A Capela dos Duarte
A fotografia ocupava toda a tela do telefone.
Inês estava diante da porta lateral da igreja, o corpo inclinado para a frente, a bolsa apertada contra o quadril. A definição permitia distinguir a mancha de sangue seca em sua manga, cada fio solto do cabelo e a tensão nos dedos que seguravam o aparelho. Davi aparecia logo atrás, voltado para o padre Ernesto. Mais ao fundo, os habitantes da ilha formavam um semicírculo irregular, quietos diante do homem caído, unidos por uma espécie de acordo que ninguém precisara anunciar.
A imagem fora feita do alto.
Inês levantou os olhos para a Casa das Sete Chaves. A construção dominava a estrada desde a elevação, com as janelas centrais voltadas para a igreja e a praça. A cortina do andar superior permanecia fechada. Nenhuma figura se desenhava atrás dos vidros. Mesmo assim, a certeza de que alguém acompanhara cada movimento grudou em sua pele junto com o sal trazido pelo vento.
Davi estendeu a mão.
— Deixa eu ampliar.
Ela entregou o telefone. Os próprios dedos tremiam, e esconder aquilo já teria sido apenas vaidade.
Davi abriu a imagem com dois movimentos. Examinou a janela de onde a fotografia fora tirada, a bolsa onde Inês guardava o livro de Úrsula e as fotos das crianças, a porta da igreja, as pessoas ao redor do padre. Depois aproximou o canto inferior, quase coberto pela sombra da torre.
Havia uma quinta pessoa ali.
Uma mulher permanecia junto à parede lateral, separada do grupo. Usava vestido escuro e um lenço amarrado sobre os cabelos. O rosto estava erguido para a câmera. A postura transmitia a segurança de quem sabia onde o fotógrafo se encontrava, embora ninguém tivesse visto qualquer pessoa na janela.
Davi parou de ampliar.
— Eu conheço esse lenço.
Inês voltou a olhar a tela.
Nas pontas do pano, mal discerníveis contra o tecido escuro, pequenas flores vermelhas formavam uma sequência bordada.
— De onde?
— As mulheres antigas dos Duarte usavam isso em velório. Minha avó tinha um guardado num baú. Dizia que era pano de fechar morto.
— Fechar?
— Foi a palavra que ela usou. Eu nunca perguntei.
A explicação terminou ali, comprimida pela lembrança da praça.
Inês virou-se depressa, procurando a mulher entre as pessoas que começavam a ir embora. Ninguém usava lenço escuro. Ninguém olhava para o alto da estrada. Homens se afastavam pela lateral da igreja; duas mulheres recolhiam bancos deixados junto à porta; um rapaz lavava o sangue das pedras com um balde de água.
O padre Ernesto fora levado até a farmácia. Saíra apoiado por dois homens, incapaz de fechar a boca, os olhos tão abertos que as pálpebras pareciam ter perdido a função. O sangue continuava a escorrer por seu queixo. Ainda assim, ninguém perguntara o que ocorrera. Ninguém exigira explicação sobre a língua ferida, sobre a imagem recebida, sobre a voz que atravessara a igreja.
A facilidade com que o povoado obedecia ao medo irritou Inês.
Aquela gente sabia. Talvez não soubesse a história completa, os nomes ou as datas, porém reconhecia os sinais e se retirava antes que alguém lhe pedisse coragem.
Ela tomou o telefone de volta, guardou-o e apertou o livro de Úrsula contra o peito.
— A capela fica onde?
Davi apontou para o cemitério atrás da igreja.
— No fundo.
Inês começou a andar.
— Sua mão está sangrando de novo — ele avisou.
— A sua também.
Davi olhou para a gaze enrolada na palma e a acompanhou.
O portão do cemitério estava aberto. As dobradiças soltaram um gemido curto quando Inês o empurrou. O terreno subia em degraus de terra úmida, entre túmulos caiados e cruzes tortas. Algumas sepulturas traziam flores novas; outras tinham placas quebradas, nomes corroídos ou datas que terminavam antes de qualquer pessoa ter tempo de envelhecer. O vento vindo do mar entrava por cima do muro, carregando cheiro de chuva.
A capela dos Duarte ocupava o limite mais alto, separada do restante por grades pretas. Era uma construção estreita, feita de pedra cinzenta, com telhas quebradas e uma porta de ferro marcada por ferrugem. Ramos secos haviam se acumulado junto à soleira. O musgo cobria parte das paredes.
A placa presa acima da porta permanecia limpa.
DUARTE.
As letras de metal refletiam a claridade.
Dinheiro antigo ainda pagava para que nomes mortos não sofressem o desgaste reservado aos demais.
Inês segurou a grade. Estava destrancada.
— A chave da capela não fica com o padre? — perguntou.
— Deveria ficar. Talvez esteja na casa paroquial.
Ela já examinava a fechadura da porta. No centro do metal havia uma cavidade irregular, estreita em uma extremidade e larga na outra.
Davi percebeu no mesmo instante.
A mão enfaixada dele se fechou.
— Inês.
Ela abriu a bolsa.
A quarta chave continuava embrulhada na gaze manchada. O objeto de osso tinha saído da palma de Davi poucas horas antes, deixando uma ferida que parecia antiga demais para ter surgido naquele dia. Inês retirou o pano e segurou a chave pela base.
— A casa quer que a gente entre — ele disse.
— A casa quer muitas coisas.
— Isso não significa que devamos obedecer.
— Também não significa que ela seja dona de todas as portas.
Inês encaixou a chave.
O osso entrou com exatidão. Durante um segundo, nada ocorreu. Depois, algum mecanismo girou dentro da fechadura, produzindo um ruído úmido, semelhante ao movimento de uma língua contra dentes.
Davi apoiou a mão boa na porta.
— Fica atrás de mim.
Inês lançou-lhe um olhar.
— Nem pense.
Ela foi a primeira a empurrar.
O ar da capela saiu pela abertura. Cheirava a pedra fria, rosas secas e cera queimada. A claridade do cemitério avançou apenas alguns passos. O restante permaneceu mergulhado numa penumbra densa.
Davi acendeu a lanterna.
Túmulos de mármore ocupavam as paredes laterais. Sobre eles, sobrenomes Duarte se repetiam em letras douradas. Algumas lápides traziam retratos ovais, rostos duros de homens e mulheres que pareciam ter atravessado a vida sem permitir que ninguém se aproximasse. Havia vasos com flores ressequidas, castiçais vazios e fitas de missas antigas.
Ao fundo, diante de um altar baixo, uma mesa de pedra tomava quase todo o espaço central.
Inês parou.
A largura não combinava com a capela. As laterais haviam sido aparadas para caber entre os túmulos. Na base, marcas de cinzel indicavam que a peça fora retirada de outro lugar e adaptada ali.
Davi apontou a luz para o tampo.
— O altar da igreja antiga.
Ela já compreendera.
A pedra carregava manchas negras nas bordas, escondidas sob camadas de polimento. O incêndio deixara sinais que nem os Duarte tinham conseguido apagar. Sobre o altar havia uma toalha branca dobrada e um castiçal sem vela.
Inês se aproximou.
Passou os dedos pela quina da pedra. A superfície parecia lisa à primeira vista, porém pequenos sulcos atravessavam o mármore. Eram letras riscadas e depois raspadas. Alguns traços ainda formavam curvas, hastes, restos de nomes.
— Segura aqui.
Ela entregou o livro de Úrsula a Davi, puxou a toalha e a abriu sobre o chão. Nenhuma inscrição apareceu sob o tecido.
Davi se ajoelhou e iluminou a parte inferior do altar.
— Tem alguma coisa.
Inês abaixou-se ao lado dele.
Uma fileira de furos havia sido preenchida com cera escura. Cada abertura tinha o tamanho de uma chave pequena. A cera fora alisada até quase se confundir com a pedra, embora pequenas rachaduras denunciassem os pontos exatos.
Inês tomou o livro, folheou até a página na qual padre Ernesto indicara a capela dos Duarte e percorreu as anotações de Úrsula. A letra apertada se acumulava nas margens, intercalada por números e abreviações.
Encontrou uma expressão sublinhada duas vezes.
Mesa de nomes.
Abaixo dela surgiam datas, quantias e iniciais. Algumas entradas traziam idades. Outras mencionavam quartos, barcos ou medicamentos.
Lia estava ali.
Rosa.
Marta.
Elisa.
Catarina.
Inês acompanhou as linhas com o dedo. Outros nomes vinham depois, muitos sem sobrenome. Em certas páginas, Úrsula escrevera apenas um número ao lado da criança. Em outras, registrara valores pagos e letras que poderiam indicar destinos, enfermidades ou pessoas.
A raiva organizou seus pensamentos.
Havia método naquilo. A casa podia se alimentar de aparições, vozes e sangue, porém alguém mantivera registros. Alguém contara moedas, abrira gavetas, atribuíra quartos e reduzira meninas a colunas.
Contabilidade contra contabilidade.
— As chaves — Inês disse.
Davi iluminou os furos.
Ela retirou a primeira chave da bolsa. A peça entrou na abertura mais próxima da borda esquerda. Quando girou, um estalo percorreu o altar.
O chão vibrou sob os joelhos dos dois.
O segundo furo aceitou a chave de latão.
Outro estalo.
A terceira chave, de cobre, girou com maior resistência. A pedra soltou um ruído grave, e as paredes pareceram se aproximar. Poeira caiu das vigas. Uma das placas de mármore gemeu dentro da parede.
Inês inseriu a quarta chave.
O osso desapareceu quase por inteiro na abertura.
Ao girá-lo, ela sentiu a capela descer.
Não houve queda brusca. O movimento foi lento, poucos centímetros, porém suficiente para que o estômago se contraísse. A porta de ferro ficou mais alta em relação ao chão. Os túmulos rangeram em suas bases.
Davi manteve a lanterna apontada para a pedra.
O suor escorria pela testa dele.
— Você está bem?
Ele respirou antes de responder.
— Não.
A honestidade a fez erguer a cabeça.
— O que está sentindo?
— A chave.
— Ela está no altar.
— Eu sei onde ela está.
Ele levantou a mão enfaixada.
— Também está aqui.
Inês largou o livro sobre a toalha e segurou o pulso dele. Davi não resistiu. A gaze estava úmida no centro. Ela desfez o nó e abriu o curativo camada por camada.
A ferida não apresentava inchaço. Não havia pus, calor ou vermelhidão. Quatro riscos limpos atravessavam a palma, paralelos, fundos o bastante para terem exigido pontos em qualquer hospital. As bordas, porém, pareciam cicatrizadas havia anos.
Davi moveu os dedos.
— Está raspando por dentro.
Inês tocou a pele ao redor.
— Dói aqui?
— Em toda a mão.
— Piora quando as chaves giram?
— Sim.
Ela refez a faixa devagar, protegendo cada sulco antes de apertar o nó. Seus dedos demoraram um instante além do indispensável. Davi acompanhou o gesto, sem comentário.
Quando Inês terminou, uma sombra atravessou o altar.
A pedra situada entre os quatro furos afundou. O mármore se abriu num desenho oval. Pequenos relevos surgiram ao redor da cavidade.
Dentes.
A quinta fechadura parecia uma boca entalhada, estreita e funda.
Davi recuou.
Uma risada veio detrás do altar.
Inês girou a lanterna.
A mulher do lenço estava sentada sobre um túmulo lateral.
Os pés não alcançavam o chão. As mãos descansavam cruzadas no colo. Usava vestido de luto, fechado até o pescoço, e o pano escuro com flores vermelhas bordadas nas pontas. A pele fina deixava à mostra veias azuladas. Os olhos, vivos demais para o rosto envelhecido, percorriam Inês com uma curiosidade sem pressa. A boca fora pintada de vermelho profundo.
Ela não tinha a aparência esbranquiçada das figuras que Inês vira na casa. Parecia apenas uma velha cansada de esperar.
— A testa é de Celeste — disse. — O orgulho veio de Raul. E veio errado.
Inês ergueu a lanterna.
— Quem é você?
A mulher inclinou a cabeça.
— Já me chamaram de Dona Adelaide Duarte. Irmã de Úrsula. Tia de ninguém. Guardiã desta capela.
— E o que mais?
Adelaide sorriu.
— Menti em todos os velórios que precisaram de corpo fechado sem corpo dentro.
Davi levantou a lanterna dele, direcionando o facho para o túmulo. A luz atravessou Adelaide e bateu na parede. O retrato de um Duarte apareceu por trás do peito dela.
Adelaide abriu mais o sorriso.
— O menino ainda tenta entender tudo pela luz.
Davi ficou rígido.
— Você me conhece?
— Eu conhecia seu pai antes de ele aprender a esconder dinheiro na sola da bota. Amaro tinha medo de Úrsula, desejo de dinheiro e talento para carregar o que ninguém queria tocar.
Ela descruzou as mãos.
— Você chorava atrás da sacristia quando ele voltava de madrugada. Apertava os joelhos contra o peito e esperava o cheiro de terra sair da roupa dele.
O rosto de Davi perdeu cor.
Inês avançou um passo e ficou entre os dois.
— Qual era o nome verdadeiro de Celeste?
Adelaide desviou os olhos para a boca de mármore.
— Celeste foi um nome de fuga. Uma mulher que quer desaparecer corta o próprio nome até caber numa mala.
Inês segurou a borda do altar.
— O nome inteiro.
— Maria Celeste da Conceição.
O sobrenome atingiu primeiro.
Inês pensou em Lia da Conceição. Depois se lembrou de Clara, a lavadeira mencionada nos registros, da criança nascida na pensão, da mulher morta após o parto.
Adelaide continuou:
— Maria Celeste era a irmã mais nova de Clara da Conceição. Clara deu à luz Lia.
Davi olhou para Inês.
Ela demorou a conseguir respirar.
Lia não era sua irmã.
Era filha da irmã de sua mãe.
Sua prima pelo nome comum que as famílias usavam. Sua sobrinha dentro da relação que Celeste assumira ao tentar protegê-la. Uma criança carregada através dos anos por uma mulher que nunca conseguira dizer tudo à própria filha.
As provas encontradas até ali se reorganizaram.
Celeste não voltara por uma menina desconhecida. Não se arriscara por simples remorso diante do sofrimento de outra pessoa. Lia era o que restara de Clara. Sangue da família, memória de uma irmã morta, culpa mantida viva atrás das portas dos Duarte.
— Clara morreu aqui? — Inês perguntou.
— Morreu no quarto sem número. Sangrou durante três dias.
Adelaide olhou para as próprias mãos.
— Úrsula mandou escrever febre no registro. Febre não exige pergunta. Sangue exige.
— E Celeste?
— Viu o lençol sair. Viu Lia ficar. Aprendeu cedo que esta casa jamais guardou órfãs.
A velha ergueu os olhos.
— Guardava propriedade.
O nojo com que pronunciou a palavra parecia ter atravessado décadas até finalmente encontrar saída.
— Úrsula tomou Lia sob a desculpa de proteção — Inês disse.
— Úrsula tomava aquilo que podia registrar.
— Raul descobriu?
— Descobriu Lia. Descobriu Clara. Descobriu coisas demais porque amava Celeste e porque homem apaixonado costuma imaginar que a coragem chega junto. Às vezes chega. Às vezes sobra apenas sangue na boca.
Inês pensou na assinatura riscada de Raul, nos papéis incompletos, nos rastros de luta espalhados pela história da mãe. O que fora amor e o que fora risco já se misturara a ponto de qualquer resposta simples servir apenas aos mortos que preferiam versões limpas.
— Por que está contando agora?
Adelaide dirigiu o rosto para a porta da capela.
Do lado de fora, o cemitério parecia vazio. Acima dos muros, a Casa das Sete Chaves permanecia no alto, escura contra o céu cinzento.
— Úrsula nunca morreu direito. Algumas pessoas apodrecem por dentro antes do corpo e depois encontram um lugar para continuar mandando.
A boca de Adelaide se contraiu.
— Enquanto os nomes estiverem presos nesta pedra, a casa pode chamar as meninas por apelido, número e quarto. Pode puxá-las pela parte que roubou. Se você levar o livro e abrir as sete fechaduras, os nomes saem do altar. A casa perde alimento.
Davi se recuperou o bastante para perguntar:
— Por que você não abriu?
Adelaide soltou outra risada, sem alegria.
— Morto arrependido descobre tarde que remorso não gira chave. É preciso sangue de quem foi roubada e sangue de quem ajudou a roubar.
Inês olhou para a mão enfaixada de Davi.
A chave de osso viera dele.
A quinta fechadura esperava por ela.
A boca no mármore se abriu um pouco mais. Dentro da cavidade havia uma escuridão vermelha e úmida.
A mensagem recebida antes da igreja voltou à memória de Inês.
A quinta conhece o nome da sua mãe.
Ela se aproximou.
Davi segurou seu pulso com a mão boa.
— Não.
A palavra saiu baixa e firme.
Inês olhou para os dedos dele em torno de seu braço. Poderia ter puxado o pulso, transformado o gesto em disputa, acusado Davi de querer decidir por ela. Seria fácil. Também seria desonesto.
O medo no rosto dele não dizia respeito à própria ferida.
— Preciso fazer isso.
— Eu preciso não gostar.
A resposta a atingiu de modo inesperado.
Por um segundo, Inês quase sorriu. A ideia de sorrir naquela capela era absurda, e a vontade desapareceu antes de chegar à boca.
— Eu também não gosto.
Davi afrouxou os dedos.
Inês empurrou a mão para dentro da abertura antes que o cuidado dele se transformasse em impedimento.
A dor veio de imediato.
Dentes pequenos atravessaram a lateral da mão, perfurando pele e carne. Inês tentou conter o grito e falhou. O corpo dobrou. Davi a segurou pela cintura, impedindo que ela batesse o rosto no altar.
As paredes se encheram de vozes infantis.
Elas vinham dos túmulos, da pedra, do piso e das frestas entre as telhas. Chamavam nomes em tons baixos, umas depressa, outras arrastando sílabas esquecidas.
Lia.
Rosa.
Marta.
Elisa.
Catarina.
Muitos outros surgiram. Dezenas. Alguns repetidos. Outros incompletos. Nomes tão fracos que chegavam apenas pela primeira letra. Nomes ditos por crianças que talvez nunca os tivessem ouvido pronunciados com ternura.
O sangue de Inês escorreu pelo mármore.
Adelaide desceu do túmulo sem dobrar as pernas. Seu corpo apenas mudou de altura até os pés tocarem o chão.
— Diga o nome da sua mãe inteiro.
Inês tremia. O braço parecia preso até o osso. Davi mantinha um braço em torno de sua cintura e a mão livre apoiada no ombro dela.
— Maria Celeste da Conceição Avelar.
A boca a soltou.
Inês arrancou a mão e caiu contra Davi. Entre seus dedos havia um objeto fino, coberto de sangue.
Uma chave de prata escurecida.
O número cinco fora gravado no metal com letras tortas, infantis, cada traço aberto fundo demais.
O altar se moveu.
Duas placas de pedra deslizaram para lados opostos. O mecanismo operou sem estrondo, acompanhado apenas pelo arrastar do mármore. No interior surgiu uma gaveta rasa, revestida por pano encerado.
A mão de Inês pulsava. Os dedos recusavam movimento.
Davi a ajudou a sentar no chão e abriu a gaveta.
Dentro havia cadernos pequenos, certidões de batismo, pedaços de cartas dobrados muitas vezes, laços de cabelo, medalhas religiosas e fotografias amareladas. Uma lista extensa ocupava a parte superior do conjunto. Adelaide escrevera com letra disciplinada, alinhando cada informação em colunas.
Nomes das meninas da casa.
Inês puxou o papel com a mão boa.
Ao lado de cada nome apareciam origem, idade, quarto, destino provável e adulto responsável. Úrsula estava registrada em quase todas as linhas. Padre Ernesto surgia em muitas. Amaro aparecia várias vezes. Doutor Silveira ocupava outras entradas.
Também havia nomes que Inês reconhecera na praça.
Homens e mulheres que ainda viviam na ilha, alguns já velhos, outros filhos de pessoas citadas nos cadernos. Famílias inteiras tinham recebido casas, barcos, terrenos ou empregos enquanto meninas perdiam nomes atrás das portas.
Herdeiros de uma cumplicidade que aprendera a se chamar tradição.
Inês tentou juntar tudo.
A mão ferida derramou sangue sobre a toalha.
Davi segurou seu pulso.
— Para.
— Precisamos levar.
— Vamos levar. Primeiro eu amarro isso.
Ele puxou a própria camisa pela cabeça e rasgou uma faixa larga do tecido. Inês não discutiu. O quarto girava devagar, e a pedra sob ela parecia inclinada.
Davi limpou o sangue ao redor da mordida e pressionou o pano contra a ferida. Seus movimentos eram firmes, aprendidos em trabalho e acidentes, sem delicadeza ornamental. Ainda assim, evitava tocar a pele além do necessário. Só depois de terminar o nó os dedos dele começaram a tremer.
Inês observou.
— Você está pior que eu.
— Isso é mentira.
— É uma mentira útil.
— Continua sendo mentira.
Ela apoiou a mão ferida contra o peito.
Adelaide assistia do outro lado do altar aberto.
— A quinta chave não abre quarto na casa — disse.
Inês ergueu o rosto.
— O que abre?
Adelaide apontou para o canto mais escuro da capela.
Ali havia um túmulo baixo, quase escondido atrás de flores secas. Nenhum nome fora gravado na placa.
— Sepultura.
— De quem?
— Clara da Conceição.
Inês olhou para o mármore sem inscrição.
— Por que ela está aqui?
— Porque Úrsula decidia quem merecia chão sagrado. Lia passou anos deixando bonecas perto da grade. Ninguém contou onde a mãe dormia.
Davi procurou ao redor e encontrou uma barra de ferro atrás da porta. Encaixou a ponta sob a placa.
— Eu ajudo — Inês disse.
— Você mal consegue fechar os dedos.
— Ainda tenho outra mão.
— Segura os papéis.
Ele não disse que faria por ela. Pediu que ela protegesse o que tinham encontrado.
Inês aceitou.
Davi forçou a barra. A placa resistiu. O metal raspou contra a pedra, soltando faíscas pequenas. Ele mudou o ponto de apoio, apoiou o pé na base e tentou de novo.
O mármore se levantou alguns centímetros.
Um ar gelado saiu da abertura.
Davi continuou até conseguir empurrar a placa para o lado.
Não havia caixão inteiro.
O interior guardava ossos pequenos demais para uma mulher adulta e, ao lado deles, ossos maiores. Os restos tinham sido misturados sem cuidado. Fragmentos de tecido apodrecido permaneciam presos entre costelas e vértebras.
Adelaide fechou os olhos.
— Úrsula mandou juntar Clara e outra criança. Disse que não valia gastar duas covas em gente sem família.
Inês sentiu a bile subir.
Davi deu um passo para trás. A barra escapou de seus dedos e bateu no chão.
No fundo do túmulo, perto de uma medalha corroída, havia uma etiqueta de pano. A tinta desbotara, porém o nome ainda podia ser lido.
Lia.
Inês se ajoelhou.
A casa mentira sobre o poço.
Talvez o poço guardasse alguma coisa que Lia deixara cair antes de ser levada à capela. Talvez tivesse guardado água, uma boneca ou a memória de um terror. O corpo da menina, ou parte dele, estava ali.
Lia não permanecera presa por falta de sepultura.
Seu nome fora dividido.
Uma parte no túmulo. Outra no quarto. Outra no altar. Talvez outras parcelas existissem nos registros, no poço e dentro da própria casa. Úrsula espalhara a identidade da menina até tornar impossível chamá-la inteira.
A capela tremeu.
As grades bateram do lado de fora. O telhado estalou. Uma rachadura desceu pela parede atrás de Adelaide.
— Peguem a etiqueta — ela gritou. — Peguem os cadernos!
Davi abriu a caixa de Raul e começou a colocar os documentos dentro. Certidões, cartas, fotografias, medalhas e a lista desapareceram sob a tampa.
Inês se inclinou sobre o túmulo.
Com dois dedos da mão boa, retirou a etiqueta de Lia. O tecido estava gelado e úmido. No instante em que deixou os ossos, um sopro saiu da cova e apagou a lanterna.
A escuridão durou menos de um segundo.
Quando a luz voltou, Adelaide estava diante da porta.
Uma sombra vermelha tentava entrar.
Úrsula não mostrava o rosto inteiro. Havia apenas o vestido, duas mãos pálidas e uma boca escura flutuando onde a cabeça deveria estar. Seus dedos se prendiam às laterais da porta. Adelaide mantinha os braços abertos, bloqueando a entrada.
A força do choque fez a pedra ranger.
— A sexta chave está onde Celeste perdeu o próprio nome! — Adelaide gritou.
Úrsula empurrou.
O corpo de Adelaide dobrou para trás, embora os pés continuassem fixos no chão.
A porta da capela se abriu de repente.
O vento atingiu Inês e Davi pelas costas. Os dois foram lançados para fora junto com a caixa, o livro, a etiqueta e a chave.
Inês caiu sobre a grama molhada.
O impacto roubou o ar de seus pulmões. Ficou deitada, olhando o céu branco, tentando inspirar enquanto o cemitério girava ao redor. O braço ferido estava colado ao peito. A chave de prata pressionava sua pele através do vestido.
Davi se ajoelhou ao lado dela.
— Inês.
Ele reforçou a compressa em sua mão.
— Inês, olha para mim.
A voz atravessou o barulho das grades e da porta que batia. Ela virou o rosto.
— Estou aqui.
— Você está perdendo sangue.
Inês quis dizer que estava bem. A mentira não encontrou força para sair.
— Eu tenho o nome da minha mãe.
Davi baixou a cabeça.
Por um instante, encostou a testa na mão enfaixada dela. O gesto foi breve e imprudente, próximo de uma oração feita por alguém que não sabia rezar.
Inês permitiu.
Quando ele se afastou, a quinta chave repousava sobre o peito dela. O sangue desaparecera do metal. A ponta estava voltada para a estrada que levava à pensão.
O telefone vibrou dentro do bolso.
Davi a ajudou a sentar. Inês puxou o aparelho com a mão boa.
Nenhuma fotografia havia sido enviada dessa vez.
Apenas uma frase.
A sexta está no quarto onde Celeste disse sim.
Ela mostrou a tela a Davi.
O rosto dele mudou antes que Inês terminasse de ler.
— Você sabe onde é.
— Existe uma sala atrás da cozinha da pensão. Pequena. Era usada para contratos, acordos e registros de empregados.
— Por que nunca vi?
— A porta parece parte do armário.
— Nome da sala?
Davi hesitou.
— Sala das assinaturas.
Inês ficou de pé com dificuldade. O sangue perdido tornava o terreno instável. Ela apertou a caixa contra o corpo, recusando-se a deixá-la.
— Foi lá que Celeste assinou?
— Recebeu o sobrenome Avelar ali. Assinou o casamento com Raul.
Davi recolheu o livro de Úrsula.
— Também existe um boato antigo. Dizem que ela assinou uma renúncia sobre Lia.
Inês olhou para a pensão.
A mão latejava. A cabeça rodava. Entre os túmulos, ninguém aparecera para ajudá-los. A ilha observava de dentro das casas, das janelas e dos hábitos aprendidos.
No alto da estrada, uma cortina se moveu.
A mulher de vermelho apareceu na janela central da Casa das Sete Chaves. Ficou ali por um instante, olhando para o cemitério.
Depois fechou a cortina.
O gesto tinha a impaciência de uma anfitriã que preparava a mesa para a noite seguinte.