A Boca da Rainha
Os homens de Marta bateram contra a porta da casa de barcos até as dobradiças soltarem pó da madeira. Lia prendeu o mapa dentro de uma capa plástica, amarrou a caixa de Augusto a uma boia pequena e conferiu os cilindros com uma rapidez que vinha de anos salvando turistas imprudentes. Caio empurrou o bote inflável para perto da água, ainda com a camisa social rasgada no ombro e sangue seco no punho. A luz antes do amanhecer deixava tudo cinza, sem gentileza. O mar batia nas pedras com força bastante para esconder vozes, tiros e ordens. Lia abriu um cilindro, ouviu o ar sair limpo e entregou o regulador a Caio. Ele segurou o equipamento do jeito errado, e ela corrigiu as mãos dele sem paciência, aproximando os dedos do encaixe, apertando a fivela no peito dele, puxando a tira da máscara até marcar a pele. “Debaixo d’água, você faz o que eu mandar”, disse. Caio concordou com a cabeça, sério, sem defender orgulho. Do lado de fora, madeira partiu. Lia pegou um sinalizador, riscou a ponta contra a caixa metálica e atirou a luz vermelha por uma fresta lateral. O brilho caiu entre redes velhas, inflamou sombras no pátio e puxou os perseguidores para o lado errado. Ela e Caio empurraram o bote pela rampa escorregadia. Quando a porta enfim cedeu, já estavam no mar.
A Boca da Rainha ficava sob a falésia, uma abertura baixa entre rochas negras, invisível para quem não soubesse o ponto exato da maré. O mapa, preso ao pulso de Lia por uma tira de couro, mostrava uma linha escura que avançava e recuava conforme o bote subia nas ondas. Caio remava do lado esquerdo, com movimentos desiguais, enquanto ela controlava o motor pequeno só o bastante para não denunciar a rota. Atrás deles, lanternas cortavam a base do farol. Um dos carros descia pela estrada de serviço, tentando alcançar a praia antes que a luz crescesse. Lia olhou para o relógio à prova d’água de Augusto, guardado na caixa desde a cisterna. Faltavam vinte e seis minutos para o primeiro sol tocar a falésia. A frase do mapa parecia escrita dentro da cabeça dela. Quem não mergulha antes da luz perde aquilo que aceitou salvar. Ela pensou no pai, depois em Caio, depois em si mesma, e detestou a ordem dessas imagens. A fenda surgiu à frente com a água espumando na entrada, estreita demais para o bote passar sem raspar. Lia desligou o motor e deixou a corrente puxar. Caio prendeu o badalo de bronze ao peito com uma corda curta. “Se eu ficar preso, você corta”, disse. Lia encaixou a máscara no rosto. “Se você ficar preso, eu tiro você de lá.”
A primeira descida foi fria a ponto de roubar o ar do corpo. Lia mergulhou na frente, levando a lanterna presa ao punho, e Caio veio atrás com chutes pesados, gastando oxigênio rápido demais. A fenda descia em curva, coberta por cracas, plantas compridas e pedaços de metal antigo cravados na pedra. A água empurrava de lado, batia nas costas, tentava devolver os dois para fora. Lia olhava para trás a cada poucos segundos. Caio mantinha os olhos nela, pálidos atrás da máscara, obedecendo aos sinais com uma disciplina que doía um pouco de ver. No fundo da passagem, uma grade de bronze bloqueava a continuação. Não tinha fechadura comum. Havia sete cavidades rasas em volta do aro, cada uma marcada por uma palavra gasta. Voltar. Possuir. Esquecer. Punir. Curar. Esconder. A sétima estava vazia, lisa, esperando um nome que ninguém gravara. Lia encostou o mapa na grade. O papel não molhou. As linhas se moveram por baixo da capa plástica e apontaram para o badalo preso ao peito de Caio. Ele entendeu antes dela pedir, soltou a corda e entregou o bronze. Quando Lia encaixou a peça no centro da grade, a água vibrou contra os ossos. Nenhum som chegou aos ouvidos, apenas pressão, dor e um gosto metálico atrás da língua.
A grade abriu para um corredor submerso que parecia antigo demais para pertencer ao farol. Lia passou primeiro, prendendo o cilindro para não bater na pedra, e sentiu o mapa puxar seu punho para baixo. No meio do corredor havia objetos presos em nichos, protegidos por vidros grossos. Uma aliança, uma miniatura de barco, um laço de cabelo, uma chave de casa, um dente infantil dentro de um frasco, uma medalha de guerra, uma fotografia de família comida pelas bordas. Garantias pequenas, escolhidas para caber na mão de alguém. Caio parou diante de uma caixa de prata com o brasão Villar. Dentro dela havia uma pulseira de criança e uma etiqueta escrita com o nome dele. Lia tocou seu ombro, chamando-o de volta, porque o ar dele caía rápido. Ele demorou um segundo a responder. Quando virou, a máscara estava cheia de pânico contido. O regulador dele soltou duas bolhas fortes e falhou. Lia agarrou a nuca dele, puxou-o para perto e empurrou seu regulador contra a boca dele. Caio respirou uma vez, duas, depois tentou devolver. Ela recusou com um sinal duro e o conduziu pela passagem, alternando ar entre os dois, boca, borracha, mão na nuca, olhos fixos, sem espaço para vergonha.
A passagem subiu de repente e lançou os dois em uma câmara de ar escondida dentro da rocha. Lia rompeu a superfície primeiro, tossindo água, e puxou Caio pelo colete. Ele caiu ao lado dela sobre uma plataforma de pedra, deitado de costas, o peito subindo depressa. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. A lanterna rolou pelo chão e iluminou paredes cobertas por marcas de maré, velas apagadas, armários de ferro e uma mesa comprida onde dezenas de cápsulas repousavam em suportes numerados. No centro da câmara, preso por correntes a uma estrutura baixa, estava o corpo do sino da Santa Ovídia, retirado da redoma do hotel e trazido para ali antes deles chegarem. O metal verde parecia vivo sob a luz. Caio se sentou devagar, ainda sem cor, e Lia percebeu que as mãos dele tremiam. Ela queria perguntar se estava bem. Em vez disso, conferiu a pressão do cilindro dele, arrancou a mangueira defeituosa e apertou a válvula reserva. Só depois segurou o rosto dele entre as mãos por um instante curto, o suficiente para obrigá-lo a olhar para ela. “Respira pelo meu ritmo”, disse. Ele obedeceu. O peito dele acompanhou o dela até a tremedeira diminuir.
As cápsulas traziam nomes de famílias, datas, valores, desejos e garantias. Lia leu com a lanterna colada ao vidro, fotografando tudo com o celular protegido na bolsa estanque. Cada peça confirmava a existência de um mercado antigo, administrado por Marta, protegido por Henrique e alimentado por gente que vendia a fraqueza dos outros em troca de porto, voto, fortuna, vingança ou perdão. A cápsula Brandão original estava vazia, quebrada no cofre dos Villar. Ao lado dela, uma cápsula nova esperava preenchimento, com o nome de Lia gravado em metal recente. Caio encontrou a cápsula Villar logo depois. A etiqueta dizia garantia em execução. Ele passou os dedos pela tampa e respirou fundo. Dentro havia uma mecha de cabelo escuro, a pulseira de criança vista no corredor e uma carta assinada por Henrique. Lia leu por cima do ombro dele. Henrique aceitava entregar o próprio filho caso Augusto fugisse com o mapa. A assinatura era firme, sem hesitação, feita por um homem que acreditava poder comprar o retorno de tudo que abandonava. Caio fechou a cápsula com cuidado demais. Lia esperava raiva, uma quebra, um grito. Ele apenas guardou a carta no bolso interno e disse que, quando saíssem dali, entregaria o pai à polícia com as próprias mãos, vivo ou morto.
O mapa apontou para um armário de ferro no fundo da câmara. A porta estava travada por três discos móveis, cada um com as palavras dos desejos repetidas em círculo. Lia girou o primeiro até voltar, Caio tocou punir no segundo, e ambos ficaram diante do terceiro, vazio no centro. O papel clareou, mostrando uma frase curta. Escrevam o que escolhem sem pedir nada em troca. Lia pegou o lápis preso ao caderno de Augusto. A mão dela queria escrever pai. Queria escrever Caio. Queria escrever vida. Cada palavra parecia porta e armadilha. Caio ficou ao lado dela, quieto, molhado, com sangue voltando a abrir no punho. Lia escreveu verdade. O disco absorveu o grafite e girou sozinho até alinhar os três pontos. O armário abriu com um estalo seco. Dentro havia uma câmera antiga, cartões de memória lacrados, um livro de atas da Fundação e uma fita cassete protegida por plástico. Na etiqueta, a letra de Augusto trouxe o golpe seguinte. Prova final. Gravar depois de ver Lia pessoalmente. Lia sentiu o corpo endurecer. Caio pegou a fita sem pressa e a ergueu contra a luz. A data era de três semanas antes. Augusto não tinha gravado aquilo no passado distante. Ele estivera vivo perto dali, pouco antes de a caixa chegar ao cais.
Um ruído grave veio do sino. Lia e Caio se viraram ao mesmo tempo. A peça central vibrava sem ter sido tocada, movendo a água acumulada no chão em círculos pequenos. No túnel por onde tinham entrado, lanternas apareceram debaixo da superfície. Marta encontrara a fenda. Lia guardou os cartões e o livro dentro da bolsa estanque, prendeu a fita junto ao peito e procurou outra saída. O mapa, agora manchado por uma linha escura que não existia antes, apontava para uma abertura alta atrás do sino. Havia uma escada escavada na pedra, subindo para uma tampa de madeira marcada com o desenho de uma coroa. Caio recolocou o badalo no centro do sino para mover as correntes, e Lia viu tarde demais que o bronze se encaixava perfeitamente. O metal tocou o metal. A câmara inteira tremeu. Em algum lugar acima, uma porta se abriu. Embaixo, a água começou a subir com força, invadindo a plataforma. O mapa mostrou a última frase antes de apagar por completo. A Rainha cobra o desejo dito em voz alta. Caio olhou para Lia, e ela soube que ele pensava em oferecer a si mesmo para atrasar Marta. Ela segurou a camisa dele com as duas mãos, puxou-o para a escada e falou perto da boca dele. “Você não decide sozinho o preço da minha vida.”