A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 03 A crise da filosofia messiânica · Capítulo 3 de 8
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A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 03

do trabalho. Vê-se que, no desenvolvimento do Patriarcado, liga-se a servidão ao céu. É, sem dúvida, o primeiro documen- to messiânico na Grécia, essa teologia galante mas profunda, do poeta d'Os Trabalhos e os Dias que começa com a seguinte apóstrofe das Musas: "Pastores largados pelos campos, opró- brios da terra, que sois somente ventres, nós sabemos contar mentiras idênticas às coisas reais, mas, quando queremos, sa- bemos também proclamar a verdade". Belo começo em que se situa imediatamente o homem na condição de besta diante do Olimpo. E ande direitinho. "Vai! Lembra-te sempre do meu conselho, trabalha!" Eis a base da teologia patriarcal Em Hesíodo já existe todo um código da servidão oomo aliás a teoria messiânica do pecado original e de seu resgate pela graça. "A raça dos homens vivia antes na terra, ao abrigo das penas da dura labuta e das doenças dolorosas que trazem a morte aos homens". "Não há nenhum meio de escapar aos designios de Júpiter". Só este: "com seu vasto olhar concede a prosperidade . Na Gênese, Eva é a culpada, na Grécia homérica é Pan- dora que dispersou sobre o mundo todos os males saídos de sua concha. Nas duas versões, na bíblica como na helênica, ambas pa- triarcais, a Idade de Ouro, que mais tarde Ovídio cantaria, refulge na saudade do homem reduzido a escravo pelo Patriar- cado.

Ao milenário comício da Servidão, devia comparecer, em- poeirado e hirsuto, Sócrates na ênfase trágica da consciência grega, depois da derrota do Peloponeso. Ele é um compêndio ae atenções para com as classes poderosas. Eis o que afirma, nO Banquete-. "Tudo é belo se se faz conforme as regras da honestidade, feio se se faz contra essas regras. O mesmo sucede com o amor. Todo o amor em geral, não é belo nem louvável, se não é honesto. O amor da Vênus popular é popular tam- bém e somente inspira ações baixas; é o amor que reina entre o comum das gentes, que amam sem eleição, tanto as mulheres como os mancebos, dando preferência ao corpo sobre a alma".

Não podia falar melhor o Patriarcado com seu ódio de classe, com seu desprezo iosultuoso pelo povo, pelo "comum das gentes". Em seguida pleiteia o pai da filosofia grega: "Devia haver uma lei que proibisse amar os garotos jovens demais, a fim Be não se peraer tempo com coisa tão incerta". "O que é necessário — acrescenta — é criar, através da pede- rastia, amizades e relações vigorosas". A figura de Sócrates, como se vê, posta ao lado da figu- ra de Cristo, contrasta como moralidade comum. Ninguém mais do que nós adota o ponto de vista libertário em matéria de amor, onde o homem se move entre o telúrico e o ctônico. Mas essa pública narcisidade da inversão sexual repugna a qualquer consciência normal de qualquer sociedade. Um au- tor atual, o Pçdre Festugière, descreve,- assim os educandos de Sócrates: "Como se sabe, o perfeito cidadão deve começar pelo perfeito adolescente: no ginásio nada de imodéstia. À mesa, ele não se serve dos melhores pedaços, não ri alto, não cruza as pernas. Evita a Agora, as dançarinas e os banhos pú- blicos. Levanta-se diante dos velhos, responde com poliaez a seus pais. Cora facilmente. É vivo e tímido ao mesmo tempo". Eis a juventude gidiana criada por Sócrates, a que se re- duz, na decadência, a Grécia homérica e dionisíaca, a Grécia de Êsquilo, de Heráclito, de Empédocles e de Sófocles. À Gré- cia de Monsieur de Charhis. Nietzsche, com a bravura do seu gênio, não fustigou sufi- cientemente este puritano fescenino das ruas erppoeiradas da Atenas do V século. Mas-soube perfeitamente vê-lo segundo Jaeger como o responsável pela "petrificação intelectualista da filosofia escolástica que encadeou a humanidade por meio mi- lênio e cujo últimos brotos se encontraram nos sistemas teolo- guisantes do chamado idealismo alemão". Bem antes de Tolstoi, Sócrates é o animador da censura, é o patrono da literatura dirigida. Nas suas mãos morrem poe- sias e arte na Grécia. Ê com o mais ridículo dos sérios que ele afirma que "os poetas e os fabulistas se enganam a respeito dos homens nos assuntos de máxima importância, quando de- claram que em regra geral os maus são felizes e os bons des- ditosos; que a injustiça é útil, contanto que oculta; que, ao

contrário, a justiça é útil e proveitosa a todos, mas um mal pa- ra quem a pratica". Pretende* ele, no estado ideal que funda, proii>ir aos poetas que assim falam, ordenando-lhes que de fu- turo digam precisamente o contrário. Funciona aí o primeiro DIP. O que Nietzsche diz sobre a filosofia alemã, que não pas- sa de uma "teologia astuta", é confirmado pela volta a Sócra- tes que se denuncia na chamada "filosofia aos valores". Sche- ler aerrogou Nietzsche, afirmou-me um pensador alemão. De foto está de pé o que seria "eterno no homem". "Deus e os gênios são por natureza incapazes de mentir." Fabrica ele aí o Senhor Onipotente que, durante mais de dois milênios, vai sancionar os abusos de força e afagar as injustiças de clas- se. Está criada a autoridade sacerdotal e com ela o pedestal de todo conservantismo, de todo antiprogresso, de todo farí- saísmo social e político. De Sócrates sai o esquema do perfeito boneco humano, longamente exaltado pelas classes dominadoras, a fim de se conservar, domado e satisfeito, ò escravo. Ê o "piedoso", o "justo", o "continente", o "prudente". Nele refulgem as vir- tudes do rebanho, como definiu Friedrích Nietzsche. Nele re- side o fundo catequista de todas as covardias sociais e huma- nas. _ Se no Sturm und Drang, Hõlderlin viu, no mito de Dioti- ma, uma mágica aparição poética, o que Sócrates realmente tira dessa mulher de Mantinéia é uma lição interessada em tor- no dos temas idealistas de Platão. Assim, o único mérito desta vida é a contemplação da beleza absoluta. E, daí um passo mais, surge a beleza divina" e daí, como final, a contrafação de que a verdadeira virtude é ser amado por Deus. Enquanto faz assim a exaltação do espírito servil, agradável a todo ti- rano, por baixo e por cima da mesa do Banquete, Sócrates se deixa disputar pela bolina de Agáton e de Âlcebíades, numa cena digna do romancista americano Henry Miller.

A tragédia política da Grécia, a queda do seu esplendor homérico, traria o triste teatro de tese dos Diálogos, teatro

dirigido e formalista, ao qual o pior Cristianismo até hoje se amarrou como a uma bóia salvadora. Se, em Platão, subsiste uma ou outra invenção lírica, aque- le navio-oráculo de cuja chegada depende a execução de Só- crates, e nele se guarda o tesouro errático do Matriarcado gre- go — somente a inversão interessada do sentido da existência, Feita pelas classes dominantes, traria até o fogo purificador de Friedrich Nietzsche, sem exame e sem crítica, o compêndio central do espírito de Servidão que são os ensinamentos so- cráticos. Neles o Patriarcado constrói a sua sofistica triunfal. Neles se insere o segundo termo da nossa equação chave, a antítese, o espírito de negatividade do próprio homem. Precisamos atentar em tudo que precedeu e marcou tan- to a vida como a morte de Sócrates, para se ter o exato sen- tido da sua atuação reacionária e da sua militante impostura patriarcalista. Ele se coloca exatamente no pórtico daqueles tempos no- vos anunciados por Minerva, no final da Oréstia. £ toda a transformação de um clima. A Grécia que possuía uma unidade homérica se esfacela na guerra do Peloponeso, auge das suas atribulações internas. A Grécia dionisíaca, que produziu, na medida clássica do século V, a sua ordenação plástica e lírica, decai nas dissensões entre os aristocratas e o povo. A Grécia fora o mar e, portanto, o comércio, daí ter surgido nela a in- dústria e o proletariado urbano. E conseqüentemente as pri- meiras experiências da questão social. Sócrates é a oposição a toda medida eufórica que os gregos guardavam de sua alta an- tigüidade. Contra o politeísmo, ele lança o Deus único. Con- tra o sentido precário da vida de Heráclito, ele lança a imor- talidade da afina. Contra a visão conflitual do mundo de Em- pédocles, lança a imutabilidade do Bem. O que redime Sócrates é a sua alta sinceridade. Com o monstruoso acúmulo de injunções escravajistas que dá ao mun- do clássico, aberto sobre o apogeu de Roma, ele oferece a sua própria vida. Mais do que no seu processo e na cicuta final, Sócrates reside no episódio do julgamento dos comandantes navais que não tinham tido tempo de enterrar os mortos da batalha das Argenusas. Membro ao Conselho, ele Vota contra os velhos ritos e os velhos costumes. Sua atitude, frente à Gré-

cia arcaica, é de fato revolucionária. E como foi um progresso a escravidão que tirou o homem do seu estado primitivo, tam- bém a teologia socrática constitui um passo à frente no cami- nho das conquistas da civilização. O messianismo que brota de suas convicções imortalistas e que depois a figura do Cris- to centralizaria, vem dar alimento interior às populações pro- letárias que iniciam nas bordas do Egeu, a marcha técnica do homem. O sobrenatural não está longe do milagre físico que a técnica cria. Quanto à decisão em aceitar a cicuta, ela se reveste de caracteres suspeitos quanto à sua pureza. Na apologia que dele faz Xenofonte, eis as suas palavras textuais: "Sei bem que te- rei de pagar o meu tributo à velhice; a minha vista se debili- tará, ouvirei mal, diminuirá a minha inteligência e esquecerei mais facilmente do que aprenderei. Se a perda das minhas faculdades me tornar desagradável a mim mesmo, que prazer poderei encontrar na vida?" É nesse estado de autocrítica que lhe oferecem a glória da imolação. De outro lado, está a fuga que alguns amigos preparam. Uma fuga inútil, forá de qualquer militância, a fu- ga não para conservá-lo na luta que não existe, mas apenas, para lhe poupar a vida. E que vida? Essa vida precária de setenta anos surdos e cegos. Na ilegalidade e na miséria sob a perseguição e o clamor público. Quando não, ao lado de Xan- tipa "ajnais insuportável de todas as mulheres passadas, pre- sentes e futuras", no testemunho de Xenofonte. Sócrates representa a perda do caráter lúdico no homem evoluído. Para suportar a morte prega a idéia salvacionista da sobrevivência. Todo o Fédon não passa de um terrível drama íntimo. Com o seu complexo de parteira, herdado da Maiêutica mater- na, Sócrates desenvolve um terrível monólogo para se conven- cer, mais que aos outros, da existência da alma imortal. Assim passa a cicuta a ser a chave da sobrevivência no mundo do ócio que lhe fora sempre negado, a ele pobre desmobilizado do Pe- loponeso e parasita perene das casas ricas de Atenas. A cartilha do resignado desenvolve-se completa nessa ho- ra agônica. A vida mesmo má deve ser suportada até que Deus

nos envie uma ordem formal. Só um mentecapto pode pensar em fugir de seu amo a qualquer preço. O sábio deve permane- cer sob a dependência do que é melhor do que ele. Os deuses cuidam de nós que a eles pertencemos. São os melhores gover- nadores do mundo. A adulagem continua. Assegura que vai encontrar deuses de primeira ordem. Pois há alguma coisa reservada para depois desta vida, onde os bons serão melhor tratados do que os maus. Deve o filósofo morrer na esperança de que gozará depois da morte bens infinitos. O corpo é uma corrupção. O que interessa é a alma. Livres da loucura do corpo, só assim conheceremos a verdade. O inferno aparece. Quem foi aos infernos sem estar ini- ciado e purificado será precipitado na lama. Mas ele pertence ao número dos eleitos, confia na vontade de Deus. A alma existia antes de nascermos, quando tínhamos conhecimentos que perdemos. Esboça-se aí a doutrina da reminiscência. Os que sempre exerceram a temperança e a justiça vão para um lugar agradável e por isso ele não julga uma desgraça a situação ae condenado à morte em que se encontra. Não é dos que confundem o primeiro princípio com os que dele de- rivam. Com a morte, o que há ae mortal no homem perece o que há de imortal se retira para ser julgado e receber o bem ou o mal que mereceu. Desde que tenha bebido a cicuta, irá go- zar a felicidade dos bem-aventurados. E se fez esse longo dis- curso, não foi só para consolo dos amigos, foi também para seu próprio consolo.

Sócrates exprimira a mudança de espírito produzida pelo esfacelamento do mundo grego. Sua pregação é um apronto pa- ra a cultura escrava que se vai aperfeiçoar em Roma nas artes competidoras da guerra como nas artes mecânicas da paz. Os trabalhos de engenharia da antigüidade tinham tido uma base empírica. Agora, na arte do diálogo, que Platão assinala como o dom socrático por excelência, vem toda a pedagogia. Um passo mais e Aristóteles lançará as bases da lógica clássica. Sem ela, não teria havido a ciência.

£ um dos sábios modernos, Alfred Whitehead, quem assi- nala a importância do conceito de um mundo lógico, ordena- do por um ente supremo para o progresso da Física. Que era afinal a Mecânica senão o aproveitamento lógico das forças da natureza? Primitiva, caótica e desordenada, numa civilização sem relógio, a técnica só podia ser eficiente, apoiada no braço escravo. O escravo só podia existir na condição miserável a ue estava reduzido, com a esperança messiânica da outra vi- 3a. Daí o êxito do Cristianismo no desenvolvimento proletário de Roma. Alimenta-se ele da depressão espiritual do trabalha- dor.

No apóstolo Paulo, ergue-se a monogamia como um ins- tituto agressivo do Patriarcado, frente ao grupo sexual da Ida- de de Ouro matriarcal. Estamos no primeiro apogeu da nega- tividade ou da antítese, o segundo termo de Kojeve. Encarece-se o papel da monogamia reivindicada para o escravo como esteio da dignidade humana. Mas por detrás des- sa revolução contra a gens, insinua-se a ascese, a pregação da castidade e do celibato. A revolução pauliniana de um lado é a semente da pró- pria revolução burguesa que dormitaria sob as invasões e os enxertos raciais e étnicos da Idade Média, para germinar no humanismo renascentista. De outro é o apostolado agreste de Cristo que vem confirmar á lei patriarcal. Revolucionária é a idéia da igualdade de todos em Cristo, isto é, sob uma ban- deira que transcende as fronteiras imperiais de Roma. "Não há agora nem Judeu nem Gentio, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, mas vós sois todos um em Jesus Cristo" — diz a Epístola aos Gálatas. Revolucionária torna-se a posi- ção do escravo monogâmico, detentor individual da dignidade humana. Da mesma Epístola aos Gálatas é aquela afirmação: "O homem não é justificado pelas obras da lei mas pela fé", que através de Agostinho daria a apologia do arbítrio em Lu- tero e o — conseqüente — "estado de graça" do burguês que prospera no comércio ou no roubo. Estão aí delineadas diale- ticamente as etapas da cultura pratriarcaL

Não se pode esquecer que Aristóteles foi áulico de Felipe da Macedônia e preceptor de Alexandre, o Grande. Jaeger assinala as "suas relações pedagógicas com o futuro domina- dor do mundo". Mas é um contemporâneo, Hans Kelsen, quem analisa a posição interessada do Stagirita. "A teoria metafísica do Ser que pretende ser uma ontologia, constitui na realidade uma axiologia, uma teoria do valor absoluto e, portanto, uma teolo- gia, pois a perfeição ou bondade corresponde à essência do real e, por isso, todo real é, em certo grau, bom; isto verifica- se com especial acuidade nestas palavras: "o Ser não podia ser mal administrado. A salvação não está no comando de mui- tos, um só dominei" £ este o texto da lliada que Kelsen reproduz de Aristóte- les sem dizer que este o copiava de Homero. Texto chave con- fessional do Stagirita. Não se pode esquecer que Homero era o cantor da Aretê, isto é, da virtude helenica de que fazia a exal- tação em seus versos. Conclui muito bem Kelsen que no "Ser como tal", funda- mento da ontologia aristotélica, está inclusa a idéia duma mo- narquia absoluta. Dai ter a sua decorrente teologia um mar- cado caráter monoteista.

Este monoteísmo, porém, vinha de longe, do fundo das velhas fés absolutistas. E tinha uma finalidade, a obediência do homem-escravo ao senhor da terra que era o espelho do Senhor do céu.. De uma edição de textos religiosos, coligidos por Frost, re- produzimos os trechos comparados das diversas confissões do mundo antigo, no capítulo "Obediência". Ei-los: Do Budismo: (Dhammapada 20, 376) "Os que obedecem a lei e seguem diligentemente os mandamentos terão sereni- dade de espírito, alegria e prosperidade. A obediência é o ca- minho para as boas coisas desta vida e da outra". Do Cristianismo'. (Mateus 19-17; João 14-31; Atos 5-29; Romanos 6-17; Hebreus 12,9; Tiago 1-22; João 3-24 5-2-3) "O

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