha marcas recentes, pegadas molhadas indo até a janela e voltando para perto do armário. Sobre o parapeito, havia uma mancha de terra. Clara fechou a porta atrás de si para diminuir a luz do corredor. O coração batia alto demais, porem sua mão ficou firme ao fotografar tudo. Uma fita verde estava presa em um prego baixo, quase invisível. Não era pedaço de vestido. Era fita de crachá, dessas usadas em eventos. Clara aproximou a lanterna. Havia letras brancas gastas. Congresso Aurora, Hotel Mirante, vinte anos antes.
No armário, encontrou a primeira coisa realmente pessoal. Um brinco pequeno de pérola, preso entre duas ripas soltas. Clara conhecia aquele brinco. Bia usava em audiências para parecer séria e reclamava que uma pérola falsa fazia mais efeito que muitos argumentos bons. Clara pegou com cuidado, usando lenço de papel. Atrás das ripas havia um cartão dobrado, úmido nas pontas. A letra de Bia tremia em linhas apertadas. Se Clara vier, não deixem Elias subir primeiro. Clara parou de respirar por um instante. A frase não dizia que Elias era culpado. Dizia que Bia, em algum momento, pensara nele como risco. Guardou o cartão dentro da agenda, junto do brinco. Do corredor, veio a voz de Elias chamando seu nome. Dessa vez, havia urgência verdadeira.
Clara apagou a lanterna e ficou imóvel. Passos se aproximaram. Um par apenas, talvez Elias, talvez Silas, talvez outra pessoa. A maçaneta girou. Ela procurou lugar para se esconder e entrou no armário vazio, segurando a porta por dentro. Pela fresta, viu Elias entrar com uma chave na mão e Silas logo atrás. O mordomo acendeu uma lanterna maior. Elias olhou a porta aberta, depois o quarto, depois as marcas no carpete. Silas disse que a senhorita Clara não deveria ter entrado. Elias respondeu que a senhorita Clara parecia ter mais juízo que todos eles juntos, o que não era elogio naquele momento. A frase quase a fez sair. Então Silas virou a lanterna para o armário. Clara segurou o ar. Antes que a luz alcançasse seu rosto, uma terceira voz falou da janela. Vocês chegaram tarde outra vez.
Silas derrubou a lanterna. Elias se virou rápido. Clara abriu a porta do armário apenas uma fresta maior. A mulher de vestido verde estava sentada no parapeito da janela aberta, molhada de chuva, cabelos colados ao rosto, pés descalços sobre o carpete. De perto, parecia jovem demais para Aurora e parecida demais com a fotografia antiga para ser coincidência. Olhava para Elias, não para Clara. Disse que Beatriz não morreu ali. Ainda. A última palavra cortou o quarto. Elias deu um passo, e a mulher saltou para fora da janela antes que ele chegasse. Clara saiu do armário sem pensar. O quarto ficava no segundo andar, alto o bastante para quebrar ossos. Correu até o parapeito. Lá embaixo, o jardim estava vazio, exceto por uma trilha de pegadas molhadas levando em direção à escada de serviço do corredor sul.