O Caderno de Nestor
Ramos subiu a escada da capela falando ao telefone com a médica do hospital e com a voz baixa de quem tentava segurar duas portas ao mesmo tempo. Clara o acompanhou sem perceber que ainda levava sangue no antebraço e pó de pedra no cabelo. O corredor de serviço parecia outro depois dos tiros, cheio de funcionários parados em silêncio, policiais entrando pela cozinha, hóspedes descendo com malas e celulares erguidos, tudo misturado numa pressa desordenada que o Mirante nunca permitira à vista. Elias ficou atrás dela com Joana, carregando a fotografia de Aurora embrulhada no próprio paletó para proteger a moldura. Bia já havia sido levada em maca, reclamando da rota até a ambulância e repetindo o nome de Nestor para quem quisesse ouvir. Clara agarrou essa palavra porque precisava de uma tarefa. O hospital cuidaria de Daniel. Ramos tentaria bloquear a transferência. Ela precisava encontrar o homem que aprendera a levar pessoas para longe antes que alguém fizesse novas perguntas.
A primeira resposta veio de um porteiro velho chamado Gil, que apareceu na cozinha com o boné nas mãos e olhos de quem esperara décadas pelo momento errado. Ele disse que Nestor dormia num quarto de apoio perto da garagem leste quando fazia serviço de madrugada, mesmo depois de oficialmente aposentado. Lavínia continuava pagando por fora, em dinheiro, e Silas recolhia os envelopes no armário de ferramentas. Ramos mandou dois policiais com Gil, porem Clara pediu para ir junto. O investigador recusou de imediato. Ela mostrou o braço ferido e disse que já estava envolvida o bastante para ser tratada como risco, testemunha e advogada, a escolha ficava com ele. Ramos xingou baixo, chamou-a de obstáculo ambulante e permitiu que seguisse desde que Elias e Joana ficassem à vista de policial. Joana respondeu que vista de policial não impediria ninguém de sumir dentro daquele hotel. Ramos ouviu, aceitou a correção e mandou outro agente acompanhar a moça.
A garagem leste ficava abaixo do terraço de serviço, separada da parte nobre por uma rampa estreita e cheiro de óleo. Ali o Mirante perdia o brilho. Havia carrinhos de lavanderia, pneus empilhados, caixas de bebidas, um freezer desligado, ferramentas penduradas, capas de chuva secando em ganchos. A porta do quarto de apoio estava trancada por cadeado barato. Gil jurou que Nestor tinha chave, porem Elias encontrou um pé de cabra perto dos extintores e abriu sem pedir licença a ninguém. O quarto era pequeno, cama de solteiro, rádio velho, armário de metal, calendário de oficina, uma garrafa térmica, um par de sapatos engraxados e uma fotografia antiga de um carro preto diante da fachada do hotel. Clara sentiu o lugar inteiro respirar hábito. Certos crimes sobrevivem porque cabem em rotina, em turno noturno, em café requentado, em motorista que sabe esperar sem chamar atenção.
O caderno estava dentro do rádio. Joana achou porque sua mãe costumava esconder dinheiro em aparelhos quebrados e ensinara a filha a desconfiar de objeto pesado demais. O rádio tinha a tampa traseira presa por fita isolante. Dentro dele havia um caderno de capa marrom, elástico frouxo, páginas manchadas por óleo e sal. Ramos calçou luvas antes de tocar. Clara pediu que fotografasse página por página. O investigador respondeu que sabia trabalhar, e ela respondeu que também sabia ver processo morrer por descuido pequeno. Ele fotografou. As anotações vinham em datas, iniciais, horários e rotas. A primeira página marcada por Bia trazia o ano da queda de Aurora, com indicação de saída pela garagem leste, parada no farol velho e retorno sem passageira. A segunda ligava Marina a uma casa de pescador. A terceira, recente, trazia o nome Daniel abreviado, hospital, clínica Santa Verônica e uma hora marcada para transferência falsa.
A hora marcada era em quarenta minutos. Clara sentiu o corpo inteiro ir para frente, pronto para correr antes que a cabeça decidisse. Ramos ligou para a viatura no hospital e mandou bloquear a entrada de qualquer ambulância privada sem confirmação dele. A resposta veio ruim. Havia uma equipe particular já na recepção, com documentos assinados digitalmente por Caio Tavares e autorização supostamente emitida por familiar. Clara quase arrancou o telefone da mão do investigador. Disse que era a única parente de Daniel naquele processo e que nenhuma autorização valia. Ramos colocou a chamada no viva-voz. A policial no hospital pediu que Clara repetisse nome completo, CPF de Daniel, data de nascimento e cidade onde ele estudara. Clara respondeu tudo sem errar, cada dado saindo com raiva e precisão. Do outro lado, a policial disse que a transferência estava suspensa até ordem judicial. Clara ouviu passos, vozes, uma discussão abafada. Depois a linha caiu.
O caderno de Nestor tinha outra página dobrada. Elias a abriu devagar. Havia um desenho simples da estrada costeira, do farol velho e de um galpão de barcos desativado perto da enseada norte. Na margem, Nestor escrevera Aurora, bebê, mala verde. Embaixo, com tinta mais recente, aparecia uma segunda anotação. Se plano do hospital falhar, levar A.M. para a enseada. Clara leu as iniciais e olhou para Joana. A moça entendeu antes de qualquer explicação. A.M. podia ser Augusto Montenegro, o velho que tentaria fugir com o que restasse, ou Aurora Montenegro, nome usado em código para a prova que ligava a neta à herança. Elias disse que Augusto tinha um barco antigo registrado em nome de empresa de fachada, guardado perto daquela enseada. Ramos fechou o caderno com força controlada e mandou policiais cercarem a saída leste. Tarde demais. Um agente avisou pelo rádio que a cadeira de Augusto desaparecera do corredor da capela durante a confusão médica.
O hotel pareceu inclinar sob os pés de Clara. Não por medo abstrato, e sim por cálculo. Augusto precisava sair com alguém, algum documento ou alguma senha. Lavínia estava algemada, Caio preso, Silas ferido, Nestor invisível. Restavam seguranças privados, motoristas antigos, funcionários comprados e a vantagem de conhecer túneis que nem Elias usava. Joana segurou a fotografia de Aurora com as duas mãos e disse que o velho não fugiria levando o nome da avó outra vez. Elias pediu as chaves do jipe de serviço a Gil. Ramos tentou impedir qualquer saída sem equipe. Clara apontou para o relógio do caderno e para a página da enseada. Disse que, se eles esperassem comboio, encontrariam água mexida e cadeira vazia. O investigador fitou cada rosto, viu teimosia suficiente para gerar desastre e decidiu transformar desastre em operação. Mandou uma viatura seguir por cima, outra pela estrada velha, e entrou no jipe com eles.
A estrada até a enseada norte era estreita, cortada por curvas fechadas e muros baixos de pedra. Elias dirigia porque conhecia os buracos, Ramos no banco da frente com rádio preso ao ombro, Clara e Joana atrás, o caderno entre as duas, a fotografia de Aurora no colo de Joana. O céu começava a clarear sobre o mar, e aquela luz cinza tirava do hotel a aparência de castelo, deixando apenas uma construção velha no alto, cercada por sirenes e janelas acesas. Clara pensou em Daniel no hospital e manteve o telefone na mão, esperando a ligação voltar. Joana passou o polegar pela moldura da foto e contou, quase para si mesma, que a mãe falava da praia norte sem dar nome, dizia que todo lugar bonito cobrava alguma coisa. Elias ouviu e apertou o volante. Nenhuma desculpa serviria naquela curva. Ele escolheu silêncio.
A primeira viatura chegou ao galpão pelo acesso principal e encontrou o portão aberto. Ramos mandou Elias parar antes da descida final e saiu com arma em punho. Clara ficou no jipe por três segundos, tempo suficiente para fingir prudência, depois abriu a porta. O galpão tinha telhas enferrujadas, paredes manchadas de sal, redes antigas penduradas e cheiro de diesel. Um barco pequeno balançava preso ao cais interno. Havia marcas frescas de pneus na terra, uma cadeira de rodas vazia perto de caixas de gelo e uma manta igual à que cobria Augusto no salão. Ramos fez sinal para os policiais avançarem. Joana viu primeiro a mala verde, enfiada atrás de um tambor. Não era grande. Tinha fecho gasto, etiqueta sem nome e uma mancha escura perto da alça. Clara se ajoelhou diante dela e esperou o registro fotográfico antes de abrir.
Dentro da mala havia roupas de bebê endurecidas pelo tempo, um sapatinho solitário, recibos de uma clínica fora do estado, cartas devolvidas sem selo e uma fita cassete com o nome Aurora escrito em caneta azul. Joana levou a mão à boca. Elias recuou um passo, talvez porque a mala transformasse a história em coisa que cabia no chão, pequena demais para justificar tanta crueldade. Clara ergueu a fita para Ramos. O investigador mandou guardar, porem um barulho de motor veio da lateral do galpão e cortou a ordem. Um segundo barco, menor, escondido atrás de painéis de madeira, começava a se afastar por um canal estreito. Nestor estava na popa, curvado, manobrando com habilidade velha. Ao lado dele, Augusto permanecia sentado numa cadeira presa por cintos, cobertor nos joelhos, uma pasta preta no colo.
Ramos gritou ordem de parada. Nestor olhou para trás e acelerou. A distância era curta demais para hesitação e longa demais para salto seguro. Elias correu até o barco preso ao cais. Clara foi atrás, apesar do grito de Ramos. Joana também. O investigador praguejou e entrou por último, porque deixar os três sozinhos seria relatório pior. Elias soltou a amarra com mãos rápidas, ligou o motor e fez a proa bater na madeira antes de sair. A perseguição pela enseada começou sem grandeza, com água suja entrando no barco, motor falhando, policial tentando usar rádio molhado e Clara segurando a mala verde entre os pés para que a prova não escorregasse. À frente, Augusto virou o rosto. Mesmo de longe, Clara viu que ele sorria. A pasta preta no colo dele talvez valesse mais que o contrato apreendido, talvez fosse a chave financeira que manteria todos comprados.
O canal saía para uma parte aberta do mar, perto do farol velho citado no caderno. Nestor conhecia a passagem e cortava as curvas rente às pedras. Elias conhecia menos, porem dirigia com fúria útil. Ramos mandou que ele reduzisse, Elias fingiu ouvir. Joana apontou para uma boia amarela presa a uma corrente baixa, quase escondida pela espuma. Disse que a mãe falava de uma corrente usada para fechar barcos de pesca na maré ruim. Elias desviou no último instante. O barco de Nestor passou por cima da corrente porque o velho sabia onde ela afundava. A vantagem dele durou pouco. Uma viatura apareceu na estrada acima do farol, sirene muda, faróis acesos. Outro barco da polícia vinha do porto, atrasado, porem visível. Augusto percebeu o cerco e bateu na pasta com a mão, mandando Nestor seguir para as pedras.
Nestor obedeceu até certo ponto. Quando o barco chegou perto demais da faixa de rochas, ele reduziu. Augusto gritou. O motorista velho virou-se e respondeu algo que o vento levou. Clara viu o gesto, a mão de Nestor apontando para a água, para as pedras, para o lugar onde Aurora supostamente caíra décadas antes. Talvez ele carregasse culpa suficiente para uma freada tardia. Talvez apenas temesse morrer com o patrão. A indecisão bastou. O barco da polícia fechou pelo lado do porto, Elias encostou pelo canal, e Ramos ergueu a arma, mandando Nestor desligar o motor. Augusto abriu a pasta preta e tirou um maço de papéis preso por elástico vermelho. Clara não ouviu o que ele disse, porem viu a intenção no braço levantado. Ele ia jogar tudo no mar.
Joana se moveu antes de todos. Saltou do barco de Elias para o de Nestor quando as laterais bateram, agarrando-se à borda com um grito curto. Clara sentiu o coração parar. Elias segurou a cintura dela por reflexo, impedindo que saltasse também. Joana caiu de joelhos diante de Augusto e agarrou a pasta com as duas mãos. O velho puxou de volta com força surpreendente. A cadeira dele virou alguns centímetros, presa pelos cintos. Nestor largou o motor para segurar a cadeira, e Ramos aproveitou para entrar no barco inimigo com ajuda do policial do porto. Houve confusão de braços, papel molhado, ordens cruzadas. Joana recebeu um golpe no rosto, não soltou. Clara, do outro barco, gritava o nome dela com a mala verde apertada contra o peito. Elias prendeu a amarra dos dois barcos e avançou para ajudar.
A pasta rasgou no meio. Parte dos papéis caiu no fundo do barco. Parte ficou nas mãos de Joana. O elástico vermelho arrebentou e espalhou folhas sobre água, madeira e sapatos. Clara viu uma página voar para perto dela e a pegou antes que caísse. Era uma procuração antiga, assinada por Aurora sob data posterior à morte oficial, dando a Augusto poder sobre ações e bens enquanto ela estivesse em tratamento. A assinatura parecia tremida. Havia carimbo de cartório, nome de médico, testemunha com iniciais de Nestor. Ramos imobilizou Augusto pelo braço, com cuidado de quem prendia homem velho sob câmera, e anunciou prisão por tentativa de destruição de prova e fuga. Augusto olhou para Joana. Disse que ela podia ganhar nome, porem nunca teria casa. Joana, com sangue no canto da boca, respondeu que casa construída em cima de desaparecida não se herda. Se derruba.
Quando os barcos voltaram ao galpão, o sol já batia nas telhas enferrujadas. Clara desceu com a mala verde, uma folha molhada dentro da bolsa plástica de Ramos e o telefone vibrando de novo. Era Bia, do hospital, usando o aparelho de uma enfermeira. Daniel acordara por poucos segundos, perguntara por Clara e dissera uma palavra antes de dormir. Cartório. Clara repetiu a palavra para Ramos. O investigador olhou para a procuração antiga e depois para o caderno de Nestor. Elias fechou os olhos. Joana segurava os papéis arrancados da pasta preta junto ao peito, respirando com dificuldade, o rosto ferido, a fotografia de Aurora protegida por Clara dentro da mala. O desfecho deixara de estar no hotel. Estava num cartório que aceitara assinatura de mulher dada como morta, e alguém ali ainda podia abrir os livros antes que a polícia chegasse.