A Ilha das Velas O Mapa dos Desejos · Capítulo 2 de 12
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A Ilha das Velas

O Santa Brasa saiu da lagoa escondida com o motor gritando feito animal ofendido, carregando Lia, Caio, uma caixa de metal e perguntas demais para um casco tão velho. A lancha preta ficou presa no mangue, porem o alívio durou pouco. O rádio continuava morto, o céu fechava no oeste e o diário de bordo sobre o banco parecia mais urgente que qualquer rota segura. Lia manteve uma mão no leme e outra perto da caixa, vigiando Caio pelo canto do olho. Ele limpava o sangue do supercílio com a barra da camisa e fingia que o corte não ardia. O mapa, aberto entre os dois, tremia a cada pancada do barco. A pedra clara em forma de coração rolava sobre o papel, sempre voltando para o mesmo ponto desenhado no mar, um círculo vazio perto da Ilha das Velas.

Lia conhecia a Ilha das Velas apenas de longe. Era uma pedra alta, sem praia decente, com ruínas de um posto de quarentena usado no século passado e um farol pequeno que deixara de funcionar antes de ela nascer. Pescadores evitavam dormir ali porque diziam que quem passava a noite acordava querendo outra vida. O pai gostava dessa história. Dizia que desejo ruim encontrava lugar ruim com facilidade. Lia nunca prestara atenção suficiente. Agora, o mapa apontava para lá com uma teimosia quase viva. Caio leu o fragmento do diário de Augusto, protegendo as páginas do vento com a mão. Santa Ovidia não afundou por tempestade. Foi enterrado vivo pelo desejo de alguém. A frase seguinte estava cortada ao meio. Para achar a primeira porta, não procure fundo. Procure quem ainda pede.

Caio tocou o mapa antes que Lia impedisse. A linha que apontava para a Ilha das Velas apagou. No lugar, surgiu outra rota, mais curta, em direção ao porto privado da Villar Resgates. Lia arrancou o papel da mão dele. Perguntou qual desejo o mapa tinha lido. Caio demorou meio segundo demais para responder. Disse que queria arquivos do pai. Lia riu sem humor. O mapa havia mostrado a empresa dele, não um arquivo. Caio respondeu que a empresa era onde Henrique Villar enterrava tudo que não queria ver na luz. A sinceridade não limpava a omissão, porem tornava a mentira menos fácil. Lia voltou a tocar o papel. A rota para a Ilha das Velas reapareceu, mais escura, seguida de uma palavra que não estava ali antes. Augusto. O mapa queria o pai dela ou aquilo que o pai dela quis no fim.

O Santa Brasa entrou em mar aberto com o sol já inclinado. A perseguição desaparecera atrás das pedras, mas Lia não confiava em distância quando gente armada conhecia motor melhor que lei. Caio sugeriu seguir para um ancoradouro escondido da Villar e trocar de barco. Lia respondeu que preferia nadar abraçada a uma âncora. Ele aceitou o ataque sem retrucar. Isso a irritou. Caio arrogante era simples. Caio calado, sangrando e útil exigia avaliação nova, e Lia não tinha orçamento emocional para isso. O mapa mudou de novo quando a pedra de coração encostou numa dobra. Surgiu um desenho pequeno de uma vela acesa dentro de uma janela. Abaixo, uma frase escrita com a letra do pai. Ela abre para quem pedir a coisa errada. Lia guardou a pedra no bolso e decidiu que a ilha das histórias ruins ainda era melhor que o porto dos Villar.

A Ilha das Velas cresceu diante deles no fim da tarde, escura contra o céu amarelo, com penhascos baixos e uma enseada estreita protegida por rochas. A água ali tinha uma calma estranha, quase polida, e o barulho do motor parecia inadequado, alto demais, vivo demais. Lia reduziu antes da entrada. Caio foi para a proa e guiou a passagem, apontando pedras submersas que não apareciam no mapa comum. Ela percebeu e perguntou de onde ele conhecia aquilo. Caio disse que o pai o trouxera ali uma vez, quando ele tinha quinze anos, para ensinar que resgate marítimo começava antes do naufrágio, na escolha de quem receberia socorro. Lia sentiu nojo da frase por Henrique Villar e uma pena involuntária do menino que a escutara. Não comentou. Atracaram numa argola enferrujada cravada na pedra, e o Santa Brasa ficou batendo de leve, cansado, fiel contra a própria ferrugem.

O posto de quarentena ficava acima da enseada, ligado por escada cortada na rocha. Subiram levando o mapa, a caixa, a chave enferrujada, a pedra de coração e uma lanterna que piscava em ritmo preocupante. A construção estava sem portas, com paredes descascadas, camas de ferro dobradas, azulejos quebrados e marcas de vela por todo lado. Velas antigas, velas recentes, velas desenhadas com carvão. Lia contou dezenas no primeiro cômodo. Caio passou a luz pela parede e encontrou nomes riscados, alguns com datas, outros com pedidos. Quero meu filho. Quero minha casa de volta. Quero esquecer. Quero que ele pague. Lia sentiu o lugar entrar por baixo da pele. Não eram promessas bonitas. Eram desejos escritos por gente desesperada, e o mapa parecia respirar melhor ali, aberto sobre a caixa como pássaro que reconhece gaiola.

A chave enferrujada abriu um armário médico no fundo do posto. Dentro havia frascos vazios, panos velhos, um livro de entrada e uma caixa estreita com o símbolo do Santa Ovidia gravado, o mesmo desenho da medalha do estojo. Lia abriu o livro primeiro. A última página registrava uma tripulação sem navio, deixada em quarentena por febre desconhecida, sem data de saída. Entre os nomes havia Bartolomeu Reis, capitão, e Iara Dantas, cartógrafa. Caio encontrou um recorte dobrado dentro da capa. O Santa Ovidia carregava objetos de famílias ricas retirados do continente durante uma revolta antiga, porem o manifesto oficial nunca apareceu. Lia leu a palavra objetos e pensou em tesouro. O mapa escureceu sob sua mão, recusando a interpretação. No papel surgiu outra frase. Não eram objetos. Eram pedidos comprados.

A caixa estreita exigia a pedra de coração. Quando Lia aproximou a peça clara, a tampa abriu com um clique limpo. Dentro havia sete cartões de madeira, cada um com um desejo gravado em letras pequenas, e uma ampulheta cheia de areia azul. O primeiro cartão dizia voltar. O segundo, possuir. O terceiro, esquecer. O quarto, punir. O quinto, curar. O sexto, esconder. O sétimo estava vazio. Caio pegou o cartão punir e o mapa se moveu na hora, desenhando o rosto de Henrique Villar com precisão assustadora. Lia viu a mão dele apertar a madeira até os nós ficarem brancos. A raiva de Caio não era pose de herdeiro. Tinha infância, sala fechada, pai morto e arquivo trancado. Ela pegou o cartão voltar. O mapa respondeu com uma imagem de Augusto no convés do Santa Brasa, molhado, vivo, olhando para trás. Lia quase deixou a caixa cair.

A imagem de Augusto durou três segundos, talvez menos. O suficiente para Lia ver que o pai segurava alguma coisa no peito e gritava para alguém fora do desenho. Depois o mapa apagou. Caio disse o nome dela. Lia odiou a delicadeza da voz dele. Queria que ele fosse insolente para poder mordê-lo com palavras. Em vez disso, ele perguntou se ela precisava sentar. Lia respondeu que precisava que todos os mortos parassem de enviar recado incompleto. A ampulheta azul virou sozinha dentro da caixa. A areia começou a cair para cima. Na parede do posto, as velas desenhadas acenderam em luz fraca, sem fogo. O livro de entrada abriu numa página nova. Uma frase apareceu sob os nomes da tripulação. Cada desejo pede uma garantia. A primeira garantia já subiu a escada.

Do lado de fora, pedras rolaram na escada da enseada. Lia apagou a lanterna por reflexo e puxou Caio para trás de uma parede quebrada. Três homens entraram no posto minutos depois, os mesmos da lancha preta e um terceiro que usava rádio no ombro. Falavam baixo, chamando um ao outro por apelidos. Procuravam o mapa, a caixa de Augusto e o casal do Brasa. Um deles disse que Marta pagaria melhor se a garota chegasse viva. Lia franziu a testa. Marta. O nome não pertencia àquele porto, pelo menos não ainda. Caio aproximou a boca do ouvido dela e sussurrou que Marta Guedes era corretora de leilões clandestinos, famosa por vender coordenada, arte sacra e pedaço de naufrágio para colecionador sem pergunta moral. A respiração dele roçou a pele de Lia. Ela precisou lembrar que estavam escondidos de homens armados para não odiar a própria reação.

Os homens vasculharam o primeiro cômodo. Um deles encontrou o armário aberto e chamou os outros. Lia segurou a faca de mergulho. Caio pegou um pedaço de ferro caído no chão. A caixa estreita continuava aberta aos pés dela, com a ampulheta subindo areia. O cartão vazio começou a gravar letras sozinho. Desejo de sair. Lia entendeu a crueldade do mapa tarde demais. O desejo imediato deles, sair vivos, também era moeda. A parede atrás de Caio se abriu em uma passagem que não existia antes, descendo para a parte baixa do posto. Lia quase riu. O mapa oferecia saída no mesmo momento em que cobrava garantia. Caio viu a passagem e depois viu a mão dela. Disse que ele iria primeiro. Lia respondeu que quem herdou a confusão escolhia a ordem. Desceu antes dele, levando a caixa contra o peito.

A passagem terminava numa cisterna antiga, cheia de água até a cintura. O teto baixo obrigava Caio a andar curvado. Lia sentiu o frio subir pelo corpo e mordeu a parte interna da boca para não tremer. Acima, os homens ouviram algo e começaram a gritar. A única saída da cisterna era uma grade enferrujada que dava para o lado oposto da ilha, perto de uma pedra inclinada sobre o mar. Lia tentou a chave da caixa de Augusto. Não serviu. Caio pegou o cartão esconder e colocou contra a grade. Nada. O mapa, protegido dentro da capa, revelou uma palavra. Garantia. Lia entendeu que precisavam deixar algo ali. Não ouro, não arma. Algo ligado ao desejo. Caio tirou do bolso um anel grosso com o brasão Villar e enfiou entre as barras. Disse que se o mapa queria preço, podia começar com o nome que o pai dele usava para abrir porta. A grade soltou com um gemido.

Saíram pela pedra inclinada, encharcados, com os homens ainda dentro do posto. O Santa Brasa estava visível abaixo, preso na enseada, e a lancha preta surgia mais ao fundo, contornando a ilha. Lia e Caio desceram pela lateral, escorregando em pedra, capim e lama. Lia caiu uma vez. Caio a segurou pela cintura antes que batesse o rosto. O toque durou um segundo a mais que o necessário. Ela se soltou primeiro. Disse que ele estava acumulando atitudes úteis demais para um Villar. Caio respondeu que podia fazer alguma besteira para equilibrar. Ela quase sorriu. Um tiro bateu na pedra acima deles. O quase sorriso morreu. Correram até o barco. Lia ligou o motor enquanto Caio soltava a amarra. O Santa Brasa saiu da enseada segundos antes da lancha preta fechar a entrada.

No mar aberto, a noite já cobria as ilhas. Lia abriu o mapa sobre o banco, prendendo as pontas com o joelho e a caixa de madeira. A rota seguinte havia mudado. Agora apontava para o porto privado dos Villar, exatamente o caminho que o mapa mostrou quando Caio tocou o papel. Lia olhou para ele. Caio não desviou. Disse que, se o desejo dele ainda mandava na rota, o próximo pedaço da verdade estava nos arquivos do pai. Lia perguntou o que ele desejava de verdade. Ele ficou quieto por tempo suficiente para o motor do Brasa preencher tudo. Depois respondeu que queria provar que Henrique Villar morreu devendo medo, não respeito. O mapa aceitou a frase. A rota ficou mais nítida. Lia guardou os cartões, a ampulheta e a pedra. Disse que, se ele mentisse, ela venderia o anel dele no balcão do penhor. Caio olhou para a mão vazia e respondeu que, pela primeira vez, o nome Villar talvez tivesse servido para alguma coisa.

A lancha preta permaneceu atrás deles, distante, porem constante. Lia não tinha combustível para voltar a Arraial nem paciência para discutir destino. O porto dos Villar era risco, armadilha e talvez a primeira chance de descobrir por que Augusto mandara o mapa para ela. Caio sentou ao lado, ainda molhado, o corte no rosto reaberto. Ela jogou um pano limpo no colo dele sem olhar. Ele pressionou contra o ferimento. Perguntou se aquilo era cuidado. Lia respondeu que era manutenção preventiva, porque morto no convés dava trabalho. Caio aceitou a definição, sorrindo de leve apesar do sangue. O mapa entre eles brilhou uma última vez e mostrou, por um instante, uma porta de aço com três fechaduras. Atrás da porta, uma voz gravada de Augusto dizia que desejo nenhum sobrevive quando alguém abre o cofre certo.

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