O Salão de Baile
Clara leu o arquivo chamado noiva até a vista cansar. Bia escrevera em frases curtas, secas, sem o humor que usava nos áudios antigos. Havia instruções para a noite, nomes de convidados, horários aproximados, posições de câmeras, acesso ao salão de baile, mesa de som, porta de serviço, escada lateral. A apresentação oficial da noiva aconteceria às oito, diante de parentes, investidores, dois vereadores, uma juíza aposentada, fornecedores antigos e jornalistas de coluna social que ainda aceitavam convite do Mirante em troca de hospedagem. A família usaria Clara como cortina elegante depois de uma madrugada de polícia. Bia sabia disso antes de desaparecer. Talvez soubesse porque vira acontecer antes, com outras mulheres, outros escândalos, outros objetos deslocados para longe da mesa principal. Clara sentou-se diante do notebook com o casaco de Elias ainda nos ombros e sentiu uma raiva limpa. Não bastava sobreviver ao baile. Precisava fazer o baile trabalhar contra eles.
Elias ficou de pé perto da estante, respeitando uma distância que parecia escolhida com régua. A mão cortada fora lavada e enfaixada às pressas. Ele não perguntou o que Bia escrevera além da primeira linha. Clara percebeu essa contenção e desconfiou dela com menor força do que horas antes. O arquivo trazia uma observação sobre ele. Elias será útil se estiver com vergonha suficiente para obedecer. Clara quase leu em voz alta, porem guardou. Perguntou se ele conhecia os convidados previstos para a noite. Elias respondeu que sim, muitos desde criança, alguns desde processos, vários desde dívidas. Pegou papel e caneta e começou a identificar nomes. Investidor que queria comprar parte do hotel. Vereador ligado a licenças ambientais. Viúva de antigo sócio. Médico que assinava laudos de Augusto. Fornecedor de eventos. Padre que celebrara casamentos demais naquela família. Clara anotou tudo. O noivado falso ganhava público, e público era risco. Também podia virar proteção.
O plano de Bia dependia de uma sala técnica atrás do palco, onde o Mirante controlava projeções, música e microfones em festas. Havia ali um painel ligado ao telão do salão, usado para vídeos de casamento e discursos de investidores. No cartão de memória, além de documentos, existia um arquivo de vídeo chamado primeira dança. Clara abriu. A tela mostrou Beatriz, sentada em algum cômodo escuro, rosto machucado, cabelo preso, voz baixa. Se isso for exibido, não parem no começo. Eles vão tentar cortar antes da segunda parte. A imagem congelava em alguns trechos, porem o áudio seguia. Bia falava de Marina, da lista, da lavanderia, do terceiro andar, de pagamentos. Depois dizia que a mulher chamada Helena não era fantasma, nem louca, nem chantagista. Era sobrevivente de um esquema que mantinha vivas algumas mulheres apenas enquanto elas serviam de prova contra outras. Clara pausou. Elias fechou os olhos.
Clara perguntou se ele ainda queria apresentar a noiva. Elias respondeu que queria derrubar o que restava da encenação sem entregar Joana a Augusto antes da hora. A resposta tinha a prudência certa. Joana, se fosse mesmo descendente de Aurora, passaria de funcionária invisível a peça de disputa patrimonial em poucos segundos. Caio usaria isso. Lavínia tentaria controlar. Augusto talvez tentasse destruir. Ramos poderia proteger, porem polícia também falhava quando dinheiro antigo pressionava por portas laterais. Clara fechou o arquivo e fez uma cópia para um pendrive limpo encontrado no cofre de Elias. Outra cópia foi enviada, com demora irritante, para uma conta de e-mail criada ali mesmo. Elias ofereceu um servidor seguro. Clara recusou. Disse que preferia uma senha feia em lugar comum a uma solução elegante dentro da família dele. Ele aceitou. A vergonha, naquele momento, realmente o deixava útil.
Às dez da manhã, uma camareira trouxe roupas. Clara achou que fosse engano até ver o bilhete de Lavínia preso à capa de um vestido azul-escuro. Para a noiva não envergonhar as fotografias. Clara leu e sorriu sem alegria. O vestido era bonito, corte simples, pano pesado, decote moderado, manga longa, exatamente a escolha de alguém que queria fazer dela figura respeitável e controlada. Ao lado havia sapatos, brincos discretos, uma pequena caixa de maquiagem. Elias pediu desculpa antes que ela dissesse qualquer coisa. Clara respondeu que ele não escolhera o vestido, porem escolhera o contrato que dava a Lavínia licença para mandar roupa. A frase acertou. Ele assentiu. Clara passou os dedos pela peça. Usar o vestido não significava aceitar a mão de Lavínia. Significava entrar no cenário com a roupa que o inimigo esperava. Às vezes a armadilha fica mais fácil de abrir por dentro.
Ramos voltou à biblioteca pouco antes do meio-dia. Recebeu de Clara uma cópia do arquivo de Bia e do recorte ligado a Marina Santos, com pedido formal de proteção para Joana sem alarde. O investigador ouviu, mascou uma ponta de caneta e disse que proteção sem alarde era quase oração. Clara respondeu que então ele rezasse em papel timbrado. Ramos gostou pouco, porem anotou. Disse que o terceiro andar continuava lacrado e que técnicos abririam a porta até o fim da tarde. Silas fora levado para depoimento, mas falava pouco. Caio estava solto, alegando agressão na lavanderia e colaboração voluntária. Lavínia permanecia dentro do hotel, ao lado de Augusto. O velho recusara atendimento externo. Clara perguntou se ele podia sair dali. Ramos respondeu que qualquer um podia tentar, e esse era justamente o problema. No Mirante, detenção ainda precisava disputar espaço com sobrenome.
Joana apareceu na biblioteca depois que Ramos saiu, carregando uma bandeja que tremia. Elias abriu a porta e ficou sério ao vê-la. A moça perguntou se ia ser presa. Clara pediu que entrasse. Joana sentou-se apenas depois de ouvir duas vezes. Disse que sua mãe se chamava Marina Santos, que morrera quando ela tinha doze anos e nunca falara do Mirante sem raiva. Trabalhava no hotel havia oito meses porque Bia a procurara dizendo que a história da mãe começava ali. Joana aceitou emprego na cozinha para ouvir. Descobriu pouco, medo demais. Clara perguntou se ela sabia ser neta de Aurora. Joana apertou os dedos na saia do uniforme. Disse que sabia de suspeita, não de prova. Prova era coisa de gente que tinha gaveta, advogado, carimbo. Ela tinha uma certidão cortada, uma foto escondida e uma mãe que dizia para nunca aceitar favor de Montenegro.
Elias pediu desculpa. Joana olhou para ele com uma frieza que Clara respeitou. Disse que pedido de desculpa vindo de sobrenome grande parecia gorjeta quando não vinha acompanhado de chave, documento e nome certo. Elias recebeu sem defesa. Clara perguntou se Joana aceitaria sair do hotel antes do baile. A moça recusou. Disse que Bia a mandara ficar perto da cozinha na noite da apresentação, porque ali passaria o carrinho de sobremesas usado para levar equipamentos ao salão. Clara abriu o arquivo de instruções e confirmou. Joana conhecia a rota do carrinho, a sala técnica, os horários em que seguranças trocavam de posto. Ficaria, então, porem com Ramos avisado e uma policial disfarçada na equipe de buffet, se ele conseguisse. Joana sorriu pela primeira vez. Disse que policial de avental ainda pareceria policial. Clara respondeu que alguns criminosos também pareciam advogados. Elias evitou olhar para a porta, talvez por imaginar Caio surgindo apenas por ser lembrado.
A tarde avançou entre preparativos indignos e medidas necessárias. Clara tomou banho na suíte duzentos e quinze com a porta trancada, uma cadeira encostada sob a maçaneta e o celular gravando o ambiente sobre a pia. Vestiu o vestido de Lavínia e prendeu o cabelo com os próprios grampos. Não usou os brincos enviados. Colocou os de pérola falsa de Bia, recuperados do quarto interditado, depois de fotografá-los e guardar o registro. A escolha lhe pareceu arriscada e certa. Quem reconhecesse os brincos denunciaria conhecimento. Quem não reconhecesse veria apenas noiva discreta. No espelho, Clara viu uma mulher cansada, elegante contra a vontade, com olhos de advogada e pescoço de pessoa que dormira pouco. A noiva existia. Era falsa. O perigo que ela carregava, não.
Elias bateu na porta às sete e meia. Esperou Clara responder antes de entrar, outra obediência pequena que a irritou menos do que deveria. Usava terno escuro, camisa branca e a mão enfaixada escondida parcialmente pelo punho. Parou ao vê-la. O olhar durou um segundo além do necessário. Clara percebeu, e a percepção acendeu nela uma raiva nova, menos útil, mais difícil de arquivar. Disse que se ele elogiasse o vestido de Lavínia, ela iria sozinha. Elias respondeu que Lavínia tinha escolhido uma peça bonita para tentar torná-la inofensiva e falhara nas duas coisas. Clara não quis gostar da resposta. Pegou a pasta fina com cópias, guardou o pendrive na liga presa à coxa sob o vestido e colocou o celular em modo gravação dentro da pequena bolsa. Elias perguntou se podia oferecer o braço apenas na entrada do salão. Clara respondeu que avisaria quando fosse necessário. Ele assentiu. A parte contratual do romance falso continuava sendo a única parte suportável.
O salão de baile do Mirante parecia preparado para uma festa de noivado planejada havia meses, não para a manhã seguinte a uma caixa de provas no saguão. Lustres acesos, flores brancas, toalhas longas, músicos afinando instrumentos, garçons com taças de espumante, fotógrafos procurando o melhor ângulo. Clara viu o horror daquilo com clareza. Riqueza não escondia apenas sujeira. Riqueza produzia velocidade para substituir escândalo por decoração. Lavínia esperava no centro, vestido cinza, broche de pérola, sorriso de anfitriã. Caio conversava com um homem de terno azul perto do palco. Augusto estava em cadeira de rodas ao lado da primeira mesa, cobertor impecável, enfermeira atrás. Joana circulava com bandeja de canapés, rosto baixo, passos controlados. Ramos não aparecia. Talvez estivesse escondido bem. Talvez atrasado. Clara apertou a bolsa e entrou.
Elias ofereceu o braço na entrada do salão. Clara aceitou porque os fotógrafos já se viravam e a mentira precisava render acesso. A mão dela pousou na dobra do cotovelo dele, leve, sem entrega. Um clarão de flash atingiu os dois. Lavínia veio ao encontro deles. Chamou Clara de querida com voz de veneno doce. Clara respondeu senhora Lavínia com a educação exata para não parecer medo. Caio se aproximou também. O advogado trazia no rosto um pequeno inchaço da queda na lavanderia, coberto por maquiagem mal aplicada. Disse que esperava que a noite fosse menos agitada. Clara respondeu que também, pois sapato de festa dificultava corrida. Elias tossiu para esconder um riso. Caio percebeu e estreitou os olhos. O noivado começava a funcionar como teatro, e o teatro dava a Clara permissão para permanecer perto demais de todos.
O primeiro discurso foi de Lavínia. Falou da tradição do Mirante, da força da família, da alegria de receber Clara como sinal de renovação. Clara ouviu cada palavra imaginando a pasta verde sobre a mesa de Ramos. Renovação, naquele salão, significava usar mulher nova para cobrir mulher desaparecida. Depois Elias foi chamado ao palco. Clara esperava que ele repetisse meia dúzia de frases neutras. Em vez disso, ele levou consigo o microfone e desceu até onde ela estava. Pediu que Clara ficasse ao seu lado. O salão murmurou. Lavínia ficou rígida. Caio deu um passo em direção à mesa técnica e encontrou Joana bloqueando o corredor com uma bandeja derrubada de propósito. Elias começou dizendo que o anúncio daquela noite fora planejado antes de Clara conhecer a extensão dos problemas da família. Clara olhou para ele. Aquilo não estava no combinado.
Elias continuou. Disse que o Mirante tinha sido construído sobre trabalho de mulheres que a família raramente nomeara, e que a noite não serviria para cobrir investigações em curso. Lavínia levantou, furiosa, mas os flashes já disparavam. Clara percebeu a chance. Pegou o microfone da mão dele sem pedir. Disse que seu compromisso ali era com a verdade dos fatos, não com a preservação de sobrenomes. O salão ficou suspenso. Na sala técnica, alguém tentou cortar o som. Joana puxou um cabo, um chiado explodiu nas caixas e o telão acendeu sozinho. A imagem de Beatriz apareceu gigante atrás de Clara, rosto machucado, olhos firmes. O arquivo primeira dança começara. Bia disse que, se aquela gravação estivesse pública, a noiva já tinha entrado na sala certa. Clara não se virou. Ficou olhando para Lavínia, para Caio, para Augusto. Queria ver quem correria primeiro.
Caio correu para a lateral do palco. Ramos surgiu da porta de serviço com dois policiais. Lavínia gritou para desligarem aquilo. Augusto não se moveu. A gravação de Bia continuou, projetando nomes, datas, recibos, a foto de Aurora com a criança, a lista de mulheres, o rosto de Joana na cozinha. Um murmúrio tomou o salão, depois vozes, depois cadeiras arrastadas. Joana ficou parada perto do carrinho de sobremesas, branca de medo, mas sem fugir. Clara desceu do pequeno palco e foi até ela. Elias a acompanhou, abrindo caminho. No telão, Bia dizia que Marina Santos nascera Montenegro e fora apagada para salvar a herança de homens que preferiam registrar hotéis a registrar crianças. Augusto levantou a cabeça. Pela primeira vez, a velhice dele pareceu máscara fina. Clara viu ódio ali, inteiro, vivo. O velho apontou para Joana e disse, alto o suficiente para todos ouvirem, que aquela linhagem terminaria naquela noite.