Poemas da Colonização
Poemas da Colonização
A transação
O fazendeiro criara filhos
Escravos escravas
Nos terreiros de pitangas e jabuticabas
Mas um dia trocou
O ouro da carne preta e musculosa
As gabirobas e os coqueiros
Os monjolos e os bois
Por terras imaginárias
Onde nasceria a lavoura verde do café
Fazenda antiga
O Narciso marceneiro
Que sabia fazer moinhos e mesas
E mais o Casimiro da cozinha
Que aprendera no Rio
E o Ambrósio que atacou Seu Juca de faca
E suicidou-se
As dezenove pretinhas grávidas
Negro fugido
O Jerônimo estava numa outra fazenda
Socando pilão na cozinha
Entraram
Grudaram nele
O pilão tombou
Ele tropeçou
E caiu
Montaram nele
O recruta
O noivo da moça
Foi para a guerra
E prometeu se morresse
Vir escutar ela tocar piano
Mas ficou para sempre no Paraguai
Caso
A mulatinha morreu
E apareceu
Berrando no moinho
Socando pilão
O gramático
Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou
O medroso
A assombração apagou a candeia
Depois no escuro veio com a mão
Pertinho dele
Ver se o coração ainda batia
Cena
O canivete voou
E o negro comprado na cadeia
Estatelou de costas
E bateu com a cabeça na pedra
O capoeira
“Qué apanhá sordado”
“O quê?”
“Qué apanhá?”
Pernas e cabeças na calçada
Medo da Senhora
A escrava pegou a filhinha nascida
Nas costas
E se atirou no Paraíba
Para que a criança não fosse judiada
Levante
Contam que houve uma porção de enforcados
E as caveiras espetadas nos postes
Da fazenda desabitada
Uivam de noite
No vento do mato
A roça
Os cem negros da fazenda
Comiam feijão e angu
Abóbora, chicória e cambuquira
Pegavam uma roda de carro
Nos braços
Azorrague
“Chega! Peredôa!”
Amarrados na escada
A chibata preparava os cortes
Para a salmoura
Relicário
No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí
Senhor feudal
Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia