O Quarto Azul O Acordo da Meia-Noite · Capítulo 10 de 16
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O Quarto Azul

A porta azul abriu com um estalo bruto, arrancando lascas da madeira perto da fechadura nova. Clara entrou antes que Ramos pudesse ordenar cuidado, porque a voz de Bia havia chamado seu nome de dentro de um escuro baixo, gasto, sem defesa. O quarto tinha cheiro de remédio velho, lençol úmido e comida esquecida. Uma luminária presa à parede tremia, acesa pela metade, revelando uma cama estreita, uma cadeira com cinto de couro, uma mesa de metal, um balde no canto e duas figuras humanas dobradas pela fraqueza. Bia estava sentada no chão, costas na parede, rosto fino demais, boca rachada, olhos vivos de uma maneira que fez Clara sentir raiva antes do alívio. Perto da cama, Daniel respirava com ruído, um braço pendido para fora do colchão, camisa suja, pulso marcado por faixa adesiva.

Clara correu até o irmão e tocou seu pescoço com dedos que mal obedeciam. Havia pulso. Fraco, irregular, porem presente. Daniel abriu os olhos por um segundo e tentou dizer algo que saiu apenas ar. Clara pediu água, ambulância, médico, qualquer coisa que fizesse o corpo dela parar de tremer. Ramos chamou resgate pelo rádio e mandou o policial fotografar o quarto antes que alguém mudasse os objetos de lugar. Bia tentou se levantar, falhou, riu sem som e disse que sabia que Clara ficaria furiosa com a cena antes de chorar. A frase atravessou Clara de um jeito antigo, familiar, e ela se ajoelhou ao lado da amiga sem decidir se abraçava ou examinava ferimentos. Fez as duas coisas mal, com cuidado insuficiente e amor demais para o tamanho das mãos.

Elias ficou parado na entrada por alguns segundos, impedido pela vergonha de ocupar o quarto antes das vítimas. Joana entrou atrás dele e cobriu Bia com o paletó que tirara de um policial sem pedir licença. Bia olhou para a moça, reconheceu o rosto e pediu desculpa por ter colocado o cartão verde no pacote de farinha. Joana chorou de novo, dessa vez com raiva, dizendo que farinha era melhor esconderijo que gaveta de gente rica. A resposta fez Bia sorrir, pequeno, quase nada. Clara viu ali uma prova diferente das pastas e dos laudos. Aquelas duas mulheres tinham se encontrado no silêncio da cozinha, nos recados escondidos, na escolha de permanecer perto do perigo porque o perigo guardava nomes. Ramos pediu que todos se afastassem da cama. Clara recusou sair de perto de Daniel. O investigador olhou para ela, mediu o que podia exigir e deixou a ordem morrer.

Bia falou antes que o resgate chegasse. Disse que Daniel fora trazido depois da estrada costeira, desacordado, com a mão amarrada por uma braçadeira plástica. Nestor o entregara a Silas na porta de serviço, e Caio acompanhara tudo por chamada de vídeo. A ideia inicial era manter Daniel escondido até Clara assinar uma versão nova do acordo. Se ela se comportasse durante a apresentação pública, o irmão apareceria vivo, acusado de menos crimes, dependente da boa vontade dos Montenegro. Se ela tentasse fugir, Daniel seria encontrado com provas falsas suficientes para anos de cadeia. Clara ouviu sem respirar direito. Daniel, no colchão, mexeu os dedos. A mão dele encontrou a barra do vestido rasgado dela, agarrou o pano e segurou. A infância inteira veio nesse aperto, tardes de ônibus, aluguel atrasado, febre dividida, mãe trabalhando de pé. Clara baixou a cabeça para que ninguém visse seu rosto.

Elias ouviu o próprio nome sair da boca de Bia com uma dureza que o obrigou a entrar. Ela disse que o primeiro contrato era isca, escrito para parecer indecente e limitado. O segundo ficava com Augusto. Nele, Clara assumiria publicamente a defesa da família em troca da soltura de Daniel e de uma promessa de casamento que dava a Elias controle temporário das ações disputadas. O documento também incluía uma cláusula sobre Joana, redigida sem o nome dela, chamando-a de possível requerente de origem contaminada. Elias apoiou a mão na parede. Clara percebeu que ele não sabia daquela parte, e a descoberta não a consolou. Ignorância dentro de casa grande ainda podia esmagar gente pequena. Elias perguntou onde estava o papel. Bia apontou para o teto, ou talvez para cima, para além do quarto. Disse que Augusto guardava contratos perto de coisas santas porque gostava de sujar o que ninguém tocava.

O resgate subiu pela rouparia com maca dobrável e maleta vermelha. Ramos discutiu com o médico do hotel, que apareceu aflito demais e tentou assumir Daniel sem identificação clara. Clara pediu a carteira profissional dele. O homem se ofendeu. Ramos pediu também. O médico recuou meio passo, e esse recuo bastou. Um socorrista do serviço público tomou a frente, mediu pressão, verificou pupila, perguntou que substância poderia ter sido usada. A enfermeira algemada, ainda no corredor, começou a repetir que era sedativo leve. Bia soltou uma risada áspera e disse que leve era a palavra preferida deles para tudo que deixava mulher quieta. Clara quis guardar a frase em algum lugar que não doesse. O socorrista estabilizou Daniel com movimentos rápidos e anunciou remoção imediata. Clara disse que iria junto.

Bia segurou o pulso dela antes que Clara se levantasse. A força era quase nenhuma, porem a intenção segurou. Disse que, se Clara saísse naquele momento, Augusto teria tempo de tirar o segundo contrato do hotel. Daniel precisava de hospital, e Ramos podia escoltá-lo. Clara precisava do papel. Sem o papel, Joana seria desacreditada, Elias seria tratado como herdeiro abalado e Bia viraria vítima confusa depois de dias trancada. Clara fechou os olhos por um segundo. Queria odiar a lógica e odiou, porem obedeceu. Beijou a testa de Daniel, mandou o irmão esperar por ela com a autoridade antiga de irmã mais velha e entregou seu celular a Ramos para acompanhar a ambulância em chamada aberta. Ramos aceitou. Disse que, se a ligação caísse, ele mandaria uma viatura voltar para buscá-la nem que precisasse arrombar metade do hotel.

Quando a maca levou Daniel pelo corredor, Clara acompanhou até o elevador e parou ali, na porta aberta, com a mão no metal frio. Daniel tentou levantar dois dedos. Era o sinal deles para promessa pequena, usado quando não podiam pagar verdade grande. Clara respondeu com os mesmos dois dedos e deixou a porta fechar. Elias estava alguns passos atrás. Não pediu desculpa. Não ofereceu consolo. Apenas ficou perto, quieto, até ela conseguir se virar. Essa falta de frase pronta foi a primeira gentileza dele naquela noite que não a irritou. Clara perguntou onde havia coisa santa no Mirante. Elias respondeu que existia uma capela particular no subsolo antigo, desativada para hóspedes desde a morte de Aurora. Augusto ainda mandava limpar o lugar toda semana. Lavínia guardava ali as chaves de prata usadas em cerimônias familiares, e ninguém entrava sem autorização do velho. Bia, sentada na maca que restava para ela, sorriu cansada. Disse que então era lá.

Bia não queria descer. O corpo dela discordava antes de qualquer pessoa. Mesmo assim, recusou a segunda ambulância até mostrar o caminho pelo menos até a escada correta. Ramos tentou impor retirada médica. Bia respondeu que já tinha obedecido ordens demais dentro daquele prédio. Clara apoiou a amiga de um lado, Joana do outro, e Elias abriu caminho. O grupo desceu pelo elevador de serviço até a cozinha, onde funcionários fingiam limpar o caos enquanto ouviam cada passo. Alguns pararam ao ver Bia. Uma cozinheira levou a mão à boca. O rosto da desaparecida, que até aquela hora vivia em arquivo de vídeo e boato, caminhava entre panelas e caixas de legumes, magro, ferido, vivo. Joana apertou a cintura dela com cuidado. Clara percebeu que aquela caminhada também era prova. O hotel inteiro precisava ver quem fora escondida.

A porta para o subsolo ficava atrás de um armário de mantimentos. Elias afastou caixas de vinho barato, revelou uma fechadura antiga e passou um cartão que falhou. Joana entregou o verde. Também falhou. Bia tirou do bolso uma chave pequena amarrada em elástico de cabelo. Disse que Silas a deixara cair de propósito três dias antes, quando percebeu que ela gravava os horários de comida. Talvez fosse culpa, talvez fosse medo, talvez fosse apenas cálculo de homem que queria sobreviver a qualquer lado vencedor. A chave abriu. A escada desceu em pedra estreita, fria, com cheiro de cera e maresia guardada. Clara pensou em Daniel na ambulância, no contrato sob a mão de Augusto, na maneira como uma família podia transformar prédio em máquina de retenção. Desceu primeiro porque precisava gastar a raiva em passos.

A capela particular era pequena, sem bancos para multidão. Havia seis cadeiras de madeira, um altar baixo, santos de gesso, flores secas, uma caixa de velas e retratos de mortos em molduras prateadas. Aurora aparecia numa fotografia jovem, vestido claro, cabelo preso, olhar virado para alguém fora do quadro. Ao lado, Elias criança segurava uma vela grande demais. Augusto surgia em várias imagens, sempre perto do altar, sempre no centro mesmo quando a cerimônia não era dele. Clara examinou gavetas, castiçais, fundos falsos. Joana foi direto para a fotografia de Aurora. Disse que a mãe guardava uma cópia pequena daquela mesma foto dentro de um livro de receitas. Elias retirou a moldura da parede. Atrás dela havia uma abertura rasa, protegida por madeira fina. Dentro, um envelope grosso, lacrado com cera vermelha, esperava sem poeira.

Clara abriu o envelope com a ponta de uma chave. Havia três documentos. O primeiro era o acordo verdadeiro, impresso em papel timbrado de escritório antigo, com espaços para assinatura dela, de Elias e de Caio. O segundo era um reconhecimento privado de que Marina Santos descendia de Aurora Montenegro, acompanhado de exames e notas de pagamento. O terceiro era uma carta de Aurora, escrita antes da queda no mar, pedindo que a criança fosse protegida de Augusto. Joana tocou a carta com dois dedos, sem pegar. Elias leu a primeira página do contrato e ficou pálido. A cláusula final dizia que, após o casamento civil, qualquer contestação feita por descendente omitida poderia ser negociada em nome do casal herdeiro, desde que Clara aceitasse atuar como advogada da família em todos os processos correlatos. Clara sentiu vontade de rir, uma vontade seca, horrível. Augusto não queria uma noiva. Queria transformar a advogada em parede.

Um barulho veio da escada. Todos se voltaram ao mesmo tempo. Lavínia apareceu no topo, segurando o corrimão com uma mão e uma pequena pistola preta com a outra. A arma parecia deslocada entre santos e velas, porem a mão dela era firme. Disse que Clara devia colocar os papéis no altar e se afastar. Elias deu um passo à frente. Lavínia apontou para o peito dele e mandou que ficasse onde estava. Bia, exausta, encostou-se à parede e fechou os olhos por um segundo longo. Joana guardou a carta de Aurora contra o próprio corpo. Clara segurou o contrato com força. Não havia policial perto. Ramos acompanhara Daniel. O investigador deixara um agente no andar de cima, distante demais para ouvir voz baixa em pedra antiga. Lavínia desceu mais um degrau e disse que a família já perdera sangue suficiente por causa de mulheres sem lugar.

Clara colocou o contrato sobre o altar, devagar. Lavínia sorriu com alívio prematuro. Elias olhou para Clara, talvez esperando outra manobra, talvez pedindo que ela não apostasse a vida de todos por papel. Clara pousou também o celular ao lado do contrato, tela virada para baixo. A ligação com Ramos continuava aberta desde a ambulância. Talvez houvesse sinal no subsolo. Talvez alguém do outro lado escutasse. Lavínia ignorava a chamada, e essa ignorância valia alguns segundos. A tia de Elias mandou Joana entregar a carta. Joana respondeu que aquela era a primeira coisa da avó que chegava inteira às suas mãos. Lavínia apontou a arma para ela. Bia avançou com o corpo fraco, Clara puxou a amiga pelo braço, Elias se moveu na direção errada, e o disparo bateu na parede de pedra acima do altar, espalhando pó branco sobre o rosto de Aurora na fotografia caída.

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