A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 07
rior, vindo-se a contribuir, assim, para uma última reencarna- çâo do Idealismo. Como se vê, Husserl acaba reeditando a pedra angular de conservantismo assim enunciada pelo Cristo: "Não vim para derrogar a lei e sim para confirmá-la". Eis como ele prossegue dando um fecho de ouro às suas Meditações Cartesianas: "A fenomenologia não diz que pára diante das últimas questões, as mais ates" "O Ser primeiro em si, que serve de fundamento a tudo que há de objetivo no mundo, é a intersubjetividade transcendental, a totalidade das mônadas que se unem nas formas diferentes de comuni- dade e de comunhão". O grande doutor da Igreja, Santo Agostinho, é afinal quem diz a última palavra das Meditações de Husserl, agora em defesa da intuição: "/n interiore hominem habitai veritas". Como Joseph K., o personagem d'0 Processo, de Kafka, estamos ante os esbirros matinais que querem nos reconduzir ao velho mito da Caverna platônica.
Deixemos, porém, a fenomelologia para ver de fase o Exis- tenciaüsmo, na sua aparição ortodoxa ae subjetividade pura. O primeiro cuidado será situar a subjetividade pois a subjetividade também carrega a sua história. Há uma subje- tividade no Matriarcado, diversa da que aparece, com a for- ça de uma reivindicação fundamental, nas primeiras horas da corrupção dò regime paternalista, em Soren Kierkegaard. O Existenciaiismo recolocou o homem na sua ansiedade ancestral. E isso basta. Tanto a equação Tempo e Ser, o es- tar para a morte, o naufrágio de Jaspers como a tensão de Sartre ante a Negatividade, tudo recoloca o homem no meri- diano da devoração.
A psicanálise custou a compreender que era preciso ata- car o Superego paternalista. Durante muito tempo as soluções
apresentadas pela escola de Freud não viram senão nos remé- dios negativos do Eu (recalque, regressão, anulação e isola- mento) como nas formas masoquistas (volta contra si mesmo, transformação no contrário) a maneira de liquidar os confli- tos internos do homem histórico. Começou-se enfim a compreender que o Superego tam- bém podia estar errado. Do mau acolhimento dado aos direi- tos do instinto submetidos que estavam às disposições disci- Hnar da Moral de Escravos, passou-se a uma fase psicana- S tica em que se procurou legalizar o homem natural que re- sistia, por meio ae neuroses e estados de ficção, às injunções seculares do socratismo ocidental Chamamos estados de ficção aos distúrbios e alienações em que se entoca e desenvolve o Eu agredido pelo ambiente. Histeria, paranóia, vdelírios de ciúme e de religião, ausências, tudo passa a ser nas mãos do Eu poeta, do Eu romancista, do Eu moralista, desenvolvidos no trauma, tonas da deriva- ção da doença. Se recorrermos à História veremos como esses estados princepes, produzidos em geral nas personalidades for- tes, promovem outros que chamaremos estados de espelho e dai a extensão de grupos contagiados e multidões passivas. Que é a crônica do Monaquismo oriental como ocidental, desde à ascese bràmane até o anacoretismo autoflagelador, ou os fartos refúgios do ócio que vieram a ser os conventos, que é a vida solipsista claustral e ceHbatária, senão um código de fenômenos de defesa nas abominações do Patriarcado? Para que se tivesse uma perfeita discriminação desses ma- les históricos que se podem curar oom uma mudança de meio ou de atitude social — seria -curioso recorrer ao exame dos possíveis pathos e fobias do Matriarcado através de documen- tário e folclore, como da exegese culta. Nenhum sentido, por exemplo, teria num regime matriarcal o que os freudistas cha- mam de "complexo de castração", pois nenhuma diminuição pessoal da mulher traria a constatação dela possuir um sexo diverso do homem. Somente a idéia de domínio do irmão — invenção patríarcalista — poderia, numa já complexa fase psí- quica, trazer à criança qualquer ligação do fenômeno domés- tico de preponderância com o fato fáHco. Seria necessário re- visar Freud e seu epígonos despindo-os, em rigorosa psica-
nálise, dos resíduos vigentes da formação cristã-ocidental de que todos derivaram. A importância catastrófica atribuída a Don Juan, numa tribo poligâmica seria ridícula. Don Juan é uma criação do Patriarcado. tJm forte organismo de agressão nos domínios do pecado contra a herança e a legitimidade. Todas as suas vítimas do período econômico-moral da Re- nascença e do Romantismo, seriam hoie, na América, vulga- res divorciadas, usando, é claro, métodos anticoncepcionais e solidões de arranha-céu. Evidentemente o freudismo se ressente dos resíduos de sua formação paternalista. Falta a Freud e a seus gloriosos sequazes, a dimensão Bachofen. Eles não viram que suas pes- quisas se limitavam e sua interpretação se deformava, na pau- ta histórica do Patriarcado. O padrão pedagógico do Ocidente venha de Fénelon ou de Jean-Jacques, dá sempre, em qualquer casa, em qualquer família constituída, a educação do príncipe. Numa sociedade, onde a figura do pai se tenha substi- tuído pela da sociedade, tudo tende a mudar. Desaparece a hostilidade contra o pai individual que trás em si a marca na- tural do arbítrio. No Matriarcado é o senso do Superego tri- bal que se instala na formação da adolescência.. Numa cultura matriarcal, o que se interioriza no adoles- cente não é mais a figura hostil do pai-individuo, e, sim, a imagem do grupo social. Nessa confusão que o Patriarcado gerou, atribuindo ao padrasto — marido da mãe — o caráter de pai e senhor, é que se fixaram os complexos essenciais da castração e de Édipo. Simone de Beauvoir, no Deuxième Sexe, esse evangelho feminista que se coloca no pórtico da nova era matriarca!, es- creveu: "Ce ríest pas la libido féminine qui divinise le père". Ê na luta doméstica com a mãe e depois na luta com o am- biente, que cresce a divinização possível do pai como socor- ro, poder moderador e alento sentimental. Fenômeno do Pa- triarcado. No estudo dedicado à Psicanálise, a grande escritora cita Freud perplexo no seu estudo sobre Moisés, ante a soberania do pai na História do Homem. Evidentemente, o criador da
Psicanálise não deu atenção especial à Revolução do Patriar- cado. Percorremos assim em larga escala as posições atuais do Messianismo. Secularizado por Lutero, ele foi vítima da as- censão da bruguesia ocidental, na sua grande expressão teo- cêntrica —.o Papado. .Mesmo o protesto que mantinha preso no Vaticano o sucessor de Pio IA, se desmanchou numa ope- ração de contabilidade. "Todo animal é um manequim indeformável de uma cer- ta forma de honra" disse Ciraudoux. Eis o começo da dig- nidade do ereto, que com dignidade aspira ao ócio. Cícero já reivindicava — otium cum digrütate. O homem, o animal fideista, o animal que crê e obede- ce, chegou ao termo do seu estado de Negatividade, às portas de ouro de uma nova idade do ócio. Nela não se propõe o pro- blema da liberdade. Esta só existe como reivindicação, quancb o homem passa a escravizar o próprio homem, a negar-se como Ser determinado por ela, a liberdade, isto é, no Patriarcado. Aí, ela é a consciência da necessidade. No vocabulário da ser- vidão ela é a humana tendência do retomo ao justo que é o natural Schopenhauer disse que, só na união de todas as vonta- des numa só vontade, pode existir ética. Ê verdade. Fora dis- so, há éticas de classe, desde Aristóteles. No mundo sem clas- ses que se procura atingir, a ética e a eqüidade substituirão as deformações interessadas do Direito Positivo. O inexplicável para críticos, sociólogos e historiadores, muitas vezes decorre deles ignorarem um sentimento que acompanha o homem em todas as idades e que chamamos de constante lúdica. O homem é o animal que vive entre dois grandes brin- quedos — o Amor onde ganha, a Morte onde perde. Por isso, inventou as artes plásticas, a poesia, a dança a música, o tea- tro, o circo e, enfim, o cinema. Ainda uma vez hoje se procura justificar politicamente as artes, dirigi-las, oprimi-las, fazê-las servirem uma causa ou uma razão £ Estado. Ê inútil
A arte livre, brinco e problema emotivo, ressurgirá sem- pre porque sua última motivação reside nos arcanos da alma lúdica.
No imenso combate contemporâneo, os Estados Unidos são acusados de dois crimes. A acumulação capitalista — que, numa época avançada como a nossa, é inexplicável —, nas mãos de alguns privilegiados e o imperialismo, de cujas formas agrestes, na verdade, se despojou. Mas, sem dúvida, é na América que está criado o clima do mundo lúdico e o clima do mundo técnico aberto para o futuro. A descristianização da vida, segue-se a descristianização da morte. Procura-se na América levar às últimas conseqüên- cias a concepção estóica do primitivo ante a morte, considera- da ato de devoração pura, natural e necessário. Já existem as casas serenas para onde se conduz o extinto entre jardins flori- dos, absolutamente libertos da austeridade funerária do passa- do. Qualquer recém-vindo a uma cidade que pretenda habi- tar, recebe não só a caderneta do empório como a proposta de pagamento à prestações, de seu próprio enterro. Todo o apa- rato horrífico da morte cristã, que prenunciava o terror do Juízo Final, toda a plástica funerária do Cristianismo que en- treabria as portas do inferno sob altares e tocheiros, desapare- ce ante o mundo lúdico que se anuncia. Trata-se de procurar soluções paralelas ao primitivismo como n'A Revolução dos Gerentes, de James Burnnam, A téc- nica trouxe, é claro, uma nova dimensão ao mundo em mu- dança. Um filósofo como Karl Jaspers não compreende o que sig- nifica, para a massa democrática que soJ>e, o esporte, o re- cordismo, a glória de Tarzan e a glamour girl Não compre- ende que o mundo do trabalho, graças à técnica e ao progres- so humano, passa os encargos sociais para a máquia e procura realizar na terra o ócio prometido pelas religiões no céu. Uma filosofia do êxito contrapõe-se à filosofia do deses- pero, brotada do seio hamlético de Soren Kierkegaard. Esta
não passa além das fronteiras da burguesia culta que, cons- tatando a mediocridade do cotidiano na sua frustração de clas- se, opina pela angústia como solução e pelo projeto como ideal.
A nossa tese afirma: 1.°) Que o mundo se divide na sua longa História em: Matriarcado e Patriarcado. 2.°) Que correspondendo a esses hemisférios antagônicos existem: uma cultura antropofágica e uma cultura messiânica. 3.°) Que esta, dialeticamente, está sendo substituída pela primeira, como síntese ou 3.° termo, acrescentada das conquis- tas técnicas. 4.°) Que um novo Matriarcado se anuncia com suas formas de expressão e realidade social que são: o filho de di- reito materno, a propriedade comum do solo e o Estado sem classes, ou a ausência de Estado. 5.°) Que a fase atual do progresso humano prenuncia o que Aristóteles procurava exprimir dizendo que, quando os fusos trabalhassem sozinhos, desapareceria o escravo. 6.°) Que, sob o aspecto dissimulado ou não da seculari- dade, a filosofia comprometida com Deus nunca deixou de ser messiânica. 7.°) Que a URSS exprime um pequeno anseio da grande revolução do parentesco que se realiza com o advento do novo Matriarcado. A sua revolução se concentra numa ênfase — a db setor da propriedade. 8.°) Que, ao lado disso, a unss, levada pela mística da ação, perdeu o impulso dialético de seu movimento, enquistando- se numa dogmática obreirista que lembra, em síntese, a Re- forma e a Contra-Reforma. 9.°) Que isso exprime o último refúgio da Filosofia mes- siânica, trazida do Céu para a terra.
10.°) Que, face à concepção histórico-coletivista de M,arx, o Existencialismo exprime um momento alto da Subjetividade, aquele em que o indivíduo se historializa como consciência e como drama. No Patriarcado. 11.°) Que só a restauração tecnizada duma cultura antro- pofágica, resolveria os problemas atuais do homem e da Filo- sofia. , 12.°) Que A Revolução dos Gerentes, de James Burnham, lembrando a gerontocracia da tribo, oferece o melhor esque- ma para uma sociedade controlada que suprima pouco a pouco o Estado, a propriedade privada e a família indissolúvel, ou sejam, as formas essenciais do Patriarcado. 13.°) Que o homem, como o vírus, o gen, a parcela míni- ma da vida, se realiza numa duplicidade antagônica, — benéfica, maléfica — que traz em si o seu caráter conflitual com o mun- do.
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