A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 06
mo. Cristo foi o estímulo. O que vale é o sentido ecumênico de seu ensinamento. A experiência cristã é social e não indi- vidual. O apóstolo Paulo seria o fundador da comunhão evan- gélica. Para Royce, o pecado original não é senão o conflito entre indivíduo e sociedade. Como se vê, o Messianismo tende a seu fim. Bem longe de Royce, anterior a ele, oposto a ele, em Copenhague, apare- ce outro cristão atacado ae oposição à Igreja estabelecida. Sua vida é um imenso diálogo com o Deus da tradição, que ele começa chamando de "nosso inimigo mortal". Dir-se-ia ouvir de sua boca, o grito de Jó: "Ahl se fosse possível ha- ver um árbito entre o homem e Deus!" Na história da Negatividade, Sõren Kierkegaard se afir- ma como sujeito. Ele se insurge contra o que supõe eterna re- gra da vida. São apenas as leis do Patriarcado que o conduzi- ram ao desfecho que o fez reclamar da existência o milagre da "Repetição". Viver para ele é viver na enfermidade mortal. Conhece que "o homem natural e a criança não sabem o que é horendo, mas o homem sobe e treme". Dá medida do Patri- arcado.
As condições a que o mundo tinha atingido no apogeu da revolução industrial, encontraram seu grande analista. Foi KarI Marx. O Capital não é somente a teoria econômica que encerra ou o sonho político que propõe. É sobretudo a fixa- ção psicólogica e social das classes em luta. Para não recorrer- mos ao pai do socialismo científico, taxado de parcialidade, vejamos o que se passava no século XIX, através de um cató- lico de nossos dias, um escritor americano. No seu livro Ascen- são e Decadência da Burguesia, Emmet John Hughes repro- duz alguns depoimentos de trabalhadores, resultantes de um inquérito sobre a vida nas fábricas e nas minas, feito em 1832. Eis alguns trechos: "Com que idade começou a trabalhar na fábrica? — Oito anos. — Qual o horário que tinha? — De seis da manha, até às nove. — O que aconteceria se chegasse atra- sado? — Apanhava. — Nas fábricas há castigos corporais? — Sempre. — Ê difícil estar na fábrica sem ouvir um choro cons- tante? — Não passa uma hora sem isso". O operário em segui-
da narra a infância: "Quando me levantava tinha tal apreen- são, que costumava correr e chorar por todo o caminho". £ o depoimento de Mathew Crabtree". Vejamos ainda o depoi- mento de uma moça de 17 anos, Patience Kershaw: "Todas as minhas irmãs trabalharam empurrando vagonetes, mas três foram para a fábrica. Alice, porque suas pernas inchavam de- vido a trabalhar em água fria quando estava com o corpo quente. Nunca fui à escola de dia; freqüento a escola aos do- mingos, mas não sei ler ou escrever; vou para o poço da mina às sete da manhã e volto às cinco da tarde; começo almoçando mingau e leite; levo o jantar comigo, um bolo, e vou comendo pelo caminho; não paro nem descanso para isso; nada mais tomo até voltar para casa e então como Datatas e carne, mas carne não é todos os dias. Trabalho com a roupa que trago neste momento, calças e casaco rasgado; caiu o cabelo no alto da cabeça, devido a empurrar vagonete; minhas pernas nunca incharam, como as de minhas irmãs quando foram trabalhar na fábrica; empurro os vagonetes uma milha mais, ida para baixo e volta; eles pesam trezentos CWT; faço isso onze vezes por dia; uso um cinto com corrente para puxar os vagonetes para fora; os escavadores para quem traoalho andam nus; exceto um boné, tiram toda a roupa; vejo-os trabalhando quan- do subo; às vezes eles me batem com as mãos, quando não ando depressa bastante; batem-me nas costas; os rapazes às vezes tomam liberdades comigo e pegam em mim, sou a úni- ca moça na mina; há cerca de vinte rapazes e quinze homens; todos homens nus; eu preferia trabalhar em uma fábrica e não numa mina de carvão . Como se vê, não há exagero no que Marx escreve sobre a época da grande desapropriação das terras comunais ingle- sas, "quando os carneiros devoravam ds homens". Baseado numa empolgante documentação, Marx e En- gels traçam o novo evangelho que resulta daquele estorno ideológico, quando, no século XVI, se transfere para o êxito e a prestação de contas na terra, o que a humanidade ociden- tal alentada pelo Sacerdócio, supunha residir no céu. Face à morada confortável do burguês e à sua vida faus- tosa, Marx coloca revolucionariamente o cortiço. Entre ambos a fábrica. £ tal a força profética desse Moisés que, como o
outro, cai às portas da Terra Prometida, que imediatamente se fixam bases dogmáticas para a luta do proletariado. Ei-las: A) as leis, os costumes, a literatura, afilosofia são conseqüên- cias da estrutura econômica da sociedade. São a sua superes- trutura; B) é o próprio proletariado, oorno classe, que deve decidir de seus assuntos; C) a tomada do poder pelos traba- lhadores será uma ditadura de classe. O novo Messianismo consolida-se. No fim da luta, dar- se-á a supressão do Estado. £ o próprio Stalin quem o de- clara na sua fogosa militánda: "O Estado se manterá ante o cerco capitalista. Extinguir-se-á se for liquidado esse cerco'1. Mas Marx falou: "Entre a sociedade capitalista e a socieda- de comunista, medeia o período da transformação revolucio- nária de uma na outra. A esse período corresponde também um período político de transição, cujo Estado não pode ser outro senão a ditadura do proletariado".
As premissas de Marx vieram produzir a atualidade da URSS. £ que o estado de Negatividade, o segundo termo de Kojeve, que devia ser superado, consolidou-se no sectarismo obreiro. O operariado evoluiu, não é mais o que Marx fixou nas páginas lancinantes d'O Capital, não é mais o que chora nos depoimentos de Hughes, não é mais o que segundo a cons- tatação de padres católicos, fazia as costureiras de Paris mor- rerem depois de 36 horas consecutivas de trabalho. De ou- tro lado, produziu-se no desmoronamento da sociedade bur- guesa, uma imensa e crescente proletarização. Que é hoje o pro- letariado? Nas suas indefinidas fronteiras junta-se uma huma- nidade estuante que reclama a repartição da mais-valia. Se- ria esconder a realidade, afirmar que, fora da URSS, por meio das leis sociais, não se realiza um fenômeno ascensional de redistribuição dos lucros. Evidentemente, certos grupos de- tém ainda na mão privilégios abusivos. E contra isso se luta de todas as maneiras.' Mas o mundo mudou. O que era Messianismo, fenômeno de caos na sucessão de crises de conjuntura que deu afinal
a crise de estrutura do regime burguês, tornou-se sacerdócio empedernido e dogma imutável na URSS. Houve uma grosseira escamoteação do problema, Evoluída a classe trabalhadora, perdidos os seus contornos, a ditadura de classe se substituiu pela ditadura de partido. O fenômeno que deu o fascismo ins- talou-se no coração revolucionário da URSS e produziu o colap- so de sua alta mensagem. No prenúncio atual de um novo Matriarcado, que se pro- cessa na crise do parentesco, onde quase ninguém mais pro- cura ser pai, esposo, filho — o marxismo militante fixou-se no setor da propriedade. O Estado que se reforçara para se extinguir, prolonga e fortalece os seus arsenais armados, no argumento, sem dúvida exato, de que luta contra o imperia- lismo. O marxismo militante engajou-se na economia do Haver (Patriarcado) escapando às injunções históricas da economia do Ser (Matriarcado). E na alienação, no dinheiro, na filosofia do dinheiro, pros- segue dentro da atualidade russa, o surto enunciado pela eco- nomia do renascentismo. O Estado assume a idolatria do di- nheiro. E para ligar com férreas ataduras policiais a massa su- focada, dentro £ fórmula áspera de Paulo, "quem não tra- balha não come", utiliza a lógica de Aristóteles e a metódica de Sorel, dentro da cortina de ferro de seus limites geográficos e políticos.
Supunha-se que, díaleticamente, depois da tese — burgue- sia — e da antítese — proletariado — viesse a síntese que seria uma ligação prática eiítre o comunismo e as classes progressis- tas da burguesia. Isso se dera para ganhar a guerra com a Conferência de Teerã. De Stalin, novo Júlio César, o homem da espada e do livro, esperava-se a acomodação dialética. Ele soubera demonstrar contra Trotski, que um Estado Socialista podia subsistir ao lado do mundo burguês. Seu delegado nos Estados Unidos, o escritor Earl Browder, durante 15 anos se- cretário do Partido Comunista Americano, apontava a dire-
ção a seguir. Trazer para a paz a mesma aliança que ganha- ra a guerra. No seu livro intitulado Teerã, indicava a síntese das forças políticas vitoriosas. Que sucedeu, no entanto? Em pouco tempo, a "doença infantil do comunismo" recrudesceu e tomou conta do corpo místico da militância soviética. Sta- lin, que num último ato de coerência havia dissolvido a III Internacional, permaneceu inerte ante a reconstitui ção do Par- tido Comunista Americano que Browder conseqüentemente liquidara. E o próprio Browder se via expulso da sua antiga organização. Stalin não era o mesmo. Prisioneiro ou não do Politburo, traíra a dialética da História de que fora ativo mensageiro. O novo Messianismo deixara a sua fase de recuperação psíquica, originado, como sempre, na depressão das massas e no caos social, e entrava na sua fase dogmática. Era o último avatar dos sistemas disciplinares que haviam domado o mun- do cristão. Em vez da síntese esperada entre a burguesia pro- gressista e o comunismo, outra se processava dentro dos um- brais ideológicos da unss — a síntese entre a Reforma e a Con- tra-Reforma. Santo Inácio e Lutero davam-se as mãos no "A-B-C" de Bukharin. "É a vontade divina que decide se um ato é bom ou mau" — escrevia o monge da Reforma. Agora era o Partido que decidia, impondo o Perinde ac cadaver a seus catecúmenos. Sob o signo da ação, os novos legislados per- diam todo contato com crítica e autocrítica e, sem perceber, mergulhavam nos domínios da Ontologia, da Apologética e da purificação pelo expurgo. Lênin já declarara o seu horror a qualquer ceticismo. Nas suas mãos triunfais, o marxismo deixa de ser método para ser transcendência. Está criada, pelos seus sequazes a metafí- siva proletária. Não é a-to a que Jean-Paul Sartre denuncia como opera- ção idealista e redução de espírito à matéria na teoria marxis- ta-leninista.
Quem poderia prever, quem ousaria sonhar que o Messia- nismo em que se bipartiu a religião do Cristo (Reforma e Con-
tra-Reforma) iria medrar no terreno sáfaro das reivindicações materialistas do mandsmoP Uma pequena correção no texto dos Exercidos Espirituais dariam esta proclamação comunista: "minha vontadífe conquistar os povos que estão sob o domí- nio da burguesia. Oue lutem todos como eu para que depois dos sofrimentos venham as festas da vitória". No fundo, rerul- ge a promessa messiânica. Pelas condições históricas do progresso técnico e social, o trabalhador deixou de ser o pilar das teses românticas de Marx. Mas a autocrítica desapareceu. Toda a crítica naufra- ga no sectarismo. O perfeito militante é o mesmo boneco fa- risaico do puritanismo — socrático ou americano — que se apre- sentou ao mundo para edificá-lo, pedante, cretino, faccioso. E não seria mais estranho ouvirmos uma noite, pela boca univer- sal da Ródio-Moscou, que foi proclamado o Dogma da Imacu- lada Revolução. Se Lorca foi assassinado em Granada, Maiakovski suici- dou-se em Moscou. São os imperativos da ação, explicam os justificadores dos regimes de terror. Agora, o dever de todo bolchevique não é mais ser inter- nacionalista, é ser patriota. Quem informa é Andrei Jdanov, o Torquemada vermelho, num congresso que reuniu a fim de desmoralizar o velho professor de Filosofia, Alejandrov. O cri- me a este imputado é o de ser "objetivo" no seu manual des- tinado às classes superiores. Decorre que, depois da consoli- dação da unss, há uma "mecânica celeste reacionária" e uma "genética capitalista". Jdanov celebrizou-se pela condenação que impôs, como secretário do Partido Bolchevista, a alguns dos maiores com- positores do século, entre os quais Chostakovitch e Prokofiev. O filisteu acusava-os de serem apaixonados por combinações caóticas de sons que produzem cacofonia. A sua música seria feita de barulhos discordantes que ferem o ouvido. Numa re- solução do Partido, essa música, declara-se, lembra a música, burguesa contemporânea da Europa e da América e, por conseguinte, não presta. Ê com a ópera italiana que se vai sal- var o mundo.
ÍZO
Ao contrário dos músicos, os pintores da UBSS, pelos seus líderes modernistas, (oram mais felizes. O engenheiro Sajeve, na luta contra o naturalismo que o Partido procurava impor, afirmou que "se podem exprimir idéias não só pelo assunto, mas pela própria pintura". E o célebre escultor Mukhina, de- clarou: "A arte nasce de uma concepção emocional do mundo que é a do artista".
Se a arte na UBSS sofrerá restrições e debates, a Ciência teve o seu processo, quando Lissencko fez a conhecida inter- venção no campo da Genética, na Academia Lênin das Ciên- cias Econômicas, em 1948. A atitude do presidente dessa Instituição moscovita, foi nitida e ameaçadora. Acusou nada menos a "genética reacio- nária" de idealismo, dizendo que ela proclama "uma maté- ria hereditária imortal governando o corpo perecível, mas não nascendo dele." £ fácil identificar aí o velho esperma cósmico dos neo- platônicos, o pneuma, o plasma de Paracelso, a matéria imor- tal de Spinoza, enfim, um conceito de Filosofia clássica que não traz em si implicações metafísico-reacionárias e que vem dar tanto Mendel como Dacqué. Mas o Partido sente-se amea- çado pela rigorosa exatidão aas teses mendelistas. Elas podem conduzir à sua idéia da imortalidade da alma e de Deus! Não há compromisso algum com o velho Messianismo imortalista na doutrina de Mendel e do biólogo americano Morgan. Ao contrário, quem se compromete é Lissencko, quan- do afirma espantado que "os morganistas-mendelistas, seguin- do Weismann, partem da idéia de que geneticamente os pais não são pais de seus filhos. Acreditar em sua doutrina é afir- mar que pais e filhos são irmãos e irmãos". Está definida aí toda a essência do Patriarcado. A posi- ção de Lissencko é rigorosa. Pai tem que comparecer mesmo. Quando o mendelismo vem formular a identidade existencial e biológica do parentesco humano, Lissencko, brigadeiro da genética patriarcalista, cora e reage.
À intervenção espetacular de Lissencko na defesa de sua tese, não faltaram as denúncias e delações de companheiros, os "risos", as "tempestades de aplausos", enfim, o policialis- mo e a espetacularidade que ficamos conhecendo com o jascio. É pois no coração da unss e mais no coração da ciência sovié- tica, que foi se ocultar como um plagelado esse resíduo parasi- ta do patriarcalismo messiânico.
A Metafísica está nas fábricas. Eis a exata posição ideo- lógica da URSS. E fora dos seus limites, assiste-se a um teimo- so esforço para a revalidação das vencidas soluções do Patri- arcado. Não passa de um embuste a axiobgia que reconduz o mundo a Deus, supremo Valor. Toda a hierarquização que se tenta através da Filosofia dos Valores, constitui posição toma- da e obedece ao surrado esquema das Idéias platônicas que têm como vértice o Bem. Surge de novo a escamoteaçãio do problema do Mal que o dualismo masdaista da Pérsia ti- nha levado ao seio das heresias gnósticas. Se a Grécia tives- se sido derrotada em Salamina, talvez fosse diverso o destino ideológico do mundo.
O que se tenta pelas formas audazes ou dissimuladas da filosofia contemporânea é restaurar, através do existencia- lismo, da axiologia, da fenomenologia e mesmo do marxismo- leninismo, o Ser como tal em seu trono absolutista. O Ser como tal, o grande impostor da velha Metafísica, está no fundo da redução eidética de Husserl. Se não dermos à moderna fenomenologia o valor apenas metodológico que ela tem, estamos de volta a todas as formas de exaltação do con- ceito de Ser, de Parmênides. O que é apenas coordenada, mo- mento estável de uma simples relação ae movimento, passa a ser transfigurado em motor-imóvel. Em vez de se colocar sim- plesmente entre parêntesis o mundo fático para se trabalhar com a essência, transmuta-se esta em Ser necessário e ante-