O Corredor Sul O Acordo da Meia-Noite · Capítulo 3 de 16
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O Corredor Sul

Clara foi a primeira a sair do quarto duzentos e dezenove pela janela. Não saltou, porque o segundo andar ainda tinha altura suficiente para transformar coragem em fratura, porem colocou metade do corpo para fora e apontou a lanterna do celular para o jardim. A chuva afinara, deixando sobre as folhas um brilho tremido. As pegadas molhadas seguiam em direção a uma escada estreita encostada na lateral do prédio, quase escondida por trepadeiras e tubos antigos. Elias segurou seu braço antes que ela se inclinasse demais. Clara olhou para a mão dele. Ele soltou imediatamente. Silas recolhera a lanterna do chão e permanecia perto da porta, pálido, com uma expressão que já não tinha a neutralidade impecável do saguão. A mulher de verde desaparecera, mas deixara caminho, cheiro, lama e uma frase que não cabia em delírio. Beatriz não morreu ali. Ainda.

Elias pediu que Silas chamasse a segurança e trancasse as saídas externas. Silas obedeceu depressa demais, e Clara percebeu que a ordem talvez já tivesse sido dada antes em outras noites. Perguntou quantas vezes alguém fugira pela escada sul. Elias respondeu que nenhuma oficialmente. Clara quase riu. Oficialmente começava a se tornar a palavra preferida daquele hotel, uma tampa elegante sobre qualquer coisa podre. Guardou o brinco de Bia no bolso interno do casaco e manteve o cartão escondido na agenda. Ainda não confiava em Elias o suficiente para entregar a frase que mencionava seu nome. Se Clara vier, não deixem Elias subir primeiro. Aquilo podia ser aviso contra ele, contra o que ele ignorava ou contra o modo como todos no Mirante pareciam chegar tarde aos quartos certos.

Desceram pela escada principal porque Silas levara a chave de serviço. Elias caminhava rápido, sem correr, e Clara percebeu que ele conhecia cada curva do prédio de olhos baixos. No patamar entre o segundo e o primeiro andar, uma mulher idosa apareceu segurando um xale de lã sobre os ombros. Tinha cabelo branco preso em coque frouxo, rosto estreito, anéis demais nos dedos e a autoridade de quem podia acordar no meio da noite sem pedir desculpa ao próprio hotel. Elias parou. Chamou-a de tia Lavínia. A mulher olhou para Clara com curiosidade satisfeita, observou a roupa molhada na barra, o celular na mão, a pasta esquecida no quarto, que ela não poderia ver e ainda assim parecia saber. Disse que noivas costumavam descer para o café da manhã, não para caçar assombração em quarto interditado.

Clara respondeu que preferia conhecer a casa antes do café. Lavínia sorriu, mostrando dentes pequenos e perfeitos. Disse que casa era palavra íntima demais para quem acabara de assinar um acordo. Elias endureceu ao lado de Clara. A tia sabia do contrato, ou pelo menos sabia o bastante para ferir. Clara percebeu que a família Montenegro não guardava segredos uns dos outros. Guardava versões, armas e horários de uso. Lavínia perguntou se a jovem já conhecera Aurora. Elias disse que aquilo não era assunto para o corredor. A idosa tocou o corrimão com a ponta dos dedos e respondeu que Aurora sempre fora assunto de corredor, porque quarto fechado nunca segurou mulher daquela família por muito tempo. Clara memorizou a frase. Antes que pudesse perguntar, Silas surgiu no piso inferior e avisou que a porta do corredor sul estava aberta.

A porta ficava atrás da antiga chapelaria, disfarçada por um painel de madeira onde hóspedes deixavam casacos em dias de evento. Elias empurrou o painel, e um cheiro de poeira úmida subiu do vão. A escada de serviço descia estreita, de concreto, com corrimão enferrujado e lâmpadas fracas protegidas por grades. Clara tirou uma foto antes de entrar. Lavínia continuou no alto da escada principal, observando de longe, sem descer. Silas tentou passar na frente, mas Clara segurou a porta com o pé e pediu que ele ficasse atrás dela. O mordomo olhou para Elias. Elias disse que obedecesse. Essa pequena transferência de comando fez a boca de Silas apertar. Clara viu ali outra rachadura. Os empregados temiam Elias, porem nem todos aceitavam suas ordens quando uma estranha estava presente para ouvir.

A escada levava ao térreo por trás da cozinha, depois continuava até uma porta externa próxima ao jardim. No primeiro lance, Clara encontrou água fresca nos degraus. No segundo, uma marca de mão na parede, feita por dedos sujos de terra. Fotografou. No último, havia uma gota vermelha no corrimão. Pequena, viva, recente. Elias a viu no mesmo instante. Clara pegou um lenço, aproximou sem tocar e tirou mais fotos. Perguntou se o hotel tinha enfermaria. Elias respondeu que sim, para funcionários e hóspedes. Perguntou quem estava de plantão. Silas disse que ninguém se ferira naquela noite. Clara olhou para ele. Disse que ainda não perguntara se alguém admitira ferimento. O mordomo desviou os olhos. A diferença entre não haver ferido e ninguém admitir ferida pareceu grande o bastante para guardar uma mulher inteira.

A porta externa estava destrancada. Dava para um corredor de serviço entre o prédio e o jardim, protegido por beiral. A chuva escorria em fios pelas telhas. As pegadas seguiam pela terra até a estufa antiga, uma estrutura de vidro ao lado do muro, abandonada ou fingindo abandono. Elias disse que ninguém usava aquilo havia anos. Clara respondeu que o hotel tinha muitos lugares que ninguém usava até alguém aparecer fugindo deles. Ele não retrucou. Silas pediu para chamar os seguranças. Clara disse que esperassem dois minutos. Não queria cinco homens pisando sobre vestígios antes de saber o que havia ali. Elias a acompanhou até a estufa. A proximidade dele no corredor estreito incomodava menos pelo corpo e mais pela calma. Mesmo molhado, mesmo surpreendido, Elias parecia construído para não tropeçar. Clara desconfiava de homens que conseguiam manter elegância perto de sangue.

A porta da estufa estava aberta por dentro. O vidro quebrado em uma das laterais permitia entrada antiga, mas a fechadura fora destravada recentemente. Dentro, vasos secos, bancadas de ferro, sacos de terra endurecidos e ferramentas enferrujadas ocupavam o espaço. No fundo, uma mesa tinha sinais de uso recente. Uma vela apagada, fósforos, uma garrafa de água pela metade, gaze, fita adesiva, um pedaço de pano verde e um prato com restos de pão. Clara tocou a garrafa apenas com o lenço e viu marca de batom no gargalo. Não usava a mesma cor de Bia. Era mais escura. Elias pegou o pedaço de pano e ficou olhando. Clara perguntou se reconhecia. Ele disse que Aurora usava verde no retrato do terceiro andar. Silas fez um ruído baixo atrás deles. Clara virou. O mordomo parecia prestes a falar e engoliu a frase.

Clara perguntou diretamente se Silas conhecia a mulher que acabara de fugir. Ele respondeu que vira apenas uma sombra. Clara disse que sombras não deixam gaze com sangue nem bebem água. Silas apertou a lanterna com força. Elias pediu que ele respondesse. O mordomo disse que algumas pessoas da família voltavam ao Mirante em épocas ruins. Clara aguardou. Silas completou que havia parentes, filhos não reconhecidos, empregados antigos, amantes, credores, gente que sabia demais e gente que inventava o bastante para vender medo. A resposta era ampla demais para ser mentira e vaga demais para ser útil. Clara perguntou por Aurora. Silas olhou para Elias antes de falar. Disse que Aurora morreu no mar, mas o corpo nunca voltou. A frase mudou o ar da estufa. Oficialmente morta, sem corpo, com uma linha telefônica desativada enviando aviso para Clara.

O celular de Clara vibrou. Era Daniel. Atendeu ali mesmo, entre vasos secos e vidro quebrado. O irmão falava da porta da delegacia, voz rouca, dizendo que fora liberado e que um motorista do hotel o aguardava. Clara sentiu a raiva subir antes da gratidão. Perguntou que motorista. Daniel disse que o homem tinha placa com seu nome e ordem para levá-lo ao Mirante, conforme combinado. Clara olhou para Elias. Ele parecia sincera e perigosamente surpreso. Disse que não mandara ninguém. Clara pediu que Daniel entrasse de volta na delegacia e não se aproximasse do carro. O irmão hesitou, assustado. Ela repetiu. Entre agora, fique perto do balcão e me mande foto do motorista. Daniel obedeceu ofegante. A ligação caiu em seguida. A estufa ficou pequena demais para a quantidade de problemas reunidos.

Elias tirou o próprio celular e ligou para alguém chamado Caio, ordenando que verificasse todos os veículos autorizados pela família. Clara escutou sem acreditar em autorização alguma. Se alguém no hotel sabia da soltura antes dela, o contrato já começava contaminado. Perguntou quem tinha acesso à comunicação com a delegacia. Elias respondeu que ele, o advogado da família e a administração do hotel. Silas não se moveu. Clara percebeu. Administração significava Silas, talvez Lavínia, talvez uma dúzia de pessoas escondidas atrás de cargos nobres. Daniel enviou uma foto tremida. O homem ao lado do carro usava boné preto e segurava uma placa impressa. Atrás dele, no para-brisa, pendia um pequeno laço verde. Clara mostrou a imagem a Elias. O rosto dele mudou. Não para culpa. Para reconhecimento.

Elias disse que o homem se chamava Nestor, antigo motorista do avô, demitido depois de um acidente na estrada costeira. Clara perguntou se era o acidente de Aurora. Ele respondeu que sim. Silas fechou os olhos por um segundo. A peça que faltava se deslocou. Um motorista ligado à morte sem corpo de Aurora agora esperava Daniel diante da delegacia, com laço verde no carro. Clara mandou mensagem ao irmão pedindo que fotografasse a placa e procurasse o delegado. Em seguida, ligou para o plantonista que conhecia. A chamada não completou. Elias ofereceu o próprio telefone. Clara recusou. Não usaria aparelho dele para proteger Daniel. Subiu alguns metros até encontrar sinal melhor perto do vidro quebrado. Dessa vez a ligação completou. Falou rápido, com nome, delegacia, possível ameaça a testemunha, veículo suspeito. Usou voz de advogada, não de irmã. A voz de irmã ficaria para depois.

Quando voltou para dentro da estufa, Silas havia desaparecido. Elias estava sozinho, segurando o pedaço de pano verde. Clara perguntou onde ele fora. Elias praguejou baixo e correu para a porta. Clara o seguiu. No corredor de serviço, nenhuma sombra. A porta interna para a cozinha estava aberta. Eles entraram. A cozinha do hotel, vazia àquela hora, tinha bancadas de inox, panelas suspensas, cheiro de gordura limpa e uma fileira de facas magnetizadas na parede. No chão, junto à pia, havia uma chave caída. Clara reconheceu o formato. Chave de quarto. Elias pegou antes dela. Duzentos e dezenove. Silas carregava a chave e mentira ao dizer que precisaria buscá-la. Clara sentiu a raiva assentar, fria e útil. O mordomo não apenas sabia do quarto. Ele controlava entrada, saída e silêncio.

Um grito veio do saguão. Não foi longo, porem cortou o hotel inteiro. Elias correu. Clara pegou uma faca pequena da bancada, mais por instinto do que plano, e foi atrás. No saguão, Lavínia estava de pé diante da escadaria, com o xale caído no chão e a mão na boca. Sobre o mármore, aos pés dela, havia uma caixa de madeira escura que não estivera ali antes. Ninguém se aproximava. Dois seguranças parados, uma recepcionista chorando, um garçom segurando uma bandeja vazia. Elias parou a poucos passos. Clara ficou ao lado dele. Na tampa da caixa, pintado com tinta verde, estava o mesmo nome. Aurora. Lavínia disse que aquilo fora enterrado com a irmã. Elias pediu que ninguém tocasse. Clara olhou para a caixa e viu que a tampa tremia de leve, batendo por dentro em intervalos curtos.

A faca na mão de Clara pareceu ridícula e necessária. Elias se ajoelhou diante da caixa, mas ela segurou seu ombro antes que abrisse. Lembrou da frase de Bia. Se Clara vier, não deixem Elias subir primeiro. Talvez valesse também para caixas que voltavam de túmulos. Ela pediu que ele se afastasse. Elias obedeceu com dificuldade. Clara colocou a faca no chão ao alcance da mão, puxou o celular para filmar e ergueu o fecho da caixa usando o lenço. Dentro não havia corpo, nem animal, nem mecanismo elaborado. Havia um gravador antigo, ligado, batendo contra a madeira a cada volta da fita. A voz que saiu era fraca, arranhada, feminina. Clara não reconheceu de imediato. A gravação dizia que, se aquela fita estivesse tocando, o hotel já teria escolhido outra mulher para pagar por Aurora. Depois vinha uma pausa, um chiado, e a voz de Bia surgia clara. Clara, não confie no noivado.

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