As Pedras da Maré
O sapato branco apareceu entre as pedras com a discrição de uma coisa cansada de ficar escondida.
A maré recuara o bastante para revelar uma faixa escura de rochas, algas compridas e poças rasas. Pequenos peixes batiam contra as bordas, procurando a água que se afastava.
Inês atravessou o jardim sem pegar casaco. A segunda chave estava fechada em sua mão. O diário de Raul seguia preso sob o braço.
Davi veio atrás carregando uma vara retirada da casa de ferramentas. Já trocara as luvas molhadas, mas continuava com a mesma roupa usada no poço. A barra da camisa grudava no corpo. O joelho direito endurecia a cada passo.
A luz da manhã tornava a cena menos sobrenatural e, por isso, mais indecente. Durante a madrugada, a casa podia ser acusada de sonho, susto ou exaustão. Sob o céu claro, um sapato masculino preso em alga exigia nome, data e polícia.
Inês alcançou a primeira pedra.
A sola escorregou alguns centímetros.
Davi segurou seu cotovelo antes que ela perdesse o equilíbrio.
— Espere.
— Estou bem.
— A próxima é mais lisa.
Ela quis recusar o apoio. O sal cobria as rochas, e qualquer queda terminaria com a cabeça aberta antes de uma resposta.
Aceitou sem agradecer.
O contato entre os dois já não pertencia apenas a sustos de corredor. Essa mudança a irritava. Ela precisava desconfiar dele, de Amaro e de tudo ligado ao sobrenome Ferraz. Também precisava reconhecer que Davi permanecera na casa quando qualquer pessoa sensata teria corrido.
Ele testou a segunda pedra com a vara.
— Pise perto da parte alta.
Inês obedeceu.
A descida exigia movimentos lentos. O mar continuava recuando, deixando espuma nos vãos. Em algumas pedras, conchas quebradas formavam bordas cortantes.
O sapato estava a poucos metros.
Era de couro branco, manchado de água e terra. A alga atravessava o cadarço e o prendia entre duas rochas baixas.
Inês se abaixou.
Havia alguma coisa dentro.
Não era pé nem osso.
Um cartão de hospedagem estava dobrado no espaço onde o calcanhar deveria estar. O papel fora protegido por cera amarela.
Ela o retirou com cuidado.
Davi manteve a vara apoiada para impedir que o sapato voltasse à água.
Inês abriu o cartão.
O papel era igual ao encontrado no quarto número um.
Raul Avelar.
Hospedagem prorrogada.
Quarto um.
A data de saída continuava em branco.
Ela virou.
No verso havia uma anotação que não constava no primeiro cartão.
Levar recibo ao ancoradouro antes da missa.
Procurar Amaro.
Davi soltou o ar devagar.
Inês ergueu o papel.
— Seu pai.
— Sim.
— Amaro Ferraz.
— Sim.
— Você já tinha visto esse cartão?
— Nunca.
— Raul procurou seu pai.
Davi assentiu. O rosto se fechou.
— Amaro cuidava de barcos, cargas e reparos.
— E de quê mais?
— Favores que não entravam no livro da prefeitura.
— Contrabando?
— Às vezes.
— Gente?
Davi desviou os olhos para o mar.
— Não sei.
— Você precisa parar de responder isso.
— E você precisa aceitar que eu era criança quando aconteceu.
— Você cresceu.
— Cresci longe daqui. Meu pai nunca me entregou um registro das coisas que fez.
Inês dobrou o cartão novamente.
— Se Raul escreveu o nome dele, precisava de alguma coisa.
— Talvez uma viagem ao continente. Talvez quisesse denunciar Úrsula. Talvez tenha escolhido o pior homem da ilha para pedir ajuda.
— Ou seu pai prometeu ajudar e entregou Raul.
Davi apertou a vara.
— É possível.
A resposta direta interrompeu o impulso de Inês de pressioná-lo mais.
Ele usou a ponta da madeira para soltar a alga. O sapato saiu do vão entre as pedras.
Alguma coisa veio junto.
Um pacote pequeno, embrulhado em lona ressecada, estava preso sob a rocha por uma linha grossa de pesca.
Davi puxou devagar.
O pacote raspou na pedra e deixou uma mancha escura de ferrugem.
Inês sentiu medo de encontrar papel.
Em sua experiência no hospital, os mortos às vezes terminavam de sofrer. O corpo parava. A família recebia uma hora, um documento, um destino.
Papel continuava agindo depois.
Levaram o pacote até uma parte seca. Davi cortou a linha com o canivete. A lona se desfez nas bordas, revelando uma camada interna de tecido oleado.
Dentro havia recibos de pagamento, uma fotografia, uma medalha de São Pedro e um bilhete.
Inês pegou a fotografia primeiro.
Mostrava o ancoradouro durante uma festa noturna. Pequenas lâmpadas estavam presas em fios sobre a água. Havia gente junto aos barcos e mesas cobertas por toalhas claras. Na lateral, um homem aparecia de costas, usando chapéu claro.
Ela aproximou o papel do rosto.
— Pode ser o forasteiro?
— Pode.
— Você reconhece mais alguém?
Davi apontou para uma figura perto de um barco.
— Meu pai.
Amaro estava parcialmente virado para a câmera. Tinha braços cruzados e expressão fechada. Ao fundo, a torre da igreja aparecia iluminada.
Inês colocou a foto sobre a lona.
Os recibos registravam pagamentos sem descrição clara. Alguns traziam apenas valores e iniciais. A medalha de São Pedro tinha ferrugem em uma das bordas e um fio rompido preso ao aro.
O bilhete era de Raul para Celeste.
A letra avançava depressa pela página, inclinada e irregular.
Inês leu.
Raul descobrira a verdade sobre Lia.
Úrsula não podia manter a menina na casa.
Celeste precisava sair antes do jantar das sete chaves.
A última frase ocupava a parte inferior do papel.
Se eu faltar, procure a caverna abaixo do farol.
Davi levantou os olhos para o penhasco ao norte.
O farol ficava no alto, uma torre cinza cercada por mato. As janelas estavam escuras. Uma placa inclinada junto à trilha ainda exibia parte de um aviso.
— Está apagado há anos.
— Existe mesmo uma caverna?
— Só aparece na maré baixa.
— Quanto tempo até a água voltar?
Davi observou a linha úmida nas pedras, o movimento da espuma e o céu.
— Talvez duas horas.
— Talvez?
— A corrente muda depressa perto do farol.
— Dá para chegar?
— Dá.
— Dá para voltar?
— Se não demorarmos.
Inês guardou o bilhete entre as páginas do diário.
Uma parte dela queria retornar à casa, procurar sinal, ligar para a polícia, o tabelião, qualquer autoridade que pudesse assumir a investigação. O telefone permanecia inútil. Mesmo que funcionasse, ela teria de explicar um sapato deixado pela maré, um pacote protegido por cera e uma casa que escrevia nomes na poeira.
Olhou para as janelas do segundo andar.
A luz fraca da manhã refletia nos vidros. A Casa das Sete Chaves vigiava o jardim e o mar.
Voltar sem seguir o bilhete significaria passar o dia ouvindo Lia bater no poço.
— Vamos.
Davi recolheu o pacote.
— Pegue água antes.
— Não quero perder tempo.
— A trilha é longa.
— Você disse duas horas.
— E desidratar não acelera ninguém.
Inês retornou à cozinha, encheu duas garrafas e colocou o diário, as chaves, a pulseira, o bilhete e o cartão numa bolsa. Quando saiu, Davi havia enrolado a lona ao redor dos recibos e da fotografia.
Começaram a contornar a falésia.
A trilha seguia por baixo do terreno mais alto, usada um dia por pescadores. Em vários trechos, restava apenas uma faixa estreita entre a parede de pedra e o mar.
Davi ia à frente, testando o chão com a vara. Inês seguia com a bolsa batendo no quadril.
A casa diminuía atrás deles sem deixar de vigiar. Vista das pedras, parecia construída para observar tanto o jardim quanto o oceano. As sete janelas do andar superior formavam uma linha irregular. Algumas tinham cortinas. Outras mostravam apenas escuridão.
Inês pensou em Celeste trabalhando ali.
A mãe podia ter servido refeições, limpado quartos, levado sopa para Lia e ouvido conversas atrás de portas. Podia ter amado Raul. Podia ter desconfiado dele. Podia ter alternado carinho e raiva ao longo dos dias.
A Celeste que Inês conhecera cabia em poucas cenas de apartamento e plantão. Uniformes pendurados no banheiro. Caixas trancadas no alto do armário. Telefonemas encerrados quando a filha entrava. Um medo que nunca recebia nome.
A ilha revelava uma mulher maior e mais difícil.
Inês se ressentia de conhecer aquela versão apenas depois da morte.
Davi parou diante de um trecho coberto de algas.
— Pise onde eu pisar.
— Você faz isso desde criança?
— Meu pai me trazia até metade da trilha.
— Por quê?
— Para buscar ferramentas deixadas nos barcos.
— E até a caverna?
— Nunca.
— Ele proibia?
— Ele dizia que quem entrava lá podia voltar diferente.
— Você acreditava?
Davi testou a pedra seguinte.
— Eu acreditava em tudo que me impedia de apanhar.
Inês não respondeu.
No meio da trilha, encontraram uma cruz de madeira presa entre duas pedras.
O sal havia desgastado as pontas. Uma fita vermelha antiga estava amarrada na parte superior, desbotada pelo tempo. Não havia nome.
Davi parou.
— Pescadores deixam cruzes onde o mar devolve corpo.
Inês se aproximou.
— Quem foi devolvido aqui?
— Ninguém oficialmente.
A palavra continha a ilha inteira.
Ela se abaixou e tocou a base. A madeira estava úmida demais para tantos anos. Sob a fita vermelha, havia um entalhe raso.
R.A.
Inês passou o polegar sobre as letras.
— Raul Avelar.
Davi olhou para o mar.
— Pode ser.
— Quantas pessoas nesta ilha tinham essas iniciais?
— Não sei.
Ela retirou a mão.
— Você sempre recua no último passo.
— Não vou transformar suposição em certeza para deixar você satisfeita.
— A casa escreveu o nome de Raul. O sapato tinha o cartão dele. O bilhete mandou procurar a caverna. Agora há uma cruz com as iniciais.
— Tudo aponta para ele.
— Então diga.
Davi encarou a marca.
— Raul pode ter sido encontrado aqui.
— E enterrado onde?
— Talvez no cemitério.
— Sem nome.
— Talvez.
Inês olhou para a cruz. Raul podia ter sido devolvido, escondido, renomeado pela maré e enterrado sem cartório.
A casa guardava chaves.
A ilha guardava lápides sem nome.
Ela se levantou.
— Continue.
A caverna surgiu quando a trilha desceu por uma língua de pedra coberta de conchas quebradas.
A entrada era baixa, aberta na base do penhasco. A água batia perto da borda e recuava deixando espuma. Um ar frio saía do interior.
Davi acendeu a lanterna.
Inês pegou a segunda no bolso lateral da bolsa.
— Vamos marcar o tempo.
Ela conferiu o relógio.
— Trinta minutos lá dentro.
— Menos, se a água subir.
— Você vai me avisar.
— Vou mandar sair.
— Avisar.
Davi olhou para ela, cansado demais para discutir.
A abertura exigia que entrassem curvados. O teto baixo raspava na mochila de Davi. As paredes tinham faixas brancas que indicavam níveis anteriores da maré.
Depois de alguns metros, o corredor alargou.
Chegaram a uma sala natural. A água formava uma poça funda no centro. A superfície refletia os fachos das lanternas e o teto irregular.
Na parede à esquerda, alguém havia riscado datas, iniciais e desenhos de chaves.
Inês se aproximou.
Encontrou R.A.
Ao lado, C.A.
Mais abaixo, apenas L.
Havia também um símbolo semelhante a um olho.
As marcas não pareciam decoração. Formavam uma contagem feita por alguém que esperara no escuro e soubera que o tempo era curto.
Inês retirou o cartão do sapato.
O recibo mencionava o ancoradouro antes da missa.
Na parede, uma data igual estava gravada abaixo do desenho de um barco.
— Raul esteve aqui.
Davi aproximou a lanterna.
— Ou alguém registrou o nome dele.
— Por que faria isso?
— Não sei.
Ela soltou o ar pelo nariz.
Davi passou a mão perto das inscrições sem tocar.
— Meu pai desaparecia algumas noites. Voltava com cheiro de óleo, peixe e vela.
— Vela?
— Cera derretida. Eu reconhecia porque ele guardava velas para os barcos.
— Ou para esconder papéis.
— Pode ser.
— Quando criança, você nunca perguntou?
— Achava que todo adulto tinha turnos secretos.
Inês iluminou as iniciais C.A.
— Celeste Avelar.
— Pode ser.
— E L é Lia.
— Provavelmente.
— Amaro escondia os três aqui?
Davi observou a água.
— Ele poderia esconder qualquer coisa se Úrsula pagasse direito.
— Ou ameaçasse.
— Também.
O nome de Úrsula alterou a poça.
A superfície começou a tremer.
Não havia vento dentro da caverna.
Pequenos círculos nasceram no centro e avançaram até as bordas.
Algo brilhou no fundo.
Inês apontou a lanterna.
Uma caixa de metal estava presa entre pedras submersas. A tampa tinha três riscos.
Davi colocou a vara no chão e começou a tirar as botas.
— O que está fazendo?
— Buscando.
— Amarre a corda.
— Não trouxe.
— Então eu entro.
— A água pode ter buracos.
— E você conhece esta poça?
— Não. Tenho pernas mais compridas.
Ele entrou antes que Inês respondesse.
A água chegou aos tornozelos, depois aos joelhos. Davi inspirou com força ao sentir o frio. Avançou devagar, testando o fundo com os pés.
— Está firme?
— Até aqui.
A água subiu às coxas.
Ele alcançou a caixa e agarrou a alça lateral.
Puxou.
A peça não se moveu.
— Está presa.
— Por ferrugem?
— Ou encaixada entre as pedras.
Inês manteve a lanterna sobre suas mãos.
Davi tentou mover a caixa de um lado para outro. A alça rangeu.
Atrás de Inês, uma pedra caiu.
Ela virou.
Na parede oposta, surgiu a sombra de uma mulher.
Vestido vermelho.
Cabeça inclinada.
O vulto durou apenas o bastante para que Inês reconhecesse Úrsula antes de a luz alcançar a pedra vazia.
— Inês.
Davi a chamava dentro da água.
A caixa havia se soltado.
Ao mesmo tempo, a maré entrou pela abertura com um golpe mais forte.
A primeira onda alcançou os pés de Inês.
A segunda trouxe folhas, espuma e um pedaço de madeira escura.
— Saia daí.
Davi ergueu a caixa contra o peito e começou a voltar. O fundo escorregou sob seu pé.
Inês avançou até a borda da poça.
— Dê para mim.
— Está pesada.
— Dê.
Ele empurrou a caixa. Inês agarrou uma das laterais e arrastou para a pedra seca.
Outra onda entrou.
A água subiu depressa pelo chão da caverna.
Davi pegou as botas sem calçá-las. Inês colocou o diário dentro da camisa, junto ao corpo, e segurou a bolsa acima da cintura.
Correram curvados pelo corredor estreito.
O mar bateu atrás deles.
A espuma avançou pelas pedras. A água alcançou os tornozelos de Inês antes da saída.
Davi carregava a caixa junto ao peito. O metal escorregava contra a camisa molhada.
A entrada parecia menor a cada passo.
Ele saiu primeiro, virou-se e segurou o braço de Inês. Ela passou sob a rocha e sentiu a bolsa raspar no teto.
Alcançaram a parte alta da trilha.
Atrás deles, a entrada da caverna já estava coberta pela metade.
Davi caiu sentado, tossindo.
Inês largou a bolsa e se ajoelhou ao lado dele.
— Olhe para mim.
Ele levantou o rosto.
— Respire fundo.
Davi tentou. A tosse interrompeu.
Ela colocou dois dedos em seu pescoço e sentiu o pulso rápido. O gesto vinha de anos de trabalho. Ainda assim, a proximidade atingiu os dois de forma direta. Havia sal na boca, mãos tremendo e o calor do corpo dele sob os dedos frios.
Davi fechou os olhos.
A expressão não era dor.
Inês retirou a mão.
— Você está vivo.
Ele abriu os olhos.
— Percebi.
O comentário quase arrancou dela um sorriso.
A possibilidade a irritou.
— Tire a camisa.
Davi ergueu as sobrancelhas.
— Para eu examinar suas costelas.
Ele obedeceu. Inês apalpou a região atingida no poço. Havia uma mancha escura começando a surgir, mas nenhuma deformidade.
— Vai doer.
— Já dói.
— Consegue levantar os braços?
Davi levantou.
— Então vista de novo.
Enquanto ele se vestia, Inês voltou à caixa.
A tampa estava fechada por uma pequena fechadura.
Ela retirou a chave número dois.
— Não sabemos o que isso abre.
— Sabemos que saiu do quarto de Lia.
— Exatamente.
Inês encaixou a chave.
A fechadura aceitou sem resistência.
Girou.
A tampa abriu com um estalo.
Dentro havia papéis enrolados, uma fita de cabelo infantil, uma faca pequena com cabo de osso, três cartas e um saquinho de pano.
Inês pegou o saquinho.
Algo duro se moveu dentro.
Abriu.
Dentes de leite caíram em sua palma.
Ela soltou o ar e devolveu os dentes ao pano.
Davi fez o sinal da cruz sem perceber.
A fita de cabelo estava desbotada. Tinha um pequeno bordado floral. A faca mostrava pontos escuros junto à base da lâmina, impossíveis de identificar sob a ferrugem.
Inês pegou as cartas.
Todas eram de Raul para Celeste.
Nenhuma fora enviada.
A primeira dizia que Úrsula mantinha Lia trancada porque a menina sabia quem entrava no quarto sem número.
Inês parou.
— Quarto sem número.
— Nunca ouvi falar.
— Sete portas numeradas e uma sem número.
— Talvez não fique no corredor.
— Ou não aparece sempre.
Ela guardou a carta e abriu a segunda.
Raul dizia que Amaro aceitara levá-lo ao continente caso entregasse uma prova contra Úrsula antes da festa.
Inês mostrou o trecho a Davi.
— Seu pai aceitou ajudá-lo.
— Ou disse que aceitou.
— Que prova Raul tinha?
— Pode estar na casa.
— Pode estar na caixa.
Eles examinaram os recibos e papéis enrolados. Nenhum apresentava uma acusação clara. Havia valores, datas, iniciais e referências a barcos.
Inês abriu a terceira carta.
A letra era torta. Algumas palavras estavam borradas.
Raul pedia perdão por acreditar que conseguiria comprar saída para todos.
A última frase quase desaparecera na dobra.
Celeste, se nossa filha nascer, diga a ela que eu tentei voltar.
Inês leu uma vez.
Depois outra.
Na terceira, precisou apoiar a mão na pedra.
Nossa filha.
A confirmação chegava molhada e amassada, guardada com dentes de criança dentro de uma caixa de metal.
Raul podia ser seu pai.
Um homem sem sepultura oficial, reduzido a um sapato, três cartas e iniciais numa cruz.
Inês sentou-se.
Durante anos, imaginara dezenas de versões para a ausência paterna. Celeste nunca oferecera nenhuma. A filha aprendera a desistir da pergunta antes de terminá-la.
Agora Raul falava através de papel escondido sob água salgada.
Davi se sentou ao lado, mantendo distância suficiente para não tocá-la.
A contenção já começava a significar algo perigoso.
— Por que ela nunca me contou?
— Talvez tivesse medo.
— Ela tinha medo de tudo nesta ilha.
— Talvez contar trouxesse a casa atrás de vocês.
— A casa veio mesmo assim.
— Anos depois.
Inês apertou a carta entre os dedos.
— Ela deixou Lia.
— Talvez tenha tentado levá-la.
— Não conseguiu.
— Não.
— E nunca voltou.
Davi olhou para a entrada quase coberta da caverna.
— Talvez Celeste acreditasse que proteger uma filha exigia abandonar a outra.
— Isso não torna a escolha aceitável.
— Não.
— Então pare de defendê-la.
— Estou tentando entender.
— É fácil entender quando não foi você que cresceu sem resposta.
— Não é fácil.
Inês ergueu os olhos.
Davi continuou.
— Talvez ela tenha vivido vinte anos dentro dessa escolha. Talvez tenha preparado as sete noites para corrigir a parte que ainda podia corrigir.
A hipótese era generosa.
Inês a odiou.
Odiou ainda mais precisar dela.
Um sino tocou ao longe.
O som veio da casa, levado pelo vento. Não era o pequeno sino da recepção. Era grave e comprido.
Davi se levantou.
— A torre.
Inês olhou para o telhado da Casa das Sete Chaves.
Acima dele havia uma pequena estrutura que ela ainda não notara.
— Que sino é esse?
— Foi retirado da igreja antiga.
— Por quê?
— Ninguém sabe ao certo.
— Quando tocava?
— Em velórios. Pelo menos quando havia gente viva puxando a corda.
A casa brilhava no alto da falésia.
Uma das janelas do segundo andar estava aberta.
No batente havia uma figura pequena demais para ser adulta.
Inês levantou a mão sem pensar.
A figura respondeu com o mesmo gesto.
Depois desapareceu para dentro.
— Lia.
— Ou a casa usando Lia.
Inês fechou a caixa.
No fundo do metal, havia alguma coisa que não estava ali segundos antes.
Uma terceira chave.
Era de cobre, longa, com dentes tortos. O número três fora gravado de modo irregular, quase infantil.
Inês manteve as mãos afastadas.
Davi se agachou.
— Não toque.
— Eu não ia tocar.
Ele pegou o saquinho com dentes de leite e envolveu a chave.
— Isso apareceu agora.
— Sim.
— A casa entrega chaves fora dos quartos?
— Parece que decidiu mudar a regra.
— Por quê?
— Trouxemos prova de fora.
— A caixa pertencia a Raul.
— E ficou longe da casa por anos.
Davi fechou a tampa.
— A terceira porta pode abrir antes da segunda noite acabar.
— Você fala por tradição ou trauma?
— Em Santa Dália, as duas coisas moram no mesmo quarto.
A frase saiu cansada. Não tinha orgulho nem desejo de impressionar.
Eles improvisaram duas alças de corda ao redor da caixa. Cada um segurou um lado.
Voltaram pela trilha.
O objeto exigia cuidado nas pedras mais estreitas. Em alguns pontos, precisaram depositá-lo no chão, avançar e puxá-lo. A maré cobria depressa os trechos baixos.
A cruz com as iniciais de Raul já estava cercada de água quando passaram.
Inês olhou para trás apenas uma vez.
Ao longe, a entrada da caverna havia desaparecido.
Quando chegaram ao jardim, o poço estava fechado.
A tampa de concreto voltara ao lugar.
Não havia marcas de alavanca, musgo arrancado ou terra revirada. A superfície parecia intocada havia anos.
Sobre o concreto seco estavam uma vela vermelha apagada e um prato contendo sete grãos de milho inchados pela umidade.
Davi deixou a caixa no chão e recuou.
— O que é isso?
— Coisa de Úrsula.
— Explique.
— Uma oferenda doméstica. A ilha fingia que era superstição de velha rica.
— Para quê?
— Nunca me disseram.
Inês retirou um pedaço de papel da bolsa. Usou-o para pegar um dos grãos.
O cheiro era amargo.
— Tem remédio.
Davi se aproximou sem tocar.
— Ou veneno.
— Vou guardar para analisar.
Ela envolveu o grão no papel e colocou dentro de um compartimento da bolsa.
O sino grave tocou de novo.
Uma janela bateu no segundo andar.
Depois outra.
As sete janelas dos quartos numerados se abriram ao mesmo tempo.
Do saguão veio o ruído do relógio.
O mecanismo avançou um minuto.
Duas e vinte.
Inês pegou uma das alças da caixa.
Davi segurou a outra.
Entraram pela cozinha.
O balcão da recepção estava limpo.
Nenhum nome na poeira. Nenhum desenho de barco. Nenhuma ordem escrita por dedo invisível.
A ausência de mensagem assustou Inês mais que as frases anteriores.
A casa preparava alguma coisa.
Davi fechou a porta principal e colocou uma cadeira sob a maçaneta. O gesto era infantil diante do que tinham visto. Também era compreensível.
Levaram a caixa para a sala de jantar.
Inês abriu a tampa sobre a mesa e começou a organizar tudo.
As cartas de Raul ficaram juntas.
O cartão de hospedagem ao lado do bilhete para Celeste.
A pulseira de contas verdes perto do cartão de batismo.
A faca, os dentes e a fita de cabelo foram separados sobre um pano limpo.
A boneca azul permaneceu numa cadeira.
Davi observava a disposição dos objetos.
— Parece uma mesa de autópsia.
— É investigação.
— Você acredita que isso serve como prova?
A palavra ofereceu a Inês uma segurança breve.
— Cartas, recibos, datas, fotografia. Tudo pode ser examinado.
— E os dentes?
— DNA.
— Depois de tantos anos?
— Talvez.
— Da boneca?
— Fibra, umidade, material preso nas costuras.
— E a faca?
— Sangue, se ainda houver.
Davi olhou para a terceira chave, ainda embrulhada.
— E isso?
— Não vai para laboratório antes de abrir a porta.
A luz apagou.
A sala mergulhou na escuridão.
Davi procurou a lanterna.
No andar de cima, uma cadeira foi arrastada.
O ruído atravessou o teto devagar.
Inês encontrou a lanterna e tentou acendê-la.
Nada.
Outra cadeira se moveu acima deles.
A terceira chave caiu sozinha sobre a mesa, livre do saquinho.
O metal de cobre girou entre as cartas de Raul e parou com os dentes apontados para a escada.
De algum ponto no segundo andar, uma voz de mulher adulta chamou por Raul.
Havia ternura suficiente naquele chamado para torná-lo uma ameaça.