O Poço de Lia
O chamado saiu do poço com voz de criança e água nos pulmões.
Inês parou a poucos passos da tampa rachada. A lanterna continuou apontada para o chão, iluminando capim molhado, pequenas pedras e a barra enlameada de sua calça. No bolso, a pulseira de contas verdes tocava sua coxa a cada respiração. O diário de Raul estava apertado contra seu peito, protegido pelo braço esquerdo.
Davi ficou ao lado dela. A mão que segurava a própria lanterna permanecia baixa, mas o círculo de luz tremia entre os dois.
O jardim atrás da Casa das Sete Chaves se estendia até a borda escura da ilha. Durante o dia, talvez fosse apenas um terreno abandonado. Naquela hora, os galhos baixos pareciam alcançar quem se aproximava, o capim escondia desníveis e as pedras úmidas sugeriam rastros interrompidos. Celeste podia ter pisado ali décadas antes, correndo com uma mala, perseguida pelo medo e por alguém que Inês ainda não conhecia. Podia ter atravessado o jardim grávida, levando no corpo uma filha pequena demais para saber que fugia.
A voz chamou outra vez.
Mais baixa.
Mais funda.
Celeste.
O nome da mãe entrou pelo ouvido de Inês e alcançou uma parte antiga de sua vida, feita de portas fechadas, respostas curtas e mudanças repentinas de assunto. Durante um segundo, ela voltou a ser a menina que acordava no apartamento e encontrava Celeste sentada à mesa da cozinha, ainda de uniforme, encarando uma xícara fria. A mãe sempre parecia ter retornado de algum lugar onde não queria ter estado.
Inês abriu a boca.
Davi segurou seu braço.
— Não responda.
Ela puxou o braço, embora o toque tivesse impedido a palavra de sair.
— Ela chamou pela minha mãe.
— A casa usa nomes certos para abrir bocas erradas.
— Isso não veio da casa.
Davi ergueu a lanterna. O facho alcançou a tampa de concreto, coberta por musgo e cortada por duas fendas finas.
— Aqui, tudo vem da casa.
A voz não se repetiu. Em seu lugar, três batidas subiram do fundo do poço.
Inês se aproximou.
A tampa tinha bordas irregulares. Havia arranhões recentes junto à fenda maior, marcas curvas que lembravam unhas ou uma ferramenta estreita. Ela se agachou e passou a luz sobre cada uma. O concreto estava mais claro nos pontos riscados. Fragmentos de musgo se acumulavam na terra.
— Isso foi feito de dentro?
— Não sei.
— Você conhece esta casa desde criança.
— Conhecer não significa entender.
Davi se ajoelhou do outro lado da tampa. Passou a mão pela superfície, mantendo os dedos longe das fendas. Encontrou um pedaço de ferro cravado na lateral, quase escondido pela terra. Puxou o capim ao redor e revelou um antigo encaixe de alavanca.
— Meu pai mandou cimentar o poço depois da morte de Úrsula.
— Quando?
— Pouco depois de encontrarem o corpo dela.
— Encontraram onde?
Davi demorou um instante.
— Dentro da casa.
— Em qual quarto?
— Não lembro de terem dito.
Inês lançou a luz sobre o rosto dele.
— Você não lembra ou não quer dizer?
— Eu tinha doze anos. Os adultos falavam baixo quando eu entrava. Meu pai me mandava sair.
A criança no fundo tornou a bater.
Uma vez.
Duas.
Três.
Davi olhou para a tampa.
— Vieram dois homens da prefeitura. Um padre ficou perto da cozinha, olhando de longe. Disseram que era prevenção contra acidente.
— E você acreditou?
— Naquela idade, eu acreditava que adultos davam nomes às coisas porque sabiam o que faziam.
— E agora?
Davi encostou o polegar no ferro enferrujado.
— Agora sei que a ilha gosta de nomes limpos para serviços sujos.
Inês apoiou o diário no capim e tirou do bolso a chave número um. O metal estava frio. Ao aproximá-lo da fenda maior, sentiu uma vibração curta subir pelos dedos. A chave sacudiu em sua mão, tensa, quase agressiva.
Ela afastou o objeto.
A vibração cessou.
Aproximou de novo.
O metal reagiu com mais força.
No fundo do poço, a criança começou a bater depressa.
Davi se levantou.
— Espere aqui.
— Aonde você vai?
— Casa de ferramentas.
— Eu vou junto.
— Se alguma coisa abrir essa tampa enquanto estivermos longe, quero pelo menos uma pessoa olhando.
— Então fique você.
Davi já atravessava o capim.
— Eu sei onde estão as ferramentas.
Inês o acompanhou com a lanterna até que ele desapareceu atrás da construção baixa junto ao muro. A porta de madeira abriu com um gemido. Houve ruído de metal arrastado, uma prateleira batendo e o som seco de alguma coisa caindo.
Sozinha diante do poço, Inês guardou a chave número um. A pulseira de contas verdes tocou seus dedos dentro do bolso. Pensou em retirá-la, mas desistiu. Não sabia o que Lia reconhecia. Não sabia se o objeto acalmava a criança ou a chamava.
A voz saiu novamente da água.
Celeste.
Dessa vez, não havia pedido no nome. Havia acusação.
Inês fechou os dedos sobre a pulseira.
— O que ela fez com você?
A pergunta escapou baixa demais para ser uma resposta completa.
As batidas pararam.
O jardim ficou imóvel.
Da janela do segundo andar, um reflexo amarelo surgiu e desapareceu. Inês virou a lanterna para a casa. Todas as janelas pareciam escuras. Ainda assim, teve certeza de que algo passara atrás do vidro.
Davi retornou carregando uma barra de ferro, uma corda enrolada, luvas e um mosquetão antigo. Trazia também a expressão de quem odiava cada objeto por existir e por saber para que serviria.
Jogou a corda no chão e encaixou a barra na lateral da tampa.
— Calce as luvas.
Inês pegou o par.
— Vamos levantar juntos.
— Afaste os dedos.
— Eu posso ajudar.
— A tampa pode ceder de uma vez.
— Esta casa é minha herança, Davi.
— Isso não torna seus dedos menos quebráveis.
— E você precisa parar de me tratar feito visita frágil dentro do que minha mãe deixou.
Ele respirou fundo, apoiando o pé na base da barra.
— Afaste os dedos, Inês.
— Pare de mandar em mim.
— Então escolha perder uma mão por decisão própria.
Ela calçou as luvas e agarrou a borda da barra.
Davi lançou um olhar irritado, depois reposicionou o corpo.
— Quando eu empurrar, você puxa para cima.
— Eu sei usar uma alavanca.
— Um, dois...
A tampa cedeu antes do terceiro movimento.
O concreto se ergueu de um lado, soltando terra, raízes finas e um hálito de água parada. O cheiro atingiu Inês com força. Raiz podre, sal antigo, folhas em decomposição e alguma coisa adocicada que lembrava tecido guardado por anos em lugar úmido.
Ela cobriu a boca com a manga.
Davi forçou a barra até conseguir apoiar a tampa num bloco de pedra. O espaço aberto tinha pouco mais de meio metro. O bastante para uma pessoa passar.
A lanterna foi presa à borda com o mosquetão. O facho desceu pela parede interna, revelando pedras escurecidas, limo e buracos usados um dia como apoio.
O poço não era tão profundo quanto os contos de Celeste haviam feito Inês imaginar. A água ficava a cerca de três metros. A superfície negra estava coberta por folhas e pequenos galhos.
No centro, alguma coisa branca boiava devagar.
Davi se inclinou.
— Está vendo?
— Sim.
— Parece tecido.
— Pode ser uma roupa.
Ele puxou a corda e começou a fazer um nó em torno da própria cintura.
— Eu desço.
Inês tomou a corda de sua mão.
— Eu desço.
— Você não conhece as pedras.
— Sou enfermeira.
— E isso ensina a entrar em poço?
— Ensina a lidar com corpos, sangue e gente presa em lugares ruins.
— Aqui dentro, saber onde colocar o pé vale mais.
Ela segurou a corda, recusando-se a entregar.
— Você não sabe o que está lá embaixo.
— Justamente.
— Isso não é argumento.
— É o único que temos.
Inês o encarou. Davi conhecia os apoios da parede. Era um fato prático. Aceitá-lo não significava entregar o controle da investigação. Significava impedir uma queda inútil.
Soltou a corda.
— Eu seguro daqui.
— Amarre na árvore.
— Vou fazer as duas coisas.
Davi prendeu a corda ao tronco mais próximo, testou o nó e passou o restante pela cintura. Depois vestiu as luvas e sentou-se na borda.
— Se eu mandar puxar, puxe.
— Se eu vir alguma coisa, vou puxar antes.
Ele lançou um olhar que podia ser protesto ou concordância. Em seguida, virou-se para o interior do poço.
Os primeiros apoios estavam logo abaixo da abertura. Davi desceu com cuidado, testando cada pedra antes de transferir o corpo. Inês segurava a corda com as duas mãos e acompanhava o movimento pela lanterna presa à borda.
A cada metro, o cheiro piorava.
Davi respirava pela boca. Quando alcançou a última saliência antes da água, apoiou um pé, inclinou-se e estendeu o braço para o objeto branco.
As folhas se afastaram.
Era uma boneca de pano.
Davi a segurou pelo vestido e a ergueu. A água escorreu em fios escuros. Um dos olhos de botão havia desaparecido. O cabelo de lã negra cobria metade do rosto. No peito, preso por pontos grossos, havia um objeto de metal.
— Uma chave.
Inês aproximou a lanterna manual que trouxera.
A chave era pequena. Os pontos atravessavam o vestido e o corpo da boneca, formando uma costura grosseira ao redor do metal.
— Não toque na boca dela.
Davi olhou para cima.
— Eu nem estava pensando nisso.
— Corte os pontos e suba.
Ele tirou o canivete do bolso. A lâmina encontrou dificuldade na linha encharcada. Davi precisou serrar os pontos um por um. A chave se soltou e caiu em sua palma. Ele a guardou no bolso da camisa.
A boneca permaneceu em sua outra mão.
Atrás dele, a água se moveu.
Inês viu uma pequena ondulação romper a superfície. Não veio da boneca. Partiu da parede oposta e avançou até as pernas de Davi.
— Suba.
Ele ergueu o rosto.
— O quê?
Uma mão pálida apareceu entre a água e a pedra.
Os dedos eram pequenos demais para um adulto. As unhas estavam quebradas. A pele enrugada parecia ter permanecido mergulhada por anos que nenhum corpo suportaria.
— Davi, suba agora.
A lanterna atingiu a mão.
Ela desapareceu.
Davi enfiou a boneca entre o corpo e a corda e começou a subir. O primeiro pé encontrou apoio. O segundo escorregou, espalhando água pela parede.
— Devagar.
— Você acabou de mandar correr.
— Eu mandei subir.
Ele alcançou a saliência seguinte.
A corda esticou.
Depois travou.
Davi olhou para baixo.
— Alguma coisa prendeu.
Inês puxou. A corda não cedeu.
— Solte da cintura.
— O nó apertou.
O trecho mergulhado foi puxado para baixo.
Davi bateu o joelho contra a pedra.
Inês largou o diário no capim e agarrou a corda com as duas mãos. Puxou até os músculos dos braços arderem. A coisa no fundo respondeu. Não havia movimentos bruscos. A força vinha contínua, firme, paciente.
A árvore rangeu atrás dela.
— Corte a corda.
— O canivete caiu.
— Tire a camisa.
— A corda passa por baixo.
Davi conseguiu apoiar o pé numa pedra saliente e se impulsionou. Subiu o bastante para alcançar a parte seca da parede, porém a tração no quadril o puxava de volta.
Inês deitou-se junto à abertura.
— Dê a mão.
Ele ergueu o braço.
Os dedos se tocaram e escorregaram.
— De novo.
Davi se impulsionou. Inês agarrou seu pulso.
O contato veio violento. A mão dele estava gelada, coberta por limo. A palma de Inês queimou sob a luva, exatamente onde o corte da primeira chave ainda não fechara. O tecido se rompeu contra a borda do concreto.
Por um instante, o corpo inteiro de Davi ficou preso ao braço dela. Inês sentiu a força que o puxava para baixo e a tensão do ombro dele tentando resistir.
Perdê-lo ali, antes de saber se fora cúmplice, vítima ou guardião de mentiras, produziu um medo que ela não queria examinar.
Firmou os joelhos na terra.
— Suba.
Davi tentou alcançar a borda com a mão livre.
Falhou.
A corda desceu mais alguns centímetros.
Inês gritou e puxou com tudo o que tinha.
Davi bateu o peito contra o concreto. Conseguiu apoiar o cotovelo. Ela agarrou sua camisa e o arrastou para fora.
Os dois caíram sobre o capim.
A corda escapou da cintura dele e despencou para dentro do poço. O som da água veio de uma profundidade maior do que os três metros iluminados pela lanterna.
Davi ficou de costas, respirando depressa. Inês permaneceu sentada, ainda segurando parte da camisa dele.
A boneca estava entre os dois.
O rosto de pano se virara para a casa.
A segunda chave escorregou do bolso de Davi e parou perto da mão ferida de Inês.
Ela retirou a luva rasgada. O corte havia aberto. Uma linha de sangue descia até o punho.
— Você está machucado?
Davi apalpou as costelas e o joelho.
— Só bati.
— Deixe eu ver.
— Depois.
— Não pedi permissão.
Ele sentou-se com esforço. Inês passou os dedos pelas laterais do tórax, procurando irregularidade. Davi contraiu o abdômen quando ela pressionou uma costela.
— Dói aqui.
— Não parece quebrada. Respire fundo.
Ele obedeceu, mantendo os olhos no rosto dela.
— Outra vez.
Davi respirou.
— Consigo.
Inês se afastou e pegou a chave.
Era menor que a primeira, feita de latão escurecido. O número dois estava gravado perto da cabeça, quase apagado.
Quando seus dedos tocaram o metal, nenhuma porta bateu dentro da casa.
A boneca respondeu.
A boca de pano, fechada por dois pontos tortos, abriu num rasgo úmido. Um pedaço de papel enrolado caiu sobre a grama.
Davi empurrou o brinquedo com o pé.
— Não pegue.
O vento levantou uma das pontas do papel.
Inês o segurou antes que fosse levado. A tira estava protegida por uma camada fina de cera. Ela abriu o rolo com cuidado.
A letra não pertencia a Raul nem a Celeste. Era redonda, escolar, produzida por uma criança mais velha que tentava escrever com seriedade adulta.
Inês leu em voz alta.
— Lia não quer dormir no quarto dois porque Úrsula tranca a janela pelo lado de fora.
Davi parou de apalpar o joelho.
Ela continuou.
— O menino Ferraz viu o homem cair e guardou segredo por causa do pai.
Davi permaneceu de joelhos na grama. A frase atingiu seu rosto antes que ele dissesse qualquer coisa. Os olhos se desviaram para a casa de ferramentas.
Inês esperou uma negação.
Ela não veio.
— Que queda você viu?
Davi passou a mão molhada pelo rosto.
— Eu não sabia quem tinha caído.
— Você sabia que alguém caiu.
— Vi Raul discutindo com Úrsula perto do poço.
— E nunca contou isso.
— Eu tinha doze anos.
— Conte agora.
Ele olhou para a tampa erguida.
— Eu estava escondido atrás da cozinha. Meu pai tinha mandado que eu esperasse na casa de ferramentas, mas ouvi vozes. Raul gritava. Úrsula falava baixo. Isso deixava tudo pior.
— Celeste estava aqui?
— Apareceu depois. Tentou entrar entre os dois.
— Minha mãe tentou impedir a briga?
— Acho que sim.
— Você acha?
— Eu via pelas plantas e pela janela da cozinha. Não escutava tudo.
Inês guardou a chave na palma e pressionou o polegar contra o metal.
— Continue.
— Meu pai chegou com outro homem.
— Quem?
— Um forasteiro. Chapéu claro. Eu nunca tinha visto antes.
— E depois?
Davi olhou para o próprio joelho.
— Raul caiu de costas no gramado.
— Quem o empurrou?
— Não vi.
— Seu pai estava perto?
— Estava.
— Úrsula?
— Também.
— O homem do chapéu?
— Sim.
— Celeste?
— A alguns passos.
Inês sentiu a respiração encurtar.
— Raul sangrou?
— Não no começo. Ele levantou. Cambaleou até a casa. Celeste foi atrás.
— E você?
— Voltei para a casa de ferramentas.
— Por quê?
Davi demorou a responder.
— Meu pai me viu.
Inês apertou a chave com mais força.
— O que ele fez?
— Apontou para a casa de ferramentas.
— Só isso?
— Naquele tempo, bastava.
A criança que Davi fora surgiu por baixo da barba molhada e do rosto adulto. Inês não quis sentir compaixão. A reação veio mesmo assim, misturada a raiva.
— O que aconteceu depois?
— Fiquei escondido. Ouvi movimento no jardim. Gente entrando e saindo. Uma discussão dentro da casa. Depois, nada.
— E seu pai?
— Voltou antes do amanhecer. As botas estavam molhadas.
— De mar?
— Não sei.
— De poço?
— Não sei.
— O que ele disse?
Davi levantou os olhos.
— Se alguém perguntasse, eu tinha passado a noite dormindo.
A frase ficou entre eles, curta e brutal.
Inês olhou para a casa de ferramentas. Uma criança trancada ali teria escutado o jardim inteiro sem poder ver nada. Teria esperado o pai voltar, talvez torcendo para que a ordem final fosse simples.
— Você obedeceu.
— Sim.
— Mesmo depois de crescer.
— Sim.
Inês quis odiá-lo pela omissão. O sentimento não se formou inteiro. Davi tivera doze anos, um pai violento e uma ilha acostumada a aceitar ordens. Isso não devolvia Raul. Não abria a janela de Lia. Não desfazia a fuga de Celeste.
Também não colocava dentro de uma criança a responsabilidade de enfrentar quatro adultos.
A casa não demonstrava interesse por diferenças de idade ou graus de culpa.
Uma janela do segundo andar acendeu.
Não havia lâmpada visível. Um retângulo amarelo atravessou o jardim e alcançou o poço. A porta número dois apareceu aberta além do vidro, revelada por um ângulo que deveria ser impossível.
Inês colocou a tira de papel entre as páginas do diário.
Davi percebeu o movimento.
— O que está fazendo?
— Subindo.
— Precisamos esperar.
— Até quando?
— Até amanhecer.
— Já está quase amanhecendo.
— Até conseguirmos sinal.
— O telefone não funcionou a noite inteira.
— Podemos ir ao povoado.
— E dizer o quê? Que uma boneca abriu a boca? Que uma criança morta escreveu um bilhete? Que seu pai pode ter ajudado a esconder Raul?
Davi ficou em pé.
— Podemos mostrar o cartão, o diário, a pulseira.
— O diário prova que Raul esteve aqui. A pulseira prova que uma criança usou contas verdes. O resto vai ser chamado de superstição.
— Entrar naquele quarto pode matar você.
— Ficar fora não salvou ninguém.
— Inês.
— Até quando você quer esperar? Até a polícia acreditar? Até a casa chamar com a voz da minha mãe outra vez? Até escolher outro nome?
Davi abriu a boca e fechou.
Ela recolheu o diário, guardou a chave número dois e pegou a lanterna.
Os dois entraram pela cozinha, deixando o poço aberto atrás deles.
A casa havia mudado de cheiro.
A maresia continuava grudada às paredes e ao assoalho, porém agora havia açúcar queimado e perfume barato no ar. O aroma lembrava festa antiga, salão fechado e tecido guardado entre cortinas.
No saguão, o relógio marcava duas e dezenove.
O ponteiro dos segundos permanecia parado.
Inês olhou para o mostrador.
— Ele estava nesse horário antes?
— Não.
— Quanto marcava?
— Duas e dezoito.
— A casa avançou um minuto.
— Ou nós perdemos um.
Ela lançou a luz pela escada.
A porta número dois ficava em frente ao quarto de Raul. Durante o dia anterior, Inês mal a notara. Agora, a pintura azul descascada parecia mais clara que a parede ao redor.
Subiu.
Cada degrau estava mais frio que o anterior. No meio da escada, sentiu a mudança atravessar a sola dos sapatos. O corrimão tinha umidade recente, embora nenhuma janela estivesse aberta.
Davi seguia logo atrás.
— Você pode ficar no saguão.
— Já fiquei longe demais dessa história.
— Então não tente me puxar para fora antes de eu ver.
— Se o quarto começar a fechar, vou puxar.
— Só nessa situação.
Ele não respondeu.
A maçaneta da porta número dois era de porcelana branca. Não havia fechadura.
Inês aproximou a chave.
Um buraco se abriu na madeira. Redondo. Perfeito. O contorno surgiu aos poucos, revelando metal escuro sob a tinta.
Ela encaixou a chave.
Antes de girar, olhou para Davi.
— Pronto?
— Não.
— Ótimo.
Girou.
Um bolero antigo começou a tocar dentro do quarto. A gravação estava arranhada. A melodia avançava aos saltos, perdia uma nota, retomava outra.
Inês abriu a porta.
O quarto era infantil.
O papel de parede tinha flores pequenas em tons desbotados. A cama baixa estava coberta por uma colcha branca. Havia um armário estreito, uma penteadeira com escova de madeira, dois livros escolares e uma fileira de bonecas sentadas no chão.
Todas estavam viradas para a janela.
Inês entrou.
Davi ficou na soleira.
O ar tinha cheiro de talco, pano úmido e sopa fria.
A janela estava fechada. Inês aproximou-se e encostou os dedos no vidro. Do lado de fora, barras de ferro impediam a abertura completa. Uma delas atravessava o centro da moldura; outras duas fechavam as laterais.
No batente, havia marcas de unhas.
Ela aproximou a lanterna. Os riscos variavam de tamanho. Alguns eram curtos. Outros desciam pela madeira, interrompidos por lascas.
A crueldade do quarto não precisava de fantasma.
— Este era o quarto de Lia?
Davi permaneceu fora.
— Era o quarto que Úrsula dizia guardar para sobrinhas obedientes.
— Quantas sobrinhas ela tinha?
— Nunca conheci nenhuma.
Inês passou os dedos pelas marcas.
— Então todos sabiam que uma criança ficava trancada aqui.
— Sabiam que Úrsula criava uma menina.
— E ninguém perguntava por que havia barras na janela?
— Úrsula dizia que Lia andava dormindo.
— E acreditavam.
— Alguns acreditavam. Outros preferiam acreditar.
Inês virou-se para a penteadeira.
No espelho, o quarto estava diferente.
A cama aparecia desarrumada. A janela estava aberta poucos centímetros. Lia se encontrava sentada no chão com a boneca encharcada no colo. O brinquedo ainda possuía os dois olhos. A menina tinha cabelo escuro e os mesmos olhos de Celeste.
Inês se aproximou do vidro.
Lia levantou o rosto. Não encarou Inês. Olhou para alguém fora do reflexo.
Celeste entrou no quarto.
Era jovem. Trazia um prato de sopa e olhava para o corredor antes de fechar a porta. Lia largou a boneca e correu até ela.
As duas se abraçaram.
Havia intimidade naquele gesto. O corpo de Lia se encaixava contra o de Celeste sem receio. A menina apertou os braços ao redor de sua cintura. Celeste beijou o alto de sua cabeça.
Raul apareceu atrás das duas.
Falava depressa, embora nenhum som saísse do espelho. Apontava para a janela e depois para a porta. Celeste balançava a cabeça. Lia segurava o vestido dela.
Úrsula surgiu no corredor.
Vestido vermelho.
Rosto sereno.
Ela entrou, tomou o prato das mãos de Celeste e colocou sobre a penteadeira. Depois empurrou Raul para fora. Celeste tentou permanecer, porém Úrsula fechou a porta.
O reflexo tremeu.
O bolero aumentou.
No quarto real, uma boneca moveu a cabeça.
O botão do olho girou na direção de Inês.
Outra fez o mesmo.
Depois a terceira.
A fileira inteira começou a se voltar, uma peça de cada vez, pano raspando no assoalho.
Davi entrou e agarrou a mão de Inês.
Puxou-a para longe do espelho.
Ela se soltou.
— Não faça isso.
— Elas estavam olhando para você.
— Eu vi.
— Você chegou perto demais.
— Preciso enxergar.
— E elas precisam que você olhe.
Inês estava irritada. Também sabia que o gesto dele a afastara antes que seu rosto tocasse o vidro.
No espelho, Lia se levantou.
A menina colocou a mão na barriga de Celeste.
Depois apontou para si.
Inês sentiu o pensamento se formar antes de encontrar qualquer documento que o sustentasse.
Lia não era sobrinha de Úrsula.
Uma das bonecas caiu de lado.
O vestido se abriu. Havia um pequeno bolso costurado na parte interna. Inês se abaixou e retirou um cartão dobrado.
Davi se aproximou, mantendo a lanterna sobre as outras bonecas.
O papel estava amarelado. As dobras quase se rompiam.
Inês abriu.
— Cartão de batismo.
Leu os campos.
Lia da Conceição.
Nenhum sobrenome paterno.
Madrinha, Úrsula Duarte.
Responsável presente, Celeste Avelar.
O campo destinado ao pai estava vazio.
No verso, outra mão havia escrito duas palavras.
Raul sabe.
Davi passou a mão pela nuca. A camisa ainda pingava água do poço.
— Raul pode ter vindo à ilha por Lia.
Inês levantou os olhos.
— Antes de vir por Celeste.
— Talvez.
Ela pensou na fotografia da mãe com Raul. Na data escrita atrás. Na gravidez. Na fuga. Celeste levara uma criança dentro do corpo e deixara outra presa naquele quarto.
Durante anos, Inês transformara a mãe numa mulher que fugia sempre que uma explicação se aproximava. Era uma raiva íntima, fácil de alimentar. Celeste mudava de assunto. Celeste recusava perguntas. Celeste guardava fotos em caixas que a filha não podia abrir.
Agora havia barras na janela.
Havia unhas no batente.
Havia uma menina que abraçava Celeste feito irmã, filha ou única aliada.
A raiva perdeu o chão.
Celeste talvez não tivesse fugido por covardia. Talvez tivesse escapado carregando a única filha que ainda conseguia salvar.
A música parou.
O vazio deixado pelo bolero tornou audível o ranger do assoalho.
As bonecas estavam de pé.
Nenhuma mão as erguera.
Formavam uma linha entre Inês e a janela.
Davi se colocou à frente dela. Segurava a lanterna diante do corpo, uma arma inútil contra pano e botão.
A janela bateu contra as barras.
Uma vez.
Duas.
Três.
No espelho, Lia encarava Inês.
A menina abriu a boca.
A voz saiu do cartão de batismo.
— Úrsula guardava chaves dentro de gente.
Inês quase deixou o papel cair.
A voz continuou.
— Raul tentou arrancar a errada.
Davi virou-se para ela.
Inês ergueu o cartão.
— Onde está Lia?
O espelho escureceu.
A imagem da criança desapareceu. A penteadeira refletiu apenas Inês, pálida, com o cabelo grudado na testa e os olhos de Celeste em seu rosto adulto.
Atrás dela apareceu a mãe.
Não era a jovem do reflexo anterior. Era a Celeste da infância de Inês, já marcada pelos plantões, pelas noites mal dormidas e pela vigilância constante.
Ela colocou a mão no ombro da filha.
Inês não sentiu o toque.
Os lábios de Celeste se moveram sem produzir som.
Davi leu primeiro.
— Saia da casa.
Inês virou-se.
Não havia ninguém atrás dela.
A fúria veio com a velocidade de uma ferida aberta.
Sair era a ordem de sempre. Sair da ilha. Sair da conversa. Sair da pergunta. Sair do quarto antes que a explicação alcançasse a porta.
— Você teve vinte anos para falar comigo.
O espelho refletia apenas o quarto.
— Inês.
Ela pegou o cartão de batismo, guardou a segunda chave e escolheu uma das bonecas. Vestido azul. No peito, havia um botão de madrepérola igual ao encontrado no casaco de Raul.
Davi bloqueou a porta.
— Objetos retirados dos quartos costumam cobrar preço.
— Deixar tudo aqui saiu barato para alguém?
Ele olhou para a boneca.
— Não.
— Então saia da frente.
Davi recuou.
Inês atravessou a soleira.
A porta começou a fechar.
A madeira avançou contra o braço dela. Davi jogou o ombro no vão e segurou. A pressão fez a parede estalar.
— Tire a mão.
Inês puxou o braço.
A boneca caiu no corredor.
Davi saltou para fora.
A porta bateu.
Uma rachadura abriu na parede, descendo do batente até o rodapé.
Do outro lado, Lia gritou uma vez.
Inês ficou diante da madeira, respirando depressa.
— Abra.
A chave número dois não entrava mais. A fechadura havia desaparecido.
Ela bateu com a palma.
— Lia.
Nenhuma resposta veio.
Davi apanhou a boneca azul e a entregou a Inês.
— Ela deixou você sair.
— Ou a casa deixou.
— Aqui, talvez seja a mesma coisa.
Inês guardou o cartão no diário e desceu.
O amanhecer encontrou os dois sentados no saguão, de costas para o balcão da recepção.
O poço permanecia aberto no jardim. A primeira claridade atravessava a cozinha e alcançava parte da mesa. Sobre ela estavam as duas chaves, a boneca azul, o diário e o cartão de batismo.
Inês tinha lama nas barras da calça, sal no cabelo e dois cortes na mão. A lista de mortos crescia. Alguns talvez fossem seus parentes. Outros podiam ter sido sacrificados para esconder o que a família sabia.
Davi mantinha os olhos vermelhos e evitava olhar para a porta da casa de ferramentas.
Nenhum dos dois falava havia vários minutos.
O sino da recepção tocou sozinho.
Uma vez.
Fraco.
Quase educado.
A poeira sobre o balcão se moveu.
A frase deixada pelo poço desapareceu. No lugar dela surgiu um desenho simples de barco.
Ao lado, a palavra Raul foi escrita pela mesma letra infantil do bilhete de Lia.
Inês se levantou.
A porta principal permanecia fechada. Mesmo assim, uma faixa de luz entrou pela parte inferior e avançou pelo chão.
Ela abriu.
A maré havia recuado.
Uma linha de pedras surgia além do jardim, exposta entre algas escuras e pequenas poças. Aquela faixa não aparecia durante a noite.
Entre duas rochas, preso numa massa de alga, havia um sapato masculino branco.