O Mergulho Sem Fuga
O galpão dos Brandão recebeu as famílias numa manhã de vento fraco, com as portas abertas, cadeiras emprestadas da igreja e uma mesa comprida coberta por lona branca. Lia acordou antes de Augusto, lavou o rosto na pia pequena do barco e caminhou até o cais carregando a caixa de cartas contra o peito. O mapa branco ficou na cabine, preso por fita ao lado da lista de remédios, tão comum que já parecia pertencer a outra história. Caio chegou meia hora depois com Helena, dois advogados jovens e uma pilha de termos simples para registrar a entrega de cada envelope. Veio sem carro oficial, sem o anel da família, sem qualquer sinal do sobrenome Villar além da assinatura que ainda precisava usar em documentos. Quando ele segurou uma ponta da mesa para Lia apoiar a caixa, os dois trocaram um olhar curto, cheio de noite mal dormida e de coisas que não cabiam naquela sala cheia de gente.
A devolução começou devagar. Uma senhora reconheceu o nome da avó numa carta amarelada e sentou no chão antes que alguém encontrasse cadeira. Um homem de mãos grossas recebeu uma fotografia de criança e repetiu o nome do bisavô até a voz falhar. Um casal jovem descobriu que a casa onde morava havia sido comprada com dinheiro desviado de uma família que perdera tudo para a Fundação. Helena conduziu cada entrega com firmeza, sem transformar dor em espetáculo, enquanto Augusto permanecia perto da porta, aceitando olhares duros e abraços inesperados na mesma medida. Lia assinou recibos, explicou datas, entregou água e segurou a mão de uma menina que perguntava por que adultos guardavam cartas por tanto tempo. Respondeu que às vezes adulto demora a devolver o que pegou. A menina pareceu aceitar melhor do que muitos ali.
Caio ficou com a parte difícil dos Villar. Leu em voz alta a lista de bens bloqueados, a abertura de auditoria, a suspensão das empresas de resgate e a criação de um fundo de reparação com dinheiro retirado da própria família. Henrique ainda não tinha sido julgado, Marta seguia presa preventivamente, e Verônica negociava colaboração depois de entregar contas escondidas em três cidades. Nada daquilo limpava o nome de Caio de imediato. A cidade gostava de herdeiros culpados por tabela, e ele sabia. Mesmo assim, quando um pescador velho perguntou se o rapaz pretendia sumir depois de assinar os papéis, Caio olhou para Lia antes de responder. Disse que ficaria até a última carta encontrar dono, depois ficaria mais um pouco para consertar barco, cais e confiança, se alguém ainda aceitasse trabalho de Villar. O pescador cuspiu de lado e disse que começaria pelo motor do Santa Brasa.
No fim da tarde, quando a última família saiu, o galpão ficou cheio de copos vazios, cadeiras tortas e envelopes assinados. Augusto dormia sentado, vencido pelo cansaço, e Helena revisava termos com dois grampos no cabelo e os pés descalços dentro das sandálias. Lia levou uma pilha de papéis para a mesa dos fundos e encontrou Caio encostado na parede onde as marcas de altura dela ainda apareciam. Ele tocou a madeira perto da marca dos oito anos e perguntou se Augusto tinha mesmo ensinado todos os nós que ela usava. Lia respondeu que ensinou os úteis e inventou desculpas para os que nunca prestaram. Caio sorriu, depois ficou sério ao dizer que venderia a lancha principal dos Villar para pagar a primeira reforma do cais. Lia avisou que ele podia fazer isso por justiça, não por penitência infinita. Ele perguntou qual era a diferença. Ela fechou a mão sobre a dele e disse que justiça deixa alguém dormir depois do trabalho feito.
O mergulho prometido aconteceu dois dias depois, numa enseada sem turista, escolhida por Lia por causa da água clara e de um banco de corais onde Augusto a levava quando ela ainda usava máscara grande demais para o rosto. Caio apareceu com cilindro novo, roupa simples e aquela concentração exagerada de aluno que decorou instrução para não passar vergonha. Lia conferiu o equipamento dele, apertou uma fivela, ajustou a mangueira e deixou os dedos demorarem um pouco no fecho junto ao peito. Caio percebeu, claro, e ficou quieto, o que em si já era progresso. No barco, Augusto fingiu não observar os dois e Helena fingiu acreditar. Lia deu as instruções finais, avisou que debaixo d'água ninguém era CEO, herdeiro, réu social nem salvador. Caio respondeu que debaixo d'água ela mandava. Lia corrigiu. Ela mandava também fora dela, quando sabia do assunto.
Lá embaixo, o mundo veio sem dívida. A água fechou sobre os ombros, o barulho do barco sumiu, e Lia viu Caio perder a pressa na primeira descida. Ele gastou ar demais nos minutos iniciais, abriu os olhos com espanto diante dos peixes pequenos e quase tocou num coral antes de lembrar da bronca. Lia segurou o pulso dele a tempo. O contato, dentro da água, veio diferente, sem palavra, sem público, sem mapa ordenando caminho. Caio olhou para a mão dela, depois para o recife, e deixou que Lia conduzisse. Foram até a pedra baixa onde Augusto escondia moedas para a filha encontrar quando criança. Lia mostrou o lugar e achou, presa numa fenda, uma moeda antiga que talvez estivesse ali desde antes de tudo ou talvez tivesse sido colocada por Augusto na véspera. Ela riu dentro do regulador. Caio não ouviu, porém viu o riso nos olhos dela.
Quando subiram, o sol já começava a descer sobre a enseada. Caio tirou a máscara, tossiu água, reclamou do próprio fôlego e recebeu de Lia uma toalha jogada no rosto. Augusto bateu palmas devagar, dizendo que o rapaz ao menos não afundara o barco. Helena serviu café em copos de plástico e declarou que aquilo merecia ata, porque ninguém acreditaria na quantidade de disciplina desperdiçada em vinte minutos de mergulho. Lia sentou na borda, pernas sobre a água, e Caio veio ao lado, ainda pingando. Ele disse que nunca tinha visto o mar daquele jeito. Lia respondeu que ele passara a vida olhando de cima. Caio aceitou a frase e tocou a mão dela com a ponta dos dedos, pedindo a aproximação de sempre. Ela entrelaçou os dedos nos dele, sem esconder de Augusto, sem esconder de Helena, sem esconder de si.
À noite, o mapa branco voltou para a parede do galpão, dentro de uma moldura simples feita pelo pescador do motor. Não havia placa de tesouro, nem frase bonita, só papel gasto e um prego torto. Lia escreveu abaixo, com caneta preta, os nomes das famílias que tinham recebido cartas naquele primeiro dia. Caio escreveu os nomes dos Villar que responderiam em juízo. Augusto acrescentou o nome da Santa Ovídia com uma letra trêmula. Helena apagou a luz por último. Do lado de fora, o cais novo ainda era promessa, o processo ainda seria longo e a cidade ainda falaria por meses. Lia sabia disso e mesmo assim caminhou até o barco com Caio ao lado, a mão dele roçando a dela a cada passo. Na cabine, antes que Augusto chamasse os dois para jantar, Caio a beijou com gosto de sal verdadeiro, desses que vêm da pele e não de destino. Lia sorriu contra a boca dele e decidiu que, dali em diante, desejo nenhum precisaria de mapa para encontrar caminho.