A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 04 A crise da filosofia messiânica · Capítulo 4 de 8
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A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 04

verdadeiro cristão é conhecido pelo fato de que obedece aos mandamentos de Deus. Quem deseja a verdadeira vida, aqui e depois, precisa seguir os mandamentos". Do Confuctonismo; (Shu-King: 4-3-3; Lun Yu: 20-3-1) "Para obter o favor do céu, devem-se observar os estatutos do céu. Quem reverentemente observa esses estatutos e é obedien- te à vontade do céu, terá felicidade e tornar-se-á um homem su- perior". Do Hinduísmoi (Bhagavad Gita: 18-58-73) "As leis de Deus são eternas, sublimes e profundas. O homem que for obediente a elas será feliz e, depois da morte, experimentará uma alegria infinita". Do Judaísmo: (Deuteronômio 7-9-11-1; Reis 8-61; Sal- mos 25-10; 103-17; 18-119; 47-48; 70-77; 97-101; 112-113; 127-140; 143-163; 167-174; Provérbios 15-5) "Os mandamentos do Senhor são justos e devem ser obedecidos. Desobedecer resulta em castigo, obedecer resulta em felicidade e bem-aven- turança. Deus não recompensa os povos e nações que lhe re- cusam obediência". Do Maometismoi (Alcorão 4-124) "Estarei com o crente que ouve a palavra do Senhor e obedece. A lei do Senhor foi dada aos homens para ser obedecida. O castigo dado à deso- bediência é severo". Do Síkhismo: (Japji - 13-14-15; Asa-Ki-War - Pauri 22) "O homem é para Deus o que o servo é para seu Senhor. Por- tanto, precisa obedecer sempre. Quem obedece terá honra e felicidade e eventualmente encontrará seu Senhor". Do Taoísmo: (Kwang — Tsé 12-2) "O homem completo e perfeito é o que obedece sempre à vontade do Senhor . Do Zoroastrismo: (Yasna 45-50-6) "O Senhor é sábio. O que ele ordena é bom para seus súditos e seus mandamentos devem ser obedecidos. A imortalidade é a recompensa ofere- cida ao obediente".

Se o homem ignora Deus que é supra-racional, ignora as suas razões. Plotino dá um passo à frente no caminho aberto por Aristóteles na justificação do absolutismo inamovível — o

primeiro motor. Tá em Plotino transparece o futuro monge da Reforma, Martinho Lutero, que não discute nem quer discutir as razões de Deus. Se Deus é inatingível, suas razões o são também. Resta-nos curvar a cabeça e obedecer. Vê-se em Plotino, retórioo romano do século III, ao con- trário de uma adesão às teses da Patrística, que são no mo- mento revolucionárias, um reajustamento em torno do Império combalido que procura a sua perdida unidade. Plotino pensa no inefável para ver se assim atinge, mesmo através das degra- dações da Natureza, o Supremo Ser. Nele se esboça numa coin- cidência histórica, o Logos de João. Se Plotino diverge de Aristóteles quanto ao motor imó- vel, é em relação à Física e não à Metafísica. À idéia de uma multiplicidade de motores secundários, ele reage acentuando a ortodoxia de um texto do próprio Aristóteles: "A primeira es- sência não tem matéria alguma, pois, é realidade perfeita". Assim, a teologia arístotélica por ele desenvolvida e transfor- mada em teologia negativa, de modo algum infirma a posição absoluta e absolutista do motor imóvel De modo que todo esse impressionismo filosófico do neoplatonismo não desserve nem desilustra o motor imóvel, espelho no céu dos tiranos co- roados da Macedônia. Em Plotino que se liga aos cosmólogos pré-socrá ticos, en- contramos, no entanto, a raiz dessa filosofia da natureza que propõe um sopro, um pneuma, uma matéria incriada e imortal, o "germe de luz" do gnóstico Valentino e à qual o imperador apóstata, Juliano, procura dar a última formulação. A mesma que depois esplenderá em Giordano Bruno, Francisco de Assis, Averróis, Spinoza, Schelling e William Blake vindo dar Ba- ohofen e os contemporâneos Ludwig Klages e Edgard Dac- qué. Em Plotino, não há sombra de Messianismo. Há uma par- te imortal em cada ser, porém ela não se liga a nenhuma cons- ciência escatológica.

Na fecunda messe de heresias, que são o fruto do primeiro Cristianismo, o que se nota até o aparecimento de Agostinho

é uma inconformação sem par. A antiga Roma se desorganiza e declina. Com a decadência do Império,, surgem de todo lado as discussões bizantinas em torno das teses da Boa Nova mes- siânica. Se esta foi proletária no seu inicio, é que a Patrístíca conservou uma uniaade polêmica favorável aos temas comu- nistas originados da seita dos Essênios, confirmada nos Atos dos Apóstolos e ganhando vitalidade no desenvolvimento da questão social, em Roma. Todas as heresias se tingem de revo- lucionarismo social. Pelágio quer a predestinação para todos e vê de um modo democrático, para todos a graça. Orígenes admite a salvação por etapas, atingindo até o próprio Satã. T fundo dessas polêmicas, que enchem os primeiros tempos da Igreja, estronda a questão social, e, por conseguinte, a incon- formação ante o Direito paternalista imperial. Com o africano Agostinho, salva-se, no entanto, a autoridade da Igreja e sal- va-se Deus com a teoria do arbítrio, apanágio e sina do Pa- triarcado. Os heresiarcas são condenados. A predestinação e a eleição dominam a teoria da Igreja, em meio das ruínas fume- gantes do Império Romano. Se Alarico toma Roma impune- mente, aproveitando-se das dissenções do Império com o Orien- te, já São Leão em 452 faz parar Atila na Itália e em 455 con- verte o vândalo Genserico. Não se trata de uma simples coincidência, essa que trans- fere à Igreja, reforçada pela tese intemacionalista da Cidade de Deus, e pela tese aristocrática da eleição, todo o prestígio romano ante o convulsionado fim do Império. Os fenômenos nessiânicos avultam nos traumas sociais e nas desintegrações. Caberia a um africano mesmo, trazer o sangue novo de que precisava o Sacerdócio para comandar. Aliás, cabe à credulidade bárbara oferecer esse sangue no- vo e vitalizador para os mandamentos e os dispositivos do Cristianismo. Entre nós, no Brasil, tivemos aquele curioso epi- sódio relatado por Claude d'Abbeville, em que, o cacique Ja- pyuassu, se defende perante os jesuítas do crime de morte na pessoa da companheira adúltera. Ele nada mais fez do que cumprir o que me haviam ensinado. Um outro episódio é em- prestado ao mundo das invasões nos primórdios da conversão — o de Genserico. Na tomada de Cartago, mandou fechar os cabarés e dar maridos a todas as prostitutas.

Em Agostinho, o Sacerdócio retomara o seu papel de sen- tinela ativa do arbítrio. Só Deus escolhe, só Deus elege, só Deus salva. Ao lado disso, ele informa (por isso é Doutor), que só a Autoridade da Igreja faz crer em certos absurdos bí- blicos. De modo que, em Agostinho se funda a doutrina da autoridade e do arbítrio que ia produzir, da Idade Média à Reforma, o esplendor do Sacerdócio Ocidental. Estava debe- lada, assim, a crise do século V. A passagem do mundo roma- no para a Idade Média através da conversão, marca depois, em Guilherme de Occan, uma nova ênfase do arbítrio. Deus pode fazer o que quiser. Para ele não há compreensão nem crítica. É a entrega pura e simples do escravo. Constitui um verdadeiro romance policial seguir-se a aven- tura patriarcalista do arbítrio através das páginas eruditas de Etienne Gilson. Um verdadeiro romance de Deus essa dissi- mulação do arbítrio sob as vistosas roupagens do Criador do Céu e da Terra. Apesar do respeito que infundem os gregos, a opinião média sobre a ciência é a de Pedro Damiani. E o diabo quem inspira aos homens o desejo da ciência e foi esse desejo que causou o pecado original, fonte de todos os nossos males. Apesar disso, o monumento da teologia medieval assen- ta sobre Aristóteles. £ Tomás de Aquino. Para ele "Deus ama irresistivelmente a ordem imutável". Que é afinal o Tomismo? Um fenômeno de ocaso. Como no início da ascensão burguesa, aparecem as grandes utopias do Humanismo trazendo a furo as velhas concepções coletivis- tas, é no século XIII que se produz a grande síntese ideológica do mundo medieval já em decomposição. Toda a Metafísica como a Ética do Aquinata repousam sobre as bases messiâni- cas do mundo, que tende a levar o homem ao seu único destino — à vida futura, ao céu. Quando vai apresentar-se, como vírus ativo do pensamento burguês a predestinação agostiniana, que de Lutero e Calvino dará toda uma linhagem de tubarões sa- tisfeitos, da City londrina à Wall Street, o professor dominicano vai levar à Sorbonne, na sua fundação, o realismo, declarando ser a Metafísica uma ciência muito mais exata do que a Física. Todas as suas sutilezas, todos os seus arroubos são em torno da idéia do motor imóvel, símbolo solar do Patriarcado, agora revestido dos mitos iconográficos do Cristianismo. Deus

é a Trindade. Tomás coloca-se em face do nominalismo como um adepto da realidade dos universais. "A existência atualiza a essência" — afirma. Em m a t a r i a política ele toma a posição comprometida de filósofo paternalista. Sobre isso desenvolve todo um temário. "Para a perfeita regularização da vida hu- mana, é preciso a instituição de uma lei, superior às léis na- tural e humana que ajuste os atos do homem para seu fim transcendente." "Corresponde à lei, induzir o homem ao cum- primento de seu dever." "Como a lei emana de um só rei para um só reino, e como o gênero humano constitui um reino pára um só cetro, o cetro de Deus, só há uma lei divina." Apesar dos trambolhões políticos de seu tempo e das lutas entre o Papado e o Império, Tomás de Aquino já sabe legislar o direito divino dos reis. O Sacerdócio tem nele a sua consagra- ção de mediador. E a sombra do Aquinata se projetará, reacionária e triste, sobre cinco séculos do Ocidente. Seu afã fora arrancar o ser do fluir, impor o absolutismo inamovível sobre a dialética da História.

Nas guerras camponesas que iniciam a Idade Moderna, vè-se uma marcada tendência quiliástica nas reivindicações dos sequazes de Thomas Münzer. Ao contrário do Cristo dulçuroso de Lutero, é o Cristo do Milenarismo, do Juízo Final próximo, que anima as hostes re- volucionárias do campo alemão. Eis o que afirma Leopold von Ranke: "Sentia Münzer, como sabemos, um grande desprezo pelo Evangelho Poético que Lutero pregava, por seu "melífluo Cristo", por sua doutrina segundo a qual o Anticristo — o Papa — seria destruído somente pela palavra, sem se recorrer à vio- lência". O ano jubilar estava às portas, quando "cada um voltaria de novo à posse dos bens herdados por ele vendidos". Essa subversão da propriedade iria terminar com a adesão de Lute- ro às classes dominantes. E seria pela espada que o "dulçuroso Cristo" ia abater as hostes comunizantes do iluminado Münzer.

Da mística pré-protestante a Jacob Bohme, de Mestre Ee* khart aos iluminados que Henri Brémond estudou, há uma linhagem de intuitivos que, ateizados ou não e trazidos para a poesia, darão os acentos lancinantes da Sturm und Drang e mais tarde os do Romantismo. Para os grandes místicos, o Messianismo é assunto de por- tas fechadas, e, portanto, assunto que dispensa o Sacerdócio. Teresa de Jesus sente a presença fíçica de Deus e a sente com certeza, mais na intimidade de sua cela do que na confissão auricular. Aí, o intermediário só pode comprometer o retulez- vous. O contato místico descera do caráter orgiástico que tinha na Grécia (mistérios órficos, festas dionisíacas) e que se con- serva ainda nos povos primitivos, para constituir no civilizado a mais secreta das experiências íntimas. Roger Bastide assinala em seu livro sobre a vida mística, segundo textos muçulmanos e cristãos, que Deus esvazia o pa- ciente para depois encher o vazio com a sua presença. E pro- duzir um estado de tensão de todo o ser. Trata-se de uma luta terrível entre as potências do instin- to e as da vontade, escrava do mito atuante. Os alumbrados são os atletas de Deus, ou melhor, os seus treinadores. A noite em que o Jacó bíblico perdeu para o Anjo, marcou o início dessa terrível prática mágico-masòquista, em que a entrega assume proporções que hoje a patologia estuda e define. A mística passa a ser uma doença, com o desaparecimen- to das atividades de superfície. E a teopatia, o aniquilamento, a calcinação. Atenuada, coleciona simples fenômenos de mito- mania. Essa capitulação do contemplativo que ultrapassa os re- cursos da razão, tem armado mais de uma vez na História, sob o comando do Sacerdócio, o braço secular. Pior para quem não acredite! Dela saiu o Alcorão e dela se têm alimentado os livros santos de mais de uma religião ativa. Lembremos, por exemplo, a Cruzada contra os albigenses pregada por São Do- mingos.

Há na crise sacerdotal do século XVI, duas posições níti- das tomadas para sempre nos destinos do Cristianismo. Com todas as suas tropelias e seus erros, a corrupção ro- mana, a tirania apostólica, a venda das indulgências, o Catoli- cismo conserva a linha tomista que traz em si, além da socio- logia da esmola, um vago perfume de coletivismo. Assim, ante a irrupção do burguês ganhador, para quem a acumulação de bens terrenos emancipa dos ancestrais compromissos com Deus oonduzindo-o do liberalismo ao ateísmo, a reação da Igreja Católica é muitas vezes duma violência polêmica de pri- meira ordem. Assim, já afirmava, como princípio, a Escolás- tica: "As pessoas que fazem empréstimo a juros não deviam encontrar mais tolerância por parte do Estado do que as pros- titutas: ambos esses ofícios caem sob a proibição do Direito Natural". Pelos que ainda conservam os preconceitos medie- vais do "justo preço" o ideal da sociedade burguesa consiste em: "sugar o sangue da viúva, tirar a herança do órfão, opri- mir, sufocar, devorar o pobre que não tem a força de resistir e construir a própria casa sobre a ruína de vinte famílias". Libertado pela teoria da graça, o protestante segue cami- nho diverso. Na santidade, no puritanismo e na ascese de Ben- jamin Franklin, se insere inconscientemente a psicose do lu- cro: "Se amas a vida, não percas tempo, pois, que o tempo é a substância da vida. Que tempo inútil gastamos em dormir, esquecendo que a raposa que dorme não pega galinhas e que, no túmulo, teremos tempo de dormir por toda a eternidade". Seus ditados são: "Tempo é dinheiro" ou "Poupar, poupar, poupar". Com a superação do mundo medieval, o Patriarcado so- fre os primeiros embates do espírito moderno. Através dos ar- tistas ao Renascimento, redescobre-se o corpo humano. Com Descartes a razão afirma que existe e sobre as técnicas do pensamento a ciência estende um vasto império, até aí insus- peito. São duas incalculáveis conquistas. O )iomem tem corpo e razão. De outro lado, Spinoza ligando Deus à Natureza, res- titui à alma humana o seu sentimento cósmico, fora das injun- ções do Sacerdócio e da Igreja. Antes disso, os humanistas lançavam do fundo de suas uto- pias revolucionárias, as primeiras ofensivas contra a ortodoxia

absolutista. Erasmo afirma que "os príncipes cuidam mais dos seus rufiões mercenários que dos seus súditos". "Verdade é, que eles se servem daqueles para dominar o povo". Ê ainda Erasmo, que com Thomaz Morus, levanta a voz a favor da justiça internacional e da paz. Ao seu lado, Hugo Grocio, re- vive as teses do Direito Natural. Campanela restaura o ideal da República platônica, indicando o modelo matriarcal de Es- parta. For mais que surjam contradições no pensamento huma- nístico, sendo uns pela monogamia, outros pela posse comum das mulheres, em todos, porém, se encontra o germe da inquie- tação que vai produzir os progressos da nova era e ameaçar o Messianismo. Bem se exprime pela boca de Bacon de Veru- lan, o sentimento de que pela ciência se desvendarão os mis- térios do mundo e se derrogará o atraso em que mergulha a humanidade. Na Nova Atlântida ter-se-á por um dos principais fins "a descoberta das causas e o conhecimento da natureza intima das forças primordiais e dos princípios das coisas, a fim de que se estenda o império do homem sobre toda a nature- za e que ele execute tudo que lhe for possível". Duas figuras decisivas marcam, antes do aparecimento racionalista de Descartes, o descrédito da ortodoxia messiâni- ca. São Rabelais e Montaigne. O que, porém, faz estremecer e desabar o edifício da Ida- de Média visionária, sacerdotal e castelã, é o adverto econô- mico da burguesia. Mais do que a pólvora dos canhões, é o di- nheiro na sua validade anônima que derroga os privilégios da nobreza feudal e da clerezia usufrutuária. Numa gi- gantesca operação de estorno ideológico o que agora se pro- cura é o êxito na terra. O triunfo no céu importa menos que a moeda à vista, sonante e boa. A separação abismai entre a Ida- de Média e a Renascença é dada pelo aparecimento do dinhei- ro burguês. Com ele a iniciativa, o crédito e a técnica. Os do- cumentos bancários e o papél-moeda inventado na China no século XIII, fluidificariam de tal maneira o poder monetário que os valores vitais deviam ceder ante a expansão dos valores econômicos produzidos e multiplicados por toda parte. A ci- dade, face ao castelo, é o segredo da transformação diabólica do mundo. A cidade é o mercado, a cidade é o desejo que es-

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