As Pedras da Maré A Casa das Sete Chaves · Capítulo 4 de 10
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As Pedras da Maré

O sapato branco apareceu entre as pedras com a discrição de uma coisa cansada de ficar escondida.

A maré recuara o bastante para revelar uma faixa escura de rochas, algas compridas e poças rasas. Pequenos peixes batiam contra as bordas, procurando a água que se afastava.

Inês atravessou o jardim sem pegar casaco. A segunda chave estava fechada em sua mão. O diário de Raul seguia preso sob o braço.

Davi veio atrás carregando uma vara retirada da casa de ferramentas. Já trocara as luvas molhadas, mas continuava com a mesma roupa usada no poço. A barra da camisa grudava no corpo. O joelho direito endurecia a cada passo.

A luz da manhã tornava a cena menos sobrenatural e, por isso, mais indecente. Durante a madrugada, a casa podia ser acusada de sonho, susto ou exaustão. Sob o céu claro, um sapato masculino preso em alga exigia nome, data e polícia.

Inês alcançou a primeira pedra.

A sola escorregou alguns centímetros.

Davi segurou seu cotovelo antes que ela perdesse o equilíbrio.

— Espere.

— Estou bem.

— A próxima é mais lisa.

Ela quis recusar o apoio. O sal cobria as rochas, e qualquer queda terminaria com a cabeça aberta antes de uma resposta.

Aceitou sem agradecer.

O contato entre os dois já não pertencia apenas a sustos de corredor. Essa mudança a irritava. Ela precisava desconfiar dele, de Amaro e de tudo ligado ao sobrenome Ferraz. Também precisava reconhecer que Davi permanecera na casa quando qualquer pessoa sensata teria corrido.

Ele testou a segunda pedra com a vara.

— Pise perto da parte alta.

Inês obedeceu.

A descida exigia movimentos lentos. O mar continuava recuando, deixando espuma nos vãos. Em algumas pedras, conchas quebradas formavam bordas cortantes.

O sapato estava a poucos metros.

Era de couro branco, manchado de água e terra. A alga atravessava o cadarço e o prendia entre duas rochas baixas.

Inês se abaixou.

Havia alguma coisa dentro.

Não era pé nem osso.

Um cartão de hospedagem estava dobrado no espaço onde o calcanhar deveria estar. O papel fora protegido por cera amarela.

Ela o retirou com cuidado.

Davi manteve a vara apoiada para impedir que o sapato voltasse à água.

Inês abriu o cartão.

O papel era igual ao encontrado no quarto número um.

Raul Avelar.

Hospedagem prorrogada.

Quarto um.

A data de saída continuava em branco.

Ela virou.

No verso havia uma anotação que não constava no primeiro cartão.

Levar recibo ao ancoradouro antes da missa.

Procurar Amaro.

Davi soltou o ar devagar.

Inês ergueu o papel.

— Seu pai.

— Sim.

— Amaro Ferraz.

— Sim.

— Você já tinha visto esse cartão?

— Nunca.

— Raul procurou seu pai.

Davi assentiu. O rosto se fechou.

— Amaro cuidava de barcos, cargas e reparos.

— E de quê mais?

— Favores que não entravam no livro da prefeitura.

— Contrabando?

— Às vezes.

— Gente?

Davi desviou os olhos para o mar.

— Não sei.

— Você precisa parar de responder isso.

— E você precisa aceitar que eu era criança quando aconteceu.

— Você cresceu.

— Cresci longe daqui. Meu pai nunca me entregou um registro das coisas que fez.

Inês dobrou o cartão novamente.

— Se Raul escreveu o nome dele, precisava de alguma coisa.

— Talvez uma viagem ao continente. Talvez quisesse denunciar Úrsula. Talvez tenha escolhido o pior homem da ilha para pedir ajuda.

— Ou seu pai prometeu ajudar e entregou Raul.

Davi apertou a vara.

— É possível.

A resposta direta interrompeu o impulso de Inês de pressioná-lo mais.

Ele usou a ponta da madeira para soltar a alga. O sapato saiu do vão entre as pedras.

Alguma coisa veio junto.

Um pacote pequeno, embrulhado em lona ressecada, estava preso sob a rocha por uma linha grossa de pesca.

Davi puxou devagar.

O pacote raspou na pedra e deixou uma mancha escura de ferrugem.

Inês sentiu medo de encontrar papel.

Em sua experiência no hospital, os mortos às vezes terminavam de sofrer. O corpo parava. A família recebia uma hora, um documento, um destino.

Papel continuava agindo depois.

Levaram o pacote até uma parte seca. Davi cortou a linha com o canivete. A lona se desfez nas bordas, revelando uma camada interna de tecido oleado.

Dentro havia recibos de pagamento, uma fotografia, uma medalha de São Pedro e um bilhete.

Inês pegou a fotografia primeiro.

Mostrava o ancoradouro durante uma festa noturna. Pequenas lâmpadas estavam presas em fios sobre a água. Havia gente junto aos barcos e mesas cobertas por toalhas claras. Na lateral, um homem aparecia de costas, usando chapéu claro.

Ela aproximou o papel do rosto.

— Pode ser o forasteiro?

— Pode.

— Você reconhece mais alguém?

Davi apontou para uma figura perto de um barco.

— Meu pai.

Amaro estava parcialmente virado para a câmera. Tinha braços cruzados e expressão fechada. Ao fundo, a torre da igreja aparecia iluminada.

Inês colocou a foto sobre a lona.

Os recibos registravam pagamentos sem descrição clara. Alguns traziam apenas valores e iniciais. A medalha de São Pedro tinha ferrugem em uma das bordas e um fio rompido preso ao aro.

O bilhete era de Raul para Celeste.

A letra avançava depressa pela página, inclinada e irregular.

Inês leu.

Raul descobrira a verdade sobre Lia.

Úrsula não podia manter a menina na casa.

Celeste precisava sair antes do jantar das sete chaves.

A última frase ocupava a parte inferior do papel.

Se eu faltar, procure a caverna abaixo do farol.

Davi levantou os olhos para o penhasco ao norte.

O farol ficava no alto, uma torre cinza cercada por mato. As janelas estavam escuras. Uma placa inclinada junto à trilha ainda exibia parte de um aviso.

— Está apagado há anos.

— Existe mesmo uma caverna?

— Só aparece na maré baixa.

— Quanto tempo até a água voltar?

Davi observou a linha úmida nas pedras, o movimento da espuma e o céu.

— Talvez duas horas.

— Talvez?

— A corrente muda depressa perto do farol.

— Dá para chegar?

— Dá.

— Dá para voltar?

— Se não demorarmos.

Inês guardou o bilhete entre as páginas do diário.

Uma parte dela queria retornar à casa, procurar sinal, ligar para a polícia, o tabelião, qualquer autoridade que pudesse assumir a investigação. O telefone permanecia inútil. Mesmo que funcionasse, ela teria de explicar um sapato deixado pela maré, um pacote protegido por cera e uma casa que escrevia nomes na poeira.

Olhou para as janelas do segundo andar.

A luz fraca da manhã refletia nos vidros. A Casa das Sete Chaves vigiava o jardim e o mar.

Voltar sem seguir o bilhete significaria passar o dia ouvindo Lia bater no poço.

— Vamos.

Davi recolheu o pacote.

— Pegue água antes.

— Não quero perder tempo.

— A trilha é longa.

— Você disse duas horas.

— E desidratar não acelera ninguém.

Inês retornou à cozinha, encheu duas garrafas e colocou o diário, as chaves, a pulseira, o bilhete e o cartão numa bolsa. Quando saiu, Davi havia enrolado a lona ao redor dos recibos e da fotografia.

Começaram a contornar a falésia.

A trilha seguia por baixo do terreno mais alto, usada um dia por pescadores. Em vários trechos, restava apenas uma faixa estreita entre a parede de pedra e o mar.

Davi ia à frente, testando o chão com a vara. Inês seguia com a bolsa batendo no quadril.

A casa diminuía atrás deles sem deixar de vigiar. Vista das pedras, parecia construída para observar tanto o jardim quanto o oceano. As sete janelas do andar superior formavam uma linha irregular. Algumas tinham cortinas. Outras mostravam apenas escuridão.

Inês pensou em Celeste trabalhando ali.

A mãe podia ter servido refeições, limpado quartos, levado sopa para Lia e ouvido conversas atrás de portas. Podia ter amado Raul. Podia ter desconfiado dele. Podia ter alternado carinho e raiva ao longo dos dias.

A Celeste que Inês conhecera cabia em poucas cenas de apartamento e plantão. Uniformes pendurados no banheiro. Caixas trancadas no alto do armário. Telefonemas encerrados quando a filha entrava. Um medo que nunca recebia nome.

A ilha revelava uma mulher maior e mais difícil.

Inês se ressentia de conhecer aquela versão apenas depois da morte.

Davi parou diante de um trecho coberto de algas.

— Pise onde eu pisar.

— Você faz isso desde criança?

— Meu pai me trazia até metade da trilha.

— Por quê?

— Para buscar ferramentas deixadas nos barcos.

— E até a caverna?

— Nunca.

— Ele proibia?

— Ele dizia que quem entrava lá podia voltar diferente.

— Você acreditava?

Davi testou a pedra seguinte.

— Eu acreditava em tudo que me impedia de apanhar.

Inês não respondeu.

No meio da trilha, encontraram uma cruz de madeira presa entre duas pedras.

O sal havia desgastado as pontas. Uma fita vermelha antiga estava amarrada na parte superior, desbotada pelo tempo. Não havia nome.

Davi parou.

— Pescadores deixam cruzes onde o mar devolve corpo.

Inês se aproximou.

— Quem foi devolvido aqui?

— Ninguém oficialmente.

A palavra continha a ilha inteira.

Ela se abaixou e tocou a base. A madeira estava úmida demais para tantos anos. Sob a fita vermelha, havia um entalhe raso.

R.A.

Inês passou o polegar sobre as letras.

— Raul Avelar.

Davi olhou para o mar.

— Pode ser.

— Quantas pessoas nesta ilha tinham essas iniciais?

— Não sei.

Ela retirou a mão.

— Você sempre recua no último passo.

— Não vou transformar suposição em certeza para deixar você satisfeita.

— A casa escreveu o nome de Raul. O sapato tinha o cartão dele. O bilhete mandou procurar a caverna. Agora há uma cruz com as iniciais.

— Tudo aponta para ele.

— Então diga.

Davi encarou a marca.

— Raul pode ter sido encontrado aqui.

— E enterrado onde?

— Talvez no cemitério.

— Sem nome.

— Talvez.

Inês olhou para a cruz. Raul podia ter sido devolvido, escondido, renomeado pela maré e enterrado sem cartório.

A casa guardava chaves.

A ilha guardava lápides sem nome.

Ela se levantou.

— Continue.

A caverna surgiu quando a trilha desceu por uma língua de pedra coberta de conchas quebradas.

A entrada era baixa, aberta na base do penhasco. A água batia perto da borda e recuava deixando espuma. Um ar frio saía do interior.

Davi acendeu a lanterna.

Inês pegou a segunda no bolso lateral da bolsa.

— Vamos marcar o tempo.

Ela conferiu o relógio.

— Trinta minutos lá dentro.

— Menos, se a água subir.

— Você vai me avisar.

— Vou mandar sair.

— Avisar.

Davi olhou para ela, cansado demais para discutir.

A abertura exigia que entrassem curvados. O teto baixo raspava na mochila de Davi. As paredes tinham faixas brancas que indicavam níveis anteriores da maré.

Depois de alguns metros, o corredor alargou.

Chegaram a uma sala natural. A água formava uma poça funda no centro. A superfície refletia os fachos das lanternas e o teto irregular.

Na parede à esquerda, alguém havia riscado datas, iniciais e desenhos de chaves.

Inês se aproximou.

Encontrou R.A.

Ao lado, C.A.

Mais abaixo, apenas L.

Havia também um símbolo semelhante a um olho.

As marcas não pareciam decoração. Formavam uma contagem feita por alguém que esperara no escuro e soubera que o tempo era curto.

Inês retirou o cartão do sapato.

O recibo mencionava o ancoradouro antes da missa.

Na parede, uma data igual estava gravada abaixo do desenho de um barco.

— Raul esteve aqui.

Davi aproximou a lanterna.

— Ou alguém registrou o nome dele.

— Por que faria isso?

— Não sei.

Ela soltou o ar pelo nariz.

Davi passou a mão perto das inscrições sem tocar.

— Meu pai desaparecia algumas noites. Voltava com cheiro de óleo, peixe e vela.

— Vela?

— Cera derretida. Eu reconhecia porque ele guardava velas para os barcos.

— Ou para esconder papéis.

— Pode ser.

— Quando criança, você nunca perguntou?

— Achava que todo adulto tinha turnos secretos.

Inês iluminou as iniciais C.A.

— Celeste Avelar.

— Pode ser.

— E L é Lia.

— Provavelmente.

— Amaro escondia os três aqui?

Davi observou a água.

— Ele poderia esconder qualquer coisa se Úrsula pagasse direito.

— Ou ameaçasse.

— Também.

O nome de Úrsula alterou a poça.

A superfície começou a tremer.

Não havia vento dentro da caverna.

Pequenos círculos nasceram no centro e avançaram até as bordas.

Algo brilhou no fundo.

Inês apontou a lanterna.

Uma caixa de metal estava presa entre pedras submersas. A tampa tinha três riscos.

Davi colocou a vara no chão e começou a tirar as botas.

— O que está fazendo?

— Buscando.

— Amarre a corda.

— Não trouxe.

— Então eu entro.

— A água pode ter buracos.

— E você conhece esta poça?

— Não. Tenho pernas mais compridas.

Ele entrou antes que Inês respondesse.

A água chegou aos tornozelos, depois aos joelhos. Davi inspirou com força ao sentir o frio. Avançou devagar, testando o fundo com os pés.

— Está firme?

— Até aqui.

A água subiu às coxas.

Ele alcançou a caixa e agarrou a alça lateral.

Puxou.

A peça não se moveu.

— Está presa.

— Por ferrugem?

— Ou encaixada entre as pedras.

Inês manteve a lanterna sobre suas mãos.

Davi tentou mover a caixa de um lado para outro. A alça rangeu.

Atrás de Inês, uma pedra caiu.

Ela virou.

Na parede oposta, surgiu a sombra de uma mulher.

Vestido vermelho.

Cabeça inclinada.

O vulto durou apenas o bastante para que Inês reconhecesse Úrsula antes de a luz alcançar a pedra vazia.

— Inês.

Davi a chamava dentro da água.

A caixa havia se soltado.

Ao mesmo tempo, a maré entrou pela abertura com um golpe mais forte.

A primeira onda alcançou os pés de Inês.

A segunda trouxe folhas, espuma e um pedaço de madeira escura.

— Saia daí.

Davi ergueu a caixa contra o peito e começou a voltar. O fundo escorregou sob seu pé.

Inês avançou até a borda da poça.

— Dê para mim.

— Está pesada.

— Dê.

Ele empurrou a caixa. Inês agarrou uma das laterais e arrastou para a pedra seca.

Outra onda entrou.

A água subiu depressa pelo chão da caverna.

Davi pegou as botas sem calçá-las. Inês colocou o diário dentro da camisa, junto ao corpo, e segurou a bolsa acima da cintura.

Correram curvados pelo corredor estreito.

O mar bateu atrás deles.

A espuma avançou pelas pedras. A água alcançou os tornozelos de Inês antes da saída.

Davi carregava a caixa junto ao peito. O metal escorregava contra a camisa molhada.

A entrada parecia menor a cada passo.

Ele saiu primeiro, virou-se e segurou o braço de Inês. Ela passou sob a rocha e sentiu a bolsa raspar no teto.

Alcançaram a parte alta da trilha.

Atrás deles, a entrada da caverna já estava coberta pela metade.

Davi caiu sentado, tossindo.

Inês largou a bolsa e se ajoelhou ao lado dele.

— Olhe para mim.

Ele levantou o rosto.

— Respire fundo.

Davi tentou. A tosse interrompeu.

Ela colocou dois dedos em seu pescoço e sentiu o pulso rápido. O gesto vinha de anos de trabalho. Ainda assim, a proximidade atingiu os dois de forma direta. Havia sal na boca, mãos tremendo e o calor do corpo dele sob os dedos frios.

Davi fechou os olhos.

A expressão não era dor.

Inês retirou a mão.

— Você está vivo.

Ele abriu os olhos.

— Percebi.

O comentário quase arrancou dela um sorriso.

A possibilidade a irritou.

— Tire a camisa.

Davi ergueu as sobrancelhas.

— Para eu examinar suas costelas.

Ele obedeceu. Inês apalpou a região atingida no poço. Havia uma mancha escura começando a surgir, mas nenhuma deformidade.

— Vai doer.

— Já dói.

— Consegue levantar os braços?

Davi levantou.

— Então vista de novo.

Enquanto ele se vestia, Inês voltou à caixa.

A tampa estava fechada por uma pequena fechadura.

Ela retirou a chave número dois.

— Não sabemos o que isso abre.

— Sabemos que saiu do quarto de Lia.

— Exatamente.

Inês encaixou a chave.

A fechadura aceitou sem resistência.

Girou.

A tampa abriu com um estalo.

Dentro havia papéis enrolados, uma fita de cabelo infantil, uma faca pequena com cabo de osso, três cartas e um saquinho de pano.

Inês pegou o saquinho.

Algo duro se moveu dentro.

Abriu.

Dentes de leite caíram em sua palma.

Ela soltou o ar e devolveu os dentes ao pano.

Davi fez o sinal da cruz sem perceber.

A fita de cabelo estava desbotada. Tinha um pequeno bordado floral. A faca mostrava pontos escuros junto à base da lâmina, impossíveis de identificar sob a ferrugem.

Inês pegou as cartas.

Todas eram de Raul para Celeste.

Nenhuma fora enviada.

A primeira dizia que Úrsula mantinha Lia trancada porque a menina sabia quem entrava no quarto sem número.

Inês parou.

— Quarto sem número.

— Nunca ouvi falar.

— Sete portas numeradas e uma sem número.

— Talvez não fique no corredor.

— Ou não aparece sempre.

Ela guardou a carta e abriu a segunda.

Raul dizia que Amaro aceitara levá-lo ao continente caso entregasse uma prova contra Úrsula antes da festa.

Inês mostrou o trecho a Davi.

— Seu pai aceitou ajudá-lo.

— Ou disse que aceitou.

— Que prova Raul tinha?

— Pode estar na casa.

— Pode estar na caixa.

Eles examinaram os recibos e papéis enrolados. Nenhum apresentava uma acusação clara. Havia valores, datas, iniciais e referências a barcos.

Inês abriu a terceira carta.

A letra era torta. Algumas palavras estavam borradas.

Raul pedia perdão por acreditar que conseguiria comprar saída para todos.

A última frase quase desaparecera na dobra.

Celeste, se nossa filha nascer, diga a ela que eu tentei voltar.

Inês leu uma vez.

Depois outra.

Na terceira, precisou apoiar a mão na pedra.

Nossa filha.

A confirmação chegava molhada e amassada, guardada com dentes de criança dentro de uma caixa de metal.

Raul podia ser seu pai.

Um homem sem sepultura oficial, reduzido a um sapato, três cartas e iniciais numa cruz.

Inês sentou-se.

Durante anos, imaginara dezenas de versões para a ausência paterna. Celeste nunca oferecera nenhuma. A filha aprendera a desistir da pergunta antes de terminá-la.

Agora Raul falava através de papel escondido sob água salgada.

Davi se sentou ao lado, mantendo distância suficiente para não tocá-la.

A contenção já começava a significar algo perigoso.

— Por que ela nunca me contou?

— Talvez tivesse medo.

— Ela tinha medo de tudo nesta ilha.

— Talvez contar trouxesse a casa atrás de vocês.

— A casa veio mesmo assim.

— Anos depois.

Inês apertou a carta entre os dedos.

— Ela deixou Lia.

— Talvez tenha tentado levá-la.

— Não conseguiu.

— Não.

— E nunca voltou.

Davi olhou para a entrada quase coberta da caverna.

— Talvez Celeste acreditasse que proteger uma filha exigia abandonar a outra.

— Isso não torna a escolha aceitável.

— Não.

— Então pare de defendê-la.

— Estou tentando entender.

— É fácil entender quando não foi você que cresceu sem resposta.

— Não é fácil.

Inês ergueu os olhos.

Davi continuou.

— Talvez ela tenha vivido vinte anos dentro dessa escolha. Talvez tenha preparado as sete noites para corrigir a parte que ainda podia corrigir.

A hipótese era generosa.

Inês a odiou.

Odiou ainda mais precisar dela.

Um sino tocou ao longe.

O som veio da casa, levado pelo vento. Não era o pequeno sino da recepção. Era grave e comprido.

Davi se levantou.

— A torre.

Inês olhou para o telhado da Casa das Sete Chaves.

Acima dele havia uma pequena estrutura que ela ainda não notara.

— Que sino é esse?

— Foi retirado da igreja antiga.

— Por quê?

— Ninguém sabe ao certo.

— Quando tocava?

— Em velórios. Pelo menos quando havia gente viva puxando a corda.

A casa brilhava no alto da falésia.

Uma das janelas do segundo andar estava aberta.

No batente havia uma figura pequena demais para ser adulta.

Inês levantou a mão sem pensar.

A figura respondeu com o mesmo gesto.

Depois desapareceu para dentro.

— Lia.

— Ou a casa usando Lia.

Inês fechou a caixa.

No fundo do metal, havia alguma coisa que não estava ali segundos antes.

Uma terceira chave.

Era de cobre, longa, com dentes tortos. O número três fora gravado de modo irregular, quase infantil.

Inês manteve as mãos afastadas.

Davi se agachou.

— Não toque.

— Eu não ia tocar.

Ele pegou o saquinho com dentes de leite e envolveu a chave.

— Isso apareceu agora.

— Sim.

— A casa entrega chaves fora dos quartos?

— Parece que decidiu mudar a regra.

— Por quê?

— Trouxemos prova de fora.

— A caixa pertencia a Raul.

— E ficou longe da casa por anos.

Davi fechou a tampa.

— A terceira porta pode abrir antes da segunda noite acabar.

— Você fala por tradição ou trauma?

— Em Santa Dália, as duas coisas moram no mesmo quarto.

A frase saiu cansada. Não tinha orgulho nem desejo de impressionar.

Eles improvisaram duas alças de corda ao redor da caixa. Cada um segurou um lado.

Voltaram pela trilha.

O objeto exigia cuidado nas pedras mais estreitas. Em alguns pontos, precisaram depositá-lo no chão, avançar e puxá-lo. A maré cobria depressa os trechos baixos.

A cruz com as iniciais de Raul já estava cercada de água quando passaram.

Inês olhou para trás apenas uma vez.

Ao longe, a entrada da caverna havia desaparecido.

Quando chegaram ao jardim, o poço estava fechado.

A tampa de concreto voltara ao lugar.

Não havia marcas de alavanca, musgo arrancado ou terra revirada. A superfície parecia intocada havia anos.

Sobre o concreto seco estavam uma vela vermelha apagada e um prato contendo sete grãos de milho inchados pela umidade.

Davi deixou a caixa no chão e recuou.

— O que é isso?

— Coisa de Úrsula.

— Explique.

— Uma oferenda doméstica. A ilha fingia que era superstição de velha rica.

— Para quê?

— Nunca me disseram.

Inês retirou um pedaço de papel da bolsa. Usou-o para pegar um dos grãos.

O cheiro era amargo.

— Tem remédio.

Davi se aproximou sem tocar.

— Ou veneno.

— Vou guardar para analisar.

Ela envolveu o grão no papel e colocou dentro de um compartimento da bolsa.

O sino grave tocou de novo.

Uma janela bateu no segundo andar.

Depois outra.

As sete janelas dos quartos numerados se abriram ao mesmo tempo.

Do saguão veio o ruído do relógio.

O mecanismo avançou um minuto.

Duas e vinte.

Inês pegou uma das alças da caixa.

Davi segurou a outra.

Entraram pela cozinha.

O balcão da recepção estava limpo.

Nenhum nome na poeira. Nenhum desenho de barco. Nenhuma ordem escrita por dedo invisível.

A ausência de mensagem assustou Inês mais que as frases anteriores.

A casa preparava alguma coisa.

Davi fechou a porta principal e colocou uma cadeira sob a maçaneta. O gesto era infantil diante do que tinham visto. Também era compreensível.

Levaram a caixa para a sala de jantar.

Inês abriu a tampa sobre a mesa e começou a organizar tudo.

As cartas de Raul ficaram juntas.

O cartão de hospedagem ao lado do bilhete para Celeste.

A pulseira de contas verdes perto do cartão de batismo.

A faca, os dentes e a fita de cabelo foram separados sobre um pano limpo.

A boneca azul permaneceu numa cadeira.

Davi observava a disposição dos objetos.

— Parece uma mesa de autópsia.

— É investigação.

— Você acredita que isso serve como prova?

A palavra ofereceu a Inês uma segurança breve.

— Cartas, recibos, datas, fotografia. Tudo pode ser examinado.

— E os dentes?

— DNA.

— Depois de tantos anos?

— Talvez.

— Da boneca?

— Fibra, umidade, material preso nas costuras.

— E a faca?

— Sangue, se ainda houver.

Davi olhou para a terceira chave, ainda embrulhada.

— E isso?

— Não vai para laboratório antes de abrir a porta.

A luz apagou.

A sala mergulhou na escuridão.

Davi procurou a lanterna.

No andar de cima, uma cadeira foi arrastada.

O ruído atravessou o teto devagar.

Inês encontrou a lanterna e tentou acendê-la.

Nada.

Outra cadeira se moveu acima deles.

A terceira chave caiu sozinha sobre a mesa, livre do saquinho.

O metal de cobre girou entre as cartas de Raul e parou com os dentes apontados para a escada.

De algum ponto no segundo andar, uma voz de mulher adulta chamou por Raul.

Havia ternura suficiente naquele chamado para torná-lo uma ameaça.

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