O Quarto de Raul A Casa das Sete Chaves · Capítulo 2 de 10
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O Quarto de Raul

A voz desapareceu antes que Inês conseguisse responder.

O cheiro de maré baixa permaneceu no quarto. A água escura repousava outra vez dentro da bacia, imóvel. O cartão de hospedagem estava preso entre os dedos dela, amassado perto do nome Raul Avelar.

Davi entrou sem pedir licença. Fechou a porta e apontou a lanterna para os cantos.

A luz percorreu o armário, a cama, a cômoda e o vestido branco.

O gesto era inútil. A coisa que falara junto ao ouvido de Inês não precisava ocupar parede.

— Você ouviu?

Davi assentiu.

O olhar dele se fixou na bacia. Havia raiva ali, antiga e contida.

— Saia do quarto.

— Quem falou?

— Saia antes que a porta mude de ideia.

Inês soltou uma risada curta e seca. O som surgiu errado, arrancado pelo excesso de medo.

— A casa também tem humor?

— A casa tem fome de repetição.

Ela colocou o cartão sobre a cama.

— Explique.

— Fora daqui.

Inês se ajoelhou junto à mala masculina.

— Você teve vinte anos para decidir contar. Seu prazo terminou.

Davi deu um passo.

— Não toque em nada.

Ela abriu mais a tampa.

Dentro havia uma camisa branca dobrada, sapatos rachados pelo sal, uma navalha, um pente de tartaruga e três moedas escuras. Um livro pequeno de capa azul estava encaixado sob a camisa.

Tudo parecia antigo. A cama limpa e a ausência de poeira contrariavam o estado dos objetos.

Inês pegou o livro.

Davi fechou a mão em torno da lanterna.

— Inês.

— Fique na porta, se isso ajuda sua coragem.

As primeiras páginas traziam despesas de viagem. Havia nomes de barcos, horários de chegada e valores pagos na pensão. Raul registrara refeições, combustível e pequenas compras feitas na ilha.

A letra mudou depois da metade do volume. Ficou rápida, inclinada, com palavras apertadas nas margens.

Inês leu.

Celeste acredita em mim.

Virou a página.

Úrsula viu a criança na janela.

Na seguinte, encontrou outra anotação.

A sétima chave não deve voltar para a dona.

Inês falou as três frases em voz alta.

Davi apertou a lanterna até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Quem era Úrsula?

O nome trouxe vento para dentro do quarto.

A janela estava fechada. Ainda assim, o vestido branco balançou atrás da porta. A barra tocou a madeira repetidas vezes, produzindo um ruído semelhante ao de unhas.

Davi acompanhou o movimento.

— Úrsula Bastos era a dona da pensão antes de Celeste.

— A mulher de vermelho na fotografia?

Ele olhou para o bolso do moletom de Inês.

— Você encontrou a foto.

— Responda.

— Provavelmente.

— Quem era ela?

— Rica. Viúva. Sem filhos reconhecidos. Morreu poucos meses depois da festa de inverno.

— E deixou a casa para uma funcionária?

— Celeste cuidava dos quartos, dos remédios de Úrsula e dos hóspedes durante as temporadas ruins.

— Uma empregada herda uma propriedade desse tamanho, foge grávida logo depois e ninguém acha estranho?

Davi olhou para o chão.

— A herança foi surpresa pública e escândalo privado.

— Uma maneira elegante de dizer que todos sabiam de alguma coisa.

— A ilha depende de poucas famílias.

— Então decidiram calar.

— Decidiram continuar vivendo.

Inês fechou o diário por um instante.

A história de sua família havia sobrevivido dentro da conveniência alheia. Comerciantes, pescadores, funcionários da igreja e membros da fundação seguiram trabalhando, comprando fiado e frequentando missas enquanto Celeste criava a filha no continente e se recusava a pronunciar o nome da ilha.

A água da bacia se agitou.

Inês se aproximou.

Davi tentou segurá-la, mas parou antes do contato.

Círculos lentos surgiram na superfície. Uma imagem apareceu dentro deles, quebrada pelas ondulações.

Celeste corria pelo corredor do segundo andar. Era jovem, tinha o cabelo solto e levava uma vela na mão.

Raul vinha atrás.

Estava sem camisa. Havia sangue em seu rosto. Ele abria a boca para chamar alguém, embora nenhum som saísse da água.

Uma mulher de vestido vermelho bloqueava a escada.

No fundo do corredor havia outra figura. Pequena. Podia ser uma criança ou uma sombra alongada pela vela.

Inês prendeu a respiração.

A imagem desapareceu quando uma gota caiu do teto dentro da bacia.

Ela olhou para cima.

Não havia infiltração.

Davi empurrou a bacia para longe com cuidado.

— Isso é convite.

— Eu vi minha mãe.

— Você viu o que a casa escolheu mostrar.

— Era uma lembrança.

— Não confie.

— Quantos convites recusou?

Davi manteve a mão junto à borda da cômoda.

— O suficiente para continuar vivo e covarde.

A palavra saiu sem proteção.

Inês preparou uma acusação, porém viu uma cicatriz no pulso dele. A marca subia pela pele e desaparecia sob a manga. Era fina, irregular e antiga.

Ela apontou.

Davi puxou a mão para trás.

— O que aconteceu?

— Eu tinha doze anos na noite da festa de inverno.

Inês esperou.

Ele olhou para a porta antes de continuar.

— Meu pai cuidava dos barcos da pensão. Eu devia ficar na casa de ferramentas enquanto ele trabalhava. Subi para roubar doces da cozinha.

— O que viu?

— Raul Avelar correndo pelo corredor.

Davi passou o polegar sobre a cicatriz.

— Vi Celeste chorando. Ela segurava uma chave na palma. Havia sangue.

— De quem?

— Não sei.

— O que mais?

— Meu pai saiu antes do amanhecer carregando um saco.

Inês sentiu o estômago endurecer.

— Que tipo de saco?

— Grande. Pesado o bastante para ele usar as duas mãos.

— Para onde levou?

— Eu não vi.

— Você contou à polícia?

— Contei a quem quis ouvir.

— Quem ouviu?

— Ninguém.

A resposta veio baixa.

— Quando insisti, meu pai me levou até o poço. Disse que menino curioso podia cair em lugar fundo sem deixar chapéu na borda.

Davi ergueu os olhos.

— A cicatriz é da unha dele.

Inês observou o homem diante dela. Aos doze anos, ele estivera dentro daquela noite. Vira Raul, Celeste e o próprio pai. Crescera na mesma ilha, perto da casa e do poço, guardando uma história que ninguém quis registrar.

A raiva de Inês procurou um culpado simples e não encontrou.

— Raul era meu pai?

A pergunta saiu pequena.

Davi olhou para o cartão de hospedagem.

— Celeste nunca contou.

— Você sabe o que eu perguntei.

— Raul voltou a Santa Dália procurando uma mulher grávida. Está no diário.

Inês abriu o livro outra vez.

As páginas finais haviam sido arrancadas. Restavam dentes de papel junto à lombada.

Na parte interna da contracapa, Raul desenhara a casa. Sete portas estavam marcadas no segundo andar. O poço aparecia atrás da construção. Perto de um cômodo sem número havia uma cruz.

Ao lado dela, uma frase curta.

Se eu não sair, Celeste deve guardar a criança longe da ilha.

Inês leu sem voz.

O chão rangeu no corredor.

Davi se virou.

A porta continuava fechada, porém a maçaneta havia sumido do lado de dentro.

No lugar do metal havia madeira lisa, envelhecida, sem furo ou marca de retirada.

Inês se aproximou e tocou a superfície. Procurou parafusos, fresta ou qualquer indício de que o mecanismo tivesse sido escondido.

Nada.

Davi bateu com o ombro contra a porta.

Uma vez.

Duas.

Na terceira, a madeira nem sequer vibrou.

— Afaste-se.

Ele recuou e chutou perto da fechadura.

O impacto ecoou pelo quarto. A porta permaneceu intacta.

O vestido branco deslizou do cabide.

Caiu atrás deles sem vento.

Inês retirou a chave número um do bolso. Tentou encaixá-la onde antes havia uma fechadura.

A ponta encontrou apenas madeira.

— Não há saída.

— Há. Ela só não quer mostrar.

— Essa diferença me conforta muito.

A chave começou a aquecer na mão de Inês.

O ferro, frio desde o saguão, adquiriu temperatura devagar. O calor lembrava um objeto deixado perto de fogão aceso. Havia algo doméstico no processo, uma intenção paciente que piorava o medo.

A bacia transbordou.

A água não caiu de uma vez. O nível subiu até alcançar a borda e continuou crescendo. Escorreu pela cômoda, pingou sobre o piso e avançou em direção à cama.

O quarto recebeu cheiro de alga, ferrugem e matéria enterrada.

Davi puxou Inês pela cintura e a colocou sobre o colchão antes que a água alcançasse os tornozelos.

Ela obedeceu no primeiro impulso e odiou isso.

O braço dele permaneceu ao redor de seu corpo durante um instante. Inês sentiu o calor da mão através do moletom, a respiração dele perto de seu rosto e a força que Davi mantinha contida.

O medo não impediu seu corpo de registrar essas coisas.

Davi percebeu a proximidade e a soltou depressa.

Inês fingiu atenção exclusiva à água.

Ela já cobria o assoalho com dois dedos de altura.

Pegadas surgiram na superfície.

Começavam perto da bacia e avançavam até o armário embutido.

Eram marcas de pés masculinos, grandes, cobertas por lama escura. Uma após a outra, apareciam na água sem que ninguém caminhasse.

Davi ergueu a lanterna.

As pegadas terminaram diante do armário.

A porta abriu com um estalo.

Dentro havia um casaco masculino pendurado num cabide de madeira. O tecido áspero estava coberto por sal seco.

Inês desceu da cama.

A água fria atravessou seus sapatos.

Davi chegou ao armário primeiro. Retirou o casaco e o estendeu sobre o colchão. Examinou os bolsos, a gola e o forro.

Encontrou uma caixa de fósforos da pensão, um botão de madrepérola e uma fotografia dobrada.

No bolso interno havia um tubo fino de metal.

Inês abriu a fotografia.

Celeste aparecia diante do poço, ao lado de Raul. A mãe estava séria. Uma das mãos repousava sobre o ventre ainda plano.

Raul tinha cabelos escuros, barba curta e olhos fundos. Havia algo de Inês no formato do queixo, embora ela desconfiasse da própria vontade de encontrar semelhança.

Atrás dos dois, Úrsula observava da varanda. Vestia vermelho e mantinha a cabeça inclinada para o lado.

Davi abriu o tubo.

Dentro havia um papel enrolado, escrito a lápis.

O poço não guarda tudo.

— O poço foi fechado quando?

— Depois que Úrsula morreu.

— Por quê?

— Segurança, segundo os documentos. A estrutura estava cedendo.

— Seu pai participou?

Davi assentiu.

— Ele e outros dois homens cimentaram a abertura.

— E depois?

— Bebeu durante três dias.

Inês olhou para a foto.

— Há um corpo lá?

Davi devolveu o papel.

— A ilha inteira faz essa pergunta com a boca fechada desde 2004.

A água continuou subindo. Alcançou a lateral da cama e chegou à altura do colchão.

Então parou.

Lá embaixo, o relógio do saguão bateu duas e dezoito.

Ainda era perto de meia-noite.

Cada badalada atravessou a casa e chegou ao quarto através do piso.

A voz rouca veio do armário.

— Raul pediu a coisa errada à mulher errada.

Inês segurou a fotografia.

Davi apontou a lanterna para o fundo vazio.

A voz continuou.

— Celeste fugiu levando uma chave.

O casaco oscilou sobre a cama.

— E deixou outra filha para trás.

Inês sentiu o contorno do quarto se desfazer.

Outra filha.

A ideia ocupou de uma vez todas as partes desconhecidas da vida de Celeste. Entrou nas fugas, nas noites em que a mãe acordava chorando, nas cartas queimadas na pia e na recusa em voltar à ilha.

— Inês.

Davi chamou uma vez.

Ela já estava diante do armário.

— Quem era a outra filha?

Nenhuma voz respondeu.

Uma pancada surda veio debaixo do piso.

Outra.

Depois uma sequência rápida, originada perto da cama.

Davi afastou o tapete encharcado. Uma das tábuas estava solta.

Inês ajoelhou-se ao lado dele. A água atravessou o tecido da calça e gelou seus joelhos.

Davi inseriu os dedos na fresta. A madeira resistiu. Inês segurou a outra ponta.

Juntos, levantaram a tábua.

Dentro do vão havia um embrulho de lona amarrado com barbante apodrecido.

Ao lado dele, uma pulseira infantil estava presa entre duas ripas.

Inês pegou a pulseira.

As contas eram verdes, pequenas, riscadas pelo tempo. Algumas traziam letras brancas.

LIA.

Davi fechou os olhos.

— Você conhece esse nome.

Ele abriu devagar.

— Ouvi quando era criança.

— De quem era?

— Diziam que Úrsula tinha uma sobrinha.

— Diziam?

— Uma menina que ficava na casa durante temporadas. Lia.

Inês segurou a pulseira perto da luz.

— O que aconteceu com ela?

— Desapareceu antes da festa de inverno.

— A polícia investigou?

— O registro diz que viajou com parentes.

— Alguém viu a menina embarcar?

Davi demorou a responder.

— Ninguém.

A chave número um queimou dentro do bolso de Inês.

Ela soltou um gemido curto e retirou o objeto. O metal deixara um círculo vermelho na pele.

Quando a chave tocou a pulseira, a porta voltou a ter maçaneta.

A fechadura reapareceu junto com ela.

A água recuou.

Foi sugada em direção à bacia com rapidez. O nível baixou ao redor dos pés deles, atravessou o quarto e subiu pelas laterais da cômoda em filetes invertidos.

Em poucos segundos, o piso estava seco.

O vestido branco também.

A cama e o casaco não guardavam umidade.

Apenas as barras das roupas de Inês e Davi continuaram molhadas.

Davi abriu a porta.

Os dois saíram quase caindo no corredor.

Ele fechou o quarto número um. A chave girou sozinha do lado de fora, presa à fechadura.

Deu uma volta completa.

Depois se soltou e caiu no chão.

Inês a recolheu usando a manga do casaco.

Do alto da escada, conseguia ver as placas sobre a porta principal.

O número da primeira desapareceu.

A placa continuava no lugar, limpa e inteira. O algarismo havia sido apagado da superfície.

— A casa aceitou a primeira noite.

Davi falou sem tirar os olhos da placa vazia.

— Aceitou apenas a primeira ferida.

Ele não a corrigiu.

Desceram.

O sino permanecia descoberto sobre o balcão.

A poeira havia mudado.

O nome de Inês ainda estava escrito. A frase primeira noite desaparecera.

No lugar dela, letras feitas por um dedo molhado ocupavam a madeira.

O POÇO ANTES DO AMANHECER.

Davi leu e voltou-se para a porta.

— Vamos esperar clarear.

Inês guardou a pulseira de Lia e o diário de Raul.

— Não.

— Você viu o que o quarto fez.

— Vi o que minha mãe escondeu.

— É isso que a casa quer.

— Minha mãe também queria que eu ficasse sete noites.

Davi bloqueou a saída dos fundos.

— Há uma tampa de concreto sobre o poço. Está rachada, e o terreno cede quando chove.

— Então você conhece o caminho.

— Conheço o perigo.

— Ótimo. Pode ir na frente.

Ele permaneceu diante da porta.

Inês segurou o olhar dele.

A decisão podia ser imprudência. Também podia ser herança. A raiva de Celeste ter morrido antes de explicar qualquer coisa queimava mais que a marca deixada pela chave.

Ela pegou a lanterna das mãos de Davi.

— Saia da frente.

Davi ficou parado por mais um segundo.

Depois abriu a porta.

Inês levou a pulseira, o diário de Raul e a chave número um envolta num pano. Davi retirou uma segunda lanterna do armário da recepção.

Seguiu atrás dela.

A chuva havia parado.

O jardim cheirava a terra aberta. Plantas altas roçavam nas pernas de Inês. A luz da lanterna atravessava folhas molhadas, pedras e raízes expostas.

A antiga casa de ferramentas ficava atrás da construção principal. Era baixa, de madeira escura, agachada sob as árvores tortas.

Além dela, o terreno descia alguns metros.

O poço estava coberto por uma tampa de concreto rachada.

Antes que chegassem perto, três batidas vieram de baixo.

Pausa.

Mais três.

Inês parou.

Davi segurou seu braço.

— Não responda.

Uma voz de criança subiu através da rachadura.

Fina, molhada e muito próxima.

— Celeste.

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