A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 02
facilmente distinguir dentro da sociedade antiga, os ociosos como os homens, que escapavam ao trabalho manual para se dedicarem à especulação e às conquistas do espírito. No fundo de todas as religiões como de todas as dema- gogias, está o ócio. O homem aceita o trabalho para conquis- tar o ócio. E hoje, quando pela técnica e pelo progresso so- cial e político, atingimos a era em que, no dizer de Aristóte- les, "os fusos trabalham sozinhos", o homem deixa a sua con- dição de escravo e penetra de novo no limiar da Idade do Ócio. Ê um outro Matriarcado que se anuncia.
Todas as técnicas sociais, a legislação como a política, a ofelimidade como a infortunistica, reduzem o trabalho, o or- ganizam e compensam sobre bases sanitárias e palinódicas. E a partilha do ócio a que todo homem nascido de mulher tem direito. E o ideal comum passa a ser a aposentadoria, que é a metafísica do ócio. No mundo supertecnizado que se anuncia, quando caí- rem as barreiras finais do Patriarcado, o homem poderá ce- var a sua preguiça inata, mãe da fantasia, da invenção e do amor. E restituir a si mesmo, no fim do seu longo estado de negatividade, na síntese, enfim, da técnica que é civilização e aa vida natural que é cultura, o seu instinto lúdico. Sobre a Faber, o Viator e o Sapiens, prevalecerá então o Homo Lu- dens. A espera serena da devoração do planeta pelo impera- tivo do seu destino cósmico.
O Cristianismo surgiu em meio da maior concentração proletária da antigüidade — Roma. Há nos Evangelhos um curioso dirigismo que faz construírem eles sinoticamente, muito além da Moral de Escravos, oriental ou socrática, um código de bfem viver no trabalho e para o trabalho. Cristo é o primeiro deus trabalhador. Longe do faquirismo asceta de Buda, além dos divertissements olímpicos, Jesus Cristo, filho
do carpinteiro de Nazaré, ele mesmo aprendiz carpinteiro, fundamenta o prodígio mecânico e cria o milagre sanitário. E um deus de sindicato. Anda sobre as águas com São Pedro &trás. Faz-se transportar pelo demônio para o cimo de uma montanha, donde avista o mundo sem Dinóculo. Transfigura a água em vinho, multiplica os pães. Ressuscita Lázaro. Cria a pesca maravilhosa. As contradições matriarcais que fulgem em Mateus, Mar- cos e Lucas, os lírios inativos que não tecem e se vestem, a antropofagia eucarística e a Anunciação que faz o Cristo um filho de Direito materno e um filho do Totem, apenas confir- mam o temário do Patriarcado e de suas formas de servidão que é o texto dos Evangelhos. Roma foi na oficina e na guerra social, a síntese do arbítrio judaico, do motor imóvel de Aristó- teles e da experiência mística alexandrina. Sem Roma, Cristo não teria ocupado por vinte séculos os cimos messiânicos do Patriarcado. Sem Paulo, o escravo não teria pleiteado a dig- nidade individual em Cristo que foi a longínqua semente da re- volução burguesa. Paulo permanece o seu patrono e o seu guia.
Antes de continuar a história do homem vestido, vejamos por um instante o que é o homem. E o evolucionismo de Darwin, se bem que forme na base do conhecimento biológico atual, deixou brecha aberta a ou- tras divagações e pesquisas sobre a origem das espécies. Uma intervenção espetacular no campo do Evolucionis- mo, veio constituir a de Edgard Dacqué, cujo valor cultural enciclopédico se enriquece de uma imaginação poética sem par. Segundo as suas concepções, não é difícil chegar-se à teoria do homem pré-estelar. Coincidência curiosa com a tese da célula hereditária, da matéria sutil e eterna de Mendel e ou- tros biólogos atuais. Desse modo, no correr das transformações dos seres, o homem teria sido molusco, peixe, sáurio, ave e mamífero. E dele teriam derivado, como colaterais, os tipos fixados dessas espécies.
Que teria acontecido no seio do oligoceno ao sol, novo prenunciador do quaternário, quando o homem já tendo assu- mido a dignidade do ereto, na forma do primata, assistiu à morte dos grandes mamíferos, às transformações gigantescas da flora e à repartição diluvial dos continentes e aos mares? Aí, por adaptações lamarckianas, ter-se-iam repartido os co- laterais já em alta evolução, em hominídios, fósseis improduti- vos, larvas coiteiras de formas perdidas e ele então, o antro- popiteco, teria instalado o Reino do Macaco por toda a exten- são viável de sua marcha em busca de fixação. Seria a promis- cuidade heteróclita, onde se pjdia colocar o aparecimento do homúnculo de Bolk. Este sábio anatomista holandês, proclama que o homem é a fetalização do macaco. E nada impede que se adapte ao folhetim da vida que submete a matéria criadora de Paracelso às aventuras estruturais de Dacqué, esse "feto do ma- caco que teria enfim, realizado no Homo Sapiens o seu fim de linna, pois não é evolução e sim regressão. Não por ser o feto de Bolk, mas o simples produto do cruzamento de uma espécie superior — o antropopiteco — com as larvas hominídias onde se acentuariam as marcações de cada arcano ancestral. E o homem de cara íctia, como o homem-ave e o batráquio — seriam a réplica dos seus arquétipos perdidos na fixação dos colaterais de Dacqué. Ter-se-ia, portanto, assistido por toda a terra habitável, a um funambulesco Reino do Macaco. Na pro- miscuidade estabelecida entre o antropopiteco e essas sombras sexuais da espécie humana, qual seria o enxerto, qual o cava- lo? Se conservamos, numa marcada biotipologia, os traços da evolução de Dacqué, é certo que numa confirmação para- lela, há muito de humano em cada espécie animal. O papagaio fala, a abelha se organiza em sociedade obreira como a termi- ta, o pavão confirma Freud, a formiga economiza e o tangará dança. O correr dos milênios teria intensificado a miscigenação do homo viator, através das migrações, das guerras, dos êxo- dos e das conquistas. As raças confinadas no seu mimetismo, cor-de-deserto, coi*-de-pólo, cor-de-quermadura solar, longa- mente se mestiçaram. De modo, que hoje aparece menos ca- racterístico ou menos acentuado, o tipo originário das espécies
de que derivamos. E a constante conflitual que tantas vezes revela no homem o animal alérgico, o animal idiossincrásico, ter-se-ia atenuado ao longo da História, tornando viável e pos- sível o entendimento entre indivíduos e povos, tantas vezes desmentido e tantas vezes de novo sonhado. Campo para polêmica e para pesquisa fica o romance bio- lógico que desenvolvemos da teoria de Dacqué, juntando-se agora à de Bolk, não menos surpreendente e fabuloso, do que foi A Origem das Espécies, de Darwin, no seu início. Poder- se-á talvez fixar através da iconografia histórica, das artes e mesmo da fotografia, quanto o homem de certa época ou de certa civilização, e ate quando, reproduziu a sua origem fe- lina, íctia ou porcina. Não é inoportuno criar-se uma Dacquéá- na e levá-la às suas últimas conseqüências antropológicas e culturais. Seria aceitar o ponto de vista do primitivo que se identificava com o totem.
A promiscuidade originária é um fato. Somente a defor- mação interessada e o espírito confessional poderiam dar na atualidade um exemplo como o de Westermarck que não pode alegar ignorância dos problemas em que é especializado. Fi- cou, não como obtuso sectarismo, mas, como piada a afirma- ção do sisudo professor da Universidade de Londres, de que a monogamia é uma tara legada ao homem pelo macaco. Sem partilhar do evolucionismo polêmico de Lewist Morgan, a ciência antropológica moderna não nega a fase que sem dú- vida presidiu às relações sexuais dos primeiros agrupamentos humanos. As pesquisas de Bachofen nesse campo longínquo da Sociologia, deram a identificação do Matriarcado. Não haven- do o pai, o parentesco só podia subsistir pela consangüinidade materna.
Uma curiosa lenda japonesa sugere o que se teria passado nesse perdido período da evolução.
O Imperador da China, em busca do Elixir da Longa Vi- da, enviara às ilhas japonesas um navio capitaneado por sua filha "a princesa Esplendor da Aurora". Batendo num roche- do, o navio naufragou, atirando à costa a princesa e suas aias que foram encontrar a terra habitada por terríveis antropóides, cujo chefe era o Macaco Saru. Da promiscuidade resultante derivaram os japoneses que até hoje guardam traços psicosso- máticos desse estranho cruzamento: agilidade, membros supe- riores longos, vegetarismo, fraca visão, infantilismo, espírito de imitação, sentido, de grupo. A deusa Amaterasu, em que se transformou a princesa Es- plendor da Aurora, deu aos japoneses a fixação materna de sua origem. São filhos da Redentora de. sua primitiva natureza ani- mal. Além do Matriarcado que aí se documenta, temos na se- qüência desse achado folclorico, uma versão do Complexo de Edipo, se bem que parcial, mais forte que a deduzida por Freud da mítica grega. Os frutos resultantes da promiscuidade entre chinesas e macacos, no acordar da sua primeira cons- ciência, sentiram-se horrorizados e, querendo lançar um abis- mo entre a expressão humana adquirida e a sua origem animal, mataram o pai tribal que era o Macaco Saru. A deificação do Macaco Saru, numa interpretação eve- merista, teria dado origem ao culto aos mortos. O morto sem- pre foi objeto duma transfiguração tutelar, isto é, apaziguador do sentimento de culpa. Mesmo hoje, a família humana, pode- rosa ou modesta, não esquece a tradição do antepassado puri- ficado pela morte. Não há diferença fundamental entre a mí- tica doméstica de hoje, com sua anedótica sentimental e ico- nográfica, e o sentimento que fazia Cícero éxclamar: "Bons ou maus, tornavam-se todos, com a morte, deuses subterrâneos e tutelar es". Ê mesmo de notar como, nas classes desfavorecidas da sociedade, atual, cresce um sentimento de recuperação herál- dica, que poderíamos chamar de "Complexo do Antepassado".
O culto aos mortos não implica necessariamente uma idéia do Além. O homem arcaico acreditava na sobrevivência
local do morto sob a terra em que jazia. "Os ritos da sepul- tura — afirma Fustel de Coulanges — mostram claramente que quando se dava sepultura a um corpo, acreditava-se enterrar, ali, qualquer coisa de vivo." Virgílio dizia: "Fechamos a alma no tumulo" e é da lUada a expressão: "Que a terra te seja le- ve!"* Não é só no Egito que se produziu a técnica da sobrevi- vência na mumificação, nem é só nas tribos primitivas da Amé- rica e da Austrália, que se encontra essa concepção de que o morto persiste no local em que está enterrado. Grécia e Roma o praticaram. Tucídides, Solon e Luciano de Samosata ates- tam o antigo hábito de deixar junto ao desaparecido as suas vestimentas e levar-lhe presentes e dádivas. Suetônio narra que junto aos restos de César foram colocadas vestes, armas e jóias. No túmulo permaneciam corpo e alma sem recompensas nem suplícios. Euripedes fazia Engênia exclamar: "Derramo sobre a terra do túmulo o leite, o mel e o vinho, porque isso agrada aos mortos". A idéia de Juízo Final é de origem persa. Pertence à mi- tologia masdaísta. E de Zaratustra ao Miguelangiolo da Sixti- na, ela é a base escatológica do Messianismo. Com ela toma corpo o sacerdócio e fixa um dos seus argumentos confessio- nais, o Patriarcado. No Matriarcado toma caráter benfazejo e totêmico o culto aos mortos.
Devem-se a Bachofen, vulgarizado por Nietzsche, as pri- meiras pesquisas sobre o Matriarcado. Como já afirmamos, a cultura humana se dividiria em dois hemisférios — Matriarca- do e Patriarcado. Deriva o filho de Direito Materno do fato de que o. primi- tivo não ligava o amor ao ato da geração. O amor é por exce- lência o ato individual, e seu fruto pertence à tribo. Será preciso criar uma Errática, uma ciência do vestígio errático, para se reconstituir essa vaga Idade de Ouro, onde fulge o tema central do Matriarcado. Do macaco monogâmico de Westermarclc à Cidade Anti- ga de Fustel de Coulanges e ao matrimônio como sacramento,
têm variado as justificações da união indissolúvel, sem que, por exemplo, passasse pela cabeça daquele sociólogo e desse his- toriador, ambos mestres da ciência patriarcal, que pudesse ter havido qualquer organização familiar fora da jurisdição do pater famílias. Para eles, o mundo oomeça com uma unidade de servidãò e de culto, cujo modelo é fornecido pela gente ro- mana e por seu direito assim conceituado: Pater est quaem nuptiae aemonstrant. Nesta fórmula está a chave do patriarca- do que importa na conservação da herança paterna e na con- seqüente acumulação da riqueza em mãos de um grupo e, por- tanto, de uma classe. Lutero e Melanchton confirmaram esse ponto de vista, admitindo até a poligamia, contanto que não se dissolvesse o vínculo matrimonial que produz a herança. O volume recente de Claude Lévy-Strauss sobre as estru- turas do parentesco esgota o assunto. No entanto, o antigo pro- fessor da Universidade de São Paulo, atinge apenas as recuadas fronteiras do Patriarcado. Assim, inicia ele o seu volume estu- dando o fenômeno primitivo da retribuição. E na retribuição, a mulher como dádiva. Trata-se, portanto, de um estado adian- tado de escravidão patriarcal que ele focaliza, no qual a mu- lher é considerada um simples objeto. Só uma paleontologia social possibilitaria a restauração e o estudo das estruturas ma- tri arcais desaparecidas. É a Grécia que fornece o testemunho decisivo dessa cul- tura em que todos eram iguais, possuíam as coisas em comum e não havia o domínio do homem sobre o homem. O melhor vestígio da idade sem senhores nem escravos é dado pela Re- pública de Platão. í>ela seriam, banidas a opulência e' a pobre- za e todas as classes se igualariam. "Não tivemos em mira a felicidade de certa classe particular de cidadãos." Sobre a co- munhão das mulheres e dos filhos eis a decisão: "As mulheres de nossos guerreiros serão comuns a todos, nenhuma delas ha- bitará em particular com algum deles; também os filhos serão comuns, nem os pais conhecerão os filhos, nem estes a seus pais".
No entanto, o texto q u e assinala a passagem para o Di- reito Paterno e, portanto, q u e se coloca na aurora do Patriar-
cado, é da Orestia, de Êsquilo. Bachofen a ele fez a primeira referência. O matricida Orestes, perseguido pelas Erínias, fúrias vin- gadoras do Direito Materno, procura acoitar-se junto à Miner- va, que faz de seu crime um julgamento sensacional. O voto de Minerva decide pelo Direito Novo. Oestes é absolvido e as Erínias, convencidas da sua inutilidade, sujeitam-se às leis do Estado nascente cujos fundamentos estão na herança paterna e em suas reivindicações. O clímax do Patriarcado é dado pelo Hamlet, de Shakes- peare. Ai estrondam alto a vindita e o ressentimento do Prín- cipe, contra a mãe adúltera. Vê-se como se delineiam diferen- temente os caminhos da vida no Matriarcado e no Patriarca- do. Nas primeiras tribos humanas, desligado o ato da geração do ato do amor, não é possível drama algum ante os direitos da mulher à sua existência amorosa. Nos caminhos .do Patriar- cado, o destino trágico do Príncipe Hamlet, que é o mesmo de Orestes, se repete por milênios. Da Electra, de Sófocles à Elec- tra, de ONeilL passando por E uri pedes, Racine, Goethe e.Ib- sen, é sempre o drama aa inconformação dos filhos, ante a constante libertária dos pais amorosos. É o drama da herança e da propriadade privada. Hoje, na crise messiânica que se assinala de todo lado, caiu o clímax paternalista. Ê um filósofo quem oferece a me- dida dessa revolução nova de leis e de costumes, Jean-Paul Sar- tre. Em Les Mouches glosa o tema da Oréstia. Mas de ângulo diverso. Para o Orestes de Sartre, os remorsos são moscas. E pela primeira vez, na literatura, toma um aspecto bufo a rei- vindicação do vingador dos direitos paternos.
Werner Jaeger, no terceiro volume da Paxdéia, onde de- senvolve o tema da cultura aristocrática na Grécia, afirma que: "A paidéia dos gregos e a sua teologia filosófica foram as duas formas fundamentais através das quais o helenismo influiu na História Universal". Não é sem dúvida uma coincidência essa que faz que no século VIII a.C., quando aponta a poesia grega, Hesíodo ve- nha a ser o autor ae uma teogonia e ao mesmo tempo o cantor