O Quarto de Raul
A voz desapareceu antes que Inês conseguisse responder.
O cheiro de maré baixa permaneceu no quarto. A água escura repousava outra vez dentro da bacia, imóvel. O cartão de hospedagem estava preso entre os dedos dela, amassado perto do nome Raul Avelar.
Davi entrou sem pedir licença. Fechou a porta e apontou a lanterna para os cantos.
A luz percorreu o armário, a cama, a cômoda e o vestido branco.
O gesto era inútil. A coisa que falara junto ao ouvido de Inês não precisava ocupar parede.
— Você ouviu?
Davi assentiu.
O olhar dele se fixou na bacia. Havia raiva ali, antiga e contida.
— Saia do quarto.
— Quem falou?
— Saia antes que a porta mude de ideia.
Inês soltou uma risada curta e seca. O som surgiu errado, arrancado pelo excesso de medo.
— A casa também tem humor?
— A casa tem fome de repetição.
Ela colocou o cartão sobre a cama.
— Explique.
— Fora daqui.
Inês se ajoelhou junto à mala masculina.
— Você teve vinte anos para decidir contar. Seu prazo terminou.
Davi deu um passo.
— Não toque em nada.
Ela abriu mais a tampa.
Dentro havia uma camisa branca dobrada, sapatos rachados pelo sal, uma navalha, um pente de tartaruga e três moedas escuras. Um livro pequeno de capa azul estava encaixado sob a camisa.
Tudo parecia antigo. A cama limpa e a ausência de poeira contrariavam o estado dos objetos.
Inês pegou o livro.
Davi fechou a mão em torno da lanterna.
— Inês.
— Fique na porta, se isso ajuda sua coragem.
As primeiras páginas traziam despesas de viagem. Havia nomes de barcos, horários de chegada e valores pagos na pensão. Raul registrara refeições, combustível e pequenas compras feitas na ilha.
A letra mudou depois da metade do volume. Ficou rápida, inclinada, com palavras apertadas nas margens.
Inês leu.
Celeste acredita em mim.
Virou a página.
Úrsula viu a criança na janela.
Na seguinte, encontrou outra anotação.
A sétima chave não deve voltar para a dona.
Inês falou as três frases em voz alta.
Davi apertou a lanterna até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Quem era Úrsula?
O nome trouxe vento para dentro do quarto.
A janela estava fechada. Ainda assim, o vestido branco balançou atrás da porta. A barra tocou a madeira repetidas vezes, produzindo um ruído semelhante ao de unhas.
Davi acompanhou o movimento.
— Úrsula Bastos era a dona da pensão antes de Celeste.
— A mulher de vermelho na fotografia?
Ele olhou para o bolso do moletom de Inês.
— Você encontrou a foto.
— Responda.
— Provavelmente.
— Quem era ela?
— Rica. Viúva. Sem filhos reconhecidos. Morreu poucos meses depois da festa de inverno.
— E deixou a casa para uma funcionária?
— Celeste cuidava dos quartos, dos remédios de Úrsula e dos hóspedes durante as temporadas ruins.
— Uma empregada herda uma propriedade desse tamanho, foge grávida logo depois e ninguém acha estranho?
Davi olhou para o chão.
— A herança foi surpresa pública e escândalo privado.
— Uma maneira elegante de dizer que todos sabiam de alguma coisa.
— A ilha depende de poucas famílias.
— Então decidiram calar.
— Decidiram continuar vivendo.
Inês fechou o diário por um instante.
A história de sua família havia sobrevivido dentro da conveniência alheia. Comerciantes, pescadores, funcionários da igreja e membros da fundação seguiram trabalhando, comprando fiado e frequentando missas enquanto Celeste criava a filha no continente e se recusava a pronunciar o nome da ilha.
A água da bacia se agitou.
Inês se aproximou.
Davi tentou segurá-la, mas parou antes do contato.
Círculos lentos surgiram na superfície. Uma imagem apareceu dentro deles, quebrada pelas ondulações.
Celeste corria pelo corredor do segundo andar. Era jovem, tinha o cabelo solto e levava uma vela na mão.
Raul vinha atrás.
Estava sem camisa. Havia sangue em seu rosto. Ele abria a boca para chamar alguém, embora nenhum som saísse da água.
Uma mulher de vestido vermelho bloqueava a escada.
No fundo do corredor havia outra figura. Pequena. Podia ser uma criança ou uma sombra alongada pela vela.
Inês prendeu a respiração.
A imagem desapareceu quando uma gota caiu do teto dentro da bacia.
Ela olhou para cima.
Não havia infiltração.
Davi empurrou a bacia para longe com cuidado.
— Isso é convite.
— Eu vi minha mãe.
— Você viu o que a casa escolheu mostrar.
— Era uma lembrança.
— Não confie.
— Quantos convites recusou?
Davi manteve a mão junto à borda da cômoda.
— O suficiente para continuar vivo e covarde.
A palavra saiu sem proteção.
Inês preparou uma acusação, porém viu uma cicatriz no pulso dele. A marca subia pela pele e desaparecia sob a manga. Era fina, irregular e antiga.
Ela apontou.
Davi puxou a mão para trás.
— O que aconteceu?
— Eu tinha doze anos na noite da festa de inverno.
Inês esperou.
Ele olhou para a porta antes de continuar.
— Meu pai cuidava dos barcos da pensão. Eu devia ficar na casa de ferramentas enquanto ele trabalhava. Subi para roubar doces da cozinha.
— O que viu?
— Raul Avelar correndo pelo corredor.
Davi passou o polegar sobre a cicatriz.
— Vi Celeste chorando. Ela segurava uma chave na palma. Havia sangue.
— De quem?
— Não sei.
— O que mais?
— Meu pai saiu antes do amanhecer carregando um saco.
Inês sentiu o estômago endurecer.
— Que tipo de saco?
— Grande. Pesado o bastante para ele usar as duas mãos.
— Para onde levou?
— Eu não vi.
— Você contou à polícia?
— Contei a quem quis ouvir.
— Quem ouviu?
— Ninguém.
A resposta veio baixa.
— Quando insisti, meu pai me levou até o poço. Disse que menino curioso podia cair em lugar fundo sem deixar chapéu na borda.
Davi ergueu os olhos.
— A cicatriz é da unha dele.
Inês observou o homem diante dela. Aos doze anos, ele estivera dentro daquela noite. Vira Raul, Celeste e o próprio pai. Crescera na mesma ilha, perto da casa e do poço, guardando uma história que ninguém quis registrar.
A raiva de Inês procurou um culpado simples e não encontrou.
— Raul era meu pai?
A pergunta saiu pequena.
Davi olhou para o cartão de hospedagem.
— Celeste nunca contou.
— Você sabe o que eu perguntei.
— Raul voltou a Santa Dália procurando uma mulher grávida. Está no diário.
Inês abriu o livro outra vez.
As páginas finais haviam sido arrancadas. Restavam dentes de papel junto à lombada.
Na parte interna da contracapa, Raul desenhara a casa. Sete portas estavam marcadas no segundo andar. O poço aparecia atrás da construção. Perto de um cômodo sem número havia uma cruz.
Ao lado dela, uma frase curta.
Se eu não sair, Celeste deve guardar a criança longe da ilha.
Inês leu sem voz.
O chão rangeu no corredor.
Davi se virou.
A porta continuava fechada, porém a maçaneta havia sumido do lado de dentro.
No lugar do metal havia madeira lisa, envelhecida, sem furo ou marca de retirada.
Inês se aproximou e tocou a superfície. Procurou parafusos, fresta ou qualquer indício de que o mecanismo tivesse sido escondido.
Nada.
Davi bateu com o ombro contra a porta.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, a madeira nem sequer vibrou.
— Afaste-se.
Ele recuou e chutou perto da fechadura.
O impacto ecoou pelo quarto. A porta permaneceu intacta.
O vestido branco deslizou do cabide.
Caiu atrás deles sem vento.
Inês retirou a chave número um do bolso. Tentou encaixá-la onde antes havia uma fechadura.
A ponta encontrou apenas madeira.
— Não há saída.
— Há. Ela só não quer mostrar.
— Essa diferença me conforta muito.
A chave começou a aquecer na mão de Inês.
O ferro, frio desde o saguão, adquiriu temperatura devagar. O calor lembrava um objeto deixado perto de fogão aceso. Havia algo doméstico no processo, uma intenção paciente que piorava o medo.
A bacia transbordou.
A água não caiu de uma vez. O nível subiu até alcançar a borda e continuou crescendo. Escorreu pela cômoda, pingou sobre o piso e avançou em direção à cama.
O quarto recebeu cheiro de alga, ferrugem e matéria enterrada.
Davi puxou Inês pela cintura e a colocou sobre o colchão antes que a água alcançasse os tornozelos.
Ela obedeceu no primeiro impulso e odiou isso.
O braço dele permaneceu ao redor de seu corpo durante um instante. Inês sentiu o calor da mão através do moletom, a respiração dele perto de seu rosto e a força que Davi mantinha contida.
O medo não impediu seu corpo de registrar essas coisas.
Davi percebeu a proximidade e a soltou depressa.
Inês fingiu atenção exclusiva à água.
Ela já cobria o assoalho com dois dedos de altura.
Pegadas surgiram na superfície.
Começavam perto da bacia e avançavam até o armário embutido.
Eram marcas de pés masculinos, grandes, cobertas por lama escura. Uma após a outra, apareciam na água sem que ninguém caminhasse.
Davi ergueu a lanterna.
As pegadas terminaram diante do armário.
A porta abriu com um estalo.
Dentro havia um casaco masculino pendurado num cabide de madeira. O tecido áspero estava coberto por sal seco.
Inês desceu da cama.
A água fria atravessou seus sapatos.
Davi chegou ao armário primeiro. Retirou o casaco e o estendeu sobre o colchão. Examinou os bolsos, a gola e o forro.
Encontrou uma caixa de fósforos da pensão, um botão de madrepérola e uma fotografia dobrada.
No bolso interno havia um tubo fino de metal.
Inês abriu a fotografia.
Celeste aparecia diante do poço, ao lado de Raul. A mãe estava séria. Uma das mãos repousava sobre o ventre ainda plano.
Raul tinha cabelos escuros, barba curta e olhos fundos. Havia algo de Inês no formato do queixo, embora ela desconfiasse da própria vontade de encontrar semelhança.
Atrás dos dois, Úrsula observava da varanda. Vestia vermelho e mantinha a cabeça inclinada para o lado.
Davi abriu o tubo.
Dentro havia um papel enrolado, escrito a lápis.
O poço não guarda tudo.
— O poço foi fechado quando?
— Depois que Úrsula morreu.
— Por quê?
— Segurança, segundo os documentos. A estrutura estava cedendo.
— Seu pai participou?
Davi assentiu.
— Ele e outros dois homens cimentaram a abertura.
— E depois?
— Bebeu durante três dias.
Inês olhou para a foto.
— Há um corpo lá?
Davi devolveu o papel.
— A ilha inteira faz essa pergunta com a boca fechada desde 2004.
A água continuou subindo. Alcançou a lateral da cama e chegou à altura do colchão.
Então parou.
Lá embaixo, o relógio do saguão bateu duas e dezoito.
Ainda era perto de meia-noite.
Cada badalada atravessou a casa e chegou ao quarto através do piso.
A voz rouca veio do armário.
— Raul pediu a coisa errada à mulher errada.
Inês segurou a fotografia.
Davi apontou a lanterna para o fundo vazio.
A voz continuou.
— Celeste fugiu levando uma chave.
O casaco oscilou sobre a cama.
— E deixou outra filha para trás.
Inês sentiu o contorno do quarto se desfazer.
Outra filha.
A ideia ocupou de uma vez todas as partes desconhecidas da vida de Celeste. Entrou nas fugas, nas noites em que a mãe acordava chorando, nas cartas queimadas na pia e na recusa em voltar à ilha.
— Inês.
Davi chamou uma vez.
Ela já estava diante do armário.
— Quem era a outra filha?
Nenhuma voz respondeu.
Uma pancada surda veio debaixo do piso.
Outra.
Depois uma sequência rápida, originada perto da cama.
Davi afastou o tapete encharcado. Uma das tábuas estava solta.
Inês ajoelhou-se ao lado dele. A água atravessou o tecido da calça e gelou seus joelhos.
Davi inseriu os dedos na fresta. A madeira resistiu. Inês segurou a outra ponta.
Juntos, levantaram a tábua.
Dentro do vão havia um embrulho de lona amarrado com barbante apodrecido.
Ao lado dele, uma pulseira infantil estava presa entre duas ripas.
Inês pegou a pulseira.
As contas eram verdes, pequenas, riscadas pelo tempo. Algumas traziam letras brancas.
LIA.
Davi fechou os olhos.
— Você conhece esse nome.
Ele abriu devagar.
— Ouvi quando era criança.
— De quem era?
— Diziam que Úrsula tinha uma sobrinha.
— Diziam?
— Uma menina que ficava na casa durante temporadas. Lia.
Inês segurou a pulseira perto da luz.
— O que aconteceu com ela?
— Desapareceu antes da festa de inverno.
— A polícia investigou?
— O registro diz que viajou com parentes.
— Alguém viu a menina embarcar?
Davi demorou a responder.
— Ninguém.
A chave número um queimou dentro do bolso de Inês.
Ela soltou um gemido curto e retirou o objeto. O metal deixara um círculo vermelho na pele.
Quando a chave tocou a pulseira, a porta voltou a ter maçaneta.
A fechadura reapareceu junto com ela.
A água recuou.
Foi sugada em direção à bacia com rapidez. O nível baixou ao redor dos pés deles, atravessou o quarto e subiu pelas laterais da cômoda em filetes invertidos.
Em poucos segundos, o piso estava seco.
O vestido branco também.
A cama e o casaco não guardavam umidade.
Apenas as barras das roupas de Inês e Davi continuaram molhadas.
Davi abriu a porta.
Os dois saíram quase caindo no corredor.
Ele fechou o quarto número um. A chave girou sozinha do lado de fora, presa à fechadura.
Deu uma volta completa.
Depois se soltou e caiu no chão.
Inês a recolheu usando a manga do casaco.
Do alto da escada, conseguia ver as placas sobre a porta principal.
O número da primeira desapareceu.
A placa continuava no lugar, limpa e inteira. O algarismo havia sido apagado da superfície.
— A casa aceitou a primeira noite.
Davi falou sem tirar os olhos da placa vazia.
— Aceitou apenas a primeira ferida.
Ele não a corrigiu.
Desceram.
O sino permanecia descoberto sobre o balcão.
A poeira havia mudado.
O nome de Inês ainda estava escrito. A frase primeira noite desaparecera.
No lugar dela, letras feitas por um dedo molhado ocupavam a madeira.
O POÇO ANTES DO AMANHECER.
Davi leu e voltou-se para a porta.
— Vamos esperar clarear.
Inês guardou a pulseira de Lia e o diário de Raul.
— Não.
— Você viu o que o quarto fez.
— Vi o que minha mãe escondeu.
— É isso que a casa quer.
— Minha mãe também queria que eu ficasse sete noites.
Davi bloqueou a saída dos fundos.
— Há uma tampa de concreto sobre o poço. Está rachada, e o terreno cede quando chove.
— Então você conhece o caminho.
— Conheço o perigo.
— Ótimo. Pode ir na frente.
Ele permaneceu diante da porta.
Inês segurou o olhar dele.
A decisão podia ser imprudência. Também podia ser herança. A raiva de Celeste ter morrido antes de explicar qualquer coisa queimava mais que a marca deixada pela chave.
Ela pegou a lanterna das mãos de Davi.
— Saia da frente.
Davi ficou parado por mais um segundo.
Depois abriu a porta.
Inês levou a pulseira, o diário de Raul e a chave número um envolta num pano. Davi retirou uma segunda lanterna do armário da recepção.
Seguiu atrás dela.
A chuva havia parado.
O jardim cheirava a terra aberta. Plantas altas roçavam nas pernas de Inês. A luz da lanterna atravessava folhas molhadas, pedras e raízes expostas.
A antiga casa de ferramentas ficava atrás da construção principal. Era baixa, de madeira escura, agachada sob as árvores tortas.
Além dela, o terreno descia alguns metros.
O poço estava coberto por uma tampa de concreto rachada.
Antes que chegassem perto, três batidas vieram de baixo.
Pausa.
Mais três.
Inês parou.
Davi segurou seu braço.
— Não responda.
Uma voz de criança subiu através da rachadura.
Fina, molhada e muito próxima.
— Celeste.