RPI Pau Brasil · Capítulo 6 de 11
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3 de Maio

Aprendi com meu filho de dez anos

Que a poesia é a descoberta

Das coisas que eu nunca vi

Poema do Santuário

Já estive diversas vezes na Aparecida

Onde há uma velha luta

Que é uma antiga disputa

Entre duas casas comerciais

Que querem ao mesmo tempo ser

Na ladeira de sol

A Verdadeira Casa Verde

Ditirambo

Meu amor me ensinou a ser simples

Como um largo de igreja

Onde não há nenhum sino

Nem um lápis

Nem uma sensualidade

Sol

Uma vez fui a Guará

A Guaratinguetá

E agora

Nesta hora de minha vida

Tenho uma vontade vadia

Como um fotógrafo

Guararapes

Japoneses

Turcos

Miguéis

Os hotéis parecem roupas alugadas

Negros como num compêndio de história pátria

Mas que sujeito loiro

Walzertraum

Aqui dá arroz

Feijão batata

Leitão e patarata

Passam 18 trens por dia

Fora os extraordinários

E o trem leiteiro

Que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro

Apitos antigos apitam

Sentimentalmente

Eu gosto dos santuários

Das viagens

E de alguns hotéis

O Bertolini's em Nápoles

O d'Angleterre em Caen

Onde Brummel morreu

O hotel da Viúva Fernando na Aparecida

E um hotel sem nome

Na fronteira de Portugal

Onde uma mulher bonita

Quis fazer pipi

Pela primeira vez

Fim e começo

A noite caiu com licença de Câmara

Se a noite não caísse

Que seriam dos lampiões?

Cidade

Foguetes pipocam o céu quando em quando

Há uma moça magra que entrou no cinema

Vestida pela última fita

Conversas no jardim onde crescem bancos

Sapos

Olha

A iluminação é de hulha branca

Mamães estão chamando

A orquestra rabecoa na mata

Bonde

O transatlântico mesclado

Dlendlena e esguicha luz

Postretutas e famias sacolejam

Vadiagem mística

Passei quase toda a manhã na Basílica

Rezando e olhando

Vi dois casamentos

Bentos

De fraque

O sacristão chama-se Seu Bentinho

E a gente logo que sai da igreja

Cai no rio espraiado

O hoteleiro de meu hotel

Tem cor de medalha de pescoço

E conta-me que já houve cafezais

Nos pastos

Nos bambuzais

Se eu me casasse

Queria uma orquestra

Bem besta

Poema da Cachoeira

É a mesma estação rente do trem

Toda de pedra furadinha

Meu pai morou alguns anos aqui

Trabalhando

Um dia liquidou

Ativo passivo

Cinco galinhas

E deram-lhe uma passagem de presente

Para que eu nascesse em São Paulo

Como não houvesse estrada de rodagem

Ele foi na de ferro

Comprando frutas pelo caminho

Carro restaurante

Portugal ao longo do Tejo

Para dentro de Portugal

Casas amontoadas no dia azul

Um queijo da Estrela

Figos e estrelas

Creme Brasil

Indústria Vassourense

Doce de leite

Água de Caxambu

A natureza

Sobre a mesa

Nova Iguaçu

Confeitaria Três Nações

Importação e Exportação

Açougue Ideal

Leiteria Moderna

Café do Papagaio

Armarinho União

No país sem pecados

Agente

Quartos para famílias e cavalheiros

Prédio de 3 andares

Construído para esse fim

Todos de frente

Mobiliados a estilo moderno

Modern Style

Água, telefone, elevadores

Grande terraço, sistema yankee

Donde se descortina o belo panorama

De Guanabara

Capital da República

Temperatura de bolina

O orgulho de ser branco

Na terra morena e conquistada

E a saída para as praias calçadas

Arborizadas

A Avenida se abana com as folhas miúdas

Do Pau-Brasil

Políticos dormem ao calor do Norte

Mulheres se desconjuntam

Bocas lindas

Sujeitos de olheiras brancas

O Pão de Açúcar artificial

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