A Escada da Coroa O Mapa dos Desejos · Capítulo 7 de 12
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A Escada da Coroa

A escada atrás do sino subia pela pedra em degraus estreitos, gastos no centro por pés que tinham usado aquele caminho durante anos sem deixar registro em mapa comum. Lia ia na frente, segurando a bolsa estanque contra o peito e puxando ar curto, enquanto Caio vinha logo abaixo com o badalo de bronze preso ao ombro por uma corda improvisada. A água crescia atrás deles com raiva, batendo nos degraus inferiores e engolindo o brilho das lanternas que Marta trouxera pelo túnel. Cada impacto do mar empurrava cheiro de ferrugem, lodo e metal antigo para cima. Lia não olhou para trás. Sabia que, se visse a câmara desaparecer, pensaria nas cápsulas que ficaram, nas garantias presas em vidro, nas mãos de Augusto fechando um lacre para salvá-la de uma dívida antes mesmo que ela entendesse o preço. O mapa, enfiado sob o colete, estava apagado desde a frase da Rainha, reduzido a papel molhado sem obedecer às leis da água. No alto, uma tampa de madeira bloqueava a passagem. Caio alcançou Lia, apoiou o ombro na tábua e empurrou junto com ela. O primeiro golpe arrancou poeira. O segundo abriu uma fresta de luz azulada. O terceiro levantou a tampa, e os dois caíram em um piso de ladrilhos antigos, tossindo, molhados, vivos por centímetros.

A saída dava em uma capela abandonada no alto da encosta, escondida por árvores baixas e muros de pedra cobertos por plantas secas. Não havia altar inteiro, só uma base quebrada, bancos apodrecidos e uma imagem sem rosto dentro de um nicho. Acima da porta principal, uma coroa talhada na madeira repetia o símbolo visto no mapa. O lugar ficava longe da estrada do farol, protegido por um trecho de mata inclinada que descia até o mar por rochas soltas. Lia fechou a tampa da passagem com cuidado e encostou as costas nela. Caio largou o badalo no chão, sentou contra a parede e levou a mão ao peito, onde o esforço do mergulho ainda cobrava. O silêncio da capela durou pouco. De dentro da passagem veio uma pancada surda, depois outra, depois a voz de Marta chamando o nome de Lia sem pressa. A mulher sabia que estavam acima. Lia levantou, travou a tampa com um banco caído e procurou outra saída. O mapa aqueceu sob o colete, recuperando força, e desenhou sobre o forro escuro uma seta que apontava para o nicho da santa sem rosto. Atrás da imagem havia uma gaveta rasa, protegida por um trinco de latão. Dentro dela estavam um gravador portátil, duas pilhas novas e uma fita com a letra de Augusto.

Caio encaixou as pilhas com dedos trêmulos, e Lia colocou a fita no gravador antes que a coragem recuasse. A voz de Augusto veio baixa, próxima, com respiração difícil entre uma frase e outra. Ele disse que, se Lia tivesse chegado à capela, Marta já teria movido o sino e tentado fazer alguém pronunciar um desejo em voz alta diante da peça completa. O sino não comprava nada sozinho. Precisava de uma pessoa marcada, de uma garantia viva e de uma vontade dita sem defesa. Augusto explicou que a Santa Ovídia fora usada durante décadas porque a embarcação tinha transportado famílias inteiras em fuga, cada uma levando promessas, perdas e documentos escondidos. Quem transformou aquilo em comércio percebeu que nomes ditos diante do bronze ganhavam força de contrato para quem acreditava dever alguma coisa. Lia apertou os olhos, escutando a própria infância virar instrumento na boca do pai. Augusto tossiu na fita e falou de Caio. Disse que o herdeiro Villar poderia quebrar uma parte do acordo se recusasse a herança em público, diante do livro de atas, e que Lia poderia quebrar outra parte se escolhesse verdade sem pedir devolução. “Ela vai oferecer seu pai”, dizia Augusto. “Ela vai oferecer o rapaz. Recuse os dois preços.”

A fita continuou com um ruído seco, depois a voz mudou, fraca de dor ou de pressa. Augusto disse que havia deixado a prova final em uma casa de vidro na Estrada das Bromélias, número dezessete, sob o nome de Helena. Ao ouvir esse nome, Caio ficou tão imóvel que Lia quase parou o gravador. Augusto não explicou quem era Helena. Disse apenas que Marta não podia saber que ela ainda guardava a primeira ata, assinada antes da Fundação existir, e que Henrique fizera todos acreditarem em um enterro para proteger uma mentira maior. A gravação terminou com um pedido simples para Lia sair da capela antes do nascer completo do sol. Nada de perdão. Nada de frase bonita para organizar o horror. Apenas o endereço, o nome de Helena e a voz de um homem vivo três semanas antes, tentando deixar instruções curtas para uma filha que ele ainda chamava pelo nome inteiro quando precisava ser forte. Lia desligou o aparelho. Caio apoiou a mão na parede e respirou pela boca. “Helena é minha mãe”, disse. A resposta veio áspera, quase arrancada. “Ela morreu quando eu tinha doze anos.” Lia segurou o gravador com força. Do lado de baixo, Marta bateu na tampa outra vez, e a madeira rangeu.

A porta principal da capela estava presa por uma barra externa, sinal de que Marta havia previsto aquela saída. Lia encontrou uma janela lateral sem vidro, estreita demais para Caio passar com o badalo, e uma abertura no piso junto ao antigo confessionário. A seta do mapa insistia no chão. Caio arrastou os bancos quebrados enquanto Lia enfiava o braço pela abertura e sentia correntes frias, pedra úmida e uma corrente metálica. Ela puxou. Um painel de ladrilhos se soltou, revelando um corredor baixo que seguia sob a capela, talvez uma antiga passagem de serviço usada por quem cuidava do farol e não queria enfrentar tempestade pela encosta. O primeiro homem de Marta conseguiu empurrar a tampa da escada naquele momento. A madeira do banco rachou. Lia pegou o livro de atas, os cartões de memória, a fita e o mapa, enfiou tudo na bolsa e entrou no corredor. Caio ficou meio segundo a mais, olhando para a imagem sem rosto no nicho. Ela viu a decisão nascer nele e agarrou seu pulso antes que virasse sacrifício. “Se disser que vai atrasar eles, eu arrasto você pelos cabelos”, falou. Caio piscou, surpreendido por um riso breve em hora tão ruim. “Anotado”, respondeu, e entrou atrás dela.

O corredor exigia que seguissem quase curvados, com joelhos batendo em pedra e mãos raspando nas paredes. Lia ia à frente com a lanterna presa entre os dentes, tentando ignorar a dor nas palmas abertas desde a queda de Caio na varanda do farol. Atrás, ele trazia o badalo embrulhado no paletó, fazendo o possível para impedir que o bronze batesse na parede. Acima deles, passos corriam dentro da capela. Marta dava ordens sem elevar a voz. A calma dela deixava tudo pior. Em determinado ponto, o corredor se dividiu. O mapa clareou e mostrou duas saídas. Uma para a mata. Outra para um depósito antigo junto à estrada. A primeira parecia fuga. A segunda mostrava uma pequena marca em forma de espelho. Lia escolheu o depósito. Caio não perguntou motivo. O silêncio dele, naquela obediência nova, mexeu com ela de um jeito perigoso. Quando a passagem terminou em uma portinhola baixa, Caio empurrou primeiro e conferiu o lado de fora. Estavam sob um galpão de ferramentas abandonado, com pás, cordas, latas de querosene e uma motocicleta velha coberta por lona. No canto, sobre uma mesa, havia um rádio comunicador ligado, repetindo chiados e ordens da equipe de Marta.

Lia pegou o rádio no mesmo instante em que a voz de Marta saiu dele, limpa o bastante para gelar a sala. A mulher mandava bloquear a estrada das Bromélias antes que os dois chegassem à casa de vidro. Depois ordenava que Henrique fosse avisado, porque Caio estava com a carta do cofre e podia fazer uma besteira pública. Caio tirou o comunicador da mão de Lia, apertou o botão de transmissão e disse o próprio nome. O silêncio que veio do outro lado durou demais. Ele falou que Henrique Villar seria denunciado, que o livro de atas estava fora da câmara, que a Fundação tinha acabado de perder o controle das cápsulas e que qualquer policial honesto receberia cópias até o fim da manhã. Era blefe parcial, porém a voz dele não tremia. Marta respondeu chamando-o de filho ingrato de um homem fraco. Caio olhou para Lia antes de falar de novo. “Meu pai me vendeu antes de eu poder assinar meu nome. A senhora escolheu cobrar. Não me chame de ingrato.” Ele soltou o botão e desligou o rádio. Lia, que sempre desconfiara de declarações grandes, viu ali algo menor e bem mais difícil. Viu um homem cortar o próprio sobrenome por dentro, palavra por palavra, sem aplauso, sem plateia, só com ela e uma motocicleta velha de testemunhas.

A motocicleta pegou na quarta tentativa, cuspindo fumaça escura pelo escapamento. Lia amarrou a bolsa estanque ao próprio corpo, Caio prendeu o badalo atrás do banco com uma corda, e os dois saíram do depósito quando os primeiros gritos vinham da capela. A estrada de terra descia por uma plantação abandonada de bromélias, cheia de folhas duras que batiam nas pernas e cortavam os braços. Lia guiava, porque conhecia motor ruim e curva fechada melhor que Caio, e ele vinha atrás dela com uma mão no banco e outra em sua cintura. A proximidade dos dedos dele não tinha a pressa do pátio do hotel nem o desespero da torre. Tinha uma escolha quieta, presente demais para caber no medo. Quando passaram por uma ponte estreita sobre um canal seco, um carro preto surgiu na curva. Lia acelerou. A moto raspou no para-lama, perdeu o retrovisor e continuou. Caio xingou baixo no ouvido dela. Lia riu sem querer, o riso curto de quem ainda não morreu. No fim da estrada, o mapa se abriu contra o peito dela e mostrou uma casa comprida, toda de vidro fumê, escondida entre árvores e muros altos. Na margem inferior do papel, um nome apareceu com tinta recém-nascida. Helena Villar espera acordada.

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