O Cais A Casa das Sete Chaves · Capítulo 9 de 10
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O Cais

A chuva começou fina e fria quando Inês e Davi alcançaram a estrada que descia para o cais. Caía reta sobre as pedras, escurecendo a terra e prendendo fios de cabelo ao rosto dela. Ainda havia luz suficiente para enxergar o mar entre os telhados, uma faixa cinzenta onde a ilha parecia terminar. A distância era pequena. O caminho, porém, atravessava uma cidade que sabia o que eles carregavam.

Davi levava a caixa de Raul apertada contra o peito. O papelão havia amolecido nos cantos, e ele mudava o apoio dos braços para proteger o fundo. Dentro estavam documentos que haviam sobrevivido a quartos fechados, décadas de umidade e mãos interessadas em fazê-los desaparecer. Na bolsa de Inês, o livro de Úrsula batia contra seu quadril a cada passo. A sexta chave aquecia o bolso interno junto da carta de Celeste.

Atrás deles, a Casa das Sete Chaves continuava com as portas abertas.

Inês olhou uma única vez antes da primeira curva.

A mulher de vermelho estava parada na varanda, imóvel sob o teto. As crianças ocupavam o jardim em distâncias regulares. Algumas permaneciam perto do poço. Outras se alinhavam junto às roseiras. Os números presos aos vestidos e camisas pareciam mais escuros sob a chuva.

Lia segurava a boneca contra o peito.

Por um instante, a menina levantou o queixo. Inês não soube se Lia pretendia chamá-la ou apenas garantir que ela levasse os nomes até o cais. Úrsula permanecia atrás das crianças, senhora de uma despedida que ainda julgava reversível.

Inês virou-se e continuou.

Tinha medo de olhar outra vez e encontrar Lia correndo pela estrada. Temia ver Celeste numa janela. Temia ver Raul junto ao portão, com a aparência que teria se o tempo lhe tivesse concedido uma velhice. A casa conhecia as imagens capazes de fazê-la voltar.

O cais era a linha concreta que restava.

Se conseguissem enviar fotografias, registros e depoimentos ao continente, o desaparecimento de uma folha deixaria de apagar o que ela continha. Úrsula poderia fechar portas, mover corredores e ferir quem entrasse. Já não conseguiria guardar todas as provas dentro das próprias paredes.

Davi indicou uma trilha à esquerda antes que a estrada entrasse na praça.

— Por trás da venda é mais curto.

A voz dele saiu baixa. O golpe recebido na casa deixara uma mancha perto do maxilar, e a faixa na mão direita começava a escurecer. Ainda assim, Davi não reduziu o ritmo.

Eles desceram por uma viela entre muros de pedra. Quintais estreitos se abriam dos dois lados. Roupas úmidas balançavam sob coberturas baixas. Uma panela soltava vapor numa janela. Em outra casa, uma mulher recolheu uma toalha do varal e fechou a porta ao reconhecer Inês.

A ilha estava acordada demais para aquela hora.

A mulher da farmácia observava por trás do vidro de uma porta lateral. O pescador que Inês vira com um balde na manhã anterior permanecia junto a um barril, sem qualquer trabalho nas mãos. Dois adolescentes fingiam desembaraçar uma rede perto de uma garagem. Os dedos deles mal se moviam.

Ninguém ofereceu ajuda.

Ninguém perguntou pela faixa ensanguentada de Inês, pela caixa nos braços de Davi ou pelas pessoas que haviam ficado na casa.

A vigilância era partilhada. Passava de janela em janela antes que os dois alcançassem cada esquina.

— Quantos sabiam? — Inês perguntou.

Davi olhou para a frente.

— Sabiam o quê?

— Que havia crianças na casa. Que Raul procurava Lia. Que minha mãe tentou fugir.

Ele demorou a responder.

— Alguns sabiam partes. Outros preferiam acreditar em versões menores.

— Versões menores enterram gente do mesmo jeito.

Davi ajustou a caixa.

— Meu pai recebia para carregar coisas. Remédio. Mantimentos. Caixas. Às vezes pessoas. Tadeu dizia que era melhor não perguntar.

— E você?

— Eu era criança.

A resposta veio dura, dirigida a ele próprio.

Inês conteve a vontade de transformar aquela dureza em acusação. Davi tinha crescido dentro da rede que agora os cercava. A culpa do pai aderira a ele cedo. Úrsula aprendera a usar esse vínculo.

— Os cadernos têm famílias inteiras — ele continuou. — Gente que devia dinheiro aos Duarte. Gente que recebeu terreno. Farmácia, barcos, doações para a igreja. Úrsula ajudava quando queria comprar obediência. Depois cobrava de filhos e netos.

— Uma dívida hereditária.

— Aqui, tudo tenta ser hereditário.

A mão boa de Inês apertou a alça da bolsa.

Culpa circulava junto com pão, combustível e remédio. O que a cidade chamava de tradição podia ser rastreado em recibos, favores e medo. Úrsula morrera sem interromper a cobrança. Outros haviam administrado sua herança.

O primeiro bloqueio surgiu antes da praça do mercado.

Um caminhão de entrega estava atravessado na rua estreita. O capô aberto ocupava o pouco espaço que restava entre a carroceria e o muro. Dois homens estavam junto ao motor. Nenhum deles segurava ferramenta.

Davi reduziu o passo.

— Simão.

O mais velho ergueu a cabeça.

Era um homem largo, de cabelos brancos cortados rente e camisa de pesca abotoada até o pescoço. Inês lembrava de tê-lo visto perto da igreja. Davi se aproximou o bastante para obrigá-lo a falar.

— A rua está ruim — Simão disse. — A chuva vai apertar.

— A gente passa — Davi respondeu.

Simão fechou o capô do caminhão. O som correu pela viela.

— Melhor voltar para a casa.

Inês colocou-se ao lado de Davi.

— Preciso chegar ao cais.

Simão examinou a faixa em sua mão. Depois olhou para a caixa.

— Certas coisas desta ilha não passam bem pelo mar.

Ele usava o tom de quem aconselhava uma família durante um velório. Suave, paciente, seguro de que qualquer resistência terminaria diante de uma autoridade mais antiga.

Inês abriu a bolsa.

Davi moveu o cotovelo, talvez temendo que ela procurasse uma das chaves. Ela retirou uma fotografia.

Lia aparecia junto a uma cadeira, os cabelos presos de qualquer jeito, a boneca caída entre os pés. O papel tinha manchas nas bordas. O rosto da menina permanecia nítido.

Inês segurou a fotografia diante de Simão.

— Criança também não passa bem pelo mar?

Ele fixou os olhos na imagem.

— Guarde isso.

— Ou a regra serve apenas para prova?

O homem mais novo deslocou o corpo, fechando a lateral do caminhão.

Simão desviou os olhos da fotografia. O movimento foi rápido, porém tarde demais. Ele conhecia Lia.

Inês aproximou o papel do rosto dele.

— Você viu essa menina?

— Não sei quem é.

— Sabe o bastante para não olhar.

— Dona Inês, volte antes de se machucar mais.

— Já me machucaram.

— A casa não é assunto para gente de fora.

— Minha mãe morreu lá. Meu pai morreu procurando respostas. Meu nome estava num livro daquela casa. Escolha outra frase.

Davi avançou pela faixa estreita entre a frente do caminhão e o muro. Inês guardou a fotografia e o acompanhou.

Simão estendeu a mão para a caixa.

Davi girou o corpo. O antebraço do homem raspou no papelão, arrancando uma camada molhada. Davi o empurrou com o ombro. Simão perdeu o equilíbrio e bateu no caminhão.

O segundo homem avançou.

Inês procurou dentro da bolsa e encontrou o frasco de Úrsula. O vidro âmbar estava frio. No rótulo, ainda se distinguiam o nome do médico, uma data e a indicação de entrega por lancha.

Ela ergueu o frasco.

— Isto tem remetente, data e rota de transporte. Qualquer mão que encostar em mim entra no boletim junto com o resto.

Ainda não havia boletim. O telefone mal captava sinal. A polícia estava do outro lado da água. Mesmo assim, o homem mais novo parou.

Simão recuperou o equilíbrio.

— Você acha que alguém vai acreditar em história de morta andando pela casa?

— Não preciso começar pela morta. Posso começar por falsificação, sequestro, cárcere e ocultação de documentos. Depois chegamos ao que anda.

Davi voltou a caminhar. Inês seguiu junto ao muro.

O homem mais novo olhou para Simão, esperando uma ordem. A ordem não veio. Os dois passaram.

— Igual ao seu pai! — Simão gritou para Davi. — Carregando caixa sem saber o que leva!

Davi não respondeu.

A mandíbula dele se contraiu. A caixa afundou alguns centímetros entre seus braços.

Inês esperou até dobrarem a esquina.

— Ele queria que você parasse.

— Eu sei.

— Usou seu pai porque a caixa não funcionou.

— Eu sei.

Ela desejou tocar o ombro dele. A bolsa puxava a mão ferida, e o gesto ficaria perto demais do que ambos evitavam nomear. Manteve a mão onde estava.

Perto do mercado, o telefone mostrou duas barras de sinal.

Inês parou sob a marquise da venda. A água escorria por uma calha quebrada e formava uma cortina diante da rua. Davi depositou a caixa sobre um banco de madeira, sem tirar os olhos do caminho por onde haviam vindo.

Inês abriu a galeria.

As fotografias tremiam na tela porque seus dedos tremiam. Selecionou a ficha de Celeste, o registro de Lia, as páginas com os nomes das crianças e a carta encontrada na casa. Tentou enviar tudo para a delegacia do continente.

A primeira mensagem ficou presa.

Abriu o e-mail e digitou o endereço do tabelião. Anexou novamente os arquivos. Depois procurou o contato de uma antiga colega da enfermagem, Marta Soares, que trabalhava com o marido de uma promotora. Inês escreveu uma frase curta explicando que estava em Santa Dália, que havia encontrado registros de desaparecimentos ligados à Casa das Sete Chaves e que precisava que as imagens fossem salvas imediatamente.

A barra de envio avançou.

Parou perto do fim.

A fotografia da ficha de Celeste permaneceu com o círculo girando. O registro das crianças chegou à metade. A chuva engrossou e abafou os ruídos do mercado.

Davi ocupou a extremidade da marquise.

— Tem gente vindo?

— Ainda não.

— A caixa vai abrir se continuar molhando.

— Um minuto.

Ela digitou outra mensagem, desta vez sem anexos.

Meu nome é Inês Avelar. Estou em Santa Dália. Há documentos relativos a crianças desaparecidas, falsificação de nomes e mortes na Casa das Sete Chaves. Estamos sendo impedidos de chegar ao cais. Preciso de polícia e preservação imediata dos registros.

Antes que apertasse o botão, surgiu uma notificação do número desconhecido.

A maré escolhe melhor que a justiça.

Inês ficou imóvel.

A tela piscou. Um ponto de luz branco apareceu no centro, cresceu e desapareceu. O telefone apagou.

Ela apertou o botão lateral.

Nada.

Tentou reiniciar.

O aparelho permanecia preto. Um cheiro de plástico queimado subiu da borda inferior.

— Não — ela disse.

A palavra saiu entre os dentes.

Pressionou o botão outra vez. Bateu a lateral do telefone contra a palma. A vontade de arremessá-lo contra a parede cresceu junto com o desespero.

Davi segurou seu pulso.

A mão dele fechou-se com cuidado, longe da faixa.

— É o único aparelho.

— Está morto.

— Talvez dê para recuperar alguma coisa.

— Eles queimaram o telefone.

— Ainda temos os papéis.

Inês puxou o braço, sem força suficiente para afastá-lo de imediato.

— E vamos fazer o quê? Nadar até o continente com a caixa na cabeça?

— Há internet na cooperativa.

Ela o encarou.

— Onde?

— No cais. Usam para nota fiscal, previsão do tempo e registro das cargas. Tadeu tem um computador.

— Tadeu sabia?

Davi soltou o pulso dela.

— Foi amigo de Amaro. Brigaram antes de meu pai morrer.

— Isso não responde.

— Provavelmente sabia alguma coisa.

Inês guardou o telefone queimado.

— Então ele pode escolher o que vai saber hoje.

Davi pegou a caixa. Os dois correram.

A rua descia em curva. A sola das botas de Inês escorregava nas pedras lisas. A mão pulsava dentro da faixa, cada batida ligada à ferida aberta na casa. A bolsa golpeava sua lateral.

O cais apareceu no fim da rua.

Era uma estrutura comprida de madeira escura, cercada por barcos que subiam e desciam presos às cordas. A maré avançava depressa. Ondas curtas batiam nas estacas e espalhavam espuma contra as tábuas.

Ao lado do armazém havia uma sala com placa azul descascada.

COOPERATIVA.

A porta estava aberta.

Davi entrou primeiro.

Uma lâmpada fluorescente tremia no teto. O escritório tinha uma mesa de metal, um computador antigo, uma impressora coberta de manchas, um calendário de santos e um rádio de comunicação preso à parede. Mapas de pesca ocupavam um mural. O cheiro de café frio misturava-se ao de corda úmida.

Tadeu estava sentado diante da tela desligada.

Parecia esperar por eles.

Tinha mãos grandes, unhas quebradas e olhos vermelhos de cansaço. O cabelo branco se espalhava ao redor da cabeça. Um copo de café permanecia ao lado do teclado.

Ele olhou para Davi e depois para a caixa.

— Você fica parecido com Amaro quando carrega coisa sem perguntar o que tem dentro.

Davi colocou a caixa sobre a mesa. O impacto fez o copo pular.

— É por isso que eu pergunto agora.

Tadeu baixou os olhos.

Inês abriu a caixa.

Retirou o primeiro caderno. Depois as fichas, fotografias, cartas e cópias de certidões. Espalhou tudo diante do velho, ocupando o espaço do teclado até a borda da mesa.

Quando a fotografia de Lia apareceu, Tadeu não perguntou quem era.

A cabeça dele desceu.

— Diga o nome dela — Inês ordenou.

O homem esfregou as mãos nas calças.

— Lia.

— Lia o quê?

— Na época diziam Lia da Conceição.

— Filha de quem?

Tadeu respirou pela boca.

— Clara da Conceição.

Davi aproximou-se da mesa.

— Você levou Clara de barco?

O velho fechou os olhos.

— Uma vez.

— Quando?

— Ela estava grávida. Úrsula mandou que eu levasse Clara ao continente para comprar remédio. Havia uma febre na ilha, e a menina tinha medo de perder a criança. Fiz a travessia de manhã. Esperei no cais. Voltei com ela no fim do dia.

— E depois? — Inês perguntou.

— Úrsula mandou buscar as duas quando chegaram.

— Quem buscou?

— Amaro.

Davi recuou meio passo.

A luz trêmula acentuou a mancha em seu rosto.

— Meu pai?

— Ele trabalhava para a casa naquela época.

— O que aconteceu com Clara?

Tadeu não ergueu a cabeça.

— Nunca mais voltou ao cais.

A chuva tamborilava no telhado da cooperativa.

— Você procurou? — Davi perguntou.

— Não.

— Perguntou?

— Não.

— Viu Lia depois?

— De longe. Algumas vezes.

Davi apoiou as duas mãos na mesa. A faixa da direita deixou uma mancha no metal.

— E ficou quieto.

Tadeu ergueu os olhos.

— Eu tinha três filhos pequenos e uma dívida de barco. Úrsula pagou o motor novo. Amaro recebia para impedir perguntas. Eu aceitei não fazer nenhuma.

A explicação saía antiga, repetida muitas vezes dentro dele. Já não possuía defesa suficiente para soar como pedido de perdão.

Inês apontou para o computador.

— Perdão não serve como envio.

Tadeu olhou para ela.

— A conexão cai com chuva.

— Ligue.

— Podem cortar a energia.

— Ligue.

O velho alcançou o botão.

O computador demorou a reagir. Um ventilador interno começou a girar com ruído áspero. A tela acendeu em tons azulados. Surgiram letras brancas, depois um símbolo do sistema.

Inês observou a janela.

A maré batia mais alto. A rua do cais permanecia vazia. A ausência de gente parecia preparada.

— Tem scanner? — ela perguntou.

Tadeu puxou a impressora para perto.

— Na tampa.

— Digitalizamos primeiro os nomes das crianças.

O sistema terminou de carregar.

O cursor se arrastava pela tela. Tadeu abriu um programa. Inês colocou a primeira página sobre o vidro. A tampa não fechava direito, e ela precisou segurá-la com a mão boa.

O aparelho gemeu. Uma faixa de luz percorreu o papel.

Davi ficou junto à janela.

— Ninguém na rua — informou.

— Isso não me tranquiliza.

— Nem a mim.

O primeiro arquivo apareceu na tela. Tadeu tentou salvá-lo, errou a pasta e recomeçou. Inês conteve a impaciência. Cada operação exigia segundos demais. O modem piscava numa prateleira.

Ela ditou os endereços.

— Delegacia, tabelião e promotora.

— Tem certeza desse último?

— Tenho certeza do endereço. Sobre o resto, descobriremos.

Anexaram as fichas das crianças. Tadeu clicou em enviar.

A conexão demorou a responder.

Inês acompanhou a barra avançar. O corpo inteiro se concentrou naquele retângulo estreito. Quando chegou ao fim, surgiu uma confirmação.

Mensagem enviada.

Ela soltou o ar.

A alegria durou pouco, porém atravessou seu peito com força. Pelo menos uma parte deixara a ilha.

— Foi — disse.

Davi virou-se da janela. Os olhos dele encontraram os dela. Não sorriu. A expressão cedeu o bastante para mostrar que compreendia.

Uma parte saiu.

Digitalizaram a carta de Celeste. O arquivo travou na primeira tentativa. Na segunda, o programa fechou. Tadeu bateu na lateral do modem.

— Não faça isso — Inês disse.

— Às vezes funciona.

— E às vezes termina de quebrar.

Ele murmurou uma reza curta e abriu o programa outra vez.

Davi afastou a cortina da janela com dois dedos.

— Movimento perto do armazém.

— Quantos?

— Quatro.

Inês colocou a carta no scanner.

— Continue.

— Inês.

— Continue.

O leitor percorreu o papel. A caligrafia de Celeste apareceu ampliada na tela. Inês viu o próprio nome escrito pela mãe.

O arquivo foi anexado.

A barra de envio avançou até um terço. Parou. Voltou a avançar.

A porta bateu contra a parede.

Simão entrou primeiro. Dois homens vieram atrás dele. A quarta pessoa fechou um guarda-chuva preto e atravessou a soleira sem pressa.

Inês reconheceu o lenço.

Flores vermelhas bordadas sobre tecido escuro. O mesmo lenço da fotografia encontrada na igreja, embora a mulher diante dela tivesse pouco mais de cinquenta anos. Não era Adelaide. Não era Úrsula.

O rosto guardava traços da família Duarte. O nariz estreito, o queixo firme e os olhos claros lembravam a mulher de vermelho sem copiá-la.

— Esses documentos pertencem à família Duarte — ela disse.

Tadeu levantou-se.

Pareceu encolher diante dela.

Davi pegou a barra de ferro usada para travar a janela.

Inês viu a indicação na tela.

Envio concluído.

Puxou o pen drive que Tadeu conectara ao computador. O dispositivo ainda estava morno. Sem desviar o rosto da mulher, Inês levantou a borda da faixa e enfiou o pen drive sob a gaze.

A dor veio aguda.

O plástico pressionou a ferida, e sangue novo umedeceu o tecido.

— Quem é você? — Inês perguntou.

— Marta Duarte.

O nome ocupou o escritório.

— Sobrinha-neta de Úrsula Duarte — a mulher continuou. — Sou responsável pelas doações da igreja, pela farmácia e por boa parte dos barcos deste cais.

Inês olhou para Simão.

— Inclusive o dele?

— Principalmente.

Marta apoiou a ponta do guarda-chuva no chão.

— Qualquer envio feito daqui constitui roubo.

— Celeste assinou sob ameaça. Raul morreu tentando descobrir o que houve. Lia desapareceu. Há registros falsificados e crianças numeradas.

— Celeste assinou. Raul morreu. Lia desapareceu. Úrsula regularizou a propriedade antes de morrer.

Cada frase vinha pronta, usada para encerrar perguntas durante anos.

— Você ensaiou isso diante de quantas famílias? — Inês perguntou.

Marta estreitou os olhos.

— Remexer ossos destruirá pessoas que nada tiveram com esses acontecimentos.

— Essas pessoas incluem meninas trancadas em quartos?

A boca de Marta endureceu.

— A casa sempre exigiu cuidado.

— A casa não exige nada. Gente exige em nome dela.

— Úrsula compreendia coisas antigas que pessoas de fora chamam de crime porque lhes falta vocabulário.

Tadeu soltou uma risada baixa.

— Criança trancada tem vocabulário suficiente.

Simão avançou contra ele.

Davi interceptou o movimento. Os dois colidiram contra a parede. O calendário caiu, espalhando folhas no chão. Um dos homens segurou a barra de ferro. Davi puxou de volta.

O escritório se tornou estreito demais para todos.

Inês fechou a caixa e passou a alça pelo ombro. O papelão molhado cedeu contra seu corpo. Ela avançou até o rádio.

Apertou o botão.

Um chiado ocupou a sala.

— Emergência no cais de Santa Dália — disse. — Casa das Sete Chaves. Crianças desaparecidas, documentos enviados, ameaça em andamento. Repito, emergência no cais de Santa Dália.

Marta virou-se.

— Desligue.

Inês manteve o botão pressionado.

— Meu nome é Inês Avelar. Estou com Davi Ferraz e Tadeu...

Uma voz fraca surgiu no rádio.

— Santa Dália, informe posição e natureza...

Marta levantou o guarda-chuva e puxou o cabo da parede. O rádio morreu.

Davi empurrou Simão. Outro homem acertou seu rosto. A cabeça dele virou com o golpe, e sangue apareceu no lábio.

Inês sentiu a raiva ganhar direção.

Abriu a bolsa. Pegou o frasco de Úrsula e o arremessou no chão.

O vidro explodiu entre os pés de todos.

O líquido âmbar se espalhou. Um cheiro doce e medicinal tomou o escritório. Os homens recuaram por reflexo. Simão soltou a manga de Davi.

Marta permaneceu parada.

Olhou para o líquido, depois para Inês.

— Úrsula teria gostado de você.

— Úrsula gostava de fechadura. De mulher, ela entendia pouco.

Marta ergueu o guarda-chuva.

A ponta atingiu a mão ferida de Inês.

A dor apagou o contorno da sala. Ela bateu contra a mesa. O ombro derrubou o copo de café. A faixa se abriu perto do polegar, revelando a gaze vermelha.

— Inês! — Davi gritou.

Ele largou Simão e tentou alcançá-la.

Tadeu pegou a caixa.

Por um segundo, Inês pensou que ele fugiria com os documentos. O velho correu para a porta dos fundos.

— Tem um barco com motor pronto! — gritou.

Inês agarrou a bolsa. O pen drive cortava a ferida sob a faixa. Ela seguiu Tadeu.

Davi empurrou a barra de ferro contra os homens, ganhando espaço para recuar. Não conseguiu impedir que Simão segurasse sua camisa. Davi soltou um dos braços, girou e acertou o cotovelo no peito dele.

Inês alcançou a porta.

Do lado de fora, tábuas molhadas levavam diretamente à ponta do cais. A chuva batia de lado. O mar já cobria parte das estacas.

Tadeu apontou para um barco azul.

— Se sairmos agora, alcançamos a patrulha das cinco!

O barco era pequeno. Havia água acumulada no fundo, duas boias, um rádio e uma lona presa sob o banco.

Tadeu jogou a caixa dentro.

Inês apoiou o pé na borda. A mão boa escorregou, e o barco afastou-se alguns centímetros. Tadeu segurou seu braço e a puxou para dentro.

Davi saiu da cooperativa correndo.

Simão e os outros apareceram logo atrás.

Davi saltou para o barco, caiu de joelhos e puxou o canivete. A corda estava encharcada. Ele cortou uma vez. Duas. Na terceira, as fibras se romperam.

Tadeu procurou a ignição.

Marta chegou à porta do armazém.

Não correu até a ponta do cais. Ficou sob a chuva, o lenço colado ao rosto.

— Olívia Duarte! — gritou.

O barco inteiro tremeu.

Inês sentiu a sexta chave queimar dentro da bolsa. O calor atravessou o couro. Longe dali, na casa, a sétima chave respondeu.

O som não veio pelo ar. Vibrou nos dentes de Inês.

Tadeu girou a chave do motor.

Nada.

— De novo — Davi disse.

O velho tentou.

O motor engasgou, tossiu e começou a funcionar.

A hélice agitou a água. O barco afastou-se do cais sob os gritos de Simão.

Marta permaneceu imóvel.

— Olívia! — tornou a chamar.

Inês abriu a bolsa. Seis chaves batiam entre si. A carta de Celeste estava úmida nas bordas, protegida dentro de um plástico.

— Esse não é meu nome — disse, embora Marta já estivesse longe demais para ouvir.

O barco atravessou a baía.

Tadeu segurava o leme com as duas mãos. Davi retirava água do fundo usando um recipiente cortado. Inês manteve a caixa entre os pés. A chuva transformava o mar em uma superfície inquieta.

O rádio do barco chiou.

Tadeu soltou o leme por um instante e pegou o microfone.

— Patrulha costeira, aqui é embarcação de Santa Dália. Emergência. Três adultos, uma mulher ferida, documentos de investigação e ameaça no cais.

Uma voz respondeu.

Desta vez, clara.

— Embarcação de Santa Dália, informe posição e número total de ocupantes.

— Três... quatro — Tadeu corrigiu, olhando para Davi. — Quatro pessoas.

— Natureza da ocorrência?

Inês tomou o microfone.

— Meu nome é Inês Avelar. Encontramos registros de crianças desaparecidas na Casa das Sete Chaves. Há documentos enviados pela cooperativa, ameaças, agressão e tentativa de impedir a entrega.

— Informe nomes relacionados.

Ela olhou para a caixa.

— Maria Celeste da Conceição Avelar. Raul Avelar. Lia da Conceição. Clara da Conceição. Úrsula Duarte. Marta Duarte. Simão...

Tadeu forneceu o sobrenome.

Inês continuou. Mencionou o livro, as fichas e as cópias enviadas. A voz do operador pediu que permanecessem no canal.

Ao longe, uma sirene surgiu sobre o mar cinza.

Davi sentou-se diante dela. O corte no lábio aumentara. Um fio de sangue descia até o queixo. Ele pressionava o rosto com a mão esquerda.

Os olhos dele percorriam Inês devagar, verificando a faixa, a testa e o modo como ela respirava. Ela quis tocar o corte. Quis saber se o dente estava inteiro. Quis encostar os dedos no rosto dele e repousar ali durante alguns segundos.

Não fez isso.

O corpo de ambos ainda reagia ao perigo. Qualquer gesto de cuidado podia crescer além do que conseguiam sustentar.

A torre tocou.

O som alcançou o meio da baía através da chuva.

Tadeu olhou para a falésia.

— Isso não chega até aqui.

Chegava.

O mar ao redor do barco escureceu. Círculos surgiram na água, grandes demais para serem produzidos pelas gotas.

Na margem, as crianças apareceram enfileiradas.

Eram formas pálidas junto ao jardim. A distância deveria impedir que Inês distinguisse os rostos. Mesmo assim, reconheceu Lia à frente.

A boneca estava nos braços da menina.

Úrsula surgiu atrás dela. O vestido vermelho aderiu ao corpo. Na mão erguida, segurava a chave dourada.

Inês compreendeu.

Enviar os documentos retirava da casa o domínio exclusivo sobre os registros. A polícia poderia prender cúmplices, recolher livros e reabrir investigações. Úrsula ainda guardava as crianças. Lia continuaria no quarto dois enquanto a sétima porta permanecesse fechada.

Davi seguiu a direção do olhar de Inês.

Balançou a cabeça.

— Não.

Ela não havia falado.

— Você está pensando em voltar — ele disse.

Inês observou a menina na margem.

— Ela ainda está lá.

— Nós também quase ficamos.

— Os papéis saíram. Agora sabemos o que falta.

— Isso não torna a volta segura.

— Torna necessária.

Davi passou a mão pelo sangue no lábio.

— Inês...

A sirene aproximou-se. O barco da patrulha apareceu entre a chuva e o mar.

Ela não respondeu. Davi já conhecia a decisão.

A lancha encostou perto da entrada da baía. Dois agentes ajudaram Tadeu a aproximar o barco azul. Um terceiro fotografou a transferência da caixa antes de recebê-la.

Inês entregou os documentos um por um.

— Há um pen drive na faixa — disse.

O agente olhou para a mão.

— Dentro do curativo?

— Precisávamos escondê-lo.

Uma socorrista cortou a gaze com cuidado. O pen drive saiu manchado. Foi colocado num saco de prova e identificado diante dela.

— Precisa ir ao hospital — a socorrista disse.

— Depois.

— A ferida está aberta.

— Depois.

Um dos agentes se aproximou.

— Vamos levá-los ao continente. A equipe local já foi acionada.

Inês olhou para a casa.

— Eu volto com vocês.

— A senhora vai receber atendimento e prestar depoimento.

— Há uma criança dentro daquela casa.

O agente acompanhou seu olhar. Da lancha, a margem parecia vazia. As crianças haviam desaparecido.

— Encontraremos qualquer pessoa que estiver lá.

— Vocês não conseguirão chegar ao quarto sem as chaves.

— Que chaves?

Inês abriu a bolsa.

As seis peças metálicas estavam juntas no fundo. O agente franziu a testa.

— Isso será explicado no continente — Davi disse.

Ela virou-se para ele.

— Você concorda com eles?

— Concordo que voltar sangrando e sem plano entrega à casa uma mulher cansada, fácil de chamar.

A frase atingiu Inês porque não trazia medo por ele. Trazia confiança na capacidade dela de retornar melhor preparada.

Davi indicou a caixa nas mãos do agente.

— Voltamos com polícia. Com nomes impressos. Com cópias da recusa de Celeste suficientes para a casa engasgar.

Inês olhou para a faixa aberta.

A dor começava a subir pelo antebraço. O rosto de Davi inchava perto da boca. Tadeu tremia ao responder perguntas.

A volta naquele instante seria outra forma de obedecer ao desespero.

— Duas horas — ela disse ao agente.

— Não posso prometer tempo.

— Então seja rápido.

A travessia até o continente durou menos do que Inês imaginava e mais do que suportava. A equipe da capitania recolheu depoimentos preliminares. Um médico limpou a ferida, aplicou anestesia e refez os pontos rompidos. Inês recebeu antibiótico, gaze nova e instruções que não pretendia seguir integralmente.

O telefone queimado foi guardado como prova.

O tabelião confirmou o recebimento de um dos arquivos. A promotoria respondeu ao e-mail encaminhado pela colega de Inês. Havia nomes, datas e fotografias suficientes para justificar busca, preservação do imóvel e investigação formal.

Cópias foram impressas.

Inês permaneceu junto à máquina enquanto as folhas saíam. O som mecânico oferecia uma segurança estranha. Cada nome aparecia mais de uma vez. A casa já não poderia destruir tudo fechando uma gaveta.

Pela janela da capitania, Santa Dália parecia pequena.

A falésia desenhava uma linha escura. A casa ocupava o alto, bela à distância. Inês odiou aquela beleza. Durante anos, a fachada servira de disfarce para quem preferia acreditar que crueldade precisava parecer suja.

Davi entrou na sala com um curativo no rosto.

Colocou um copo de água diante dela.

— O médico disse para você beber.

— O médico disse muitas coisas.

— Essa parece simples.

Inês pegou o copo.

Davi sentou-se ao lado. A mão marcada pela quarta chave ficou sobre a mesa. A pele ao redor dos cortes estava avermelhada.

— Você poderia ficar — ela disse.

— No continente?

— Aqui. A polícia vai comigo.

— A casa conhece minha família.

— Exatamente.

— E conhece a sua.

Ela bebeu a água.

— Tenho medo de ela usar seu pai outra vez.

— Vai usar.

— Isso não assusta você?

— Assusta.

A resposta direta impediu que Inês argumentasse.

— Você não precisa provar nada — ela disse.

— Eu sei.

— Então por quê?

Davi olhou para a janela.

— Passei anos entrando naquela casa para consertar torneira, telhado, janela. Nunca abri a porta certa. Agora sei qual é.

Inês colocou o copo vazio na mesa.

A ternura possível entre eles surgia em coisas pequenas: água, gaze, uma cadeira puxada para perto. Nenhum dos dois tentou ampliá-la.

Quando voltaram à lancha, a noite começava a cair.

Uma equipe armada embarcou com eles. Havia câmeras, lanternas, equipamento médico e caixas para recolhimento de provas. Inês levava as cópias impressas junto ao corpo.

As seis chaves batiam na bolsa a cada passo.

Ao desembarcarem em Santa Dália, o cais estava vazio.

Nenhum barco saía. Nenhuma janela se abriu. Marta, Simão e os homens da cooperativa haviam desaparecido das ruas.

A equipe avançou pela subida. Os rádios funcionaram até a primeira curva.

Um deles chiou e apagou.

Outro agente bateu no aparelho.

— Bateria cheia.

— A chuva interfere? — perguntou o companheiro.

Inês continuou andando.

— Não confiem nos rádios depois do portão.

A Casa das Sete Chaves brilhava no alto.

Todas as luzes estavam acesas. Pela janela da sala de jantar, via-se a mesa posta. Pratos brancos, taças e velas esperavam convidados que ninguém convidara.

Lia estava na porta principal.

Segurava a boneca encharcada.

A menina parecia cansada. O cabelo colava-se às faces. Os pés descalços estavam firmes no primeiro degrau.

Inês subiu até ela.

— Lia.

A menina apontou para o segundo andar.

— Úrsula já preparou o nome.

A voz veio clara pela primeira vez.

Algo metálico caiu entre as duas.

A sétima chave repousava no chão, dourada e úmida. Não havia marca de dente.

Inês se abaixou e a pegou.

A porta atrás de Lia abriu-se.

Além dela, esperava o quarto sem número.

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