A Estrada Costeira
Clara foi a primeira a sair do saguão antes que Ramos terminasse de chamar outra viatura. A foto enviada por Daniel mostrava apenas o vidro traseiro do táxi, a pista molhada, um farol branco deformado pela água e, no canto esquerdo, a mancha verde da mulher na moto. O rosto dela não aparecia, porem a postura bastava. Era a mesma figura que se sentara no parapeito do quarto interditado e depois sumira pela janela, sem pressa de pertencer às leis do corpo. Clara ligou para o irmão enquanto descia os degraus da entrada principal. Chamou duas vezes. Na terceira, Daniel atendeu ofegante, falando baixo demais. Disse que o motorista do táxi começara a ficar nervoso, que a moto mantinha distância e que a estrada costeira estava vazia. Clara pediu que ele mantivesse a ligação aberta perto do banco, mesmo que precisasse esconder o aparelho. A voz dela saiu firme porque a de irmã não teria utilidade naquele momento.
Elias alcançou Clara perto do carro preto. Trazia as chaves na mão e o corte ainda aberto nos nós dos dedos. Disse que a estrada tinha três saídas antes da ponte velha, e que a ordem de bloqueio improvisado poderia atrasar o trânsito pesado, porem não pararia uma moto. Clara entrou no banco do passageiro sem pedir explicações. Não era voto de confiança. Era cálculo. Elias conhecia a estrada, os atalhos, as propriedades vizinhas e a arrogância logística daquela família. O motor ligou com um ronco baixo. Clara colocou Daniel no alto-falante e apoiou o celular no painel. O irmão respirava rápido. O táxi passava por uma sequência de curvas, segundo ele, e o motorista parecia olhar demais pelo retrovisor. Elias saiu do estacionamento com precisão perigosa. A fachada iluminada do Mirante ficou para trás, enorme e branca, enquanto o primeiro cinza da manhã começava a ferir a noite.
Daniel disse que a mulher aproximara a moto. Clara ouviu o barulho pelo telefone, um motor pequeno lutando contra a chuva. Pediu que ele descrevesse a roupa. Vestido verde por cima de calça escura, respondeu ele, capacete preto sem viseira, luvas claras. Clara perguntou se conseguia ver o rosto. Daniel disse que não, e logo depois corrigiu. Disse que vira por um segundo quando a moto emparelhou. Parecia jovem. Parecia cansada. Parecia Bia de longe, se Bia tivesse passado dias sem dormir. Clara sentiu a mão fechar no cinto de segurança. Elias olhou para ela de relance, sem perguntar. A comparação de Daniel não fazia sentido e ainda assim entrava no mesmo lugar de todas as imagens daquela noite. Mulheres parecidas, nomes trocados, fotografias velhas, registros incompletos. O hotel parecia produzir repetição como produzira quartos, eventos e desculpas.
A estrada costeira descia entre pedras escuras e vegetação baixa. De um lado, o muro irregular do hotel e suas terras antigas. Do outro, a queda em direção ao mar, ainda invisível, porem presente no som que subia com o vento. Elias dirigia rápido, sem invadir as curvas. Clara odiava a própria percepção de competência. Pegou o celular dele, já desbloqueado, e abriu o mapa que ele indicou com um gesto. Daniel estava a seis quilômetros, seguindo para a ponte velha. A viatura mais próxima aparecia parada na saída da cidade. Clara informou a localização ao irmão e pediu que o táxi reduzisse perto do posto desativado, onde haveria espaço para entrar sem virar alvo em pista aberta. O motorista do táxi protestou ao fundo. Clara pediu o nome dele. Ronaldo. Chamou-o pelo nome e disse que, se ele obedecesse, ela pagaria o triplo e daria declaração formal à polícia. O protesto diminuiu. Dinheiro e documento ainda moviam pessoas quando o medo empurrava para o lado errado.
Elias recebeu ligação de Caio. Recusou. O telefone tocou de novo. Recusou outra vez. Na terceira, Clara pegou e atendeu sem pedir licença. Caio perguntou onde ele estava. Clara respondeu que o noivo estava ocupado evitando outro crime ligado à família Montenegro. Houve silêncio do outro lado, depois uma risada pequena. Caio disse que ela aprendia depressa a usar sobrenome alheio. Clara respondeu que aprendia depressa a reconhecer advogado que confundia defesa com limpeza de cena. Desligou. Elias não reclamou. Disse apenas que Caio não ligaria sem motivo. Clara perguntou se ele sentiria falta do controle. Elias respondeu que naquele ponto sentiria falta de qualquer coisa que ainda pudesse chamar de controle sem mentir. A resposta veio baixa, sem charme. Clara guardou o telefone dele no console e voltou ao aparelho onde Daniel respirava tentando ficar vivo sem fazer barulho.
A moto encostou no táxi perto da placa enferrujada do posto desativado. Daniel gritou. Pelo telefone, Clara ouviu metal raspando em metal, buzina, o motorista xingando, uma derrapagem curta. Elias acelerou. A estrada abriu em uma reta molhada, e Clara viu ao longe as luzes amarelas do táxi. A moto vinha ao lado, pequena, agressiva, presa ao veículo como um animal faminto. Clara pediu que Ronaldo entrasse no posto. O motorista virou tarde, o táxi bateu na guia e subiu no pátio abandonado com o pneu dianteiro estourado. A moto passou direto por alguns metros, freou de lado e voltou em arco. Elias jogou o carro entre a moto e a saída do posto. Clara saltou antes do motor desligar. A chuva fina transformava o pátio em um espelho sujo. Daniel abriu a porta traseira do táxi e caiu de joelhos no chão, vivo, branco de medo, segurando o celular contra o peito.
Clara correu até o irmão. Tocou seu rosto, ombros, braços, procurando sangue. Daniel tentava falar e falhava. Ronaldo, o motorista, saiu do táxi tremendo, repetindo que não sabia de nada. Elias ficou entre eles e a moto, sem arma visível, apenas com o corpo colocado na frente de um perigo que Clara ainda não conseguia classificar. A mulher de verde tirou o capacete. Não era Bia. Também não era exatamente a jovem da fotografia de Aurora. Tinha olhos claros, rosto magro, cabelo cortado no queixo e uma cicatriz pequena perto da boca. Parecia ter trinta anos e cem noites mal dormidas. Clara levantou devagar. Perguntou quem era. A mulher olhou para Daniel primeiro. Disse que ele carregava um telefone que não deveria ter saído da delegacia. A voz era a mesma do quarto duzentos e dezenove, menos fantasma sob a luz cinza do posto.
Elias disse o nome dela antes que Clara recebesse resposta. Helena. A palavra o atingiu também. Clara percebeu pela forma que ele recuou meio passo. A mulher riu sem humor. Disse que ele lembrava quando convinha. Elias disse que Helena trabalhara no Mirante anos antes, na equipe de eventos, e desaparecera depois de uma denúncia interna. Clara olhou para a mulher. Helena respondeu que desaparecer era palavra confortável para quem ficava com a chave do hotel. Disse que Beatriz a encontrara primeiro, que Bia entendia arquivos melhor que todos eles, que Daniel fora usado porque alguém precisava trazer Clara para dentro sem convidar a polícia cedo demais. Clara perguntou se ela seguira o táxi para proteger ou atacar. Helena apontou para a mochila de Daniel, caída no banco traseiro. Disse que o celular antigo dentro da sacola tinha rastreador e escuta. Se Daniel saísse dali com aquilo, qualquer destino seguro deixaria de ser seguro.
Clara pegou a mochila do irmão e encontrou o aparelho antigo embrulhado em saco plástico, junto da pulseira de hospital de Bia. Helena pediu que ninguém ligasse. Elias perguntou quem havia colocado na sacola. Helena respondeu que Nestor entregava ordens sem saber ler todas. Estava velho, devendo, assustado. Tinha culpa em partes, porem ficava longe do centro. Clara perguntou pelo centro. Helena olhou para o carro preto de Elias, depois para a estrada, depois para Daniel. Disse que o centro acordava às seis, tomava café no salão privado e escolhia qual história entraria no inventário da família. Lavínia. Caio. O avô no quarto médico. Silas, quando precisava. Elias ficou muito quieto. Clara perguntou por Bia. A mulher de verde apertou os lábios. Disse que Bia estava viva quando gravou a fita, viva quando tiraram a foto na lavanderia e viva quando conseguiu esconder parte dos arquivos. Depois disso, Helena não a vira.
Sirene apareceu ao longe, ainda fraca. Helena ouviu antes de todos e colocou o capacete debaixo do braço. Clara pediu que ficasse. Disse que poderia protegê-la como testemunha. Helena deu uma risada dura. Perguntou se a proteção viria no carro da polícia, no carro do Montenegro ou no táxi com pneu estourado. Clara não respondeu rápido o bastante. A mulher tirou do bolso um cartão de memória e jogou para ela. Clara pegou por reflexo. Helena disse que ali havia cópia de parte do terceiro andar, feita por Bia antes de ser pega. Senha. O nome que falta na lista. Clara perguntou qual lista. Helena apontou para Daniel. Disse que a lista de mulheres não começava com Aurora. Começava com a criança dela. A frase caiu no pátio com a chuva. Elias fechou a mão machucada. Clara perguntou se Helena era essa criança. A mulher de verde olhou para ele, não para Clara. Disse que seria mais fácil para todos se fosse.
A viatura virou na entrada do posto, levantando água. Helena montou na moto. Clara deu um passo, mas Elias segurou seu braço apenas pelo tempo necessário para impedir que ela entrasse na frente da moto. Soltou antes que ela protestasse. Helena acelerou, passou pela lateral do posto e sumiu por uma trilha estreita entre o mato e o muro antigo. Ramos desceu da viatura furioso, perguntando quem era a motociclista. Clara respondeu que era testemunha, ameaça e talvez única pessoa que ainda sabia onde Bia estivera depois da lavanderia. O investigador olhou para ela como quem desejava uma noite simples e encontrara uma família inteira apodrecida dentro de um hotel de luxo. Daniel se levantou com ajuda de Ronaldo. Clara abraçou o irmão por um segundo, curto, forte, sem permitir que o abraço a desmontasse. Depois entregou o celular antigo a Ramos, exigindo lacre, foto e registro.
Ramos queria levar todos à delegacia. Elias insistia que o hotel precisava ser isolado antes que Lavínia e Caio destruíssem o restante. Clara escolheu uma terceira opção. Daniel iria com Ramos para proteção formal, Ronaldo prestaria depoimento, o celular antigo seria apreendido, e ela voltaria ao Mirante com cópia do registro, cartão de memória escondido e uma urgência nova. Daniel protestou. Disse que não a deixaria voltar. Clara segurou o rosto do irmão entre as mãos e falou baixo. Disse que ele já fora isca uma vez e não seria de novo. Ele perguntou se ela seria. Clara pensou no contrato, no título de noiva, no casaco de Elias em seus ombros, na lista com seu nome e no cartão de memória quente dentro da palma. Respondeu que agora ela saberia onde estavam tentando puxar a corda. Não era segurança. Era diferença.
Elias a chamou perto do carro antes que Ramos percebesse o cartão de memória. Disse que havia um cofre portátil na biblioteca, sem ligação com a rede do hotel, onde poderiam abrir o arquivo com um notebook limpo. Clara perguntou por que deveria acreditar. Ele respondeu que não tinha mais família suficiente para mentir por ela. A frase tinha gosto de cansaço real. Clara não aceitou como prova, porem aceitou como sintoma. Entrou no carro com a mochila de Daniel vazia no colo. Antes de fechar a porta, viu o irmão entrando na viatura, virando o rosto para ela com medo e confiança misturados do jeito mais injusto possível. Clara levantou a mão. A viatura saiu primeiro, levando Daniel para a cidade. Elias esperou até as luzes sumirem na curva. Depois deu partida. Nenhum dos dois falou durante quase um quilômetro.
O sol começava a abrir uma linha pálida atrás das nuvens quando voltaram pela estrada costeira. O hotel apareceu no alto, elegante, claro, impune por enquanto. Clara pegou o cartão de memória e leu a etiqueta minúscula colada nele. A letra era de Bia. Não dizia Aurora, nem Elias, nem Clara. Dizia apenas bebê verde. Elias viu e perdeu um pouco da cor. Clara perguntou se aquilo significava algo. Ele respondeu que, quando criança, ouvira os empregados antigos falarem de um bebê levado da estufa em uma manta verde, e Lavínia mandara demitir quem repetisse a história. Clara guardou o cartão dentro da própria blusa, junto ao corpo, longe dos bolsos. No portão do Mirante, Caio esperava sob um guarda-chuva preto, cercado por dois seguranças. Ao lado dele, Silas reaparecera com o rosto ferido. Caio sorriu para Clara antes mesmo de o carro parar. Disse que a família queria conhecer melhor a noiva.