São Martinho Pau Brasil · Capítulo 5 de 11
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São Martinho

São Martinho

Noturno

Lá fora o luar continua

E o trem divide o Brasil

Como um meridiano

Prosperidade

O café é o ouro silencioso

De que a geada orvalhada

Arma torrefações ao sol

Passarinhos assoviam de calor

Eis-nos chegados à grande terra

Dos cruzados agrícolas

Que no tempo de Fernão Dias

E da escravidão

Plantaram fazendas como sementes

E fizeram filhos nas senhoras e nas escravas

Eis-nos diante dos campos atávicos

Cheios de galos e de reses

Com porteiras e trilhos

Usinas e igrejas

Caçadas e frigoríficos

Eleições, tribunais e colônias

Paisagem

O cafezal é um mar alinhavado

Na aflição humorística dos passarinhos

Nuvens constroem cidades nos horizontes dos carreadores

E o fazendeiro olha os seus 800.000 pés coroados

Bucólica

Agora vamos correr o pomar antigo

Bicos aéreos de patos selvagens

Tetas verdes entre folhas

E uma passarinhada nos vaia

Num tamarindo

Que decola para o anil

Árvores sentadas

Quitandas vivas de laranjas maduras

Vespas

Escola rural

As carteiras são feitas para anõezinhos

De pé ao chão

Há uma pedra negra

Com sílabas escritas a giz

A professora está de licença

E monta guarda a um canto numa vara

A bandeira alvinegra de São Paulo

Enrolada no Brasil

Pai negro

Cheio de rótulos

Na cara nas muletas

Pedindo duas vezes a mesma esmola

Porque só enxerga uma nuvem de mosquitos

Assombração

6 horas

O Domingos Papudo

E a besta preta

Nadando no vento

Lei

Depois da criação do município novo

Plantado depressa nas ruas de poeira

Os bebês inumeráveis da colônia

Serão registrados em Pradópolis

Tragédia Passional

Hoje acendem velas

Na cruz no mato

E há uma inscrição

Dizendo que o cadáver da moça

Foi achado nel Rio del' Onza

Morro Azul

Passarinhos

Na casa que ainda espera o Imperador

As antenas palmeiras escutam Buenos Aires

Pelo telefone sem fios

Pedaços de céu nos campos

Ladrilhos no céu

O ar sem veneno

O fazendeiro na rede

E a Torre Eiffel noturna e sideral

O violeiro

Vi a saída da lua

Tive um gosto singular

Em frente da casa tua

São voltas que o mundo dá

Mate Chimarrão

Depois da churrascada

Ao fogo e ao vento

O cavaleiro do gado

Trouxe ouro em pó

E uma cuia festiva

Para sorvermos a digestão

A laçada

O Bento caiu como um toro

No terreiro

E o médico veio de Chevrolet

Trazendo um prognóstico

E toda a minha infância nos olhos

Versos de Dona Carrie

A neblina nos segue como um convidado

Mas há um clarão para as bandas de Loreto

Cafezais

Cidades

Que a Paulista recorta

Coroa colhe e esparrama em safras

A nova poesia anda em Goffredo

Que nos espera de Ford

Numa roupa clara de fazenda

É ele quem cuida da plantação

E organiza a serraria como um poema

O time feminino nos bate

Mas Cendrars faz a última carambola

Soldado de todas as guerras

Foi ele quem salvou a França na Champagne

E os homens na partida de bilhar daquela noite

Terraço

Rede

Paineiras pelo céu

As estrelas de Gonçalves Dias

Metalúrgica

1.300° à sombra dos telheiros retos

12.000 cavalos invisíveis pensando

40.000 toneladas de níquel amarelo

Para sair do nível das águas esponjosas

E uma estrada de ferro nascendo do solo

Os fornos entroncados

Dão o gusa e a escória

A refinação planta barras

E lá embaixo os operários

Forjam as primeiras lascas de aço

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