A Sacristia A Casa das Sete Chaves · Capítulo 6 de 10
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A Sacristia

A igreja ficava abaixo da Casa das Sete Chaves, perto do cemitério.

Suas paredes caiadas tinham manchas de chuva junto ao chão. O telhado baixo era coberto por telhas antigas, e a torre estreita se erguia apenas alguns metros acima da nave. Vista da estrada, parecia pequena demais para sustentar o sino ouvido na falésia.

Inês desceu carregando o livro de Úrsula dentro da bolsa. As fotografias, a certidão e o frasco estavam separados em envelopes improvisados. Davi levava a caixa de Raul nos braços. O bilhete permanecia dobrado no bolso do casaco dela.

A cada curva, a casa desaparecia atrás das árvores e surgia outra vez entre os troncos. A fachada branca se mantinha imóvel. As janelas altas refletiam o céu.

A bandeja de café ficara na varanda. Formigas mortas formavam um círculo ao redor do açúcar derramado.

Davi caminhava um pouco atrás. Mantinha a mão perto da caixa de Raul, protegendo-a contra os solavancos da descida.

— Aquilo foi um aviso — disse ele.

Inês desviou de uma poça.

— Aviso só funciona enquanto a pessoa avisada finge ter opção.

Ele não discutiu.

Desde o quarto vermelho, Davi carregava a culpa do pai de forma mais exposta. Havia também uma vontade de permanecer ao lado dela, perigosa pela facilidade com que poderia ser confundida com reparação. Inês recusava essa troca. Amaro não seria absolvido pelo filho. Davi não ganharia acesso a ela por suportar alguns degraus assombrados.

A praça diante da igreja estava quase vazia.

Duas mulheres conversavam perto da farmácia. Um menino empurrava uma bicicleta sem corrente. Um pescador atravessava a rua com um balde cheio de gelo e pequenos peixes prateados.

Todos olharam para Inês e Davi.

Os olhares duraram pouco demais para cortesia e tempo demais para acaso.

A notícia já circulava. A mulher de Celeste subira à casa, passara a noite e descera viva. Talvez alguém soubesse da caverna. Talvez soubesse do livro.

Inês apertou a bolsa contra o corpo.

Davi percebeu e se aproximou meio passo. Não tocou nela. Inês manteve o ritmo.

A porta da igreja estava aberta.

A nave cheirava a vela, madeira encerada e flores envelhecidas. Pequenas imagens ocupavam nichos nas paredes. O altar tinha toalha branca e dois arranjos de crisântemos amarelados.

Padre Ernesto rezava sozinho.

Estava sentado numa cadeira diante do altar, curvado sobre as mãos. A batina cinza pendia larga no corpo magro. Um de seus olhos permanecia opaco, voltado para baixo. O outro acompanhou Inês desde o primeiro passo.

— Inês Avelar — disse ele.

Ela parou no corredor central.

Davi fechou a porta atrás deles.

— Minha mãe usava Sampaio fora da ilha.

— Celeste mudava o nome conforme precisava respirar.

A voz do padre era baixa, educada, treinada em décadas de velórios.

— Você pisa igual a ela. Firme no calcanhar. Pronta para ir embora antes de sentar.

Inês caminhou até o primeiro banco.

— O senhor também reconhece o som de gente sendo levada da casa?

Davi soltou o ar pelo nariz.

O padre virou o rosto na direção dele.

— Filho de Amaro deve evitar surpresa moral.

Davi ficou imóvel.

Inês sentiu raiva da facilidade com que o velho encontrava feridas alheias. Retirou o livro de Úrsula da bolsa e o colocou sobre o banco.

O padre não se mexeu. Seu olho bom desceu depressa até a capa preta. A mão direita começou a tremer.

Inês abriu na página marcada pela fita vermelha.

— Jantar das sete chaves.

O olho opaco permaneceu baixo. O outro se fechou por um instante.

Ela leu a linha.

— Padre Ernesto depois da missa.

O velho abriu um sorriso cansado.

— Missa termina. Pecado permanece. Gente sem fé costuma confundir testemunha com mandante.

— Testemunha que deixa criança trancada escolhe lado.

Ernesto ergueu a mão. O gesto podia pedir calma ou oferecer bênção. Inês não aceitou nenhuma das duas possibilidades.

Davi avançou um passo.

— O que aconteceu com Lia?

O padre apoiou as mãos nos joelhos.

— Úrsula ajudava esta igreja. Pagava remédios. Comprava comida para famílias de pescadores. Enterrava os pobres sem cobrar das viúvas.

— E em troca recebia crianças? — perguntou Inês.

— Todos sabiam que havia quartos fechados. Havia remédios demais. Hóspedes saíam antes do amanhecer. Saber sem prova, nesta ilha, servia para perder paróquia, barco, emprego e túmulo.

Inês olhou para as imagens nas paredes.

— Então transformaram medo em administração.

O padre baixou a cabeça.

— É fácil julgar depois.

— A facilidade estava em continuar almoçando enquanto meninas desapareciam.

Ernesto apertou os joelhos.

— Celeste veio aqui na noite da festa.

Inês não respondeu.

— Trazia Lia pela mão. Havia sangue no avental. Pediu abrigo. Pediu que eu chamasse a polícia do continente. Queria que Raul fosse retirado da casa antes que Úrsula fechasse as chaves.

— O senhor fez o quê?

— Abri a sacristia. Escondi a menina. Saí para buscar ajuda.

— De quem?

— Do delegado.

— Na ilha?

— Ele estava na festa da prefeitura, perto do porto.

Inês se inclinou um pouco.

— Quanto tempo levou?

— Uma hora. Talvez menos.

— E voltou sozinho?

O padre engoliu.

— O delegado recusou. Disse que não pisaria na casa de Úrsula sem ordem do continente.

— Lia ainda estava aqui?

— Não.

— Celeste?

— Também não.

O velho apontou para a porta lateral junto à imagem de Santa Luzia.

— No altar havia uma vela vermelha. A chave da sacristia estava enterrada no miolo de uma maçã.

Inês fechou os olhos durante um segundo.

A narrativa de Ernesto tentava equilibrar covardia e remorso. Nenhuma parte alcançava absolvição.

— Onde Lia foi vista pela última vez? — perguntou Davi.

O padre indicou a mesma porta.

— Entrou ali chorando. Depois a porta saiu do lugar.

Inês pegou o livro de Úrsula.

A sacristia era estreita. Um armário guardava vestes litúrgicas. Havia uma pia pequena, gavetas de madeira, livros de registro e uma janela alta com vidro fosco. O piso estava limpo demais junto ao armário.

Inês entrou primeiro.

A temperatura caiu quando sua bota tocou o cômodo.

Davi fechou a porta da nave. Padre Ernesto permaneceu na entrada, apoiado na bengala.

Inês abriu gavetas. Encontrou velas, linhas, agulhas, envelopes e recibos recentes. Passou a mão pela parede atrás do armário. A tinta tinha cor diferente junto ao rodapé.

— Ajude a mover — disse ela.

Davi deixou a caixa de Raul sobre uma cadeira e segurou a lateral do móvel. Inês tomou o outro lado.

Empurraram.

Os pés do armário arrastaram no piso, revelando riscos antigos. Atrás dele surgiu uma porta baixa feita de madeira escura. Não havia maçaneta nem fechadura.

No centro aparecia uma cavidade oval, úmida, com o tamanho de uma palma.

Padre Ernesto começou a rezar.

Inês se virou.

— Onde está a quarta chave?

O velho apertou a bengala.

— Úrsula disse a verdade naquela manhã.

— Qual verdade?

— A quarta chave escolheria carne quando alguém tirasse o livro do quarto vermelho.

Inês olhou para a porta.

Depois para o livro dentro da bolsa.

Entendeu tarde.

Davi já encarava a própria mão.

Uma linha surgiu no centro da palma direita. A pele abriu sem contato de lâmina. O sangue apareceu devagar, grosso e escuro.

Davi apoiou o ombro na parede. A mandíbula travou. Ele não gritou.

Inês segurou o pulso dele.

— Sente os dedos?

— Sinto.

— Formigamento?

— Ainda não.

Ela abriu a bolsa e retirou gaze.

Sob a pele, algo rígido se movia. Uma forma estreita pressionava de dentro para fora, desenhando contorno junto aos tendões.

Padre Ernesto virou o rosto.

— Olhe — ordenou Inês.

O velho continuou voltado para a nave.

— Olhe para ele. O senhor não ganha o direito de fechar o olho bom agora.

Ernesto obedeceu.

Davi soltou uma risada curta, sem alegria.

— A casa encontrou utilidade para sangue Ferraz.

Inês apertou o pulso dele com mais força. Buscava controlar o sangramento. Ao menos era essa a razão que repetia para si.

O objeto avançou.

A pele se abriu mais. Davi fechou a mão por reflexo e gemeu entre os dentes.

— Não dobre os dedos — disse Inês. — Deixe a palma aberta.

— Fácil para você.

— Faça.

Ele encostou a cabeça na parede e abriu a mão.

A ponta da chave rompeu a pele.

Inês envolveu-a com gaze e puxou devagar. O metal, ou material semelhante, deslizou entre sangue e tecido ferido. O som foi pequeno. Davi perdeu a cor do rosto.

A quarta chave caiu na gaze.

Parecia feita de osso escurecido. Tinha superfície lisa, quente, com quatro riscos gravados perto da base.

Inês deixou a chave sobre uma bandeja e comprimiu a mão de Davi. Enrolou gaze ao redor da palma e do punho.

— Mexa os dedos.

Ele obedeceu.

— Dor?

— Muita.

— Consegue sentir isto?

Ela tocou cada ponta.

— Sim.

Padre Ernesto murmurou:

— Amaro devia isso à casa.

Inês se virou com tanta rapidez que a cadeira junto à parede rangeu.

— Davi não pagará dívida do pai para aliviar consciência de padre.

O velho abaixou a cabeça.

Ela queria continuar. Encontrava dezenas de palavras capazes de feri-lo. A porta escondida começou a bater por dentro.

Três golpes fracos.

Depois mais três.

Uma voz infantil chamou:

— Celeste.

A chave de osso pulsou dentro da gaze.

Davi tentou levantar a mão ferida.

— A cavidade aceita uma palma.

Ele aproximou os dedos da madeira.

Inês segurou seu braço.

— Já tiraram uma chave da sua carne. A casa não recebe autorização para pedir mais.

— Talvez seja o único jeito.

— Não será.

Ela pegou a chave com a gaze e a aproximou do centro da cavidade.

A madeira absorveu o sangue preso no tecido. O oval escureceu. Uma fenda vertical surgiu e se abriu ao longo da porta.

O cheiro vindo de dentro lembrava quarto fechado e incenso apagado.

Atrás da madeira havia uma escada de pedra descendo sob a igreja.

Padre Ernesto inclinou o corpo para enxergar.

— Isso não existe no projeto.

Davi ergueu a mão ilesa.

— Quantas coisas nesta ilha não existem no papel?

O velho não respondeu.

Inês pegou a lanterna. Apertou o botão.

A luz acendeu. Era fraca e amarela, suficiente para revelar os primeiros degraus.

— Fique aqui — disse Ernesto.

— O senhor vem conosco — respondeu Inês.

— Minhas pernas não permitem.

— Permitiram que saísse em busca do delegado.

— Eu era jovem.

— Lia também.

Davi tomou a bengala do padre, entregou-a na mão esquerda dele e segurou seu braço direito.

— Desça.

Inês foi primeiro.

A escada tinha oito degraus irregulares. A pedra estava úmida. No quarto degrau, ela encontrou uma pequena mancha escura, antiga, presa ao canto. Passou a lanterna e viu restos de cera vermelha.

A sala subterrânea tinha teto baixo e chão de terra batida. As paredes eram feitas de blocos de pedra. Caixas de velas ocupavam um lado. Imagens quebradas estavam empilhadas contra o outro. Livros embolorados formavam montes junto à escada.

Um berço de madeira ficava no canto.

Inês caminhou até ele.

Dentro havia uma manta infantil endurecida pelo tempo, uma colher de prata e um papel preso por fita marrom.

Ela retirou o bilhete.

A letra era de Celeste.

Lia dormiu aqui.

Se eu morrer antes de voltar, que Deus aprenda a ler o que seus padres recusaram.

Padre Ernesto sentou no último degrau.

Lágrimas correram pelo lado saudável do rosto. Inês não sentiu pena. O cômodo ainda guardava respostas, e compaixão exigiria um intervalo que eles não tinham.

Davi abriu uma caixa de registros.

— Inês.

Ela se aproximou.

Os livros traziam nascimentos, batismos e óbitos. Alguns tinham carimbo. Outros continham páginas inseridas depois da encadernação.

Davi encontrou Lia em dois registros.

O primeiro indicava batismo sem pai declarado.

O segundo registrava guarda provisória assinada por Úrsula, descrita como madrinha responsável. Não havia autorização materna.

A mãe surgia apenas como alguém que logo partiria.

Celeste assinara como testemunha. O traço estava tremido.

Inês virou a folha.

No verso havia uma anotação de Raul.

Lia nascera de Clara da Conceição, lavadeira da pensão. Clara morrera meses depois, vítima de febre mal explicada. Úrsula assumira a menina sem concluir adoção formal.

— Ela ficou com a criança, mas não deu o próprio nome — disse Inês.

Davi passou a mão ilesa pelo papel.

— Assim ninguém podia rastrear.

— E ninguém da família de Clara teria documento para reclamar.

Inês voltou às páginas anteriores. Encontrou pagamentos associados à guarda. Doações da casa para a igreja apareciam nos mesmos meses.

A história se afastava do romance secreto de Celeste e Raul. Entrava numa estrutura maior.

Lia talvez não tivesse laço de sangue com Raul. Podia ter sido a primeira menina que Celeste tentou salvar. A gravidez, o casamento, a fuga e o testamento vieram depois, ligados a uma casa que aprisionava mulheres em funções e crianças em quartos.

Davi lia ao lado dela.

— Meu pai não escondeu só Raul.

Inês fechou o livro.

— Ajudou a manter uma rede.

— Barco, poço, caverna, recados.

— Dinheiro, igreja e remédio.

Padre Ernesto repetia, sentado na escada:

— Eu era jovem.

Davi olhou para ele.

— Lia era mais.

Um ruído veio do berço.

A manta se moveu.

O tecido levantou no centro, formando o volume de uma criança deitada. Inês recuou um passo.

Davi entrou diante dela por instinto.

Ela lançou um olhar duro.

— Luz.

Ele entendeu e ergueu a lanterna.

A manta caiu.

O berço estava vazio.

No fundo surgiu uma caixa de hóstias antiga. Um lacre vermelho prendia a tampa.

A quarta chave vibrou na mão de Inês.

Antes que ela tocasse o lacre, a caixa abriu.

Havia fotografias de crianças.

Inês retirou a primeira. Lia estava diante da Casa das Sete Chaves, os braços ao lado do corpo, o rosto sério. Na imagem seguinte, outra menina ocupava o mesmo lugar. Depois outra.

As idades variavam. As roupas mudavam. A casa permanecia ao fundo.

Algumas fotos tinham nomes.

Rosa.

Marta.

Elisa.

Catarina.

Outras traziam apenas números.

Inês sentiu a garganta arder.

O terror deixava de caber num quarto. Tornava-se arquivo.

— Quem eram elas? — perguntou.

Padre Ernesto cobriu o rosto com as mãos.

— Úrsula chamava de protegidas.

— Protegidas de quem?

— Famílias pobres. Mães doentes. Parentes distantes. Empregadas sem força para reclamar.

— A igreja recebia dinheiro.

O padre assentiu.

— A prefeitura também?

— Recebia quietude.

Inês segurou a fotografia de uma menina marcada com o número seis.

— Onde estão?

— Algumas cresceram e foram embora.

— Quais?

Ernesto não respondeu.

— Quais saíram vivas?

— Eu não sei.

Davi avançou um passo.

— E as outras?

— Desapareceram nos registros.

— Registros não fazem pessoas desaparecerem — disse Inês. — Pessoas fazem.

O padre ergueu a mão.

— Lia foi a única que Celeste tentou retirar da casa antes de compreender o tamanho de tudo. Raul descobriu tarde. Clara deixara cartas com um pescador.

— Onde estão as cartas? — perguntou Inês.

— Não sei.

Davi chegou mais perto.

Ernesto encolheu o corpo.

— Sei onde Úrsula guardava os nomes completos.

Inês depositou as fotografias dentro da caixa.

— Onde?

— Fora da casa.

— Na igreja?

— Na igreja antiga. Sob o altar que retiraram depois do incêndio.

A lembrança veio da infância de Inês. Celeste mencionara uma construção perto do farol, sempre de modo breve. Dizia que o fogo queimara as paredes antes do nascimento da filha. Nunca explicava por que mudava de assunto.

— A igreja antiga fica perto do farol — disse Inês.

— Ficava — respondeu Ernesto. — Restaram pedras.

A fumaça começou a subir do chão.

Era fina, cinza, sem chama visível. Entrou pelas frestas da terra e se espalhou junto aos sapatos.

O cheiro de madeira queimada tomou o cômodo.

Padre Ernesto se levantou depressa e quase caiu.

— Não devia ter falado.

Davi o segurou pelo braço.

— Falou tarde.

A fumaça engrossou.

Ernesto tentou subir a escada. A porta no alto bateu e fechou.

Inês guardou as fotografias na bolsa. Colocou a caixa de hóstias junto ao livro de registros e ao volume de Úrsula.

— Ajude-o — disse a Davi.

A fumaça alcançou os joelhos.

Na parede de pedra, fuligem fresca reuniu-se em linhas.

Padre sem língua guarda segredo melhor.

Ernesto levou a mão à boca.

O sangue apareceu entre seus dedos antes que o grito se completasse.

A quarta chave caiu da mão de Inês e rolou pelo chão.

Davi tentou alcançá-la.

Uma mão pequena saiu debaixo da manta do berço.

Os dedos empurraram a chave de volta.

Lia surgiu ao lado da madeira.

Durante um segundo, esteve inteira o bastante para ocupar o espaço. Era uma criança molhada. O cabelo estava preso por um laço torto. O vestido grudava nos braços. O rosto sério mantinha a mesma expressão das fotografias.

Ela olhou para Inês.

Depois para Ernesto.

Apontou para a boca do padre e balançou a cabeça.

Inês compreendeu a intenção da casa. Queria punição. Talvez vingança. Talvez repetição.

Ela se aproximou de Ernesto.

O velho se dobrava, engasgando. A língua inchava dentro da boca.

Inês segurou seu rosto com as duas mãos.

— Fale enquanto consegue. Onde estão os nomes completos?

Ele tentou formar palavras. Sangue escorreu pelo queixo.

— Altar...

— Qual altar?

— Antiga...

— O altar da igreja antiga?

Ernesto assentiu.

— Onde está?

Ele puxou ar com dificuldade.

— Cemitério.

— Em qual parte?

— Capela... Duarte.

Inês aproximou o ouvido.

— Repita.

— Mesa... pedra. Jazigo... chave... família de Úrsula.

A língua inchou mais. O restante saiu incompreensível.

Davi segurou o padre antes que ele caísse.

Lia observou.

O rosto da menina adquiriu um sorriso sem alegria. Depois ela desapareceu dentro da fumaça.

A porta no alto abriu quando Inês guardou a caixa de hóstias e o livro de registros na bolsa.

A fumaça parou de subir.

Davi apoiou Ernesto sob os braços e começou a arrastá-lo pela escada. A mão ferida tremia dentro da gaze.

Inês empurrou o corpo do padre por trás. A idade tornava cada degrau difícil. A culpa acumulada tornava tudo pior apenas para quem ainda acreditava que culpa possuía matéria.

Na sacristia, o ar estava limpo.

Ernesto caiu de joelhos.

Inês abriu a bolsa, retirou gaze nova e uma pequena pinça. Mandou Davi trazer água da pia. O padre tentou afastá-la.

Ela segurou seu queixo.

— Fique parado.

O olho bom lacrimejava. A língua sangrava e ocupava quase toda a boca.

Inês envolveu a ponta numa gaze, verificou a origem do corte e manteve a cabeça do velho inclinada para evitar que aspirasse sangue.

— Respire pelo nariz.

Ernesto obedeceu.

Davi voltou com água e uma toalha.

— Ele precisa de transporte para o continente — disse Inês. — Pode perder a via aérea se o edema aumentar.

— A lancha médica demora.

— Então alguém da farmácia terá de ajudar até chegar.

Ela trabalhou com mãos firmes. O homem diante dela ajudara a esconder crianças. Ainda assim, impediria que a casa decidisse sozinha quem viveria. Cuidar do corpo não apagava crime. Apenas mantinha o criminoso disponível para responder.

Davi observava.

Talvez entendesse que assistência não equivalia a perdão.

Quando o sangramento diminuiu, Inês colocou Ernesto sentado contra a parede e entregou a Davi outra gaze para compressão.

— Segure aqui.

— Com qual mão?

Ela tomou a mão ilesa dele e posicionou os dedos.

— Esta.

A palma ferida voltara a sangrar nas bordas do curativo. Inês reforçou a faixa, prendeu-a junto ao punho e verificou a coloração dos dedos.

— Você precisa de pontos.

— Depois.

— Não foi uma sugestão.

Ele olhou para ela.

— Depois que sairmos daqui.

Inês sustentou o olhar por um instante.

— Depois que o padre estiver respirando sem risco.

A praça estava cheia quando abriram a porta da igreja.

Mulheres, pescadores, adolescentes, o farmacêutico e a atendente da venda ocupavam a calçada. Ninguém atravessara a entrada.

Alguém devia ter ouvido o sino, o grito ou o movimento sob o piso. Talvez a ilha tivesse aprendido a reconhecer o instante em que um segredo velho mudava de lugar.

Inês saiu primeiro.

A bolsa estava cheia de provas. A camisa trazia sangue do padre. A quarta chave permanecia enrolada em gaze dentro de um bolso separado.

Todos olharam.

Ninguém perguntou o que acontecera.

Davi apareceu carregando Ernesto sobre o ombro. Um homem do grupo avançou e ajudou sem dizer o nome.

— Levem para a farmácia — ordenou Inês. — Ele está com edema na língua. Precisa ficar sentado, inclinado para frente. Nada de comida. Chamem transporte médico agora.

O farmacêutico abriu caminho.

— O mar está virando.

— Então usem rádio. Telefone. Barco de pesca. Façam o necessário.

A firmeza dela rompeu a paralisia. Duas pessoas correram até a farmácia. Outra entrou na igreja para buscar uma cadeira. O velho foi levado pela praça, cercado por gente que evitava encarar a camisa de Inês.

Davi ficou junto à porta.

— Minha mão ainda está presa ao braço — disse ele.

— Por enquanto.

Ela pegou o telefone.

Nenhum sinal.

Ergueu o aparelho, caminhou até a beira da calçada e esperou. Uma barra apareceu.

Inês abriu a tela para ligar à polícia.

Uma mensagem chegou antes.

Número desconhecido.

A quarta já escolheu.

A quinta conhece o nome da sua mãe.

Havia uma imagem anexada.

Inês abriu.

A fotografia fora tirada naquele instante. Mostrava a porta da igreja, a multidão na praça e ela de camisa manchada, telefone na mão.

O ângulo vinha do alto da falésia.

Da janela da Casa das Sete Chaves.

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