O Cofre dos Villar O Mapa dos Desejos · Capítulo 3 de 12
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O Cofre dos Villar

O porto privado dos Villar surgia no escuro como uma cidade pequena construída para esconder pressa. Galpões de metal, guindastes parados, luzes brancas sobre água preta, câmeras nos postes e uma guarita com vidro espelhado. Lia reduziu o Santa Brasa antes da entrada, sentindo o motor reclamar baixo, cansado da fuga, da lagoa e da falta de respeito de Caio. A lancha preta continuava distante, porem visível em lampejos atrás deles. Caio apontou para um canal lateral quase colado ao quebra-mar. Disse que barcos de manutenção usavam aquela passagem quando Henrique Villar queria carga entrando sem registro no píer principal. Lia olhou para ele. Perguntou quantas coisas ilegais ele pretendia lembrar aos poucos. Caio respondeu que a memória dele ficava melhor com tiros por perto. Ela odiou a resposta por ter ritmo de piada e gosto de verdade.

Entraram pelo canal lateral com as luzes do barco apagadas. O Santa Brasa raspou em pneus velhos pendurados na parede de concreto e avançou devagar até uma doca coberta, onde balsas menores dormiam presas por correntes. Caio saltou primeiro, amarrou o barco e estendeu a mão para ajudar Lia. Ela ignorou a oferta e desceu sozinha, carregando o mapa dentro da capa plástica, a caixa de cartões, a ampulheta azul e a pedra clara no bolso. Ele pegou o pedaço de diário de Augusto e a chave enferrujada. A proximidade do nome Villar parecia mudar Caio. No mar, ele sangrava, corria, improvisava. Ali, entre galpões do pai morto, seus ombros voltavam a uma rigidez aprendida. Lia percebeu e guardou a informação. Algumas pessoas tinham porto seguro. Caio tinha porto de cobrança.

O mapa apontava para o galpão três. Caio disse que era arquivo morto, nome inventado para um depósito onde a empresa guardava peças de naufrágio, contratos encerrados e aquilo que Henrique chamava de material sensível. Lia perguntou se material sensível significava prova. Ele respondeu que, na boca do pai dele, significava lucro com risco de cadeia. O caminho até o galpão passava por uma área de contêineres empilhados. Câmeras giravam lentamente sobre trilhos. Caio conhecia o intervalo de cada uma. Lia não gostou de ver o corpo dele se mover com tanta familiaridade naquele lugar. Era competente demais para alguém que dizia querer romper com o pai. Ao mesmo tempo, sem aquela competência, os dois seriam presos antes da primeira porta. A vida vinha dando a ela escolhas de gosto ruim desde a caixa no balcão.

A fechadura do galpão três abriu com digital de Caio, senha e a chave enferrujada encontrada na caixa de Augusto. O último detalhe fez Lia parar. A chave do pai dela encaixava numa porta dos Villar. Caio ficou olhando para o metal por um segundo, rosto fechado. Disse que Henrique e Augusto trabalharam juntos antes da última expedição, e que talvez tivessem combinado uma entrada escondida. Lia respondeu que talvez Augusto tivesse roubado. Caio aceitou a possibilidade com um movimento curto de cabeça. Ela gostou disso contra a vontade. Gente que defendia morto a qualquer custo costumava mentir mal. Dentro, o galpão cheirava a lona, ferrugem e documentos molhados. Prateleiras altas guardavam caixas numeradas, âncoras pequenas, sinos de navio, santos de madeira sem mãos, máscaras de mergulho antigas e baús lacrados com etiquetas judiciais.

O mapa mudou assim que Lia pisou no galpão. A rota desapareceu, e no centro do papel surgiu uma porta de aço com três fechaduras, igual à imagem vista no barco. Ao lado, a palavra possuir brilhou por alguns segundos, depois apagou. Caio retirou o cartão possuir da caixa sem tocar diretamente, usando a ponta da manga. O cartão aqueceu. Na parede do fundo, luzes de emergência acenderam uma após outra, desenhando caminho até um elevador de carga. Lia perguntou se ele desejava possuir alguma coisa ali. Caio olhou para as prateleiras e respondeu que passou a infância ouvindo que tudo aquilo seria dele um dia. O mapa insistia em desejos antigos, talvez não nos desejos certos. Lia perguntou qual era o desejo certo. Caio disse que queria destruir a sala onde o pai guardava a própria versão da verdade. O cartão possuir rachou no meio, e o elevador destravou.

Desceram para o subsolo dentro de uma cabine gradeada, rangendo sobre cabos antigos. Lia manteve a faca de mergulho na mão. Caio segurava um pedaço de ferro retirado de uma prateleira. No painel, os botões não tinham números, apenas letras. H, V, O, D. Caio apertou H. Henrique. A cabine desceu. O ar ficou mais frio, carregado de mofo e ozônio. Lia perguntou se ele tinha certeza. Caio respondeu que não pisava ali desde o velório do pai, quando encontrou a sala trancada e uma ordem escrita proibindo sua entrada até que ele comprasse o Santa Brasa. Lia sentiu a história encaixar com atraso. Henrique não queria apenas o barco. Queria a peça que Augusto deixara dentro dele ou a rota que só o Brasa ainda sabia fazer. O pai dela não escolhera o barco por afeto. Também o escolhera por memória de casco, motor e segredo.

A sala do subsolo tinha paredes de concreto, armários de aço e uma porta maior no centro, com três fechaduras circulares. Sobre a mesa lateral havia um gravador antigo, desses de fita pequena, e uma etiqueta com o nome de Augusto Brandão. Lia apertou play antes que Caio se preparasse. A voz do pai saiu rouca, cansada, viva de um jeito que quase a derrubou. Augusto dizia que o Santa Ovidia não era naufrágio, e sim prisão. O navio fora afundado de propósito numa fenda rasa, selado por mergulhadores pagos para manter a carga onde a cobiça não encontrasse. A carga não era ouro. Era um cofre de promessas comprado por famílias que acreditavam poder transformar desejo em contrato. Henrique queria vender o cofre. Augusto queria expor os compradores depois de descobrir que uma das promessas envolvia Lia ainda criança, usada como garantia de dívida dele.

Lia tirou a mão do gravador com susto físico. O pai dela apostara a própria filha. Talvez depois tenha tentado desfazer. Talvez tenha morrido por isso. Nenhuma versão saía limpa. Caio não falou. A decência dele, naquele minuto, foi ficar quieto. A fita continuou. Augusto dizia que Henrique tinha a primeira combinação da porta, ele tinha a segunda, e a terceira dependia do mapa, porque o mapa só aceitava abrir para quem dissesse o desejo sem enfeite. Lia riu sem som, horrível, presa no peito. O mapa queria confissão até para abrir armário. Caio olhou para a porta de aço. Três fechaduras. Uma para Henrique, uma para Augusto, uma para quem sobrevivesse ao desejo próprio. A voz gravada do pai terminou dizendo que, se Lia estivesse ouvindo aquilo, ele falhara de novo e ainda precisava dela para terminar o serviço.

A primeira fechadura abriu com o anel Villar que Caio recuperou da cisterna na Ilha das Velas. Lia percebeu que ele o trouxera de volta escondido e ergueu uma sobrancelha. Caio disse que o mapa devolveu no bolso dele quando saíram do posto, talvez porque ainda não tivesse terminado de humilhá-lo. Inseriu o anel na cavidade e girou. A segunda fechadura aceitou a chave enferrujada da caixa de Augusto. Faltava a terceira. O mapa abriu sobre a mesa por vontade própria. Os sete cartões de desejo se espalharam ao redor, e a ampulheta azul começou a cair para os dois lados ao mesmo tempo. Lia colocou a mão sobre o papel. Caio colocou a dele do outro lado. O mapa não desenhou rota. Desenhou os dois, frente a frente, cada um com uma palavra escrita sobre o peito. No dela, voltar. No dele, punir.

Lia quis negar. Queria dizer que buscava verdade, justiça, resposta. O mapa mostrava voltar. Voltar o pai, voltar o tempo antes da dívida, voltar ao dia em que Augusto ainda ria no barco e ela não sabia odiar um morto. Caio viu a palavra e não usou contra ela. Isso doeu de outro jeito. Sobre o peito dele, punir parecia grosseiro e exato. Punir Henrique, punir a empresa, punir a si mesmo por ter obedecido tempo demais. A terceira fechadura permaneceu fechada. O mapa exigia mais. Lia entendeu. Não bastava reconhecer o desejo. Precisavam escolher o que fazer com ele. Ela disse que não queria o pai de volta se o preço fosse apagar o que ele fez. Caio respirou fundo e disse que não queria punir Henrique se isso o transformasse em novo dono da mesma porta. A terceira fechadura abriu com um som baixo.

Dentro da porta havia uma sala menor, iluminada por lâmpada amarela, com cofres, pastas e um tanque de vidro no centro. No tanque, submerso em água limpa, estava um sino de bronze coberto por inscrições. O nome Santa Ovidia aparecia na borda. Lia aproximou o rosto do vidro. Dentro do sino havia dezenas de pequenas cápsulas presas por corrente, cada uma com nome de família, valor e desejo resumido. Curar filho. Comprar juiz. Calar viúva. Encontrar minério. Apagar testemunha. Uma cápsula tinha o nome Brandão. Lia sentiu as pernas ficarem fracas. Caio segurou seu cotovelo sem apertar. A etiqueta da cápsula dizia quitar dívida, entregar garantia futura. A garantia futura era ela. Augusto vendera uma promessa ligada à própria filha e depois tentara roubar o sino de volta. Lia não sabia se chorava pelo crime, pelo arrependimento ou pela inutilidade dos dois.

Caio encontrou outra cápsula com o nome Villar. Desejo registrado por Henrique. Possuir frota, portos e silêncio sobre o Santa Ovidia. Garantia, herdeiro único. Caio leu a etiqueta e ficou imóvel. Lia entendeu antes dele dizer. Henrique também usara o filho como garantia. Não para dívida, e sim para continuidade. O mapa não unira os dois por romance fácil, nem por acaso bonito. Unira duas pessoas vendidas por pais que depois morreram deixando pistas no lugar de pedido de perdão. Caio abriu a boca, fechou, apoiou as mãos na borda do tanque. Lia quis tocar seu ombro. Dessa vez tocou. Foi um gesto curto, sem promessa, apenas reconhecimento de dano parecido. Ele cobriu a mão dela com a dele por um segundo. Depois soltou. O mundo continuava perigoso demais para ternura longa.

O alarme disparou quando Lia fotografou a primeira cápsula com o celular de Caio. Luz vermelha girou no teto. Voz automática mandou evacuar o subsolo. Caio praguejou e abriu uma gaveta de emergência. Tirou sacos impermeáveis e começou a guardar pastas. Lia pegou o diário de bordo, as etiquetas mais próximas e a cápsula Brandão. Caio hesitou diante da cápsula Villar, depois a arrancou também. A porta de aço começou a fechar. Do lado de fora, passos corriam pelo corredor. Não eram homens da lancha preta. Eram seguranças da própria empresa, alertados pelo sistema que Henrique deixara ou por alguém vivo monitorando tudo. Lia perguntou se havia saída. Caio apontou para uma escotilha de manutenção atrás do tanque. Dava no canal de drenagem do porto. Cheirava a óleo e rato, porem ainda era saída.

A escotilha abriu para um túnel baixo, com água pelos tornozelos e canos sobre a cabeça. Lia foi primeiro, carregando o saco impermeável. Caio veio atrás, puxando a tampa. O subsolo ficou tomado por vozes, alarme e botas. O túnel seguia até uma grade voltada para o canal lateral onde o Santa Brasa esperava. Entre eles e o barco havia três metros de água escura. Lia ouviu motor acima. A lancha preta entrara no porto. Os homens da perseguição e os seguranças Villar estavam no mesmo lugar agora, talvez inimigos, talvez parceiros. Caio chutou a grade duas vezes. Nada. Lia pegou a cápsula Brandão, sentiu o vidro frio na palma e pensou no desejo de voltar. O mapa, dentro do saco, aqueceu. No papel molhado, surgiu uma instrução curta. Deixe uma garantia que não precise mais carregar.

Lia entendeu e odiou. A cápsula era prova, porem também era corrente. Augusto vendera a promessa e passou anos tentando desfazer por culpa. Ela não precisava carregar a dívida feito herança de sangue. Fotografou a cápsula de todos os lados com o celular de Caio, guardou as imagens, depois quebrou o vidro contra a parede do túnel. Dentro havia um papel enrolado e uma gota de cera dourada. O papel se desfez na água. A grade abriu. Lia sentiu uma leveza breve, perigosa, quase alegria. Caio olhou para a cápsula Villar na própria mão. Não quebrou ainda. Ela não pediu. Cada corrente tinha hora. Saltaram na água e nadaram até o Santa Brasa enquanto o porto explodia em luz e gritos acima. Lia subiu primeiro, puxou Caio pelo braço e ligou o motor com um insulto carinhoso que teria feito Augusto rir.

O Santa Brasa saiu do canal lateral levando pastas, fotos, o mapa, a cápsula Villar e o sino ainda preso no tanque. Não tinham tudo. Tinham o bastante para serem perseguidos por gente importante. Caio sentou no chão do barco, encharcado, segurando a cápsula com o nome dele. Lia manteve o leme firme. Ao longe, as luzes do porto dos Villar diminuíam, e a lancha preta virava para segui-los mais uma vez. O mapa abriu sozinho sobre o banco, apesar do vento. A rota seguinte não apontava para o mar aberto. Apontava para o coração da cidade, para um hotel de luxo onde, naquela noite, aconteceria um leilão beneficente da Fundação Villar. No centro do papel, uma nova frase surgiu. Desejos comprados precisam de plateia para virar poder. Lia olhou para Caio. Ele guardou a cápsula no bolso e disse que sabia onde Henrique escondia os convites.

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