O Farol da Rainha
A estrada para o Farol da Rainha começava atrás de um depósito de bebidas e subia a encosta por curvas estreitas, tomadas por capim alto, cascalho solto e placas antigas que mandavam voltar antes da queda da falésia. Caio dirigia o carro de entregas com os faróis apagados sempre que a lua permitia, os olhos presos à faixa clara da pista, enquanto Lia segurava a bolsa contra o peito e sentia o mapa latejar por baixo do couro. O envelope Brandão estava dobrado junto às fotografias roubadas, quente demais para um pedaço de papel. A cada curva, as palavras escritas por Marta pareciam ocupar mais lugar dentro dela. Trazer Augusto Brandão de volta. Lia tentou imaginar o pai vivo em algum lugar, preso por gente rica, por dívida, por promessa comprada em salão caro. A esperança veio suja de medo, porque uma promessa feita naquele mundo sempre cobrava alguém de carne. Caio percebeu quando ela abriu o envelope pela terceira vez e tirou uma das mãos do volante para fechar os dedos sobre o pulso dela. “Se isso for isca, a gente vê antes de morder”, disse. Lia quase respondeu que toda isca tinha cheiro de comida para quem estava faminto, porém guardou a frase. A voz dele estava cansada, e o rosto, iluminado de leve pelo painel, já não pertencia ao homem seguro do leilão. Pertencia a alguém que tinha descoberto tarde demais que a própria casa fora construída sobre nomes de mortos.
O farol apareceu depois de uma última curva, erguido sobre uma pedra escura que avançava para o mar. A torre branca estava manchada de sal antigo, janelas quebradas, porta principal presa por correntes novas, embora o lugar parecesse abandonado havia anos. Ao lado, a casa do faroleiro mantinha uma varanda torta e uma cisterna coberta por telhas quebradas. O vento empurrava cheiro de alga, ferrugem e chuva distante. Lia desceu do carro antes de Caio desligar o motor. O mapa abriu dentro da bolsa e caiu no chão de terra, virado para cima, parecendo ter escapado das mãos de uma pessoa invisível. A frase Venham juntos sumiu devagar, substituída pelo desenho do farol visto de cima. Duas marcas acesas surgiram na planta. Uma no quarto dos fundos da casa. Outra no topo da torre, onde a lanterna antiga ainda guardava o vidro grosso. Caio recolheu o papel e entregou a Lia sem encostar nas bordas, respeitando uma prudência nova. “Ele quer dividir a gente”, disse ela. “Ou quer saber se a gente aprendeu alguma coisa”, Caio respondeu. Lia olhou para ele de lado. O comentário parecia de Augusto, e ouvir aquele tipo de pensamento na boca de um Villar mexeu com uma parte dela que preferia continuar armada.
A porta da casa do faroleiro cedeu com um empurrão baixo, sem barulho dramático, apenas madeira podre desistindo. Dentro havia móveis cobertos por lençóis, uma mesa posta com xícaras vazias, pilhas de jornais amarrados e retratos pendurados tortos na parede. O lugar tinha sido abandonado às pressas, porém alguém voltara muitas vezes para limpar o chão perto da lareira e manter uma cadeira livre diante de um rádio velho. Lia passou os dedos pela mesa e levantou poeira fina. Caio ficou perto da janela, observando a estrada por onde tinham subido. Nenhum farol de carro aparecia. Ainda assim, os dois falavam baixo. No quarto dos fundos, o mapa indicou uma caixa de sapatos escondida sob tábuas soltas. Lia ajoelhou, arrancou a madeira com a lâmina do canivete de Caio e encontrou fitas cassete, um caderno de capa verde e uma medalha de Nossa Senhora presa a um pedaço de pano azul. A letra na capa era de Augusto. A mão dela tremeu antes de abrir. Na primeira página havia uma lista de datas, sempre acompanhadas por dois nomes. O comprador e a garantia. Muitas garantias eram barcos, terrenos, ações de empresas pequenas. Outras tinham nomes de pessoas. Crianças, maridos, irmãs, herdeiros. Lia sentiu o rosto esquentar de raiva. A Fundação chamava aquilo de preservação. Augusto chamara de tráfico, com a caneta enterrada no papel.
O rádio ainda funcionou quando Caio girou a manivela lateral e limpou os contatos com a ponta da faca. A fita mais recente tinha uma etiqueta branca, escrita com pressa. Para Lia, se chegar com ele. A voz de Augusto saiu rouca, envelhecida por chiados, e a casa inteira pareceu se inclinar para ouvir. Ele falou o nome da filha primeiro, sem diminutivo, sem desculpa ensaiada, e Lia precisou segurar a borda da mesa para não sentar no chão. Augusto contou que a Santa Ovídia fora comprada por grupos que usavam desejos como contratos de domínio. O mapa não criava vontade em ninguém. Ele apenas mostrava o ponto exato onde a vontade já tinha virado fraqueza. Henrique quis frota, cais e silêncio. Marta quis o controle dos compradores. Augusto, acuado, pediu tempo para tirar Lia da lista. A garantia cobrada foi sua própria presença. Desde então, ele circulava entre esconderijos, gravando provas, deixando pistas que só fariam sentido para quem recusasse a oferta mais tentadora. “Filha, se prometerem me devolver, pense no preço antes de abrir a mão”, dizia a fita. Depois a voz falhou. Caio permaneceu parado, pálido, enquanto Augusto acrescentava que o herdeiro Villar também tinha sido escrito como pagamento, caso Henrique traísse o acordo. Lia olhou para Caio. Ele não disse nada. Pela primeira vez, não havia resposta pronta dentro dele.
O caderno indicava a torre, então subiram. A escada de ferro tremia sob os pés e deixava flocos de tinta nas mãos. Lia ia na frente, levando o mapa dobrado entre os dedos, e Caio vinha logo atrás, segurando a lanterna do celular com o braço machucado desde a fuga do hotel. No meio da subida, um motor distante cortou o som do vento. Os dois pararam. Lá embaixo, na estrada, dois carros pretos avançavam devagar, luzes apagadas. Caio apagou a lanterna e encostou Lia contra a parede curva. O espaço era estreito demais para qualquer distância fingida. Ela sentiu a respiração dele perto do cabelo, o calor do corpo dele depois da corrida, o esforço que ambos faziam para prestar atenção nos carros em vez de no que crescia entre os dois desde a cisterna, desde o porto, desde a mão dele em sua cintura no pátio do hotel. “Eu trouxe você para perto porque precisava do mapa”, ele disse, a voz quase sem som. “Agora eu fico porque fizeram de você uma dívida.” Lia fechou os olhos por um segundo. Queria odiar aquela frase pelo alívio que trazia. Queria ter tempo para escolher o que fazer com ela. Os carros pararam diante da casa e portas bateram no escuro. A escolha ficou para depois.
No topo da torre, a lanterna antiga ainda guardava uma lente partida, grande como uma roda de navio. O mapa esticou sozinho sobre o piso circular e apontou para a base do mecanismo. Caio girou uma alavanca enferrujada, Lia puxou uma trava e o vidro se moveu com um gemido baixo, abrindo uma gaveta estreita onde o faroleiro guardava ferramentas. Dentro havia uma peça de bronze comprida, manchada de verde, envolta em pano encerado. Caio reconheceu antes dela. Era o badalo do sino da Santa Ovídia, arrancado para que o sino exposto no leilão não pudesse cumprir nada sozinho. Junto dele havia outro envelope, selado com cera escura. Lia quebrou o lacre e encontrou uma ficha sem data, assinada por Augusto. O desejo escrito ali fez o peito dela doer de um jeito novo. Que minha filha sobreviva mesmo que me odeie. A garantia vinha logo abaixo. Que ela esqueça minha voz se eu usar o mapa para salvá-la. Lia levou a fita ao peito, compreendendo por que o som de Augusto parecia distante nas lembranças de infância. Não era desaparecimento simples, nem abandono simples, nem acidente. O pai tinha pago pedaços de si para manter a filha fora de mãos piores. Caio tocou o badalo, e o mapa mostrou o mar aos pés da falésia, abrindo um caminho azul-escuro até uma fenda chamada Boca da Rainha.
Os homens de Marta chegaram à torre antes que eles terminassem de guardar tudo. O primeiro arrombou a portinhola com o ombro, recebeu a gaveta de ferramentas no joelho e caiu sobre a escada com um grito curto. O segundo subiu atirando. A bala acertou a armação da lente e espalhou vidro pelo chão. Lia puxou Caio para trás do mecanismo, segurando a caixa de Augusto junto ao corpo. Ele pegou o badalo de bronze e golpeou a alavanca principal. A lanterna, morta havia anos, girou uma vez por pura força mecânica, refletindo a lua nos cacos de vidro e lançando um clarão repentino para a encosta. Os homens recuaram, cegos por um segundo. Lia viu a chance e correu para a escada externa de manutenção, presa do lado de fora da torre. O vento quase arrancou a porta das mãos dela. A estrutura descia pela parede até uma varanda estreita sobre o penhasco. Caio veio atrás, carregando o caderno e os envelopes no paletó. No último degrau, o metal cedeu sob a pisada dele. Lia largou a caixa no piso da varanda e agarrou o braço de Caio com as duas mãos. Por um instante, ele ficou pendurado sobre o mar escuro, o rosto erguido para ela, sem orgulho, sem ordem, sem sobrenome. Apenas Caio, pesado, vivo, dependendo da força dela.
Lia puxou até sentir a pele das mãos abrir. Caio rolou para a varanda, derrubando os dois contra a parede externa do farol. O alívio veio bruto e quase virou riso, porém passos na escada interna cortaram qualquer fraqueza. Eles desceram por uma trilha de serviço atrás da cisterna, escorregando em pedra molhada, guiados pelo mapa que agora brilhava fraco dentro da bolsa. Na base da falésia havia uma pequena casa de barcos, escondida por tábuas e redes velhas. Augusto deixara ali um bote inflável, cilindros de mergulho vencidos havia pouco tempo e uma caixa metálica com sinalizadores. Caio fechou a porta atrás deles e travou com uma barra. Lia caiu sentada perto dos cilindros, segurando a ficha do pai. O mundo parecia estreito demais para caber tudo. O leilão, a dívida, a voz, o badalo, a mão de Caio voltando para a dela depois da queda. Ele se ajoelhou diante dela e abriu o envelope Villar roubado na Fundação. A ficha trazia a assinatura de Marta, recente, sem manchas, feita para uma noite ainda em andamento. O desejo era receber Lia Brandão viva antes do amanhecer. A garantia escolhida era Caio Villar. Lá fora, os homens batiam contra a porta. No mapa, a Boca da Rainha começou a escurecer, marcada por uma frase nova. Quem não mergulha antes da luz perde aquilo que aceitou salvar.