A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 05 A crise da filosofia messiânica · Capítulo 5 de 8
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A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 05

timula a produção. O burguês não se tornara ainda o explora- dor genialmente descrito pelo romancista Marx. Ele é o ini- migo n.° X da servidão do campo. "O ar do burgo produz li- berdade" — diz um provérbio alemão da época, A cidade traz no seu bojo o banco e o empréstimo. O senhor feudal que con- serva a economia de Deus, naufraga na dívida, filha dileta da prodigalidade. Na cidade, o burguês economiza. O dinheiro é o agente anônimo da sua força. Junto com a pólvora, ele destrói as pesadas muralhas onde se açoita impotente, o senhor do latifúndio. £ através do dinheiro, e, portanto, do crédito que o burguês inicia a sua emancipação. O homem comum po- de agora ser alguém. Dispensa os privilégios que destacavam, no fundo amargo das explorações medievais, o barão feudaL A burguesia, no entanto, cerca-se de todas as precauções aternalistas. £ a família monog&mica em face da bastardia S o castelo. Data dessa época, a instituição da monogamia en- tre os judeus. E o Direito Romano ressurge porque e o Direi- to que garante e defende a propriedade. Uma volta às Doze Tábuas. £ o Direito que sustenta a herança. £ o Direito que tutela a mulher e a conserva inerme no poder dos agnatas. Ela se vinga. De uma só vez, na Roma da gens patriarcal, tinham sido condenadas à morte cento e setenta esposas por envena- mento dos maridos. Agora atenua-se o conflito. Engels afirma que o casamento monogámico vive sobre duas muletas — o adultério e a prostituição.

Mas a grande crise é a crise do Sacerdócio. O apogeu do Papado, 'na sua ligação com o Santo Império Romano, pro- voca ódios e dissensões. A corrupção lavra no mundo religio- so. E no horizonte das heresias, iluminado pela fogueira de Ciordano Bruno, surge a figura apaixonada do monge Refor- mador. Roma para ele é a "sangrenta prostituta de Babilônia". A primeira atitude de Martinho Lutero é a liquidação do celibato sacerdotal. O sacerdote perde aí a sua vestalida- de. Passa a ser o homem sem mistério, o homem devassado pela intimidade da família. Do outro lado, o Reformador dá as ba- ses para a força moral da burguesia. Ê a doutrina da graça.

Deus elege os beneficiários do lucro. Contra o Sacerdócio, que é ócio sagrado, surge» na sua virulência, o negócio que é a ne- gação do ócio. E sobre o dinheiro-papel, sobre o crédito e a transação fi- dudária ergue-se o mundo do banco, do comércio e da in- dústria. Ê no fiado que o mundo se transforma. O crédito* bai- xa & terra, descido das promessas de uma sobrevivência inú- til oomo um bocejo eterno. A burguesia é a ação, a inquie- tude, a graça imediatamente negociada. Pode esmagar os fra- cos que se interpuserem em seu caminho. A justificação pela fé é a grande arma do arbítrio. Parece que o pecador Lutero teme a justiça de Deus. "Só a graça é que salvai", clama ele num desespero. Na luta contra o Papado, apela para o poder secular e proclama que o príncipe pode definir o dogma. Mas, nas asas ao negócio, Lutero colocava a destruição da própria fé. £ com ele que o Messianismo declina. Alguns séculos mais, e um crente, o francês Bernanos, passará o público recibo da descristianização da Europa.

O negócio é a Imoralidade fecunda. Da insensibilidade dos precursores do capitalismo vai sair a força terrena da revolu- ção industrial. Eis como Lutero define o seu próprio estado de eleição: "Um dia Deus se voltará para nós sorrindo e nos ornará com uma coroa imarcescível dizendo: Confessaste que eu era o Senhor, pregaste o meu nome. Muito bem! Que fôste pecador, pouco me importa, basta teres acreditado em mim e me conferido toda a honra. Assim, testemunharei por vós pe- rante meu Pai Celeste". Como se vê, é um contrato a que somente falta a con- firmação tabelioa. O espírito da transação burguesa está todo na Reforma. Face ao luteranismo e às formas ásperas ou cordatas que ele suscitou contra o Papado, constitui-se uma ordem militan- te, a dos guerreiros de Inácio de Loiola. O jesuíta procura limitar a ofensiva da Reforma e conse- gue vencer, na França, o espírito jansenista que dela derivava. Impotente, porém, ante a força das comunhões protestantes,

parece desertar a Europa e procura, então, a América para ai fundar o seu sonhado Império Teocr&tico,

Octave Hamelin afirma que Descartes vem logo depois dos pensadores antigos, passando pela Idade Média como uma página em branco. Mas em Descartes novamente a covardia homenageia o Absolutismo. As suas idéias claras e distintas, que a razão na- tural descobre em si mesma, repetem o conceito medieval de Deus — ser infinito, perfeito, todo-poderoso, criador do céu e da terra, que fez o homem à sua imagem e semelhança. A dúvida desaparece ao clarão das fogueiras da Inquisição. Mas per- manece o Cogito. Vejamos o roteiro mental do Cogito. Data ele de Agosti- nho e tem a sua formulação completa no Cogito ergo sum, que um filósofo posteriormente encontrou. Sou pensado, ou melhor, sou objeto de cogitação, logo, existo. Porque já está em Agostinho a inteira descoberta do Co- gito. Citemos, Hamelin, pág. 122 do Sistema de Descartes: "Porque no livro II, do Livre Arbítrio, Alipius disputando com Evodius e querendo provar que existe um Deus diz: Pri- meiramente a fim de que comecemos pelas coisas mais ma- nifestas, vos pergunto: se não existísseis não poderíeis ser en- ganado". Apesar das esquivas de Descartes, a quem Arnauld as- sinalou com Agostinho o encontro de idéias, é evidentemen- te um só o roteiro do Cogito. Eu duvido, logo, penso. Se pen- so, existo. Ao qual se pode juntar o texto de Descartes sobre o gênio maléfico: "Mas, há não sei o que de enganador, mui- to poderoso e muito astuto, que põe toda a sua arte em me enganar sempre. Ê, pois, sem dúvida, certo que existo se ele me engana".

Com Descartes, por certo, se delineia o começo do mun- do moderno. O seu livro de apoio às teorias de Galileu fora

por ele mesmo queimado. Mas o que importava era no meio das tintas, das palinódias e das fugas, fundar uma ciência sobre a validez da razão. Fica ainda como manifestação do incons- ciente de Descartes, aquela idéia do malin genie que o apro- xima tanto do pensamento primitivo. Nunca se psicanalisou Descartes. O seu avance mas- qtié" devia ter chamado a atenção de críticos e analistas para o que -se oculta dentro da algaravia clássica do Discours de la Méthode. Primeiramente, o assunto e o título. O métòdo se- ria talvez a única maneira de se liquidar a loucura medieval, a loucura de Deus, a loucura servil de milhões de seres aba- fados pelo terror que a Igreja cultivava. Não há loucura me- tódica. Arranjar bem as idéias seria o cometimento básico para destruir o irracionalismo oriundo de Paulo, Plotino e Agos- tinho. Duas afirmações ficaram de pé no meio da conversa mole do Discours de la Méthode: o Homem existe, é uma realidade. Esse Homem duvida, duvida de tudo, portanto, pode duvidar mesmo de Deus. Sobre esse duplo pedestal ergueu-se a consciência mo- derna e por isso transcende da paternidade da ciência, a gló- ria de Descartes. No restante, Descartes, ao contrário de Spi- noza, ajoelha ante a imagem do arbítrio medieval que, pela pura liberdade de seu querer, criou o homem.

A Reforma havia quebrado a magia do Sacerdócio. Ela adotara o livre exame. A prosperidade nos negócios é um si- nal de eleição. O pastor tornou-se apenas um conselheiro pois que, por obra da graça, qualquer espertalhão pode ter o céu garantido. As seitas dividem-se, subdividem-se à vontade dos grupos. E cada um pode ter suas preferências de culto. Cai das mãos do sacerdote o poder de julgar e condenar. Transferida a grande instância para Deus, tudo passa a ser caso de consciência. Qualquer mortal faz suas contas com o próprio Deus. E isso desentrava as iniciativas do capitalismo que prospera nos países reformados portadores de matéria- prima. O anglicanismo é uma teologia do tecido, depois do car-

vão. Ê possível arrancar a mais-valia do proletariado indefe- so que nasce, sem quebra de moralidade. Decaída de seu esplendor unitário, a Igreja de Roma vê a dissenção lavrar em seus reduzidos domínios. Foi-se o tem- po em que o Papa fazia parar Átila. Foi-se o tempo em que Inocêncio III condenava a Magna Carta e Gregório IX de- punha o imperador Frederico II. Foi-se o tempo em que Car- los V trocava o seu império pela estamenha do monge. Os jesuítas formam ainda a vanguarda de Deus. Mas pro- vocam ferozes e obstinadas repulsas. Acusam-nos de dominar o Concilio de Trento que passou a ser considerado pelos pro- testantes um canclave não doutrinai e sim político, instrumen- to do Anticristor e de Satã. Calvino declara mesmo que os concílios não podem jul- gar a palavra de Deus, mas que cabe a esta julgá-los. A pala- vra de Deus está na mão dos príncipes que podem definir o dogma. A reunião de Trento arrasta-se por cerca de vinte anos (1545-63), sem demover os protestantes da sua intransi- gência contra a unificação do culto. Em Calvino, o Sacerdó- cio se recupera da sua entrega ao Estado, decorrente das con- dições políticas da Alemanha luterana. O pastor que vai acom- panhar o desenvolvimento dos Estados Unidos mantém-se au- tônomo e se nega a ser instrumento. Dentro da França trava-se, no princípio do século XVII a luta entre jansenistas partidários da graça e jesuítas partidá- rios das obras, conseguindo estes uma medíocre vitória. O Ilu- minismo, o Quietismo, Misticismo, enfim, abrçm caminho para o ócio, para a inatividade e para a fuga. Mesmo na militànda jesuítica surgem os alumbraaos. Alguns deles consideram os Exercícios Espirituais, de Santo Inácio, carrinhos de crianças destinados apenas a ensinar a caminhar.

Ê de Maine de Biran a seguinte exclamação: "O' bom Fe- nelon, vem me consolar depois de uma leitura de Pascall Teus divinos escritos vão dissipar este véu de que o jansenista re- cobriu meu coração, como a doce púrpura da aurora expulsa as tristes trevas".

Fenekra iria produzir Francisco de Sales em face da si- nistra volta à dádiva escrava e fatalista que deriva de Calvino, muito mais que de Agostinho. "Deus, espero-vos ser fiel por- que me destes a vontade de cumprir a vossa." Os "Exercícios de piedade para uso das religiosas do San- tíssimo Sacramento de Port-Royal", vão muito além de uma técnica do amacáamento da vontade como são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola. £ de novo a loucura de Deus. "Eu vos peço, Senhor, o poder de olhar de longe, os raios que se despejam de vossa face, para que eles me ajudem a marchar na profunda noite do meu banimento." Estamos no apogeu da Negatividade. Por um instante a França se viu ameaçada pela paixão jansenista, de mergulhar no irracionalismo pascaliàno. Mais prático e mais frio nas suas intimidades com Deus o jesuíta se acomoda como quem, para os seus exercícios es- gotarem nele "os consolos, as lágrimas e o resto", na frase de Bremond. A sua ascese não o deixa desligar-se do solo em que enter- ra os pés ávidos de segurança e ae comando. £ sempre um soldado. Ao lado das duas correntes que prometem ou calcinar a França ou acorrentá-la, produz-se a vitória da mediocridade afável, vinda de Francisco Sales. Um sorriso entre dois infer- nos. £ a média mística. A visitação dos doentes, a caridade, a instrução. Seu livro chama-se Introdução à Vido Devota. Vai ser mais feliz que os catecismos apocalípticos de Inácio e de Jansênio. Com Francisco de Sales, o Sacerdócio desce à rua, penetra nas casas, consola o doente e baixa as suas velhas pre- tensões intelectuais ante o pensamento livre dos enciclopedis- tas. Segue-o e ultrapassa o socorro anônimo de Vicente de Paula,

A polêmica da Ilustração se resente da idéia mecânica do mundo que Newton propõe. Quando não há ateísmo, é o Deus relojoeiro de Voltaire que aparece como ordenador do mun- do.

Os pensadores ingleses aí vêm ter uma importância fun- damental no momento em que a revelação passa para um se- gundo plano e procura-se, enfim, legitimar a fé pela razão. Começa-se a considerar o Cristianismo sob o $ngulo a-his- tórico. Sua moral é velha como o mundo. A religião é coisa natural. Pela tese sensualista de Hume, a religião vem a ser uma questão de sentimento. E a lei de causalidade posta em xe- que, vai direto ferir o conceito de Causa Primeira. Locke influi sobre Jean-Jacques Rousseau. Mas quem ex- prime o definitivo desacerto com o Cristianismo é Voltaire, para quem a "religião, quando não é loucura, é malandra- gem No entanto, Voltaire integra a boa-fé desse grupo de adep- tos dum vago deísmo que chega até Mirabeau em plena Re- volução Francesa. Repercute de um modo razoável na Ingla- terra e na América. E o próprio Benjamin Franklin, sem dei- xar a severidade de sua posição decorrente dos compromissos ancestrais com a Nova Inglaterra, não deixa de participar des- se culto à razão que, afinal, não passa do culto a uma razão de classe, à razão burguesa. A luta contra os velhos precon- ceitos se estende. Na declaração da Independência aos Es- tados Unidos, anunciam-se "verdades evidentes ppr si". "Aimez donc la raison!" Isso vem dar Boileau e a codificação até da poesia. Há uma confusão onde entram, no conceito newtoniano do mundo, a religião natural, Thomás de Aquino, Cícero e Aris- tóteles. Mas trata-se de fato de fazer marchar o mundo. A ci- ência e a técnica procuram produzir na terra o céu longa e de- sanimadoramente prometido pelo Messianismo.

Kant derrama de suas teses a problemática do século XIX. Se, de um lado a Revolução Copemicana revigorando Platão assenta sobre o conceito as bases de todo idealismo, de outro lado, as suas antinomias abrem caminho para a dialética de Hegel. O conhecimento do mundo através da lei moral é a

máscara ecumênica que coloca a política, a posição tomada e o interesse partidário, acima da realidade. Ao mesmo tem- po, o seu criticismo é fecundo de indagações. Nele, a razão vacila. Mas é em Hegel que se desmascara o processo da Nega- tividade. Em Hegel historializa-se o progresso pela negação. Nos sistemas fechados do pensamento, Hegel introduz uma nova dimensão — o tempo. Prenuncia a Relatividade.

Abre-se o século XIX, episódico, oom a desdita de Pio VII. Por causa de um divórcio não consentido, Napoleão pren- de o Papa. Com a queda do Imperador parece que Roma des- cansa no seu velho prestígio. E a Santa Aliança. A Filosofia Positiva inicia nesse momento um denodo de exatismo que vai criar uma ciência nova — a Sociologia. E por toda a Eu- ropa o liberalismo ergue bandeiras e barricadas. Chega o ano marcante de 48. Nesse momento, aparece um dos maiores do- cumentos da História, o Manifesto Comunista, de Marx e de Engels. Como curiosa réplica, Pio IX é obrigado a fugir de Roma. E vemos no testemunho de Bachofen, " Garibaldi, ves- tido de vermelho, sobre um cavalo branco, seguido de um preto** atravessar as ruas da Cidade Eterna, sob o delírio da multidão. Na década de 70, com pequeno intervalo, dois ou- tros grandes fatos se solidarizam. A Comuna e a perda pelo Papa da Civitas Leonina com a constituição do Reino da Itália. O Sumo Pontífice é agora um prisioneiro na gaiola dou- rada do Vaticano. Um ressentido que inutilmente espera o dia seguinte. Ao reacionário Pio IX que produzira o Silabus e fizera proclamar o dogma tardio da sua infalibilidade, sucede o sá- bio Leão XIII que produz a primeira encíclica social. Mas é o grande Papa que joga o Cristianismo num terrível impasse. Con- dena o socialismo. Quando o século terminou, um filósofo americano, Josiah Royce, toma posição para salvar o Cristianismo. Entre a per- sonalidade do Homem-Deus, e o senso comunitário e social do Cristianismo, opta Royce, pela maior importância do últi-

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